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| Shelley Winters, em cena do filme Lolita - 1962 |
OS NOIVOS
Quando Salviano começou a namorar Edila, o pai o chamou:
- Senta, meu filho, senta. Vamos bater um papo.
Ele obedeceu:
- Pronto, papai.
O velho levantou-se. Andou de um lado para outro e senta de novo:
- Quero saber, de ti, o seguinte: esse teu namoro é coisa séria? Pra casar?
Vermelho, respondeu:
- Minhas intenções são boas.
O outro esfrega as mãos.
- Ótimo! Edila é uma moça direita, moça de família. E o que eu não quero para
minha filha, não desejo para a filha dos outros. Agora, meu filho, vou te dar
um conselho.
Salviano espera. Apesar de adulto, de homem-feito, considerava o pai uma
espécie de Bíblia. O velho, que estava sentado, ergue-se; põe a mão no ombro do
filho:
- O grande golpe de um namorado, sabe qual é? No duro? - E baixa a voz: - É não
tocar na pequena, não tomar certas liberdades, percebeu?
Assombro de Salviano: "Mas, como? Liberdades, como?".
E o pai:
- Por exemplo: o beijo! Se você beija sua namorada a torto e a direito, o que é
que acontece? Você enjoa, meu filho. Batata: enjoa! E quando chega o casamento,
nem a mulher oferece novidades para o homem, nem o homem para a mulher. A
lua-de-mel vai-se por água abaixo. Compreende?
Abismado de tanta sabedoria, admitiu:
- Compreendi.
A SOMBRA PATERNA
Na tarde seguinte, quando se encontrou com a menina, tratou de resumir a
conversa da véspera. Terminou, com um verdadeiro grito de alma:
- Muito bacana, o meu pai! Tu não achas?
Edila, também numa impressão profunda, conveio: "Acho”.
- Concordas?
Foi positiva:
- Concordo.
Pouco antes de se despedir, Salviano batia no peito:
- Dizem que ninguém é infalível. Pois eu vou te dizer negócio: meu pai é
infalível, percebeu? Infalível, no duro
O BEIJO
Nesse dia, coincidiu que a mãe de Edila também a doutrinasse sobre as
possibilidades ameaçadoras de qualquer namoro. E insistiu, com muito empenho,
sobre um ponto que considerava importantíssimo:
- Cuidado com o beijo na boca! O perigo é o beijo na boca!
A garota, espantada,protestou
- Ora, mamãe!
E a velha:
- Ora o quê? É isso mesmo! Sem beijo não há nada, está ,.tudo muito bem. OK. E
com beijo pode acontecer o diabo. Você é muito menina e talvez não perceba
certas coisas. Mas pode ficar certa: tudo que acontece de ruim, entre um homem e
uma mulher, começa num beijo!
O IDÍLIO
Foi um namoro tranqüilo, macio, sem impaciências, arrebatamentos. Sob a
inspiração paterna, ele planificou o romance, de alto a baixo, sem descurar de
nenhum detalhe. Antes de mais nada, houve o seguinte acordo:
- Eu não toco em ti até o dia do casamento.
Edila pergunta:
- E nem me beija?
Enfiou as duas mãos nos bolsos:
- Nem te beijo. OK?
Encarou-o, serena:
- OK.
Dir-se-ia que este assentimento o surpreendeu. Insinua:
- Ou será que você vai sentir falta?
- De quê?
E Salviano, lambendo os beiços:
- Digo falta de beijos e, enfim, de carinho.
Sorriu, segura de si:
- Não. Estou cem por cento com teu pai. Acho que teu pai está com a razão.
Salviano não sabe o que dizer. Edila continua, com o seu jeito tranqüilo:
- Sabe que essas coisas não me interessam muito? Eu acho que não sou como as
outras. Sou diferente. Vejo minhas amigas dizerem que beijo é isso, aquilo e
aquilo outro. Fico boba! E te digo mais: eu tenho, até, uma certa repugnância.
Olha como eu estou arrepiada, olha, só de falar nesse assunto!
O VELHO
Desde menino, Salviano se habituara a prestar contas quase diárias ao pai, de
suas idéias, sentimentos e atos. O velho, que se chamava Notário, ouvia e dava
os conselhos que cada caso comportava. Durante todo o namoro com Edila, seu
Notário esteve, sempre, a par das reações do filho e da futura nora. Salviano,
ao terminar as confidências, queria saber: "Que tal, papai?". Seu
Notário apanhava um cigarro, acendia-o e dava seu parecer, com uma clarividência
que intimidava o rapaz:
- Já vi que essa menina tem o temperamento de uma esposa cem por cento. A
esposa deve ser, mal comparando, e sob certos aspectos, um paralelepípedo.
Essas mulheres que dão muita importância à matéria não devem casar. A esposa,
quanto mais fria, mais acomodada, melhor!
Salviano retransmitia, tanto quanto possível, para a namorada, as reflexões
paternas. Edila suspirava: "Teu pai é uma simpatia!". De vez em
quando, o rapaz queria esquecer as lições que recebia em casa. Com uma salivação
intensa, o olhar rutilante, tentava enlaçar a pequena. Edila, porém, era
irredutível; imobilizava-o:
- Quieto!
Ele recuava:
- Tens razão!
CATÁSTROFE
Um dia, porém, o dr. Borborema, que era médico de Edila e família, vai procurar
Salviano no emprego. Conversam no corredor. O velhinho foi sumário: "Sua
noiva acaba de sair do meu consultório. Para encurtar conversa: ela vai ser
mãe!". Salviano recua, sem entender:
- Mãe?!...
E o outro, balançando a cabeça: "Por que é que vocês não esperaram, carambolas?
Custava esperar?". Salviano travou-lhe o braço, rilhava os dentes:
"De quantos meses?". Resposta: "Três". Dr. Borborema já se
despedia: "O negócio, agora, já sabe: é apressar o casamento. Casar antes
que dê na vista". Petrificado, deixou o médico ir. No corredor do emprego,
apertava a cabeça entre as mãos: "Não é possível! Não pode ser!".
Meia hora depois, desembarcava e invadia, alucinado, a casa do pai.
Arremessou-se nos braços de seu Notário, aos soluços.
- Edila está nessas e nessas condições, meu pai! - E, num soluço mais,fundo,
completa: - E não fui eu! Juro que não fui eu!
MISERICÓRDIA
Foi uma conversa que se alongou por toda uma noite. No seu desespero inicial,
ele berrava: "Cínica! Cínica!". E soluçava: "Nunca teve um beijo
meu, que sou seu noivo, e vai ter o filho do outro!". O pai, porém,
conseguiu, após poucos, aplacá-lo. Sustentou a tese de que todos nós, afinal de
contas, somos falíveis e, particularmente, as mulheres: "Elas são de
vidro", afirmava. Alta madrugada, o pobre-diabo pergunta: "E eu? Devo
fazer o quê?". Justiça se lhe faça - o velho foi magnífico: "Perdoar.
Perdoa, meu filho, perdoa!". Quis protestar: "Ela merece um
tiro!". Mais que depressa, seu Notário atalha:
- Ela, não, nunca! Ele, sim! Ele merece!
- Quem?
Baixa a voz: "O pai da criança! Esse filho não caiu do céu, de
pára-quedas! Há um culpado". Pausa. Os dois se entreolham. Seu Notário
segura o filho pelos dois braços:
- Antes de ti, Edila teve um namorado. Deve ter sido ele. Se fosse comigo, eu
matava o cara que...
Ergue-se, transfigurado, quase eufórico: "Tem razão, meu pai! O senhor
sempre tem razão!".
O INOCENTE
Pôde, assim; desviar da noiva o seu ódio De manhã, passou pela casa de Edila.
Com apavorante serenidade, em voz baixa, pediu o nome do culpado. Diante dele,
a garota torcia e destorcia as mãos: "Não digo! Tudo, menos isso!".
Ele sugeria, desesperado: "Foi o Pimenta?". O Pimenta era o antigo
namorado de Edila. Ela dizia: "Não sei, não sei!". Salviano saiu dali
certo. Procurou o outro, que conhecia de nome e de vista. Antes que o Pimenta
pudesse esboçar um gesto, matou-o, com três tiros, à queima-roupa. E fez mais.
Vendo um homem, um semelhante, agonizar aos seus pés, com um olhar de espanto
intolerável, ele virou a arma contra si mesmo e estourou os miolos. Mais tarde,
desembaraçado o corpo, foi instalada a câmara-ardente na casa paterna. Alta
madrugada, havia, na sala, três ou quatro pessoas, além da noiva e de seu
Notário. Em dado momento, o velho bate no ombro de Edila e a chama para o
corredor. E, lá, ele, sem uma palavra, aperta entre as mãos o rosto da pequena
e a beija na boca, com loucura, gana. Quando se desprendem, seu Notário,
respirando forte, baixa a voz:
- Foi melhor assim. Ninguém desconfia. Ótimo.
Voltaram para a sala e continuaram o velório.