quarta-feira, 19 de março de 2014

O melhor amigo


Francisca Rebecca Martinni esperou a semana toda pela sexta-feira. Heitor Krafth Heins, seu amado, fiel e romântico namorado havia prometido uma balada inesquecível.

Naquela manhã saiu, comprou uma sandália nova, e depois do almoço partiu para o salão lotado, onde ficou quatro horas, entre cabelo, escova, pés e mãos.

Heitor Krafth Heins passou pontualmente às 21 horas, dirigindo seu impecável conversível preto. Trajava uma caríssima calça jeans, tênis top de linha, uma blusa de manga comprida de famosa estilista sobre uma tradicional camiseta branca de fios de algodão egipcio, além do seu Rolex de ouro..

Francisca Rebecca Martinni torceu seu delicado narizinho, mas ainda acreditava no amor e nos quatrocentos e oitenta reais que investira naquela saída com sua alma gêmea.

Heitor Krafth Heins sugeriu que fossem ao Rebolation Tutti, o mais famoso bar dançante da cidade, onde poderiam tomar alguma coisa, enquanto dava hora para irem ao Teatro Nacional assistir a uma famosa peça com atores de fama mundial, sucesso por cinco anos na Broadway. Em seguida, com ingressos adquiridos com seis meses de antecedência, rumariam para a Casa de Shows Four Hands,  onde a melhor banda de jazz do planeta Terra iria fazer apresentação única.

Mas algo deu errado naquela noite. Ao chegarem ao Rebolation Tutti, uma torrencial chuva de verão inundou todos os caminhos, inviabilizando quaisquer intenções de deslocamento. Como estavam bem acomodados por ali, resolveram ficar, pois era possível que ainda daria para assistir ao Jazz na Four Hands.

Nisto, passa pela mesa do casal apaixonadíssimo, fugindo da chuva, o Zezinho, amigo de infância de Heitor Krafth Heins, criados juntos na Vila Chapinha, naquele ambiente de pobreza familiar, até que o destino os separou pelos zeros a mais na conta bancária.

Heitor Krafth Heins o chama à mesa, apresenta Francisca Rebecca Martinni, e pedem uma rodada de vodka, o papo está bom outro drink, desta vez mais exótico, outro drink, mais um e bem, resumindo - Totó já estava dormindo no canto do sofá, e Chiquinha no colo de Zezinho iluminava a noite com seu sorriso radiante.

Zezinho levou Totó em casa e depois devolveu Chiquinha ao lar na tarde daquele sábado. Naquela noite Francisca Rebecca Martinni foi pedida em casamento pelo Heitor Krafth Heins, que nunca perguntou e nem quis saber.

É isto aí!


Menina danadinha


terça-feira, 18 de março de 2014

Um avião malaio no balaio


Penso, penso e penso. Retorno ao tema que já fazem onze dias de ocorrido. Um Boeing, senhoras e senhores, um imenso jato com 239 pessoas desapareceu em um dos trechos mais vigiados do planeta. Nada, nenhuma notícia a respeito do paradeiro do avião de bandeira malaia. Então, vai ver, não pode ser achado. Ora, direis, ouvir estrelas! Certo, perdeste o senso!*

Lembro de uma história ouvida na casa do meu avô, que creio, deve ser uma piada, apesar da seriedade com a qual foi dita, levando em conta que meu avô nunca contava anedotas. Acho que queria ensinar uma lição sobre a moral:

"Certa noite, um homem, com gestos de aflição, esta procurando nervosamente por alguma coisa, ao redor do único poste com luz da vila. Cidade pequena, todo mundo sabe de todo mundo, passa um compadre e pergunta para o amigo: 
 - O que você esta procurando ai, será que eu posso te ajudar? 
Daí o sujeito responde:
- Eu estou procurando as chaves da minha casa, que eu perdi. 
E quanto mais o tempo passava mais gente aparecia para ajudar o homem a procurar as chaves. Quando já tinha umas vinte e cinco pessoas ajudando na busca, uma delas dirige-se ate onde o desesperado cidadão está e pergunta:
- O senhor tem certeza que perdeu suas chaves foi aqui mesmo? 
E para espanto geral, o homem responde:
- Humm, veja bem, na verdade eu perdi as chaves no início da rua, na zona boêmia, mas como só tem luz daqui prá frente, eu resolvi começar a procurar onde estava mais claro."

Pois bem, saibam meus diletos amigos, que nada alcança voo abaixo do Equador, sem que o maior poderio bélico deste planeta não tenha conhecimento. É impossível o desaparecimento de uma aeronave controlada e monitorada em tempo integral, no solo e no ar, sem a ciência dos seus fabricantes e sem o aval do serviço de inteligência apache&sioux. Repito - é impossível!

Ontem, 18 de março, a Embaixada de Pequim na Malásia, divulgou oficialmente, através da Agência de Notícias Estatal Xinhua, que a investigação sobre os passageiros chineses no voo MH370 da Malaysia Airlines que desapareceu no último dia 8 não mostrou elementos que indiquem sua participação no desvio da aeronave ou em um atentado. (Eu não entendi o que a China quis dizer, ou entendi errado?)    

Ainda de acordo com a publicação, o governo chinês deu início a operações de busca em seu próprio território, em regiões situadas no corredor aéreo norte.   


OUVIR ESTRELAS - Olavo Bilac
"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...
E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"
E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."
(Poesias, Via-Láctea, 1888.)

É isto aí!

segunda-feira, 17 de março de 2014

O avião malaio



Como está todo mundo falando nisto, também vou dar meu palpite.

Há uma tensão imensa na Crimeia, mas o mundo todo volta-se para o desaparecimento de um avião com 239 pessoas a bordo. Algo como um truque de mágica para desviar o olhar enquanto as coisas acontecem? Não sei, mas nada pode ser descartado.

Como já li quase uma dezena de possibilidades, desde a desintegração total no ar, passando por portal do tempo, sequestro intergaláctico, etc., a mais plausível que achei foi a que trata do desvio de rota, feita por humanos. Para onde se dirigiu, não temos como saber ainda, mas o desvio poderia ter sido realizado de três formas: pelos pilotos à bordo; por sequestradores à bordo; por sequestradores por controle remoto.

A questão do desvio de rota é entender os motivos ou o motivo para que tenha ocorrido. Havia algo naquele avião que necessitava ser entregue sem passar pela alfândega chinesa. Tudo na vida tem um motivo, uma força que proporciona o ato e o fato posterior. Alguns acreditam que eram pessoas a bordo o objeto de interesse de grandes corporações, ou pelo que sabiam ou pelo que poderiam proporcionar.

Outros defendem a tese de que alguma carga complexa, preferencialmente uma de destruição em massa, poderia estar a bordo. Já alguns acreditam que o objeto desejado era a própria aeronave, o que acho pouco provável. Mas uma aeronave deste porte precisaria descer em um local de baixa densidade demográfica, com regime político ditatorial e sem imprensa. Um dos países com este perfil poderia ser, por exemplo, Myanmar.

Avançar mais pelo continente, é claro, seria muito arriscado, mas o que fazer com todas as pessoas a bordo? Dependendo dos interesses, neste momento já não estão mais entre nós, pois iriam expor ao risco o objetivo da operação. Como as potências ocidentais foram alijadas do processo inicial, aumentam as incertezas, pois se havia algo, não deveriam saber de imediato.

Mas se o avião apenas sofreu um pane geral, errou a rota e mergulhou nas profundezas do Oceano, todas as conspirações ficam encerradas, ou não?

É isto aí!

As coxas de Belinha



Este blogueiro não conhece a moça da foto, então resolveu dar-lhe um nome, de maneira que pudesse ficar íntimo da sua personagem. O objetivo aqui não é expô-la a uma situação vexatória, nem a menos promover uma exposição de carne na vitrine de um açougue midiático.

Mas ela é tão bonita, e tem pernas tão lindas que merecem minha atenção. Tem pernas definidas, coxas tangíveis e palpáveis, sem aquela coisa de malhação, musculação, etc. Tem uma feminilidade sedutora. Não está nua, não mostra os seios, e nem precisa. 

Nestes tempos de epidemia de pernas grossas saradas, com um novo padrão de beleza estabelecido por celebridades, eu acredito que estas mulheres têm sua beleza diminuída ao engrossarem as pernas por meio de exercícios físicos com apoio de técnicas nutricionais e farmacológicas. Na minha opinião, há uma masculinização do corpo, um sentido andrógino talvez, enfim, perde-se a graça da natureza feminina. 

Mulher pera, mulher melancia, mulher melão, mulher isto, mulher aquilo, prefiro ainda a maneira tradicional, simples assim - uma moça linda, natural, sem silicones, ao natural. Celulites? E daí? Estrias? E daí? Qual homem se importa com isto? Nenhum que eu saiba.

Nunca ouvi nenhum homem reclamar que não gosta de mulher com celulite - o que é um fato verídico - sem celulite, não é mulher. E viva as coxas da Belinha!

É isto aí! 


domingo, 16 de março de 2014

Contos da Feiticeira de Açucena


Contos da Feiticeira de Açucena
Parte I 
O drama da família

Conta a lenda, que lá pelas bandas de Açucena, no início do século passado, nos rincões de Minas Gerais, em uma pequena e pacata propriedade rural, moravam um casal e seus dois filhos. Tinham lá umas vaquinhas, umas cabritas, galinha, pato, cachorro e gato, mas o xodó dos meninos era Lindinalva, uma jumentinha adquirida pelo pai, de um grupo de ciganos acampados pelas bandas do Aramirim.

Lindinalva passou logo a ser praticamente uma pessoa da família, a filha mais velha do casal, a faz-tudo, sempre engraçadinha. Ia na rua sozinha e esperava o padeiro colocar os pães no balaio, passava na venda, onde o quitandeiro pegava a lista e colocava as solicitações, e assim passava pela cidade e retornava para os afazeres domésticos.

Um dia, enquanto arrumava a cozinha do almoço, Dona Juracy ouviu um urro estranho, largou as vasilhas na bica, enxugou as mãos apressadamente no pano amarrado ao vestido como um avental, olhou pela janela e viu que a Lindinalva, que seu marido adquiriu com tanto sacrifício e com muito orgulho, estava caída no curral.

Dona Juracy ficou desesperada. Correu para ver o que havia ocorrido, tropeçou, caiu, batendo com a cabeça em uma das pedras que haviam no caminho e desmaiou, deixando uma poça de sangue ao redor da ferida aberta na fronte. Seu Juventino, ao ouvir os gritos da esposa, desceu em desembalada carreira do pasto onde estava, e também tropeçou, rolou ribanceira abaixo, e ficou desacordado.

Joãozinho e Juquinha correram para socorrer a mãe. A carregaram até a cama, e foram buscar o pai, que também foi colocado desacordado ao lado da esposa. Joãozinho, ao perceber que poderia perder os pais, desmaiou ali mesmo, sem forças para reagir.

E agora, pensou Juquinha, como iriam alimentar a família, quem carregaria a lenha, mandioca, etc. se até o pai, tão forte, estava doente? Enorme drama familiar....

Parte II
Os ciganos

O filho mais velho não tendo a quem recorrer, tomou uma decisão: foi até o acampamento dos ciganos para buscar ajuda. Quando lá chegou, foi bem recebido e explicou a tragédia familiar. Ouviram tudo com muita atenção, pensaram muito, conversaram em um dialeto estranho para Juquinha e um que parecia o mais velho respondeu que nada poderia fazer naquele momento, mas que ele procurasse uma mulher que morava mais acima, com poderes de cura e visão, pois ela tinha sido a dona anterior da jumentinha e saberia como resolver toda esta tragédia, pois parecia que existia uma relação entre as partes envolvidas.

Juquinha, num misto medo e necessidade, foi ao encontro dela, cujas histórias de bruxaria assombravam a todos do lugarejo. Nunca a tinha visto, mas só de saber que estava indo ao seu refúgio, o pânico o assombrava.

Por muitas noites ficou sem dormir, ao escutar as histórias que contavam sobre aquela misteriosa mulher. Uns diziam que era uma fera em corpo humano, outros que era uma bruxa com mais de trezentos anos, capaz das maiores crueldades.

Parte III
A Feiticeira de Açucena

Juquinha, aterrorizado, seguiu pelo campo, sempre à noroeste, conforme informado pelo cigano. Passou por longos trechos de mata, ouviu barulhos estranhos, sentiu estar sendo seguido, teve medo, desespero e tremores.

Depois de seis horas de caminhada, teve a impressão de ver Lindinalva no pasto logo abaixo de sua rota. Desceu a íngreme encosta, mas a medida que descia, a imagem desaparecia e se tornava uma mulher.

Ao se aproximar de um casebre antigo, sentada nua, com estranho chapéu e um imenso colar de pérolas à mão, uma mulher com olhar longínquo estava a esperá-lo, sem olhar para seu rosto.

Olá Juquinha, antecipou a feiticeira, com uma voz enebriante. Eu sei o que aconteceu com a sua família... mas se você aceitar casar comigo, eu trago todo mundo de volta.

Juquinha hesitou, ficou ali meio abobado, sentindo uma coisa estranha em si, um conflito entre a confiança e a fuga. Uma mulher estranha, antes mesmo de dizer algo, chamou-o pelo nome e revelou o motivo da sua vinda. Quem era ela? Como só podia ser ela? Pensou, sem tirar os olhos de seu belo corpo nu.

- Olha aqui rapazinho, se você casar comigo, será bom para todos. Resolva logo. 

- Casar? Como assim casar?

- Sim, casar, você topa?

- Juquinha pensou, pensou, não tinha nada a perder. Sim senhora, eu topo.... mas desde que você cumpra a sua parte antes...                                       

- Que assim seja, mas antes você terá que saber meu segredo.

- Segredo? Qual segredo?

- Eu sou a Lindinalva, e fiz tudo isto acontecer para que você viesse até mim, por que você, Juquinha, é jurado a mim! Você  preencheu todo o meu imenso vazio interior!!!! Você é meu, Juquinha... entendeu??? M!!!eu

- Juquinha voltou para casa montado em Lindinalva, e viu que estavam todos bem. Pediu bençãos aos pais, despediu do irmão e partiram felizes para sempre.

É isto aí!

sábado, 15 de março de 2014

Enquanto a tristeza não vai!


Tarde Triste (Maysa Matarazzo) com Nana Caymmi

Tarde Triste (Maysa Matarazzo) com Nana Caymmi

Tarde triste me recorda
Outros tempos
Que saudade
Que saudade

Vivo só
Num turbilhão de pensamentos
De saudade
De saudade

Por onde andará quem amei
Será que também vive assim
Sofrendo como só eu sei
Pensando um pouquinho em mim

Tarde triste
Noite vem
Já esta descendo
E eu sozinha, sofrendo


Sinto minha falta


Sinto minha falta. Minhas pernas peraltas correndo sem cansar, meu sono tranquilo, meu quarto imenso, minha vida imensa, o quintal imenso, e uma imaginação infinita. Cada vez que olho para trás e vou sumindo, dizendo adeus e misteriosamente até breve, vou ficando mais só. Estamos indo um de encontro ao outro.

Sinto a falta das tardes longas e preguiçosas, o futebol na rua, o rádio com chiados em suas válvulas imensas. Os cadernos com orelhas sujas de folheados rápidos. O Hino Nacional na escola, os amigos que nunca mais vi. Sinto muita falta de mim.

O córrego, as pernas impossíveis e desejadas das moças mais velhas, as manhãs de outono, as chuvas de setembro. A professora rígida, o pão quentinho com manteiga. A rua em poeira, a bola de gude, as bolas de meia. As meias femininas nas pernas com costura posterior, em um fetiche único.

Sinto minha falta na casa da minha avó, nas conversas sem fim e sem começo. Sinta tanta falta de mim, que há um espaço enorme nesta manifestação neuro-sensorial. Onde estava neste hiato temporal? Tudo passa tão rápido, passei tão rápido, as oportunidades, os amores, as despedidas e os encontros.

Sinto a falta de sonhar, de ter coisas importantes para o futuro, de ouvir a Rádio MEC em um imenso rádio com válvulas. Estou só, só dentro de mim, eu acho - aquele menino que queria ser um tanto de coisa no mundo não está mais aqui. Faz falta, faz uma falta ou tantas quantas forem as faltas.

Sinto falta das castanheiras, das serrarias na rua descalça, nos livros do Tom Sawyer lidos em viagens alucinantes. Da Ilha do Tesouro, do deleite ao ler O Cortiço. Não faltaram aventuras, faltou tempo para vivê-las mais intensamente.

Sinto falta de coisas que nunca fiz como tocar violão, cantar afinado, dançar, nadar, mas sinto estas coisas em mim, os desafios pulsantes. Meus cadernos, meus segredos tão meus, tanto tempo guardados e esquecidos em alguma gaveta hermética da memória. De tudo sinto falta.  

É isto aí!

sexta-feira, 14 de março de 2014

Hysterical Literature: Session Two: Alicia (Official)

AVISO: O vídeo, por ser impróprio para menores de 18 anos, só poderá ser acessado direto no Youtube. 

Hysterical Literature: Session Two: Alicia (Official)

Fonte Youtube: claytoncubitt
Alicia visits the studio and reads from "Leaves of Grass" by Walt Whitman. Directed by Clayton Cubitt. Subtitles available (CC) in French and Brazilian Portuguese.

Watch other videos in the series, read essays from the participants and writers, and answers to frequently asked questions: http://hystericalliterature.com

Hysterical Literature is a video art series by NYC-based photographer and filmmaker Clayton Cubitt. It explores feminism, mind/body dualism, distraction portraiture, and the contrast between culture and sexuality. (It's also just really fun to watch.)


Hysterical Literature: Session One: Stoya (Official)

quinta-feira, 13 de março de 2014

Ricardo Arjona ft Gaby Moreno Fuiste tu (en vivo).avi

)

Não confie em tudo que se vê na mídia!


É eu, tu, nós e vós na fita!


A memória é curta


Algo acontece e ninguém quer se perguntar por que acontece. Por aqui, na Pátria Amada, a nobre elite branca, descendente direta dos cafusos e mamelucos, todos brancos e poliglotas, diga-se de passagem, querem um golpe militar. Há um gozo lacaniano para a entrada da dita dura em suas vidas. Não basta mais se entupirem com as drogas legais e ilegais. Querem sentir o bastião e o bastão em seus lombos macios e delicados, eles, a fina flor da alta sociedade civil.

Para a simpática elite branca, o desejo é que os filhos naturais, os adotivos, os mulatinhos, os comunistasinhos depravados e toda a choldra espúria e apátrida se explodam, que os pobres morram, que as putas retornem aos bordéis, que os pretos saiam das universidades (onde já se viu isto, formar pretos para tratar das pessoas?). Só assim, a grande nação eslava ao sul do equador poderá respirar dignidade, liberdade e democracia, dando e recebendo a dita dura entre si.

Enfim, os donos da Pátria querem e desejam uma dita dura branca, grande, tensa e eterna, para mostrar à esta gentinha que ser branco é ser e ter poder, afinal Deus é branco, Jesus é branco, os anjos são brancos, a pureza é branca, a virgindade é deleite das brancas (só a mãe brancas casam-se virgens e puras, as pretas são leiteiras) e quem achar o contrário que seja esquartejado no Paço.

Enquanto isto, na Europa, neo-nazistas que já assanhavam na Grécia, golpeiam o ar da Ucrânia. Ora, direis, ouvir estrelas, um golpe tem custos, requer financiamentos, garantias e segurança - um golpe é um negócio como qualquer outro - quem investe quer o retorno com lucro. Ninguém toma o poder público em nome do amor à pessoa amada - Robin Hood foi lenda, não se esqueça disto.

Já na Malásia, desde o dia sete/março, um Boeing com 239 pessoas está desaparecido. E não é um boeing qualquer, é um Boeing 777-200LR, que custa algo em torno de 600 milhões de reais, com comprimento em torno de 68 metros, envergadura de 63 metros, 18.5 metros de altura, e que na hora do desaparecimento estava a 13.000 metros de altura, a quase 900 Km/h.

Até enquanto escrevo, já se passaram seis dias e nada ainda se sabe, ou quem sabe, nada fala. Só para ajudar na memória, um avião idêntico sofreu um acidente, supostamente enquanto pousava no Aeroporto de San Francisco, nos Estados Unidos, em Julho de 2013. A aeronave era operada pela empresa Asiana Airlines e vinha da Coreia do Sul para os Estados Unidos.

Naquela ocasião, o avião levava 307 pessoas no total, sendo 291 passageiros e 16 tripulantes, e foi o segundo Boeing 777 a sofrer um acidente grave em cinco anos. Em janeiro de 2008, uma aeronave do mesmo tipo operada pela empresa British Airways teve um acidente no Aeroporto de Heathrow, em Londres, após um voo vindo de Pequim, na China.

Nenhum dos dois acidentes jamais foi explicado. Assim como a simpática elite branca não consegue explicar por que deseja a dita dura penetrando em seus lares. Não se lembram, não sabem, não querem saber.

Na foto abaixo, o estado no qual ficou o Boeing de San Francisco. Pense!



quarta-feira, 12 de março de 2014

Chapadão de Tom Jobim



Assisti a um documentário sobre o Tom Jobim na Tv, ontem, em um destes canais que ninguém acessa, e cujo nome nunca sei. Começa assim:

Vou Fazer a minha casa
No alto do chapadão
Vou levar o meu piano
Que ficou no Canecão.

Vou fazer a minha casa
No alto do Chapadão
Vou levar a don´aninha
Pra me dar inspiração

Vou fazer a minha casa
No alto de uma quimera
Vou criar um mundo novo
Inventar nova megera...

Esse poema é fio condutor deste documentário "A Casa do Tom - Mundo,Monde, Mondo", idealizado por sua esposa Ana Jobim. O filme mostra o lado humano e pessoal de Tom Jobim. O mesmo conta o envolvimento do cantor e compositor com a música, família e a natureza. Daí foi feito um DVD, já à venda, com um livro com histórias e músicas de Tom, além de fotos.

Durante o filme, o poema Chapadão intercala falas, fotos, filmes caseiros, filmes profissionais e uma entrevista com Tom Jobim. Tem, claro, as músicas, algumas delas com participações especiais como Dorival Caymmi, Chico Buarque, Paulo Jobim, entre outros e poemas, dois na realidade, um é o citado acima.

Uma coisa que chamou a minha atenção foi que Tom Jobim está triste. Em uma cena editada fala da impossibilidade de ser feliz neste mundo.

Cita Villa Lobos, de uma forma interessante,  e afirma o que na corte sempre se soube, que Villa Lobos era um pobretão moleque, que dizia um monte de coisas que para nós outros eram engraçadas. De Villa Lobos falarei outro dia.

Lógico que fala da Bossa Nova, que denomina como o grande esforço da música nacional. Segundo Tom, eles foram mandados ao USA pelo Itamaraty. Nunca havia saído do Brasil, e foi contra a vontade. "NY não tinha nada a não ser batata para comer; ninguém comia arroz".

Fala dos urubus, da ciência dos urubus, e em determinado momento tira do bolso um amarrotado papel, onde havia a muito escrito um pequeno poema para a ave. Não posso deixar de comentar que seu disco CD "Urubu" é uma das obras primas da natureza humana.

Segundo Tom, certamente Deus tem muitas planetas, com muitos brasis, e a destruição do mundo comprovará a nossa enorme incompetência.

Entre prosas e músicas, confessa sua admiração pela obra de Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade.

E dentre tantas palavras ditas, libera um aforismo que merece ser guardado:

"Intelectual não vai à praia, intelectual bebe."

Encerro esta postagem com outra frase dita por Tom, do poeta Drummond, que é para encerrar com classe:

"Os senhores me desculpem,mas devido ao adiantar das horas, sou anterior às fronteiras"

Abaixo, para registro, publico o Poema Chapadão na íntegra, que levou oito anos para ser concluído.

Chapadão - Tom Jobim

Vou fazer a minha casa
No alto do chapadão
Vou levar o meu piano
Que ficou no Canecão

Vou fazer a minha casa
No alto do Chapadão
Vou levar don'Aninha
Prá me dar inspiração

Vou fazer a minha casa
No alto de uma quimera
Vou criar um mundo novo
Inventar nova megera

Vou fazer a minha casa
Com largura e comprimento
E peço ao Paulo uma sala
Pra botar Aninha dentro

Vou botar minha biruta
No taquaruçu de espinho
Vou fazer cama macia
Pra te amar devagarinho

Seremos dois belezudos
Neste mundo de feiosos
As noites serão tranquilas
E os dias tão radiosos

Quero minha casa feita
Com régua prumo e esmero
Quero tudo bem traçado
Quero tudo como eu quero

Quero tudo bem medido
De largura em comprimento
Não quero que minha casa
Me traga aborrecimento

Vou fazer a minha casa
Do alto de uma canção
E agradecer a Deus Pai
A sobrante inspiração

Sob a axila do Christo
Neste sovaco christão
Vou fazer a minha casa
No alto do Chapadão

E vou dar festa bonita
Com bebida e com garçon
E ao Lufa que foi amigo
Dou champagne com bombom

Vou fazer a minha casa
No centro do ribeirão
Quero muita água limpa
Pra lavar meu coração

Minha casa não terá
Nem sábado nem domingo
Todo dia é dia santo
Todo dia é dia lindo

Todo dia é sexta-feira
Sexta-feira da paixão
Vou convidar o Alberico
Para o peixe com pirão

E dentro da minha casa
Nunca vai juntar poeira
Pelo meio dela passa
Uma enorme cachoeira

Quero água com fartura
Quero todo o riachão
Quero que no meu banheiro
Passe inteiro o ribeirão

Quero a casa em lugar alto
Ventilado e soalheiro
Quero da minha varanda
Contemplar o mundo inteiro

Vou fazer o meu retiro
Na grota do chororão
A minha casa será
Uma casa de oração

Vou me esquecer do pecado
Entrar em meditação
E não saio mais de casa
Só saio de rabecão

Vou entrar pra Academia
Vou comer muito feijão
E acordar à meia-noite
Pra vestir o meu fardão

Mas na minha Academia
Sem chazinho e sem garçom
Só entra Mário Quintana
Só entra Carlos Drummond

Que já chega de besteira
Já basta de decoreba
Que a cultura verdadeira
Tá na asa do jereba

Porque tem urubu-rei
E tem urubu-ministro
Dois de cabeça amarela
E um preto que registro

Registro neste debuxo
Os dois condores também
Embora urubus de luxo
Têm direito no além

Sob a axila christã
Neste sovaco christão
Vou fazer de telha-vã
A casa do Chapadão

Vou dormir meu sono velho
Neste sovaco do Christo
Vou comprar muito sossego
Vou regar o meu hibisco

Vou viver na minha casa
Vou viver com a minha gente
Vou viver vida comprida
Prá não morrer de repente

Vou contemplar grandes pedras
Vazio de compreensão
Vou esquecer o meu nome
No alto do Chapadão

Vou plantar um roseiral
Vou cheirar manjericão
Vou ser de novo menino
Vou comprar o meu caixão

E vou dormir dentro dele
Bem relax tranqüilão
Dormir de banho tomado
Já pronto para a extrema-unção

Vou fazer a minha casa
No alto do cemitério
Vou vestir a beca negra
E exercer o magistério

Vou vestir a roupa lenta
Que leva ao desconhecido
E eis que chego aos sessenta
Como um homem sem partido

Nesta passagem de vento
Nesta eterna viração
Vou fazer a minha casa
Com as pedras do ribeirão

Vou fazer a minha toca
No bico d'urubutinga
No pico da marambaia
Lá na ponta da restinga

Será no rastro das antas
Na trilha da sapateira
Que é pra onça do telhado
Cair dentro da fogueira

Que eu gosto de onça assada
Mas na brasa da lareira
Conversando ao pé do fogo
A conversa rotineira

Das queixadas dos macucos
Conversa pra noite inteira
Da memória das caçadas
Na floresta brasileira

Deste planalto central
Este projeto christão
A ninguém faltará teto
A ninguém faltará pão

Desta prancheta ideal
Na luminosa manhã
Dr. Lúcio faz o risco
Do projeto telha-vã

Nesta oficina serena
Carpintaria christã
Dr. Lúcio mais Oscar
No projeto telha-vã

Neste canteiro de obras
Onde manda mestre Adão
Os milhares de operários
Colocar as telhas vão

Neste desvão principal
Nesta branca e azul manhã
Vou erguer a minha casa
De vermelha telha-vã

Vou fazer a minha casa
No meio da confusão
Que o jereba se alevanta
No olho do furacão

Vou fazer a minha casa
Na asa d'urubu peba
Que casa só é segura
Feita em asa de jereba

Vai ser na vertente seca
Na virada da chapada
Onde o peba se suspende
Na fumaça da queimada

Não quero mais ter galinha
Vendo toda a capoeira
Vou mandar cortar o mato
E vender toda a madeira

Mas quem pôs fogo no mato ?
E espontânea a combustão ?
Esse fogo vem de longe
Esse fogo é de balão

Inda que mal lhe pergunte
Esse fósforo aí grandão
O compadre me desculpe
E só de acender balão ?

Vou botar fogo no mato
Comandar rebelião
Incendiar a floresta
Tacar fogo no sertão

E o urubu de queimada
Vai surgir na ocasião
Pra comer todas as cobras
Sapos ratos pois então !

Caracóis e lagartixas
e todos bichos do chão
Urubu santo lixeiro
Tu és da Comlurb então ?

Trabalhando o ano inteiro
Tem décimo terceiro não ?

Camiranga meu amigo
Obrigado meu irmão
Que limpa toda sujeira
Desse povo porcalhão

Q'inda por cima te xinga
De feioso e azarão
«Doação ilimitada
A uma eterna ingratidão»

E vou viver no deserto
Quero o ar puro do sertão
Não quero ninguém por perto
E nem que passe avião

Não pode ter venda perto
Nem estrada de caminhão
Não quero plantas nem bichos
Nem quero mulher mais não

Quero vestir meu pijama
Smith e Wesson na mão
Quero ler na minha cama
Papo-amarelo no chão

As histórias do corisco
Vividas nesse sertão
Que Sérgio Ricardo e Glauber
Cantavam ao violão

«Eu não sou passarinho
Prá viver lá na prisão
Não me entrego ao tenente
Nem me entrego ao capitão
Eu só me entrego na morte
De parabelum na mão»

Minha casa é por aí
E no mundo monde mondo
Que eu só durmo no sereno
Quem faz casa é marimbondo

Vou cerzir a minha asa
Na casa do Sylvio então
Pra voar que nem jereba
Bem longe do Chapadão

Vou vender o meu pandeiro
Vou levar meu violão
Favor mandar meu piano
De volta pro Canecão

Vou-me embora vou-me embora
Aqui não fico mais não
Adeus minha bela morena
Vou pegar meu avião

Adeus minha roxa morena
Minha índia tupiniquim
O meu amor por você
É eterno até o fim

Não quero partir chorando
Já tá tudo tão ruim
Não chore meu bem não chore
Não me deixes triste assim
Adeus minha moreninha
Não vá se esquecer de mim

Mas não vou ficar solteiro
Você pára de chorar
Que com a sobra do dinheiro
Mando logo te buscar

Avião papa jereba
Passa mal e cai no chão
Avião foge do peba
Peba derruba avião

Por favor seu urubu
Me deixe passar então
Não entre em minha turbina
Não derrube o avião

Eu já tô tão tristezinho
E tantos outros já estão
Não derrame meu uisquinho
Não abata o meu jatão

Vou-me embora desta terra
Meu desgosto não escondo
O afeto aqui se encerra
Quem faz casa é marimbondo

Vou-me embora vou-me embora
Você não me leve a mal
Se Deus quiser fevereiro
Venho ver o carnaval

E não quero mais ter casa
Precisa de casa não
Quem tem casa é marimbondo
Minha casa é o avião

Telefonei pro aeroporto
Não tinha avião mais não
Vou fazer minha viagem
Na asa do peba então

(Acho asa de jereba mais segura que avião)


O amor na poesia

Terceiro Amor

Francis Hime

O primeiro amor já passou
O segundo amor já passou
Como passam os afluentes
Como passam as correntes

Que desencontram do mar
Como qualquer atitude
Também passa a juventude
Que nem findou de chegar.

Como passam as gaivotas
Como passam as derrotas
Ilusões de pedra e cal
Como passam os perigos
E tantos muitos amigos
Sem deixar nenhum sinal.

Como passam os conselhos
Como passam os espelhos
Fantasias carnavais
Inocências perdidas
Como passam avenidas
Corredores, temporais
A correnteza dos rios
Como passam os navios
E a gente acena do cais.
Consolo na Praia

Carlos Drummond de Andrade

Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento…
Dorme, meu filho.