quarta-feira, 15 de outubro de 2014

O reclame do reclame.

Olá, bom dia, eu comprei este aparelho aqui, com você, não sei se lembra, foi semana passada. Aí eu disse que iria viajar em seguida, e ao chegar da viagem ao abrir...

Um momento, por favor. Não lembro do senhor, não sei do que se trata o assunto, mas faça o favor de me acompanhar que vou encaminhá-lo ao setor responsável. Ei, Frances, atende este senhor, por favor.

Olá Frances, bom dia, eu comprei este aparelho aqui, foi semana passada. Aí eu viajei logo em seguida, e ao chegar da viagem ao abrir...

Primeiro, é Dona Frances. Segundo, a nota fiscal, por favor.

Ah, claro, a nota fiscal. Está aqui, Dona Frances.

Pronto, de posse deste carimbo na sua nota fiscal, dirija-se ao guichet 3, e apresente-o à Geraldinha.

Mas e quanto ao aparelho, Dona Frances?

Por favor, senhor, dirija-se ao Guichet 3.

Olá Geraldinha, eu estou com...

Dona Geralda, por favor, mantenha os pés na linha amarela, e coloque a nota fiscal na janela de vidro rente ao balcão.

Desculpe, aqui está a nota.

Perfeito, estou anexando à sua nota o Protocolo Alfa-T.104, com o carimbo de originalidade do documento e o carimbo confirmando que o tramite está em perfeita ordem. Por favor, siga a linha azul no chão do corredor à sua esquerda, e procure por Lisbela, no Guichet 8.

Linha Azul, Guichet , Lisbela, sei... ok, irei lá. Bom dia Dona Lisbela.

Que isto de dona? Belinha, amor. Deixa ver o que tem nas mãos. Humm, tudo certo, a nota fiscal, os protocolos burocráticos, tudo certinho. Olha, está vendo esta linha amarela no piso? Siga até o Guichet 6 e procure por Flora, e espere, tenho que carimbar e dar o visto com a ciência de que está tudo certo.

Amarela? Piso? Flora? Guichet 6?

Isto amor, siga a linha amarela... rs.

É aqui o Guichet 6?

O senhor é analfabeto? Não está lendo?

Eu posso falar com a dona Flora?

Não, não pode. Aguarde aí que ela já irá te atender. E não ultrapasse a linha de segurança.

Quer saber? Vou embora e tem mais, isto aqui é uma palhaçada.

Espere senhor, por favor, espere, já estou liberada para atende-lo.

Atender? Você vai mesmo me atender?

Bem, como o senhor disse que estava indo embora, preciso que preencha este questionário sobre a nossa qualidade de atendimento, antes de partir ...

É isto aí!




terça-feira, 14 de outubro de 2014

Sou...

Autor - Paulo Lins          
Sou...


Sou
Seu
Cio
Sou
Seu
Ócio
Sou
Seu
Sócio
no
Prazer

Quarto em desordem

Autor - Carlos Drummmond de Andrade            
Quarto em desordem

Na curva perigosa dos cinqüenta
derrapei neste amor. Que dor! que pétala
sensível e secreta me atormenta
e me provoca à síntese da flor

que não sabe como é feita: amor
na quinta-essência da palavra, e mudo
de natural silêncio já não cabe
em tanto gesto de colher e amar

a nuvem que de ambígua se dilui
nesse objeto mais vago do que nuvem
e mais indefeso, corpo! Corpo, corpo, corpo

verdade tão final, sede tão vária
a esse cavalo solto pela cama

a passear o peito de quem ama.

Visita (Virna G. Teixeira)

Autora - Virna G. Teixeira             

criado-mudo:
bíblia e
rosário de contas

na cama, ao lado
a nudez
sem nome




Monumento

Autor - Tchello
Monumento



monumento
tu
nua
num
momento
sem
nem
um
movimento

Nuvens

Autor - Tchello 
Nuvens

nua vens
eu nas
nuvens
nua vens
eu nas
nuvens

Minha boca

Autora - Martha Medeiros            
Minha boca...


minha boca
é pouca
pro desejo
que anda à solta

Bicho Papão

Autora - Martha Medeiros            

Bicho papão

bicho papão
viu moça em flor
e papoula



domingo, 12 de outubro de 2014

Infeliz para sempre



Quando criança, sua espontaneidade e alegria chamavam a atenção de todos do lugar. Era alegre, saltitava, cantava, brincava, tudo incansavelmente. Cresceu lendo todos os livros que pode, na biblioteca do avô e na escola.

Eis que na mocidade os pais apresentaram-lhe um franzino e estranho rapaz, primo de segundo grau, residente num vilarejo próximo. Passaram compulsoriamente das apresentações ao namoro oficial.

Nas semanas seguintes namoraram na sala, diante de vários pares de olhos, discretos ou destemperados. Achou que poderia ser feliz, de alguma forma.

Tinha desejos secretos e pessoais. O maior sonho era viajar com um grande amor, conhecer lugares e pessoas. Queria um companheiro que pudesse tocar sem pudor, morder, beijar, apertar, amassar, arranhar, virar, volver, enfim, sonhava em ser a protagonista de uma história perfeita.

O noivo era, além de tímido, uma pessoa limitada intelectualmente. Lá no fundo do coração, ainda acreditava que poderia ser feliz..

Jurava a si mesma, entre lágrimas, que não casaria com ele, mas a inevitabilidade aliada ao destino forjado, arrumado entre os pais, pessoas da mais alta casta da moral e dos bons costumes, era fatal. Passou a rezar desesperadamente para ser feliz, à sua maneira de entender a felicidade.

O pânico instalou-se sem pedir licença. Faltavam três semanas e tudo que tinha era um noivo medíocre e uma família inflexível. Sem amigas, sem um diálogo confiável com a mãe, sem segurança alguma, a tragédia era cada vez mais presencial. Não queria aquela vida, não gostava daquele lugar, não tinha nenhum sentimento nobre pelo noivo.

Sua mãe, faltando duas semanas, chamou-a para uma conversa, onde através de confissões, delegou à filha a missão de manter a integridade e a educação que recebera. Confessou que nunca beijou seu pai na boca, nunca ficou nua na frente dele, dormia no chão, quando ficava menstruada e só fazia uma única posição no ato sexual, ficando por baixo, onde era proibida de mexer e/ou gemer, e nas poucas vezes que fugiu à esta regra, apanhou do marido e do seu pai, que soube através do genro.

Naquela noite chorou. Pediu a morte, clamou pelo fim e acabou conformando-se com uma centelha de esperança de que sua mãe poderia ser apenas um caso isolado, e a felicidade seria diferente consigo. No momento certo, pensou,  saberia reivindicar seu direito a ser feliz.

Entrou na igreja usando o mesmo vestido da avó materna e foi infeliz para sempre!

É isto aí!

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

As eleições, a paz e o progresso

Aproxima-se o dia de definirmos quem governará esta grande nação pelos próximos quatro anos. Disputada com extrema rudeza, ódio e rancor, poderá fazer a diferença entre o Brasil que desejamos e o Brasil que não queremos.

Os dois partidos que chegaram ao segundo turno, trazem consigo a história da redemocratização, e claro, cada um em seu berço e seu modo original de ver as coisas. Para os eleitores de Neves, o país está atrasado, atolado, endividado, inviável, etc, etc, etc e eles virão salvar o povo das garras da Rousseff.

Para os eleitores de Rousseff, Neves e sua turma representam o que de pior há na administração pública nacional. Ao pesquisarmos quadros comparativos entre as partes no Google, cada qual apresentará números e argumentos contestando o outro. Assim, cada eleitor pega seus dados e esbraveja pela sua verdade.

O país é pobre em distribuição de renda desde 1808, e de certa forma vem melhorando a qualidade de vida da população a partir do fim do regime militar, que não teve objetivos sociais claros. Neves tem voto da maioria do topo da pirâmide e Rousseff. tem voto da maioria da base da pirâmide. Isto inverteu a lógica do coronelismo que manteve o padrão de votos até vinte anos atrás, aproximadamente. Era normal termos estados pobres e paupérrimos elegendo sempre grandes fortunas para administrar suas misérias.

Este é o grande nó que está promovendo cenas de ódio e racismo - há uma clara intenção de frear este crescimento dos pobres na legitima defesa dos interesses públicos, tal qual era nas oligarquias desde o império.

O discurso de Neves e suas posições neoliberais são passiveis de serem compreendidas como uma ação capaz de bloquear estes avanços de inclusão social dos menos favorecidos. Se for eleito, será pela vontade destes mesmos que estão no olho do furacão deste pleito. Se Rousseff for eleita, deverá sentar e negociar com as bases políticas destas oligarquias, para evitar tensões futuras.

Enfim, de hoje até o dia 26 de outubro, terremotos, maremotos e tsunamis baterão nas duas margens da disputa, e que vença a democracia.

É isto aí!

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Tetê, a garota de programa

clickut.com.br
Carlosduardo, cê sabe que sou fiel aocê, num sabe?

Craro, Tetê, sempre soube disso.

Ocê sabe tumbém que eu nunca trairia ocê, né Carlosduardo?

Lógico, Tetê, nunca nunquinha.

Então, Carlosduardo, se assim eu se me virasse-se uma garota de pograma?

Garota de pograma? Ixprica isso daí, Tetê, é deste tal de Gugou?

É, amor, tem no Gugol. Mas assim, é hipoteticamente que tem, num sabe?

Tetê, que neg´sso é esse de hipoteticamente? Tem no tal de Gugol ou é desses troços de trabaiá nos trem lá do compiutador?

Então amor, é mais ômenos isso, tem no gugou, a gente pogrâmasse no compiutador e trabaia, ué.

E ocê ganha o que com isso?

Ô, Carlosduardo, as prima tem ganhado muita coisa, a Zefa já tem o tar de Raifone, a Cleuzinha tem istojo chinês de maquiage destes de gaveta, a Martelinda tem uns vistidin coisa mais lindia.

Uai, Tetê, então esse negosso parece bão.

Bão dimaisdaconta, tô te falano Carlosduardo.

É... a Zefa... a Cleuzinha... a Martelinda... óia Tetê, essas minina num era tudo rapariga lá da dona Filó?

Uai, era? Virge creudeuspai, milagre, Carlosduardo, foi milagre intão que sarvô essas menina.

É, mas num vai dá procê trabaiá aí nesse Gugol não, nem no tal de hipoteticamente, que eu nem sei o quequié, nem purucauso de ser bãodimaisdaconta.

Purucauso do que, Carlosduardo?

Cumê que iocê vai companhá Zefa, Cleuzinha e Martelinda se eu vô fica viúvo?

É... seus argumento é bem convincente. Vô vortá prá cozinha.

É isto aí!

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Auto-análise do amor total

Estavam conversando assuntos diversos. O relacionamento não avançava e ela desejava atingir o coração do seu objeto de interesse, de preferência para sempre, e ele esquivava de todas as formas educadas possíveis. Foi então que resolveu perguntar:

- Porquê você está sempre tão distante? Não gosta de mim? Sou chata? Sou feia? Não agrada a minha presença?

Foi aí que ele, pela primeira vez, olhou lá na alma dos seus olhos, e os descobriu azuis e sinceros. Entendeu que deveria se abrir e assim, quem sabe, preencher o imenso vazio que o silenciava.

O que há entre o amor e a solidão? Iniciou com esta pergunta já engatando a resposta - é um mistério que nem poetas, nem analistas da alma e muito menos os românticos sabem responder. Eu já vivi um grande amor e tenho medo de revive-lo. Estávamos juntos há muitos anos, tivemos nossos momentos de felicidade, hiatos de mesmice, entraves de rotina e por fim eternas ondas de tristeza. 

Cada um destes processos teve suas atitudes características, algumas marcantes, outras pouco perceptíveis e outras bem ocultas nas sombras da paixão, por isto raramente reveladas. 

No princípio amamos como ardentes amantes, depois como eternos apaixonados, em volúpia interminável. À medida que este ciclo se esgotava, experimentávamos novas técnicas, filmes, estimulantes, acessórios e bebidas que mantinham acesa a chama. Parecia que iria ser assim para sempre.

Porém, quando dei por conta, entregamo-nos em estranha e silente pantomima. Nesta modalidade, sem compreender bem o que ocorria e sem diálogo, buscávamos a forma perfeita, a estética da linha do corpo, e através de gestos meticulosos, experimentávamos uma transfiguração surpreendente, passando um para o outro, através de ações corporais enviadas e captadas pelos gestos, um ardente ciclo de desejo e orgasmos. 

Mas ocorreu que, infelizmente, este período delirante foi apenas uma transição entre a felicidade e os entraves de rotina, que por sua vez trouxe consigo a mesmice, e o relacionamento oscilou entre desejos e dúvidas, daí os hiatos, que surgiam como um tipo de ausência entre dois atos plenos de amor total. Aos poucos fomos caminhando para o fim.  Passamos a ter dia da semana para nossos encontros íntimos, sempre com um ritual prévio de autorização; as carícias ficaram reduzidas, os beijos mais técnicos e o olhar se perdendo entre os cada vez mais raros olhares de cumplicidade.

Então ela chegou - a tristeza, sim senhor, ela chegou, e junto com ela a inevitável morte daquele amor. Não havia mais brilho, o corpo já rejeitava o outrora complemento. Os sorrisos eram amarelos e raros. E agora só restou este vazio imenso em mim. Não há solidão, sabe, há um vazio total. Um imenso espaço cheio de nada. Estou repleto de um gigantesco nada.

Houve um silêncio intangível. Ela, em lágrimas discretas, procurou com seus olhos azuis uma porta na vida dele, que pudesse ser aberta. Buscou o seu olhar até que o encontrou. Respirou fundo, e tirando uma segurança que só o amor explica, abraçou-lhe. Que o tempo providenciasse sua história de amor, pensou.

É isto aí!

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A lira dos quinze anos

Nunca dancei em toda a minha vida. Também sempre fui ridiculamente desafinado, destoado e desencontrado com as notas musicais. Nunca joguei futebol ou pratiquei qualquer outro esporte e nunca namorei uma menina.

Nunca, nunca, nunca ... quantas negações você precisa dar para que eu fique mais interessada em você?

Interessada? Negações? Como assim? Não estou negando, estou relatando minha vida, abrindo segredos há muito lacrados no sub-solo da minha consciência. E foi você que começou a perguntar sobre minha vida e quando me convidou para vir estudar na sua casa, achei que era para estudar.

Sei, sei... e nunca namorou uma menina. E um menino? Já beijou um menino?

Meu único querer são as meninas, e não tenho nenhum preconceito pela opção sexual deste ou daquela pessoa.

Onde você fica quando está sozinho?

Eu? Onde fico? Pois é. Fico guardado em mim, e aos poucos fui construindo um lugar secreto, ensolarado, com flores, árvores, pássaros, bichos e para cada um nomeei uma autoridade, assim tem a árvore Tenente, tem o pato Detetive e por aí afora. Meu Deus, por que estou contando estas coisas? O que você fez comigo?

Nossa, existe uma poesia está dentro de você. Me beija...

Você não pode rir, mas tenho que confessar - eu nunca beijei antes, assim, na boca, eu não sei bem o mecanismo deste processo. Já li muitas vezes as técnicas, mas nunca beijei. E você é uma menina linda, não sei o que viu em mim. Poderia ter qualquer dos garotos do colégio aos seus braços e está aqui. Não entendo.

Você acha que eu poderia ter qualquer um?

Sim, os meninos te acham a mais linda da sala, e algumas meninas torcem o nariz para você. Já reparei isto. Já ouvi também que você já namorou uns rapazes mais velhos, que está sempre na balada, que seu pai é rico, enfim, quem não tem inveja de você, te deseja.

Entendi. Sabe quantas vezes já namorei, beijei, saí para as baladas? Quer mesmo saber quantas vezes? Nunca. 

Nunca? Mas estas coisas que falam de você?

Não ligo. E também meu pai não é rico, não sei dançar, nem cantar, nem namorar, nem abraçar eu sei. Me beija.

Eu acho que estou apaixonado por você.

Eu tenho certeza disto, seu bobo. Agora me beija.

É isto aí!




sábado, 4 de outubro de 2014

Vai dormir

Na suíte:

Norberto, acorda Norberto, acorrrdaaa...

Hã.. hã... o que foi Amélia?

(sussurrando) Tem alguém aqui dentro do apartamento...

Hã.. como é que é? Alguém aqui dentro?

(sussurrando) fala baixo... pssssch... fala baixo.

Amélia, para de comer muito de noite. Você deve ter ouvido o som dos seus gases.

É assim? É assim? Então eu vou conferir, e provar que tem alguém aqui.

Vai dormir, Amélia. Quem vai entrar neste edifício de portaria tripla, segurança digital nos elevadores com vigilantes 24 horas? Pago um absurdo de condomínio e você acha que um meliante conseguiria passar por uma dúzia de pessoas, metade armada, entraria no prédio sem acionar os alarmes, acessaria o elevador com dezenas de câmeras por todos caminhos, sendo duas dentro dele, digitaria a senha correta de oito números e três letras depois do reconhecimento digital, chegaria ao décimo primeiro andar, conseguiria passar pelo sistema de sensores de movimento, desviaria das câmeras de segurança do andar, e por fim abriria nossa porta de dupla trava eletrônica de comando inteligente? E agora estaria andando aqui dentro? Sinceramente Amélia, este cara merece um prêmio.

É. Eu sei. Você escolheu a dedo este condomínio e me prendeu aqui para que ficasse seguro da sua masculinidade.

Mas o que é isto agora? Está discutindo relação às, que horas são?

Uma e quinze

Esta discutindo relação à uma e quinze, Amélia? Vai tomar um calmante, vai.

Não sei se devo responder a esta provocação falando sobre a sua ineficiente obrigação matrimonial.

Já acabou? Posso dormir agora?

Pode, vou sair e assistir Tv na sala, pode deixar que fecharei a porta do quarto e do corredor para não te acordar. É, quer saber? Você está certo. Devia estar sonhando mesmo. Vou tomar uma água e se encontrar o meliante vou dar um prêmio para ele.

Isto, vai mesmo e me deixa dormir.

Pode dormir, amor, volto logo.

Na cozinha:

Por quê demorou tanto?

Você que danou a fazer barulho e eu achei que tinha acordado o Norberto. Então tive que ter certeza de que voltaria a dormir.

Foi sem querer, pois na pressa para entrar, empurrei a porta com muita força, esbarrei na cadeira, cai segurando na mesa e para completar o susto, o vaso de flor quase foi ao chão, e se não fosse rápido, teria sido pior. Mas vem cá, me beija que isto tudo passa.

Você é muito bobinho, mas é o mais gostoso de todos os vizinhos... Arnaldo...ai, Arnaldo, não para, não para, não para não...

É isto aí!






sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Ela me amava tanto !!!

















Belinha, te amo. Com todas as letras, palavras e pronúncias. Em todas as línguas e sotaques. Em todos os sentidos e jeitos. Com todas as circunstâncias e motivos. Simplesmente, te amo.


— Nossa, Carlinhos, sou tão sua, que tudo em mim está inserido em você. Sou a mulher mais feliz do mundo, capaz de multiplicar a alegria das pessoas só por você,


Sabe, Belinha, toda história de amor é linda. Você me faz ser a pessoa mais feliz do mundo


— Carlinhos, como consegui sobreviver neste tempo todo, sem ser sua e sem você?


Belinha, nosso amor só é lindo e reluzente porque você é a luz que ilumina nossos corações.


— Carlinhos, que Deus permita que eu nunca te decepcione. Ah, meu amor, te amo tanto, nem sei o quanto...

Isto nunca vai acontecer amor, somos um para o outro, feito o sal e o mar.

— Carlinhos, promete que me respeitará em tudo e em todos os momentos da nossa vida conjugal?


Conjugal? Como assim, Belinha? Eu te amo e você me ama. A vida nos uniu em um só corpo, e isto é que é importante - eu e você, você e eu.


— Promete, Carlinhos? Jura que me amará eternamente? E que respeitará meus sentimentos e toda a minha doação ao nosso amor?


Bem, Belinha, se isto é tão importante assim, vá lá, prometo...


— Olha, Carlinhos, isto para mim é muito importante. Nunca tive alguém em minha vida. Você será o primeiro a poder tocar-me, porque sou sua.


Então o que estamos esperando, Belinha?


— Não é assim, Carlinhos, tem toda uma corte que sonhei por toda a vida. Você não se arrependerá, prometo.


E esta corte, Belinha? Corte de que? Você me beija, eu te beijo, você fica pelada...


— Olha, eu te amo muito, Carlinhos, e quero na fidelidade irrestrita de um relacionamento duradouro amar-te e ser capaz de realizar seus sonhos mais loucos, oferecer-me como uma gueixa, ser sua morada carnal e espiritual, sua santa e sua vadia.


Hummm, adorei saber. É justamente disto que estou falando.


— Carlinhos, para que está se despindo?


Para te fazer a corte de uma forma democrática, Belinha, sua vadia safadinha. Eu bem que desconfiava! Espere, onde você vai, Belinha? Espere... Expressei mal, espere... e assim terminou nosso grande amor.


É isto aí!

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Você conhece o seu vizinho?

Viviam aparentemente em harmonia. Ocupavam o apartamento 502 desde a inauguração do condomínio , e nunca dali saiu algum som, alguma bagunça, enfim, totalmente discretos. Nunca souberam o nome dos porteiros, zeladores, síndicos e prestadores de serviços. Raramente chegavam com compras pela garagem. 

Nunca foram a reuniões, nem participaram de datas comemorativas, nem de correntes de oração, nem da festa de natal. Eram muito reservados. Nunca recebiam visitas, raramente saiam e mais raro ainda, viajavam. E não recebiam correspondências nenhuma - sequer as contas ordinárias - água, luz, telefone, gás, etc. Nada chegava para eles. 

Ela, sempre séria, ainda esboçava um leve sorriso no elevador, e ele, do tipo executivo, nunca sequer olhou para algum dos moradores. Na realidade, ninguém sabia seus nomes, onde trabalhavam, de onde vieram, enfim, eram fechados em seu mundo.

14 de setembro de 2012, três horas da manhã - forte estrondo, seguido de portas batidas, baixelas ao chão, gritos, vidros quebrados, sons graves e agudos estranhíssimos, saíram do 502. Acordou todo o prédio. A sensação era de que tudo estava sendo destruído - a mulher gritava, o homem gritava e o som característico de vidros, panelas e utensílios sendo atirados com forte impacto, provocou a chamada da polícia.

Três horas e trinta e dois minutos - a patrulha sobe ao quinto andar, o sargento bate na porta e imediatamente há um silêncio gélido. Abram a porta, é a polícia. Silêncio. Bate mais forte e... silêncio. Faltando onze minutos para as quatro horas da manhã, o sargento decide ir embora, já que o motivo da sua presença ali cessara, não justificando nenhum ato coercitivo, conforme informou ao síndico que constaria no seu relatório.

27 de dezembro de 2012, nove horas da manhã - o zelador vai ao apartamento do síndico para informar que desde o dia 14 de setembro, os dois carros do 502 estão estacionados na garagem da mesma forma. O síndico pediu a análise dos filmes de segurança no quinto andar, elevador e garagem e descobriu já na segunda quinzena de janeiro de 2013, que o casal não saiu do apartamento desde aquela data fatídica. Apesar disto o condomínio e todas as outras taxas continuaram sendo regiamente pagas por débito automático.

Em abril de 2013 o síndico solicita à prefeitura a situação fiscal do imóvel e tem a informação que tudo está em perfeita ordem, inclusive o IPTU e taxa de lixo e esgoto do corrente ano foram pagos à vista na semana anterior, dentro da data limite. Mesma informação obtêm no Detran referente aos carros - tudo correto. 

Em maio de 2013 o síndico consegue um mandato para abrir o apartamento. O corredor ficou lotado, tinha gente de todos os andares, além dos curiosos. O chaveiro, suando pela falta de ar e excesso de gente levou quase uma hora para romper a fechadura. Empurra-empurra, corre-corre e ... nada. O apartamento estava completamente vazio. 

A polícia técnica fez a perícia, e não encontrou ali nenhuma possibilidade de ter sido habitado desde a fundação do condomínio. Aí o síndico lembrou dos carros, cobertos com lona, como sempre fizeram quando chegavam da rua. Desceram alucinados pela escada e elevadores. Foi um tumulto imenso na garagem. O policial puxou a lona do primeiro veículo, e abaixo dele o vazio, o mesmo ocorrendo com o segundo.

E você? Acha seu vizinho estranho? 

É isto aí!





sexta-feira, 26 de setembro de 2014

E se a eleição fosse ontem?

Daqui a uma semana iremos às urnas. Foi uma campanha atípica esta de 2014. A novidade foi a histeria - fato novo na vida pública tupynambá. Chora-se por nada, mas na hora de jogar pedras é cada uma que vou te contar, maior que a outra.

Ontem, na sexta-feira a Cacica Búlgara reuniu blogueiros para falar de coisas - gostei disto, pois os outros candidatos mandam prender blogueiros para que não falem de coisas - veja só você - como se acha que constrói uma democracia destruindo palavras?

A pátria amada tem uma imprensa maquiavélica, tendenciosa, verborrágica, e mesmo assim, apesar disto tudo, vem perdendo as eleições e seus amores vêm sendo atropelados pelo povo. Algo deve ser feito e repensado - não se pode ter apenas uma ideologia administrando tudo por tanto tempo, mas as artes políticas deverão ser repensadas.

Não sou adivinho, mas daqui do mais alto monte do Reino da Pitangueira posso ver que apesar do ódio disseminado e dos rancores incuráveis, a Cacica fica. Ou a oposição percebe que a pátria agora é amada e idolatrada ou não irá se salvar. É hora de juntar os cacos e refazer os discursos e mais que isto, mostrar segurança e sobretudo mostrar serviço.

Basta de ameaças falsas, fraudes contábeis, denúncias mentirosas - pois milhões acessam a rede, e até este pedaço aqui tem suas visitas diárias, apesar de ter o cuidado de afastar-me do processo eleitoral por questões de ordem pessoal, pois para ir à luta o corpo exige saúde e esta já se foi.

Que na próxima eleição, os candidatos sejam não a esperança, mas a consolidação da mudança de uma pátria subserviente em uma nação gloriosa. Enfim, chega de ódio entre os cidadãos deste país. Ou se faz o diálogo ou perderemos o bonde e a esperança.

É isto aí! 




quinta-feira, 25 de setembro de 2014

O crime perfeito

Aí a mocinha, coitada, não conseguia passar nos testes para nenhum emprego. Já havia tentado de tudo, desde babá de Petshop até auxiliar de caixa de supermercado de bairro.

Desesperada, devendo no salão, na farmácia, na padaria, na sapataria e na quitanda, resolveu tomar uma atitude extrema, no mundo do crime, para ganhar dinheiro fácil. Passou vários dias assistindo CSI na televisão, anotou tudo que viu e achou uma possibilidade: Vou seqüestrar uma criança! - pensou, pensou, pensou, anotou detalhes, analisou os riscos e foi à luta.

É claro que vou dar carinho para ela, dar banho, dar papinha, dar roupa nova, fazer ela dormir no meu colo e com o dinheiro do resgate eu resolvo a minha vida. Foi com muito planejamento que encaminhou-se para um playground, no bairro de luxo mais bacana da cidade e viu um menino lindinho, fofinho, muito bem vestido, brincando com seu carrinho. Acenou para ele com um imenso pirulito colorido na mão, deu um sorriso maternal e chamou-o para perto de si.

Perguntou seu nome, onde morava, se gostava dela, e o menino ali, só manjando a moça. Tirou um bloco de anotações de dentro da sua bolsa, uma caneta, e foi logo escrevendo o bilhete: - Querida mãe do F., isto é um seqüestro. Estou com seu filho. Não fale disto com ninguém. Favor deixar o resgate dentro de uma pequena bolsa Luiz Vitão, no valor de R$10.000,00, amanhã, ao meio-dia, atrás da árvore marcada com um X, do lado do Algodão Doce do parquinho. Assinado: Telma, uma seqüestradora anônima.

Então pegou calmamente o bilhete, dobrou-o com muito cuidado para não deixar impressão digital, e colocou no bolso da jaqueta do menino, dizendo: - Agora seja bonzinho com a tia, vai lá e entrega esse bilhete para a sua mãe.

No dia seguinte, a meliante foi até o local combinado. Olhou para um lado, para o outro, viu que estava sozinha e notou a bolsa no chão, no pé da árvore marcada com um X. Em meio a uma crise de ansiedade e sentimento de culpa por ter cometido um crime de tamanha gravidade, aproximou-se do objeto, abriu e encontrou os R$10.000,00 em dinheiro e um bilhete junto, dizendo:


Dona Telma Anônima, conforme a senhora mandou, fiz tudo que pediu e juro que não falei com ninguém, menos com a Clotilde do Salão, que é um túmulo. Está aí o resgate que pediu. Só não me conformo como pôde fazer isso com minha família... quanta violência neste mundo...

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O corpo fala

- Carminha, preciso falar uma coisa com você.

- Tudo bem, Armando. Pode falar.

- Humm, melhor que não, você não esboçou uma reação confiável.

- Reação confiável? Precisa disto entre nós agora?

- Ontem, hoje e sempre. Você pode até mentir, mas enquanto isto, seu corpo fala.

- Meu corpo fala? Está escrito isto em minha postura? Você lê meus movimentos? O que ele fala?

- Que você mente. Olhou para o lado esquerdo apenas com o movimento dos olhos, apertou o lábio inferior com os dentes, suas pupilas dilataram, juntou as mãos e em seguida levou-as ao pescoço e coçou o nariz, além dos ombros encurvarem para a frente.

- Nossa, Armandinho, você viu, leu, interpretou e sabe isto tudo só de olhar meu comportamento?

- Sim.

- Mas, Armandinho lindinho, isto não é verdade.

- É sim. Você não pode contestar a ciência. Explique então algo tangível, que prove que estou errado, se for capaz.

- Olhei para o lado para verificar se a cortina estava fechada, apertei os lábios por que quero morder você todo, minhas pupilas dilataram devido à descarga de adrenalina por que estou excitada pela sua presença, levei as mãos ao pescoço pelo calor que veio à flor da pele e meus ombros foram para a frente pela vontade de estar agarrada em você.

- Caramba! Jura? Nossa... fiquei excitadíssimo, olha só o que você fez comigo. Você me deseja tanto assim?

- Claro que não, mané, vá se catar, vá ver se estou na esquina e outra coisa - vá fazer leitura corporal no corpito das tuas negas - fui!

É isto aí!