sábado, 26 de setembro de 2015

Geraldinha & Agenor, o nerd



Não existe felicidade, Geraldinha.

Como assim, Agenor?

Não existe e pronto, assim como não existe céu azul.

Danou-se de endoidar agora, homem. Se estudasse menos seria mais feliz. Olha lá fora, veja o céu - é azul.

Geraldinha, não tem nada de azul no céu, a não ser seus olhos.

Mas que homem burro. Meus olhos são castanhos quase pretos, Agenor.

Isto é verdade. Seus olhos são castanhos, quase pretos.

Finalmente concordamos com algo.

E vai concordar sobre o céu e assim por analogia, sobre a tal da felicidade.

Então fala, seu doido.

Geraldinha, o céu parece mais azul quando está limpo de poeira e fumaça, como acontece muitas vezes após uma chuva. Mas o fato real é que ele também muito transparente, porém não perfeitamente transparente.

Claro, não é Agenor? Se não fosse transparente, a gente não se via.

Mas bolinava, não é não?

Eita, Agenor, não se assanhe. Conta o resto.

O céu, o nosso céu, que chamamos de atmosfera. Atmos do grego é Vapor e Esfera é esfera mesmo. Então as moléculas de tudo que está disperso no ar passa a ser obstáculo para ... Geraldinha, para com isto.

Bobagem, Agenor, bobagem... vem cá que eu vou te condensar na minha atmosfera.

Geraldinha, eu estou te explicando uma coisa séria, Geraldinha, não faz isto, ah, não!! por favor... não... nãããão...

É isto aí!

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Os canalhas e as almofadas com cheiro de peido




Dia destes ouvi uma expressão curiosa, onde a pessoa comentou sobre determinado cidadão, comparando-o às almofadas de casa de rico, com cheiro de peido. Logo imaginei aquelas almofadas macias, confortáveis, de tecidos caríssimos, exalando o odor dos gases pútridos dos grã-finos. E não é que ao ver o indivíduo num acontecimento social, a imagem batia com a descrição?

De outra feita, um destes imaculados e santificados senhores da mais alta corte vil e infame, rico pela canalhice e poderoso pela usurpação, cumprimentou-me na saída de um evento futebolístico - sim, meus amigos, eu ainda acredito nos estádios. Repliquei o cumprimento, por que aprendi na infância, numa crônica do Nelson Rodrigues, onde falava sobre a expectativa para a Copa de 1970:

- "Desde quando o bonito ganhou a Copa? Demais a mais, só os subdesenvolvidos têm escrúpulos. O inglês é um grande povo. Na guerra, salvou o mundo com a sua resistência. Mas em 66 a Inglaterra foi de um descaro empolgante. Manipulou juízes, baixou o pau, fez horrores e ganhou. Portanto, com as suas qualidades o inglês salvou o mundo; com os seus defeitos, ganhou a taça."

Então guardei isto num canto qualquer do meu superego - só os subdesenvolvidos têm escrúpulos. Para ser capaz de combater o bom combate contra os almofadinhas com cheiro de peido e os canalhas de plantão, enalteçamos nosso espírito bretão, afinal nossa pátria mãe ibérica nasceu pela virtuosidade celta.


É isto aí!


quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Nunca mais Paris outra vez!


No café da manhã, leu no jornal que seu corpo seria velado na capela da cidade. Achou aquilo um tanto bizarro. A sua fotografia na reportagem era referente à um recente baile no Clube das Garças. Fixou o olhar na imagem para observar uma linda mulher bem ao seu lado esquerdo, com a mão direita sobre seu ombro, que não se lembrava quem era. Voltou à leitura, onde alguns amigos deram depoimentos que não conseguiram emocioná-lo. Acreditou que estava sonhando.

Tomou banho, colocou uma roupa discreta, ligou a televisão, e o apresentador falava da sua morte. Começou a achar que era sério, pois pessoas do seu círculo social, com voz embargada, entre lágrimas, falavam da sua importância política, social e econômica para a região.

O interfone toca. Atende, era uma voz feminina aparentemente conhecida, mas sem identificação. Manda subir. A moça, uma beldade da natureza feminina, entra com um sorriso enigmático nos lábios cerrados. Era a mesma da tal fotografia e abraçam-se em silêncio por um longo tempo. Enquanto afaga seus cabelos, olha novamente para seu rosto e não se recorda de onde a conhece.

Estou morto? - indagou - Então é assim que acontece? Empurrou delicadamente a garota para olhar nos seus olhos. Fitaram-se por uma eternidade. Quando deu por si, a beijou e só então percebeu que, de uma forma inexplicável, abriu-se um portal - o corpo dela transformou-se em passagem para um labirinto de luz e mistério.

Uma mulher apareceu e informou-lhe entrasse com muito cuidado, pois aquele era o cérebro da amada. Então ela bateu três palmas e duas moças com vestal sacro foram guiando o embasbacado visitante entre os neurônios, e ao redor seus olhos vislumbravam o efeito de bilhões de luzes neuro-neon, de múltiplas cores. Chegou na Amígdala Cerebrosa, onde dezenas de ninfas guardavam a entrada. As duas anunciaram o visitante. As ninfas deram passagem e continuaram a caminhada.

Todos os conteúdos emocionais presentes na memória da moça afloraram em sua mente. Ela o amava, sempre o amou, tudo nela e dela eram para ele. Mas onde eu estive enquanto quando fui amado de forma tão profunda? - se perguntava.  

Chegando num amplo salão, muito claro, mas sem luz aparente, percebeu-se só, e por instinto seguiu um facho de luz de intensidade maior. Deste ambiente seguiu para um adro, com sepulturas antigas e inscrições desconhecidas. Ela surgiu e lhe deu outro abraço, desta vez com um amor intenso. Eu te amo, eu te amo, eu te amo, sussurrou sem pressa.

Atento à todo aquele amor, meditou no mais profundo do seu pensamento - eu aqui, no bem bom ... quer saber? Nunca mais Paris outra vez!

É isto aí!


terça-feira, 22 de setembro de 2015

Paixão atávica

Vou poetar um poemameu:

Ela estudava lógica
Ele entonava graves
Ela traçava metas
Ele cantava óperas

          Ela dormia nua
          Ele insone clássico
          Ela sorria plácida
          Ele andava trôpego

                Ela ambidestra
                Ele anti-ético
                Ela chorava à mesa
                Ele escutava céptico

                      Ela psicótica
                      Ele distópico
                      Ela em sorriso tetânico
                      Ele com olhar despótico

                            Ela com choro trágico
                            Ele com gestos simbólicos
                            Ela fúnebre
                            Ele pernóstico

                                  Ela gélida excêntrica
                                  Ele excitação galvânica
                                  Ela anoréxica anêmica
                                  Ele com taras crônicas

                                        Ela foi ao médico
                                        Ele era a causa
                                        Ela sentiu-se péssima
                                        Ele evolução clássica

                                              Ela trocou as receitas
                                              Ele trocou os comprimidos
                                              Ela ficou atônita
                                              Ele reprimido

                                                    Ela desesperou aflita
                                                    Ele com dores cósmicas
                                                    Ela leu o diagnóstico
                                                    Ele era paixão atávica
                                             
                                 É isto aí!

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Poema medíocre


Por muito pouco a encontraria na praça. Havia escrito um poema único, doce, inocente e metódico. Coexistiam simetria e bom gosto, com as palavras suaves, ditas em elegante harmonia. Não tinha como dar errado, ela era a musa e aquele era o poema da nossa vida.

Busquei-a nas redes sociais, nos bares, nas esquinas, nos clubes, na faculdade, na rua, e nada encontrei. Era um poema lindo, feito como as tardes de outono, em serena brisa, céu azul e clima ameno. revisei as rimas, revisei as frases, revisei as palavras, reboquei o tema, alterei sinônimos, promovi sílabas tônicas e exaltei os átonos.

Havia em mim um poema, e de tão íntimo e profundo era seu conteúdo, que seria a nossa marca, o nosso destino selado por palavras que somos nós em códigos gráficos. Linda, tão linda, tão poesia, de tal forma que fiz um poema de cunho universal, englobando e envolvendo nossas almas, traduzindo-as na mais sagrada comunhão que une dois amantes.

Vivenciei um sentimento etéreo, decodifiquei a angústia das minhas insônias ... insônias ... malditas noites insones. Foi numa destas que saí para desmotivar minha ansiedade e ela passou - era apenas um poema medíocre nos braços de um apedeuta qualquer - não valia tudo que estava escrito.

É isto aí!

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Eu sou chato, mas sou legal

Olá, você está sozinha? Incomodo? Perturbo? Ocupo seu espaço sideral, lateral ou diagonal assimétrico? Gostou, não é mesmo? - O assimétrico é por conta das curvas da sua exposição espacial, que me apraz e seduz.

Eu até que sou tímido, mas é que ando tão esquisito, assim meio que, sabe, algo diferente, tipo assim, não sou eu em mim, entende? Tenho persistido em muitas situações meio que déjà vu.

Então ... se fala assim mesmo - déjà vi, mas escreve-se vu, é uma coisa meio que maluca isto, não é? Feito eu assim, meio que maluco, meio que doido, meio que sem sentido, mas plácido e lúcido.

Não, não cheirei nada não, nem inalei, nem traguei ou sequer injetei. É o meu normal isto daí, sou trans-normal, é uma coisa só minha, sabe? Só minha, assim como quero você só minha, estas coisas são só minhas, tipo assim uma rima poética sem licença ambiental. Deixa prá lá.

Por que você é tão linda assim? Eu queria poder te dar uma mordida, espera - melhor do que isto, uma dentada. Se vai ficar marca? Claro, será a minha marca.

Então? Vai ter um rola-moça ou você vai ficar aí com cara de paisagem? Olha, pode falar o que quiser, eu tenho espírito democrático, e esta bendita reação psicológica que faz com que meu cérebro transmita em High Fidelity, que é uma coisa pós pós estratostérica.

Não, eu não quis dizer estratosférica, de estar fora de uma esfera, e sim tostérica, que seria um neologismo quanto ao assento de escravos nas galés. É interessante, isto eu sei, eu sou um cara interessante.

Espera, não vai embora, eu posso querer te ouvir para saber seu nome, sei lá, que deve ser Débora. Não? Não é Débora? Espera - já sei, você se chama Linda, Não? Não é linda? Como assim? Volta aqui, por favor, não me abandone, eu sou chato, mas sou legal... Merda, estas coisas só estão ocorrendo por que eu não estou nada bem. Acho que vou me dar um tempo para esgotar um pouco de mim..

É isto aí!


Ele que vá à reputa e à triputa que o pariu!


Autor de Macunaima, Pauliceia Desvairada, Amar, Verbo Intransitivo e muita poesia, ensaios, estudos e com forte interatividade na formação antropológica da identidade e cultura nacional, Mario de Andrade também era um homem que colecionava inimigos.

Getúlio Vargas o odiava muito, a ponto de proibir quaisquer manifestações sobre sua morte, prematura, em 1945. Esta censura durou quinze anos para ser desfeita.

Homem culto, quando apelava, Mário de Andrade apelava feio. Quando tentaram reconciliá-lo com Oswald de Andrade, que ele só chamava de “Osvaldo”, atacou, numa carta ao amigo e discípulo Murilo Miranda: 

“Ele que vá à reputa e à triputa que o pariu”. 

É isto aí!

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Xeba

Xeba era um garoto normal, com aspirações comuns à todos os meninos do bairro. Tinha sonhos, delírios e alucinações espontâneas que em nada diferenciavam dos outros garotos da cidade, do estado, do país, do mundo, do sistema solar e o escambau. Enfim, Xeba era normal.

Xeba era preto, negro, afro-descendente, nego, negão, e todas as variáveis pejorativas que os meritocratas descrevem em conversas reservadas em salões nobres da civilização. Mas isto não fazia dele outra raça - só existe uma única raça humana, com variáveis da tonalidade da pele. Enfim, Xeba era humano.

Xeba era pobre, muito pobre, família sem recursos, sem uma moradia digna, sem o conforto das vitrines, sem as roupas de marca, sem os tênis determinantes. Sua roupa, sempre limpinha, mantida pela habilidade manual da mãe, era sua armadura contra as tempestades do mundo.

Xeba amava seus pais que o amavam também. Estudava numa escola pública, dominada pelo terror, e todas as formas de terror eram comandadas por finos e elegantes senhores brancos da mais alta camada social da promiscuidade pungente, para que Xeba e seus iguais sempre se sentissem inferiores e violentos.

Xeba morreu numa tarde fria, chuvosa, numa esquina qualquer, de uma rua qualquer, ao passar por uma destas enormes catedrais de consumo. Só isto já bastou para fazer dele um suspeito. Nas manchetes estampadas em letras garrafais, a mídia subornada dava pelo tombamento de um perigoso meliante liquidado em troca de tiros com a lei, a justiça e a ordem.

Xeba morreu sem nunca ter dado um beijo de amor, sem nunca ter abraçado Rosinha, a menina mais linda da rua, sem nunca ter comido um sanduíche daqueles lugares bacanas, sem nunca ter tido a oportunidade de ter cometido um delito. É agora apenas uma estatística, um número perdido entre a realidade e a ficção de que somos todos iguais perante a lei.

É isto aí!

* Fonte da charge, cujo autor é Edidelson Silva:
http://arquivo.geledes.org.br/racismo-preconceito/racismo-no-brasil/13098-alo-e-do-iml-temos-um-suspeito-aqui-morreu-porque-era-negro

O Complexo de Vira-latas - Documentário

domingo, 13 de setembro de 2015

O analista da Pitangueira e o Rei dos Velórios

Sabe, doutor, eu adorava visitar cemitérios, participar de velórios, e quanto mais dramático, mais intensa era a minha participação. Toda quela carga emocional, as conversas paralelas, os que apenas acenam da porta, os que nunca entram, os que choram contidos, outros aos gritos, outros desmaiam.

Entendo ...

Numa determinada época, já profissional da morte, cheguei a morar próximo ao cemitério. Aí os compromissos foram aumentando. Visitar túmulos bonitos, procurar saber do que morreram estes ou aqueles, aguardar visitantes e conversar sobre o morto. Aquilo era uma benção em minha vida. Eu nasci para isto, doutor.

Acredita nisto?

Sim, claro, sou um predestinado à tanatofilia. Ela é um estar em mim, uma ascendência mórbida e ao mesmo tempo lírica. Eu amo, de paixão, o culto da morte. Mas aí algumas coisas foram acontecendo que começaram a criar obstáculos no meu destino.

Obstáculos? Consegue situá-los?

Bem, Tudo começou quando passei a perceber que as visitas aos túmulos foram diminuindo, e ao mesmo tempo o cemitério passou a ser habitáculo de drogas e prostituição. Até mesmo aqueles que trabalhavam com suas crenças atreladas ao ambiente, foram se esvaindo. As ladainhas sumiram, as carpideiras desapareceram, aí nesta altura vi que os mortos também estavam sós.

Sós? Também? Em que sentido?

Olha, só os grandes funerais passaram a resgatar aquela manifestação de luto eterno. Sabe, os famosos em qualquer coisa passaram a ter um tratamento vip, e o estranho é que ninguém sabe nada deles, a não ser a imagem da sua importância em cada um deles. Desculpe se estou confuso. Mas é que estou me sentindo como os mortos comuns, estou só.

Tudo bem, estou entendendo.

Não, não está entendendo. Puxa vida, olha doutor, ocorre que eu tinha uma companheira de velório, muito discreta, de quem acabei me tornando amante. Imagina isto. Eu, casado, servidor público, ela, casada, do lar. E nós dois em tórrida e discreta paixão nos velórios. Aquilo nos excitava tanto que é inenarrável. Tínhamos catacumbas preferidas, algumas com aquele cheiro inebriante da terra úmida, mas, e agora, doutor ... (mãos na face e pranto intenso) ... e agora ...

Você está perguntando?

Não, agora ela só curte a seção de Saudades Eternas no Youtube. Isto acabou comigo (voz embargada). Ela ... me trocou por um programa de rede. Isto está me matando, doutor, me matando.

Já pensou que esta pode ser a intenção dela? Um grande final como prova do amor infinito?  

Caramba ... não tinha pensado nisto. Agora tudo faz sentido, ela é a mulher da minha vida. Adeus, doutor.

Espera, não saia ainda, não faça nenhuma bobagem.

Bobagem? Vou chamá-la para produzirmos vídeos juntos. Uau! Era isto que faltava para apimentar nossa relação e eu não estava vendo. Valeu, doutor - estou curado! O senhor é bom mesmo!

É isto aí!


A Escada de Renda

Ela foi projetada e instalada em 2011 em um estiloso apartamento em Paris, mas seu sensacional design é atemporal. Esta escada criada em conjunto pela dupla de arquitetos Ammar Eloueini eMarc Fornes usa madeira e Corian para conseguir seu visual único. Delicado e atraente o charme do padrão gerado por computador transforma o conjunto no grande protagonista do imóvel. Bastante aberto na parte inferior o desenho rendado gradualmente se torna mais opaco em direção ao topo, enquanto os degraus de madeira se tornam mais espessos.
Fonte: http://www.bemlegaus.com/






sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Dor de corno é terrível


Naná em estado de alerta

Ouviu um barulho e sentiu um perfume familiar, então saltou a janela, caiu rolando na grama fofa do jardim, ainda deitado vestiu a calça, levantou ajeitando a camisa, e correu como um vento sem rumo, procurando um lugar seguro para ocultar sua presença. Num beco lateral, furtivamente agachou-se, calçou o sapato, arrumou o cabelo, afivelou o cinto, respirou aliviado, levantou-se e aguardou o táxi chamado pelo celular.
Assim que chegou ao trabalho, o telefone toca. Era a esposa 

- Querido, antecipei minha volta, já estou em casa.

- Que bom, amor. Ótimo.

- Por que você não foi trabalhar no seu carro? Ele está com defeito?

- Não, é que hoje resolvi ir de táxi, para deixar o carro com você assim que chegasse.

- Gostei disto. Assim que minha irmã acordar, vamos sair, ok?

- Certo, meu bem, certo...

- Só uma dúvida, meu bem, como você trancou a porta se esqueceu a chave em cima da mesa?

- Então, é que eu tenho uma reserva.

- Sei ..., e como pagou o táxi se esqueceu a carteira?

- Não, não esqueci, é que este é um método para que eu reduza meus gastos, amor.

- Sei ... Posso saber por que a nossa cama estava arrumada? Você dormiu em casa?

- Naná, você está me fazendo perguntas  estranhas. Está duvidando de mim?

- Euzinha? Não ... imagina! Meu bem, eu tenho que te contar uma coisa.

- Fala, querida. Sempre estou te ouvindo.

- Espero que você não fique chateado, eu não quis te falar nada antes, mas minha irmã veio passar umas semanas aqui para tratar de uma DST.

- DST Você disse DST? É aquela que estou pensando?

- É. isto mesmo, exatamente aquela, amor, tal qual você está pensando.

- Que que que rida, na ho ho ra que eeeeu che che gar, pre pre pre cisamos con con

- Conversar, não é amor?

- Si sim.

(a irmã) - Naná, que papo é este de falar que estou com DST no telefone?  

- Brincadeirinha, maninha, brincadeirinha ... agora arruma sua mala que vou te levar na rodoviária, por que se não está doente, ao permanecer aqui, vai ficar.

É isto aí!

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Aconteceu uma coisa estranha


Mestre, estou apaixonado, o que devo fazer?

Nada. Não faça nada. O mal já está feito.

Mas o que é isto, Mestre? Eu quero chegar na moça e falar algo que a toque, que ela sinta a vibração da minha alma por ela. O que falar? Por favor, Mestre.

Bem, já que você escolheu o caminho das pedras, aproxime-se dela, e converse. Se apresente, fala que está gostando dela. Fale das suas intenções, seja direto, desta forma, o que tiver de ser e acontecer, será e acontecerá.

Mestre, eu fui lá e quase falei, mas quando olhei nos olhos dela, disse: Havia dois ursos, o Beijaeu e o Mebeija. O Beijaeu morreu, quem sobrou?

Então, como ela reagiu a uma coisa ridícula desta?

Primeiro ficou me olhando séria, depois deu um leve sinal de sorriso, e por fim, entre séria e irônica, perguntou por qual motivo tinham nomes em português, se não existem ursos por aqui. E se fosse este o caso, deveriam então serem de circo ou estarem no Zoológico. De qualquer forma, segundo ela, estavam ali apenas para satisfazerem o ego dos seus donos. E dito isto, seguiu seu caminho sem dizer adeus.

Mas que menina inteligente. Volte lá e peça desculpas, fale que estava nervoso, mas que deseja falar sobre um futuro ao lado dela. Fale o que sente e não pense para falar.

Mestre, encontrei--me com a moça e mais uma vez não consegui me controlar, daí fiquei tão perdido que a única coisa que saiu foi assim:
- Você tem um mapa?
- Por que? Está perdido? Abre no seu smartphone o Google Maps, e partiu feito um raio.

Mas o que é isto? Assim você não conseguirá nada. Faça um último teste. Chegue sério, e diga: Moça, eu quero estar ao seu lado para sempre. E não sei como falar isto de outra forma. Quando você me conhecer, verá que temos muito em comum. Eu não sou deste jeito. Mas seja claro, objetivo, direto.

Mestre, fui lá como o senhor falou, tentei repetir a frase e aí... bem, aconteceu uma coisa estranha. Eu não conseguia falar, então lembrei de uma fala numa novela - Aposto um beijo que você me dá um fora.
Assim que eu disse, aconteceu um negócio muito estranho.

Coisa estranha? Fale, garoto, o que pode ter acontecido de tão estranho?

Ela olhou para o alto, apontou com o indicador e perguntou para mim - Olha, que coisa assombrosa é aquilo no céu? Aí eu me virei para olhar, e fiquei procurando, mas ao voltar ela havia desaparecido. Será que ela desintegrou? Entrou num túnel do tempo? Foi abduzida? Mestre? Mestre? Caramba... ele também sumiu...

É isto aí!


quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Negritude

Este poema circula pela internet há pelo menos quinze anos, e na maioria das postagens, refere ao autor como sendo uma criança angolana. Mas, segundo fontes literárias, seu autor é Leopold Sedar Senghor, primeiro presidente do Senegal, escritor, poeta e, juntamente com o poeta antilhano Aimé Césaire, ideólogo do conceito de negritude.

Quando nasci, era preto.
Quando cresci, era preto.
Quando pego sol, fico preto.
Quando sinto frio, continuo preto.
Quando estou assustado, também fico preto.
Quando estou doente, preto.
E, quando eu morrer continuarei preto !

E você, sujeito branco.
Quando nasce, é rosa.
Quando cresce, é branco.
Quando pega sol, fica vermelho.
Quando sente frio, fica roxo.
Quando se assusta, fica amarelo.
Quando está doente, fica verde.
Quando morrer, ficará cinzento.
E vem me chamar de homem de cor ?

É isto aí!

Só um ensaio ousado da minha parte, em tradução literal para falar da Preta Pretinha:

Quando nasci, era preta.
Quando cresci, era pretinha.
Quando pego sol, fico preta
Quando sinto frio, continuo pretinha.
Quando estou assustada, também fico preta.
Quando estou doente, pretinha.
E, quando eu morrer continuarei preta!

E você, moça branca.
Quando nasce, é rosa.
Quando cresce, é branca.
Quando pega sol, fica vermelha.
Quando sente frio, fica roxa.
Quando se assusta, fica amarela.
Quando está doente, fica verde.
Quando morrer, ficará cinzenta.
E vem me chamar de mulher de cor ?

terça-feira, 8 de setembro de 2015

O analista da Pitangueira - Como esquecer um grande amor

Então, como tem sentido a sua vida, Carlos Dagoberto?

Por favor, doutor, me chama de Carlão.

Como seu pai te chama?

Cacá, mas o que tem a ver?

E sua mãe?

Carlinhos ... espera, entendi, eu sou "o" Carlos Dagoberto, desde sempre, claro, entendi, tudo bem.

Vamos prosseguir, e veja que você começa a se perceber, o que é um bom sinal.

Como já falei para o senhor, meu problema, minha dor, minha angústia, minha tristeza, meu desgosto, minha insônia, enfim minha depressão tem nome e sobrenome - Vivi Pitanga. Ela é divina, mistica, linda, maravilhosa...

Tire-a do pedestal, Carlos Dagoberto. Ela não é a única mulher do mundo e ponto final. Não importa se ela fez o melhor em tudo para a sua felicidade, que foi a melhor de toda a sua vida, ou a que te tratava de uma maneira que ninguém fez antes.

Mas, doutor ...

Presta atenção, existem milhares de mulheres que fazem exatamente as mesmas coisas que ela e possuem no mínimo o mesmo nível de aparência. Na verdade, existem milhares melhores que ela. Sei que nesse momento é difícil acreditar nisso, mas garanto que é a verdade. Se ela não quer mais ficar com você, não se preocupe. Você conseguirá sim alguém melhor e que queira estar ao seu lado.

Impossível, ela é única.

A maior dificuldade que existe em esquecê-la é por causa desta idealização icônica que você fez.. 

Mas só consigo me lembrar das qualidades.

Carlos Dagoberto, Vivi Pitanga tem defeitos, como qualquer mulher. Toma este lápis e escreva aí os cinco grandes defeitos que já viu nela, e depois destes verá outros que você nem imaginava que existiam e que te incomodavam.

Não posso, não existe isto nela.

Pense bem, pode ser qualquer coisa, desde não atender ao celular até ser repulsiva, ou te tratar da maneira inadequada na frente dos seus amigos. Pode ser que seja muito fresca na cama, ou mastigue chiclete de boca aberta, ou não sabe quem foi Jorge Amado, nem goste das músicas que você gosta. Pense por aí.

É verdade, existiam coisas nela e dela que me irritavam, mas logo logo dava um jeito único de aparar as arestas.

E mais, Carlos Dagoberto, muito importante - não ligue para ela, não pense nela, não fale nela, não visite sua rede social, nem sequer se lembre dela. Se isso ocorrer, comece a escrever os defeitos que ela tem.

Mas ela tem um jeito único, uma coisa da qual não consigo esquecer, doutor, é maior do que eu.

Isto é impossível, Carlos Dagoberto. Ninguém é insubstituível.

Mas ela é. Ela tem... meu Deus, como explico isto ..., ela tem ..., sabe doutor, ela tem o cheirinho do leite da mamãe.

CARLINHOS, sai daqui agora, moleque - vai embora. Sai agora, vaza. E só volta na semana que vem no mesmo horário, e limpa este nariz sujo, seu catarrento.

Sim, senhor, sim senhora, desculpe, sim senhor...

É isto aí!

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

O Leão e a Amizade

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Esta lenda é originária de Angola.

Dois amigos costumavam encontrar-se todos os dias, numa das conversas um deles comentou:

- Os leões estão a aparecer nas redondezas. Tem cuidado com a tua casa, para evitares um desgosto.

- O Leão não poderá entrar. Tenho espingarda e lança.

- Enganas-te, porque não podes lutar com o Leão.

- Tenho a certeza que posso.

Ambos riram e continuaram a conversar até que por fim se separaram.

Passou-se um mês desde quando o rapaz tinha avisado o amigo, arranjou um meio de se transformar em Leão e resolveu atacar o camarada rugindo ferozmente.

Arranhou-lhe a porta de casa e encontrou o amigo a dormir. Levantou-o, bateu-lhe e desfez tudo aquilo que encontrou. Deixando o amigo em má situação, retirou-se e voltou à forma de homem.

No outro dia, foi visitar o amigo que atacara e este disse-lhe:

- Pobre de mim! O Leão veio aqui e destruiu tudo!

- Porque não fizeste fogo ou lhe meteste a lança?

- Meu amigo, o Leão é forte como a amizade!

Fonte: http://esoterismo-kiber.blogs.sapo.pt/tag/lendas-de-angola

É isto aí!

Cinderela, a contestadora