sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Nunca fuja dos seus problemas.

Chegou em casa metodicamente às vinte e uma horas. Encontrou a porta do apartamento apenas encostada, achou estranho, mas nada que fosse capaz de assustá-lo, pois já ocorrera em outras ocasiões. Entrou em silêncio e dirigiu-se ao quarto, e para espanto, surpresa e dissabor, a esposa dormia sob cobertas, candidamente aos braços do Oliveira, um idiota do quarto andar.

Voltou sobre os mesmos passos para não despertar os amantes. Saiu e nunca mais voltou. Entrou no carro aos prantos, dirigiu por umas três horas, parou numa cidadezinha discreta, onde tentou dormir e não conseguiu. Na manhã seguinte seguiu sem rumo para algum lugar onde pudesse se encontrar. Rumou para a Bahia, sem motivos que justificassem, pois detestava praia.

Uma semana parando aqui, ali e acolá até chegar em Jandaíra, na divisa com Sergipe. Aquietou-se numa pousada, onde conheceu Dasdô, uma morena estonteante, educada e o melhor, de boa prosa. Dasdô tinha acabado de enviuvar, estava ali sem rumo e sem presente, e ele querendo ficar sem passado. Aquilo podia dar futuro.

Passado uns seis meses resolveu retornar, para ajeitar as coisas, cuidar do divórcio, pegar suas coisas e sobretudo, livrar-se da ferida que acabou levando-o ao seu amor. Ao chegar ao prédio, o porteiro pediu que aguardasse, enquanto chamava pelo síndico. Uns vinte minutos se passaram, a polícia apareceu e o levou à delegacia, por duplo homicídio doloso, por motivação passional. 

Naquela noite que sumiu, o casal de amantes fora assassinado por sua arma, encontrada sob a cama. Nunca conseguiu provar inocência e a viúva do Oliveira, de posse de uma pequena fortuna de seguro, vendeu o patrimônio que acumularam e mudou-se para local incerto e não sabido. Seis anos depois, livre, volta para Jandaíra, aos braços de ... hummm, tem nada disto, ninguém volta ao que acabou.

É isto aí!



quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Os Anjos do Senhor I

A origem dos Anjos

Os anjos não existem desde a eternidade, eles foram criados por Deus no momento de sua criação ( Ne.9:6 - Sl.148:2; Cl.1:16 ). A bíblia não indica com precisão em que parte foram criados, mas podemos entender que isso deve ter acontecido imediatamente após ter criado os céus e antes de ter criado a terra, segundo podemos ver em Jó 38:4-7 – Gn.1:1; 2:1. Não podemos também definir número, mas sabemos que um exercito compreende grande quantidade e uma legião compreende um número grandioso ( Dn.7:10; Mt.26:53; Hb.12:22 ).

Deus certamente criou todos de uma só vez, pois os anjos não tem capacidade de propagar-se como o homem ( Mt.22:30 ).

A palavra original correspondente no grego é ( a g g e l o z = angelos ), é usado tanto para mensageiros humanos ( I Rs.19:2; Lc.7:24 e 9:52 ), quanto divinos.

O propósito da sua origem:

- Os anjos foram criados para darem glória , honra e ações de graça a Deus.
- Os anjos foram criados para adorarem a Cristo ( Hb.1:6 )
- Foram criados para cumprirem os propósitos de Deus:
- O ARCANJO: - Proteção de Israel ( Dn.12:1 ).
- Luta contra Satanás ( Judas 9; Apc.12:7 ).
- Anuncia a Vinda de Cristo ( I Tess.4:16 ).

Os Querubins guardam o trono de Deus ( Ez.10:1-4 )4.
Os Serafins se preocupam com a adoração a Deus perante o Seu Santo Trono ( Is.6:2-7 )
As diferentes ordens de Anjos, assistem a Deus em sua obra Soberana ( Col.1:16 e 2:10; Ef.1:21 e 3:10 ).

A natureza dos Anjos.

- Não são seres humanos glorificados (Hb.12:22,23):
- São seres espirituais – Incorpóreos ( Hb.1:14 ). Não tem corpo físico, mas podem assumir forma corpórea ( Gn.18:19 ). (Sl.104:4; Hb 1:7; Ef.6:2; Mt.8:16; 12:45; Lc.7:21; Apc.16:14 ).

São imortais – Os anjos não estão sujeitos à dissolução: nunca morrem. A imortalidade dos anjos se deriva de Deus e depende de Sua vontade. Os anjos são isentos da morte, porque assim Deus os fez. ( Lc.20:35,36 ).

** Não se reproduzem conforme a sua espécie – As escrituras em parte alguma ensina que os anjos são seres assexuados. Inferências encontramos referindo-se aos anjos, com o uso de pronomes do gênero masculino ( Dn.8:16,17; Lc.1:12,29,30; Apc.12:7; 20:1; 22:8,9 ). Mas, não obstante, o casamento, a reprodução, não é da ordem ou do plano de Deus.

- São poderosos – Dotados de poder sobre-humano ( Sl.103:20; II Pd.2:11 ).

- São uma classe de seres criados superiores aos homens ( Sl.8:5; Hb.2:10 ). Contudo, esse poder tem seus limites estabelecidos e não são Onipotentes ( II Ts.1:7; II Sm.24:16,17 ).

Veja demonstração de poder dos anjos – ( At.5:19; 12:7,23; Mt.28:2 ).
Obs: Quão capazes, portanto, são os anjos bons para ministrar ao homem; Confiemos, portanto, na força do poder do Senhor e de seus ministros, Amém!

São seres velozes – ( Mt.26:53 ) O pensamento que deve ser destacado é que os anjos podem, instantaneamente, aparecer em defesa de seu Senhor e nosso Deus. Como essas legiões de anjos podem passar com tal rapidez do céu à Terra, ultrapassa nosso entendimento. Sabemos apenas que a possibilidade do fenômeno indica uma atividade e rapidez verdadeiramente maravilhosa.

São seres com personalidade e identidade pessoais:
- Inteligência – Dn.10:14
- Emoções – Jó 38:7
- Vontade – Is.14:13,14
- Não são Oniscientes – Mt.24:36
- Não são Onipresentes – Dn.9:21-23
- Não são Onipotentes – Dn.10:13
- São perfeitos e sem falha – ( Gn.1:31 )
- São seres gloriosos.
- São dotados de dignidade e glória sobre-humanos.

Eis alguns dos principais Anjos do Senhor, da milícia celestial:

Serafins –  Que nos abrasem no amor a Deus, inflamem nosso coração no carinho a Maria. Que só nos entreguemos, louvemos e sirvamos a Deus.

O nome serafim vem do hebreu saraf (שרף), e do grego, séraph, que significam "abrasar, queimar, consumir". Também foram chamados de ardentes ou de serpentes de fogo. É a ordem mais elevada da esfera mais alta. São os anjos mais próximos de Deus e emanam a essência divina em mais alto grau. Assistem ante o Trono de Deus e é seu privilégio estar unido a Deus de maneira mais íntima, e são descritos em Isaías como cantando perpetuamente o louvor de Deus e tendo seis asas.

 Querubins - Que nos ajudem nas tentações, contra a fé, pureza e escrúpulos.

Do hebreu כרוב - keruv, ou do plural כרובים - keruvim, os querubins são seres misteriosos, descritos tanto no Cristianismo como em tradições mais antigas às vezes mostrando formas híbridas de homem e animal. Os povos da Mesopotâmia tinham o nome karabu e suas variantes para denominar seres fantásticos com forma de touro alado de face humana, e a palavra significa em algumas daquelas línguas "poderoso", noutras "abençoado".

No Gênesis aparece um querubim como guardião do Jardim do Éden, expulsando Adão e Eva após o pecado original (Gênesis 3:23-24). Ezequiel os descreve como guardiães do trono de Deus e diz que o ruflar de suas asas enchia todo o templo da divindade e se parecia com som de vozes humanas; a cada um estava ligada uma roda, e se moviam em todas as direções sem se voltar, pois possuíam quatro faces: leão, (O leão sempre foi reconhecido como forte, feroz, majestoso, ele é o rei dos animais e essa face simboliza então sua força). touro, (o touro é reconhecido como um animal que trabalha pacientemente para seu dono. Ele é forte, podendo carregar um urso, e conhece o seu dono). águia, (como um anjo, este pássaro voa acima das tempestades, enquanto abaixo delas existem tristezas, perigos, e angústias. Um pássaro ligeiro e poderoso, elegante, incansável) e homem, Esta face fala da mente, razão, afeições,e todas as coisas que envolvem a natureza humana, isso, para alguns estudiosos, significa que eles assim como os homens possuem o livre arbítrio. E eram inteiramente cobertos de olhos, significando a sua onisciência (Ezequiel 10). Mas as imagens querubins que Moisés colocou sobre a Arca da Aliança tinham forma humana, embora com asas (Êxodo 25:10-21; Êxodo 37:7-9).

Os Querubins, para alguns teólogos, ocupam o topo da hierarquia, pois alguns não consideram os serafins como anjos , uma vez que a palavra hebraica para anjo é "malak" (mensageiro) e da mesma forma no grego, anjo é "angelus" (mensageiro) e estas figuras aladas que aparecem, na Bíblia, apenas em Isaías capítulo 6, onde exaltam a Deus mas não comunicam mensagens ao profeta.

São Jerônimo e Santo Agostinho interpretam seu nome como "plenitude de sabedoria e ciência". São representados muitas vezes como crianças pequenas dotadas de asas, chamados putti (meninos) em italiano. Têm o poder de conhecer e contemplar a Deus, e serem receptivos ao mais alto dom da luz e da verdade, à beleza e à sabedoria divinas em sua primeira manifestação. Estão cheio do amor divino e o derramam sobre os níveis abaixo deles.
Tronos - Que esclareçam e iluminem os governantes, bispos e responsáveis por comunidades religiosas e civis.

Dominações - Que esclareçam os hereges, ateus e incrédulos. Também pelos que se empenham em difundir o reino de Deus.

As Dominações ou Domínios (do latim dominationes) têm a função de regular as atividades dos anjos inferiores, distribuem aos outros anjos as funções e seus mistérios, e presidem os destinos das nações. Crê-se que as Dominações possuam uma forma humana alada de beleza inefável, e são descritos portando orbes de luz e cetros indicativos de seu poder de governo. Sua liderança também é afirmada na tradução do termo grego kyriotes [küriotés], que significa "senhor", aplicado a esta classe de seres.

São anjos que auxiliam nas emergências ou conflitos que devem ser resolvidos logo. Também atuam como elementos de integração entre os mundos materiais e espirituais, embora raramente entrem em contato com as pessoas.

Virtudes - Que melhorem nossa vida espiritual, dando-nos coragem e força para cumprirmos as boas resoluções, (façamos-lhes a entrega de nossa oração pessoal).

As Virtudes são os responsáveis pela manutenção do curso dos astros para que a ordem do universo seja preservada. Seu nome está associado ao grego dunamis, significando "poder" ou "força", e traduzido como "virtudes" em Efésios 1:21, e seus atributos são a pureza e a fortaleza. Pseudo-Dionísio diz que eles possuem uma virilidade e poder inabaláveis, buscando sempre espelhar-se na fonte de todas as virtudes e as transmitindo aos seus inferiores.

Orientam as pessoas sobre sua missão. São encarregados de eliminar os obstáculos que se opõe ao cumprimento das ordens de Deus, afastando os anjos maus que assediam as nações para desviá-las de seu fim, e mantendo assim as criaturas e a ordem da Divina providência. Eles são particularmente importantes porque têm a capacidade de transmitir grande quantidade de energia divina. Imersas na força de Deus, as Virtudes derramam bênçãos do alto, frequentemente na forma de milagres. São sempre associados com os heróis e aqueles que lutam em nome de Deus e da verdade. São chamados quando se necessita de coragem.

Potestades - Que removam os obstáculos que possam impedir a execução dos desígnios de Deus, desfazendo as armadilhas e ciladas do inimigo. Também que inspirem os sacerdotes a se santificarem.

As Potestades ou Potências são também chamadas de "condutores da ordem sagrada". Executam as grandes ações que tocam no governo universal. Eles são os portadores da consciência de toda a humanidade, os encarregados da sua história e de sua memória coletiva, estando relacionados com o pensamento superior - ideais, ética, religião e filosofia, além da política em seu sentido abstrato.

Também são descritos como anjos guerreiros completamente fiéis a Deus. Seus atributos de organizadores e agentes do intelecto iluminado são enfatizados pelo Pseudo-Dionísio, e acrescenta que sua autoridade é baseada no espelhamento da ordem divina e não na tirania. Eles têm a capacidade de absorver e armazenar e transmitir o poder do plano divino, donde seus nomes.

Os anjos do nascimento e da morte pertencem a essa categoria. São também os guardiões dos animais.

Principados - Que defendam e protejam nosso país, cidade, Igreja. Que ajam como instrumentos de Deus na realização de milagres.

Os Principados, do latim principatus, são os anjos encarregados de receber as ordens das Dominações e Potestades e transmití-las aos reinos inferiores, e sua posição é representada simbolicamente pela coroa e cetro que usam. Guardam as cidades e os países. Protegem também a fauna e a flora. Como seu nome indica, estão revestidos de uma autoridade especial: são os que presidem os reinos, as províncias, e as dioceses, e velam pelo cultivo de sementes boas no campo das ideologias, da arte e da ciência.

Arcanjo Miguel - Que combata por nós o inimigo e o precipite do inferno, desfazendo toda a mentira e ilusão da qual se serve. Que aumente em nós o amor a santa missa e sagrada Eucaristia.

Arcanjo Gabriel – Que aumente em nós o amor a Mana e lhe apresente nossos pedidos.

Arcanjo Rafael - Que nos defenda das potências do mal, das doenças e nos acompanhe nas viagens. Que seja nosso consolo nas dificuldades e nos fortaleça no desânimo e depressão. Também que ilumine os padres confessores e orientadores espirituais.

Anjos da guarda - Que nos guardem, governem e iluminem. Que nos inspirem, suscitando-nos boas ideias e propostas.

É isto aí!

Como escrever um conto popular

Vladimir Propp (São Petersburgo, 29/04/1895 - 22/08/1970) foi um acadêmico estruturalista russo que analisou os componentes básicos do enredo dos contos populares visando identificar os seus elementos narrativos mais simples e indivisíveis. Foi um dos expoentes da narratologia. Propp recolheu vários contos tradicionais até chegar a um "corpus" de 449 contos. Procurou uma estrutura nesse corpus e encontrou 31 funções.

Propp demonstrou que os contos populares se constituem sempre em torno de um núcleo simples. O herói sofre um dano ou tem uma carência, e as tentativas de recuperação do dano ou de superação da carência constituem o corpo da narrativa.

As 31 funções podem ser agrupadas em 7 esferas de ação, agrupadas por personagens:

1ª Esfera - O agressor (o que faz mal)
2ª Esfera - O doador - o que dá o objeto mágico ao herói
3ª Esfera - O auxiliar - que ajuda o herói no seu percurso
4ª Esfera - A Princesa e o Pai (não tem de ser obrigatoriamente o Rei)
5ª Esfera - O Mandador - aquele que manda
6ª Esfera - O Herói
7ª Esfera - O falso herói


Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Vladimir_Propp



Eva, os iconoclastas e os enxames.

Leio blog de feministas, bem como de machistas. Não se pode perder o fio da meada. O que descobri é que feminista é feminista, e machista tem vertentes, sub-classes e divisões inferiores. Esta divisão apresenta diversas matizes, como os iconoclastas (fala sério - quantas vezes você já empregou esta palavra em alguma fala, texto ou pensamento? Eu esperei anos luz para encontrar um jeito de encaixá-la).

Aqui falo da iconoclastia (uau) no que se refere àqueles que vivem apenas para minar a reputação alheia, no caso, das feministas. Eles não tem uma ideologia formada, alicerçada em fundamentos sólidos (não aqueles sólidos residuais da maré baixa, mas os filosóficos). Apenas agridem, chutam, vociferam e isto faz deles apenas soldados desarmados em campo de batalha.

Tem os misóginos, com aversão às mulheres. É interessante notar que estes grupos são compostos por heterossexuais cisgêneros. Hã? Que negócio é este de cisgênero? Então - tem umas palavrinhas que estão entrando no nosso vocabulário tão devagar que a gente estranha pelo contexto, mas não se assusta com a grafia. Do latim, cis significa “do mesmo lado”. Cisgênero é um homem que nasceu com o sexo masculino definido e se expressa socialmente como homem (expressão de gênero), é decodificado socialmente como homem (papel de gênero) por vestir-se/comportar-se/aparentar com aquilo que a sociedade define próprios para um homem, e reconhece-se como homem (identidade de gênero), logo, é um homem (gênero). O mesmo vale para as mulheres.

Tem os fundamentalistas, e aqui a navegação é interessante - estão em todas as vocações religiosas, e neste item o sexo não importa, pois o comportamento é de enxame. Mas com subdivisões interessantes. Há enxames que fazem o enfrentamento com as feministas. Esta subdivisão tem pelo menos dois eixos: um que tem o intuito de dar visibilidade ao caráter fundamentalista de suas ações; e o outro, apregoado por forte esquema de políticas públicas de moral e civismo e pelos meios de comunicação moralistas que trabalham para que essa atividade terrorista/comunista/satânica das desviantes feministas e de todos que as apoiam sejam exterminadas para o bem da humanidade.

A outra subdivisão só tem comportamento de enxame em momentos únicos, por exemplo, quando em grupo, saindo ou entrando num evento da sua fé, e se depara com ações que vão de encontro à sua crença. Nada é fixo, nada supõe sistematização, longevidade, nem o território, pois, onde quer que estejam levam consigo sua marca; e nem mesmo há lideranças presentes.

Num outro enxame, que tomo a liberdade de denominá-lo de Enxame da Miséria Psicológica da Massa, e aqui vou dar uma esbarrada, dentro das minhas limitações psicanalíticas, na tese central de Freud sobre o mal-estar da civilização, onde há uma dimensão de conflito inerente ao sujeito em seu campo social que se presentifica em dois níveis: o da renúncia pulsional, que entendemos ser a troca "de um tanto de felicidade por um tanto de segurança" e o surgimento do que Freud chamou de "miséria psicológica da massa". Quando há uma cristalização nesse estado, "a ligação social se estabelece principalmente pela identificação dos membros entre si", e o sujeito cede a todos os ideais civilizatórios, identificado cegamente a um grupo. No estado de "miséria psicológica da massa" as singularidades são esvaziadas e submetidas a uma unificação do desejo, das escolhas, dos modos de apreender o mundo.

Já que toquei no assunto, bem, afinal o que querem as mulheres? perguntou Freud. Querem ser amadas e desejadas. Mulher gosta de se sentir única, singular, exatamente porque ela não tem uma definição padrão do que é ser mulher, e daí inventa a sua essência, não sob a óptica masculina, mas sob o seu desejo, e só a mulher tem a capacidade de fazer isto. Nós, filhos de Adão, somos retos, padronizados, torcemos pelo mesmo time, usamos a mesma roupa em várias ocasiões, tomamos a mesma marca de bebida, etc. Daí esta bronca toda. Basta elas se reinventarem que a maré sobe, como subiu no Paraíso.

É isto aí!


quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Ensaio Geral

Muito bem, todos nos seus lugares. Começando em 3... 2

- Espera senhor diretor

- Mas que merda! Fala Contra-Regra

- É que tem duas mulheres, e o roteiro só fala em uma.

- Caralho, quem colocou esta porra desta mulher aí?

- Fui eu, diretor, ela é minha namorada, então eu achei que ninguém iria notar.

- Alécio, você está doidão? Você bebeu, fumou, cheirou, introduziu ou inalou alguma coisa?

- Não, é que eu pensei que...

- Aqui você não pensa porra nenhuma, entendeu? Agora tira esta merda desta piranha daí.

- Hummm, magoei, diretor.

- Caramba. Gente, vamos continuar e deixem o Alécio chorando, que uma hora ele para.

- Muito bem, Ato três, cena quatro, todo mundo que está sobrando, cai fora e silêncio!

- Chega, cansei, não faço mais isto, estou fora.

- Puta que o pariu, Carmélia Cristina, está fora do que?

- É o Artuzinho, diretor, ele está diferente comigo, não me dirige as falas com educação, amor e cortesia.

- Mas não é ele, é o personagem, entendeu? É o personagem. Você não passou o texto?

- Passar passei, mas vai não vai rolar mais nada entre a gente???

É isto aí!

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Dalvinha na forma da lei

Dalvinha tinha dezoito anos e residia com a irmã e o marido, médico novo, educado, que a apresentou ao amigo, o entediante Dr. Torres, o mais antigo dentista da região, viúvo, com os dois filhos e netos morando na capital. Foi assim que a moça se viu casada com o odontólogo e tornou-se vizinha do delegado.

Então, certa vez, ainda de madrugada bateram na janela da autoridade policial. A patrulha comunicou que o médico tinha morrido. Levantou ainda tonto pela noitada anterior, acordou com dificuldade, dispensou os soldados e foi fazer um café.

Assim que abriu a porta dos fundos, para lavar o rosto no tanque, observou um vulto e percebeu que era a Dalvinha, com uma agilidade felina, pulando a cerca da divisa em direção à sua casa, provavelmente antes que o marido desse pela falta.

Tomou banho sem pressa, barbeou-se, procurou a melhor farda, e saiu a pé pela ladeira orvalhada em tons dourados do sol nascente, que lhe validava o apelido de Ladeira do Ouro.

Chegou à praça da Matriz, onde estavam diversas personalidades importantes, entreolhando-se e se perguntando como se deu uma morte tão rápida de homem jovem e pletórico?! Um conhecido das farras e carteado o puxou pelo braço e delatou sobre a suspeita de que o falecido estava de caso com a Dalvinha, e que talvez o dentista o tenha envenenado. Assim que falou e não viu nenhuma expressão no rosto do delegado, engoliu em seco, pigarreou, tossiu, sorriu sem graça, levou a mão na garganta e saiu em silêncio.

Passou na casa, cumprimentou e manifestou seus pêsames à viúva, visivelmente triste e abalada. Foi na farmácia comprar uma aspirina, mas o decano farmacêutico levou-o compulsoriamente até os fundos e  desabafou com sua voz rouca e asmática - delegado, eu acho que estou encrencado - estou tendo um caso com a Dalvinha usando o sobrado da loja para nossos encontros furtivos. Estou com medo, por que dizem que o médico também estava se relacionando com ela e vai que estas informações se cruzam. Eu sou inocente. Deu um abraço no velho amigo da família, encorajando-o - Para com isto, esqueça a Dalvinha e pronto. Não vou permitir que nada te aconteça.

No velório, o Dr. Fagundes, um juiz aposentado com seus quase noventa anos de vida, acenou para que aproximasse e pediu ajuda, pois vinha tendo uma relação intensa com a Dalvinha e parece que o médico também ... Com um forte aperto de mão no idoso, disse que iria resolver aquilo da melhor forma e que esquecesse a Dalvinha, pois existiam outras moças tão ou mais bonitas e disponíveis que ela, esperando por alguém.

As cantorias, as velas, os cochichos, as garrafas de café com biscoitos de polvilho, um bando de mulheres na cozinha e grupos espalhados pela mansão. O dia foi lento e tenso, com olhares, pudores, discursos e eventos lembrados com o morto. Um mês depois recebeu o laudo da autopsia, feita na capital, dando conta de uma falência súbita por uma cardiopatia grave, que era de conhecimento do falecido. Portanto, nada de crime.

Guardou silêncio, chamou os envolvidos com a esposa do dentista, e em conversas reservadas aconselhou ficarem longe dela, pois o laudo dava brecha para suposições. Tudo arranjado nas formas da lei, amasiou com Dalvinha, a quem jurou amor eterno e fidelidade.

É isto aí!

domingo, 27 de setembro de 2015

A paz do mundo


Vou poetar um poeminha meu, pequeno sem graça, sem jeito sem riso:

Estou contra
a paz do mundo
que faz de conta
que é rotundo

O que não se conta
e faz acúmulo
é que a paz do mundo
jaz no túmulo.

sábado, 26 de setembro de 2015

Geraldinha & Agenor, o nerd



Não existe felicidade, Geraldinha.

Como assim, Agenor?

Não existe e pronto, assim como não existe céu azul.

Danou-se de endoidar agora, homem. Se estudasse menos seria mais feliz. Olha lá fora, veja o céu - é azul.

Geraldinha, não tem nada de azul no céu, a não ser seus olhos.

Mas que homem burro. Meus olhos são castanhos quase pretos, Agenor.

Isto é verdade. Seus olhos são castanhos, quase pretos.

Finalmente concordamos com algo.

E vai concordar sobre o céu e assim por analogia, sobre a tal da felicidade.

Então fala, seu doido.

Geraldinha, o céu parece mais azul quando está limpo de poeira e fumaça, como acontece muitas vezes após uma chuva. Mas o fato real é que ele também muito transparente, porém não perfeitamente transparente.

Claro, não é Agenor? Se não fosse transparente, a gente não se via.

Mas bolinava, não é não?

Eita, Agenor, não se assanhe. Conta o resto.

O céu, o nosso céu, que chamamos de atmosfera. Atmos do grego é Vapor e Esfera é esfera mesmo. Então as moléculas de tudo que está disperso no ar passa a ser obstáculo para ... Geraldinha, para com isto.

Bobagem, Agenor, bobagem... vem cá que eu vou te condensar na minha atmosfera.

Geraldinha, eu estou te explicando uma coisa séria, Geraldinha, não faz isto, ah, não!! por favor... não... nãããão...

É isto aí!

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Os canalhas e as almofadas com cheiro de peido




Dia destes ouvi uma expressão curiosa, onde a pessoa comentou sobre determinado cidadão, comparando-o às almofadas de casa de rico, com cheiro de peido. Logo imaginei aquelas almofadas macias, confortáveis, de tecidos caríssimos, exalando o odor dos gases pútridos dos grã-finos. E não é que ao ver o indivíduo num acontecimento social, a imagem batia com a descrição?

De outra feita, um destes imaculados e santificados senhores da mais alta corte vil e infame, rico pela canalhice e poderoso pela usurpação, cumprimentou-me na saída de um evento futebolístico - sim, meus amigos, eu ainda acredito nos estádios. Repliquei o cumprimento, por que aprendi na infância, numa crônica do Nelson Rodrigues, onde falava sobre a expectativa para a Copa de 1970:

- "Desde quando o bonito ganhou a Copa? Demais a mais, só os subdesenvolvidos têm escrúpulos. O inglês é um grande povo. Na guerra, salvou o mundo com a sua resistência. Mas em 66 a Inglaterra foi de um descaro empolgante. Manipulou juízes, baixou o pau, fez horrores e ganhou. Portanto, com as suas qualidades o inglês salvou o mundo; com os seus defeitos, ganhou a taça."

Então guardei isto num canto qualquer do meu superego - só os subdesenvolvidos têm escrúpulos. Para ser capaz de combater o bom combate contra os almofadinhas com cheiro de peido e os canalhas de plantão, enalteçamos nosso espírito bretão, afinal nossa pátria mãe ibérica nasceu pela virtuosidade celta.


É isto aí!


quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Nunca mais Paris outra vez!


No café da manhã, leu no jornal que seu corpo seria velado na capela da cidade. Achou aquilo um tanto bizarro. A sua fotografia na reportagem era referente à um recente baile no Clube das Garças. Fixou o olhar na imagem para observar uma linda mulher bem ao seu lado esquerdo, com a mão direita sobre seu ombro, que não se lembrava quem era. Voltou à leitura, onde alguns amigos deram depoimentos que não conseguiram emocioná-lo. Acreditou que estava sonhando.

Tomou banho, colocou uma roupa discreta, ligou a televisão, e o apresentador falava da sua morte. Começou a achar que era sério, pois pessoas do seu círculo social, com voz embargada, entre lágrimas, falavam da sua importância política, social e econômica para a região.

O interfone toca. Atende, era uma voz feminina aparentemente conhecida, mas sem identificação. Manda subir. A moça, uma beldade da natureza feminina, entra com um sorriso enigmático nos lábios cerrados. Era a mesma da tal fotografia e abraçam-se em silêncio por um longo tempo. Enquanto afaga seus cabelos, olha novamente para seu rosto e não se recorda de onde a conhece.

Estou morto? - indagou - Então é assim que acontece? Empurrou delicadamente a garota para olhar nos seus olhos. Fitaram-se por uma eternidade. Quando deu por si, a beijou e só então percebeu que, de uma forma inexplicável, abriu-se um portal - o corpo dela transformou-se em passagem para um labirinto de luz e mistério.

Uma mulher apareceu e informou-lhe entrasse com muito cuidado, pois aquele era o cérebro da amada. Então ela bateu três palmas e duas moças com vestal sacro foram guiando o embasbacado visitante entre os neurônios, e ao redor seus olhos vislumbravam o efeito de bilhões de luzes neuro-neon, de múltiplas cores. Chegou na Amígdala Cerebrosa, onde dezenas de ninfas guardavam a entrada. As duas anunciaram o visitante. As ninfas deram passagem e continuaram a caminhada.

Todos os conteúdos emocionais presentes na memória da moça afloraram em sua mente. Ela o amava, sempre o amou, tudo nela e dela eram para ele. Mas onde eu estive enquanto quando fui amado de forma tão profunda? - se perguntava.  

Chegando num amplo salão, muito claro, mas sem luz aparente, percebeu-se só, e por instinto seguiu um facho de luz de intensidade maior. Deste ambiente seguiu para um adro, com sepulturas antigas e inscrições desconhecidas. Ela surgiu e lhe deu outro abraço, desta vez com um amor intenso. Eu te amo, eu te amo, eu te amo, sussurrou sem pressa.

Atento à todo aquele amor, meditou no mais profundo do seu pensamento - eu aqui, no bem bom ... quer saber? Nunca mais Paris outra vez!

É isto aí!


terça-feira, 22 de setembro de 2015

Paixão atávica

Vou poetar um poemameu:

Ela estudava lógica
Ele entonava graves
Ela traçava metas
Ele cantava óperas

          Ela dormia nua
          Ele insone clássico
          Ela sorria plácida
          Ele andava trôpego

                Ela ambidestra
                Ele anti-ético
                Ela chorava à mesa
                Ele escutava céptico

                      Ela psicótica
                      Ele distópico
                      Ela em sorriso tetânico
                      Ele com olhar despótico

                            Ela com choro trágico
                            Ele com gestos simbólicos
                            Ela fúnebre
                            Ele pernóstico

                                  Ela gélida excêntrica
                                  Ele excitação galvânica
                                  Ela anoréxica anêmica
                                  Ele com taras crônicas

                                        Ela foi ao médico
                                        Ele era a causa
                                        Ela sentiu-se péssima
                                        Ele evolução clássica

                                              Ela trocou as receitas
                                              Ele trocou os comprimidos
                                              Ela ficou atônita
                                              Ele reprimido

                                                    Ela desesperou aflita
                                                    Ele com dores cósmicas
                                                    Ela leu o diagnóstico
                                                    Ele era paixão atávica
                                             
                                 É isto aí!

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Poema medíocre


Por muito pouco a encontraria na praça. Havia escrito um poema único, doce, inocente e metódico. Coexistiam simetria e bom gosto, com as palavras suaves, ditas em elegante harmonia. Não tinha como dar errado, ela era a musa e aquele era o poema da nossa vida.

Busquei-a nas redes sociais, nos bares, nas esquinas, nos clubes, na faculdade, na rua, e nada encontrei. Era um poema lindo, feito como as tardes de outono, em serena brisa, céu azul e clima ameno. revisei as rimas, revisei as frases, revisei as palavras, reboquei o tema, alterei sinônimos, promovi sílabas tônicas e exaltei os átonos.

Havia em mim um poema, e de tão íntimo e profundo era seu conteúdo, que seria a nossa marca, o nosso destino selado por palavras que somos nós em códigos gráficos. Linda, tão linda, tão poesia, de tal forma que fiz um poema de cunho universal, englobando e envolvendo nossas almas, traduzindo-as na mais sagrada comunhão que une dois amantes.

Vivenciei um sentimento etéreo, decodifiquei a angústia das minhas insônias ... insônias ... malditas noites insones. Foi numa destas que saí para desmotivar minha ansiedade e ela passou - era apenas um poema medíocre nos braços de um apedeuta qualquer - não valia tudo que estava escrito.

É isto aí!

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Eu sou chato, mas sou legal

Olá, você está sozinha? Incomodo? Perturbo? Ocupo seu espaço sideral, lateral ou diagonal assimétrico? Gostou, não é mesmo? - O assimétrico é por conta das curvas da sua exposição espacial, que me apraz e seduz.

Eu até que sou tímido, mas é que ando tão esquisito, assim meio que, sabe, algo diferente, tipo assim, não sou eu em mim, entende? Tenho persistido em muitas situações meio que déjà vu.

Então ... se fala assim mesmo - déjà vi, mas escreve-se vu, é uma coisa meio que maluca isto, não é? Feito eu assim, meio que maluco, meio que doido, meio que sem sentido, mas plácido e lúcido.

Não, não cheirei nada não, nem inalei, nem traguei ou sequer injetei. É o meu normal isto daí, sou trans-normal, é uma coisa só minha, sabe? Só minha, assim como quero você só minha, estas coisas são só minhas, tipo assim uma rima poética sem licença ambiental. Deixa prá lá.

Por que você é tão linda assim? Eu queria poder te dar uma mordida, espera - melhor do que isto, uma dentada. Se vai ficar marca? Claro, será a minha marca.

Então? Vai ter um rola-moça ou você vai ficar aí com cara de paisagem? Olha, pode falar o que quiser, eu tenho espírito democrático, e esta bendita reação psicológica que faz com que meu cérebro transmita em High Fidelity, que é uma coisa pós pós estratostérica.

Não, eu não quis dizer estratosférica, de estar fora de uma esfera, e sim tostérica, que seria um neologismo quanto ao assento de escravos nas galés. É interessante, isto eu sei, eu sou um cara interessante.

Espera, não vai embora, eu posso querer te ouvir para saber seu nome, sei lá, que deve ser Débora. Não? Não é Débora? Espera - já sei, você se chama Linda, Não? Não é linda? Como assim? Volta aqui, por favor, não me abandone, eu sou chato, mas sou legal... Merda, estas coisas só estão ocorrendo por que eu não estou nada bem. Acho que vou me dar um tempo para esgotar um pouco de mim..

É isto aí!


Ele que vá à reputa e à triputa que o pariu!


Autor de Macunaima, Pauliceia Desvairada, Amar, Verbo Intransitivo e muita poesia, ensaios, estudos e com forte interatividade na formação antropológica da identidade e cultura nacional, Mario de Andrade também era um homem que colecionava inimigos.

Getúlio Vargas o odiava muito, a ponto de proibir quaisquer manifestações sobre sua morte, prematura, em 1945. Esta censura durou quinze anos para ser desfeita.

Homem culto, quando apelava, Mário de Andrade apelava feio. Quando tentaram reconciliá-lo com Oswald de Andrade, que ele só chamava de “Osvaldo”, atacou, numa carta ao amigo e discípulo Murilo Miranda: 

“Ele que vá à reputa e à triputa que o pariu”. 

É isto aí!

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Xeba

Xeba era um garoto normal, com aspirações comuns à todos os meninos do bairro. Tinha sonhos, delírios e alucinações espontâneas que em nada diferenciavam dos outros garotos da cidade, do estado, do país, do mundo, do sistema solar e o escambau. Enfim, Xeba era normal.

Xeba era preto, negro, afro-descendente, nego, negão, e todas as variáveis pejorativas que os meritocratas descrevem em conversas reservadas em salões nobres da civilização. Mas isto não fazia dele outra raça - só existe uma única raça humana, com variáveis da tonalidade da pele. Enfim, Xeba era humano.

Xeba era pobre, muito pobre, família sem recursos, sem uma moradia digna, sem o conforto das vitrines, sem as roupas de marca, sem os tênis determinantes. Sua roupa, sempre limpinha, mantida pela habilidade manual da mãe, era sua armadura contra as tempestades do mundo.

Xeba amava seus pais que o amavam também. Estudava numa escola pública, dominada pelo terror, e todas as formas de terror eram comandadas por finos e elegantes senhores brancos da mais alta camada social da promiscuidade pungente, para que Xeba e seus iguais sempre se sentissem inferiores e violentos.

Xeba morreu numa tarde fria, chuvosa, numa esquina qualquer, de uma rua qualquer, ao passar por uma destas enormes catedrais de consumo. Só isto já bastou para fazer dele um suspeito. Nas manchetes estampadas em letras garrafais, a mídia subornada dava pelo tombamento de um perigoso meliante liquidado em troca de tiros com a lei, a justiça e a ordem.

Xeba morreu sem nunca ter dado um beijo de amor, sem nunca ter abraçado Rosinha, a menina mais linda da rua, sem nunca ter comido um sanduíche daqueles lugares bacanas, sem nunca ter tido a oportunidade de ter cometido um delito. É agora apenas uma estatística, um número perdido entre a realidade e a ficção de que somos todos iguais perante a lei.

É isto aí!

* Fonte da charge, cujo autor é Edidelson Silva:
http://arquivo.geledes.org.br/racismo-preconceito/racismo-no-brasil/13098-alo-e-do-iml-temos-um-suspeito-aqui-morreu-porque-era-negro

O Complexo de Vira-latas - Documentário

domingo, 13 de setembro de 2015

O analista da Pitangueira e o Rei dos Velórios

Sabe, doutor, eu adorava visitar cemitérios, participar de velórios, e quanto mais dramático, mais intensa era a minha participação. Toda quela carga emocional, as conversas paralelas, os que apenas acenam da porta, os que nunca entram, os que choram contidos, outros aos gritos, outros desmaiam.

Entendo ...

Numa determinada época, já profissional da morte, cheguei a morar próximo ao cemitério. Aí os compromissos foram aumentando. Visitar túmulos bonitos, procurar saber do que morreram estes ou aqueles, aguardar visitantes e conversar sobre o morto. Aquilo era uma benção em minha vida. Eu nasci para isto, doutor.

Acredita nisto?

Sim, claro, sou um predestinado à tanatofilia. Ela é um estar em mim, uma ascendência mórbida e ao mesmo tempo lírica. Eu amo, de paixão, o culto da morte. Mas aí algumas coisas foram acontecendo que começaram a criar obstáculos no meu destino.

Obstáculos? Consegue situá-los?

Bem, Tudo começou quando passei a perceber que as visitas aos túmulos foram diminuindo, e ao mesmo tempo o cemitério passou a ser habitáculo de drogas e prostituição. Até mesmo aqueles que trabalhavam com suas crenças atreladas ao ambiente, foram se esvaindo. As ladainhas sumiram, as carpideiras desapareceram, aí nesta altura vi que os mortos também estavam sós.

Sós? Também? Em que sentido?

Olha, só os grandes funerais passaram a resgatar aquela manifestação de luto eterno. Sabe, os famosos em qualquer coisa passaram a ter um tratamento vip, e o estranho é que ninguém sabe nada deles, a não ser a imagem da sua importância em cada um deles. Desculpe se estou confuso. Mas é que estou me sentindo como os mortos comuns, estou só.

Tudo bem, estou entendendo.

Não, não está entendendo. Puxa vida, olha doutor, ocorre que eu tinha uma companheira de velório, muito discreta, de quem acabei me tornando amante. Imagina isto. Eu, casado, servidor público, ela, casada, do lar. E nós dois em tórrida e discreta paixão nos velórios. Aquilo nos excitava tanto que é inenarrável. Tínhamos catacumbas preferidas, algumas com aquele cheiro inebriante da terra úmida, mas, e agora, doutor ... (mãos na face e pranto intenso) ... e agora ...

Você está perguntando?

Não, agora ela só curte a seção de Saudades Eternas no Youtube. Isto acabou comigo (voz embargada). Ela ... me trocou por um programa de rede. Isto está me matando, doutor, me matando.

Já pensou que esta pode ser a intenção dela? Um grande final como prova do amor infinito?  

Caramba ... não tinha pensado nisto. Agora tudo faz sentido, ela é a mulher da minha vida. Adeus, doutor.

Espera, não saia ainda, não faça nenhuma bobagem.

Bobagem? Vou chamá-la para produzirmos vídeos juntos. Uau! Era isto que faltava para apimentar nossa relação e eu não estava vendo. Valeu, doutor - estou curado! O senhor é bom mesmo!

É isto aí!


A Escada de Renda

Ela foi projetada e instalada em 2011 em um estiloso apartamento em Paris, mas seu sensacional design é atemporal. Esta escada criada em conjunto pela dupla de arquitetos Ammar Eloueini eMarc Fornes usa madeira e Corian para conseguir seu visual único. Delicado e atraente o charme do padrão gerado por computador transforma o conjunto no grande protagonista do imóvel. Bastante aberto na parte inferior o desenho rendado gradualmente se torna mais opaco em direção ao topo, enquanto os degraus de madeira se tornam mais espessos.
Fonte: http://www.bemlegaus.com/






sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Dor de corno é terrível


Naná em estado de alerta

Ouviu um barulho e sentiu um perfume familiar, então saltou a janela, caiu rolando na grama fofa do jardim, ainda deitado vestiu a calça, levantou ajeitando a camisa, e correu como um vento sem rumo, procurando um lugar seguro para ocultar sua presença. Num beco lateral, furtivamente agachou-se, calçou o sapato, arrumou o cabelo, afivelou o cinto, respirou aliviado, levantou-se e aguardou o táxi chamado pelo celular.
Assim que chegou ao trabalho, o telefone toca. Era a esposa 

- Querido, antecipei minha volta, já estou em casa.

- Que bom, amor. Ótimo.

- Por que você não foi trabalhar no seu carro? Ele está com defeito?

- Não, é que hoje resolvi ir de táxi, para deixar o carro com você assim que chegasse.

- Gostei disto. Assim que minha irmã acordar, vamos sair, ok?

- Certo, meu bem, certo...

- Só uma dúvida, meu bem, como você trancou a porta se esqueceu a chave em cima da mesa?

- Então, é que eu tenho uma reserva.

- Sei ..., e como pagou o táxi se esqueceu a carteira?

- Não, não esqueci, é que este é um método para que eu reduza meus gastos, amor.

- Sei ... Posso saber por que a nossa cama estava arrumada? Você dormiu em casa?

- Naná, você está me fazendo perguntas  estranhas. Está duvidando de mim?

- Euzinha? Não ... imagina! Meu bem, eu tenho que te contar uma coisa.

- Fala, querida. Sempre estou te ouvindo.

- Espero que você não fique chateado, eu não quis te falar nada antes, mas minha irmã veio passar umas semanas aqui para tratar de uma DST.

- DST Você disse DST? É aquela que estou pensando?

- É. isto mesmo, exatamente aquela, amor, tal qual você está pensando.

- Que que que rida, na ho ho ra que eeeeu che che gar, pre pre pre cisamos con con

- Conversar, não é amor?

- Si sim.

(a irmã) - Naná, que papo é este de falar que estou com DST no telefone?  

- Brincadeirinha, maninha, brincadeirinha ... agora arruma sua mala que vou te levar na rodoviária, por que se não está doente, ao permanecer aqui, vai ficar.

É isto aí!