terça-feira, 13 de outubro de 2015

Estou de greve, meu amor

- Você não me procura mais, disse a esposa com olha perdido.

- O marido olhou por cima do óculos, abaixou o volume da televisão, e procurou uma resposta nos olhos da reclamante.

- Nem vem me olhar com este seu jeito de quem não sabe do que se trata. Você não me quer, e eu exijo saber o motivo.

- Eu te procurei ontem.

- Mas ontem não valeu, eu estava com minha crise de enxaqueca.

- Na quarta-feira eu te procurei.

- Nesta quarta agora?

- Sim, nesta quarta agora.

- Então, eu tinha feito escova, mão e pés, além de uma massagem linfática, não tinha como atender à sua procura.

- Entendo. Mas um dia antes, na terça-feira...

- Ah, não, terça-feira é o dia que encontro com as meninas no clube das mães, para uma série de bate-papos sobre crises existenciais, neuroses, filhos, etc e ocorre que sempre é muito tenso. E você sabe como chego cansadeérrima, e eu já expliquei isto para você um milhão de vezes.

- É mesmo, tinha até me esquecido. Mas teve a segunda-feira ...

- Segunda? Segundinha?!?! Meu amor, você é muito esquecidinho, pois sabe que para acabar com meus excessos do final de semana, eu malho até o esgotamento total nas tardes/noites da segunda-feira, senão você vai sempre falar que estou gorda.

- Mas eu nunca falei que você era gorda.

- Viu? Viu? Eu sabia... 

- O que você sabia, querida?

- Você é um monstro - disse com bastante ênfase - "eu nunca falei que você era gorda". Isto quer dizer que no seu subconsciente você me acha no presente, uma gorda.

- Você está louca.

- Aí. Louca e gorda, o binômio clássico do homem insensível.

- Chega, cansei, vou dormir.

- Isto, continua esnobando a minha presença, Vai me evitando, vai, está cheio de homem aí fazendo fila para me querer.

- Sério? Então para esquecer o risco de te perder, vem cá, vem...

- Nem morta, você me chamou de gorda e nem se deu ao trabalho de desmentir ou pedir desculpas!!!! De louca eu não me importo muito, até por que sou meio maluquinha mesmo, mas gorda?? Estou de greve, meu amor, estou de gê-erre-é- vê- é, entendeu, meu bem? Greve e amanhã apresentarei as minhas reivindicações.

É isto ai!

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Culpido da Rede

Tarde de inverno, com vento gelado e chuva fina. Violeta era toda esperança. Conhecera Rodolfinho num site de relacionamentos, ao qual pagou para esta finalidade. Afinal os cupidos também aderiram à cibernética mundial e fazem A conhecer B, gostar de C, apaixonar-se por D, e padecer de amor por E.

Esta arte não é nenhuma novidade sob os céus de Paris, Hong Kong, New York e Caratinga, uma das mais importantes megalópoles do mundo, só perdendo em importância para Patópolis, Smallville, Metrópolis e Gothan City. Visto isto, voltemos ao amor sem conhecer o outro e mesmo assim ser amor.

Era uma vez uma gostosona chamada Afrodite, linda, sedutora e liberal, que foi casada contra a vontade com um deus manco e feio (sic), e aí deu de ter uma vida de adultérios, luxúrias e paixões. Não bastasse isto, exigia ser reconhecida como a mais bela de todo o universo. (Conseguiu ligar os pontos?)

Numa destas suas dezenas de aventuras extra e pan conjugais, gerou Eros. Veja só você, o erótico nasceu do pornô e não o contrário, como quer acreditar sua vã filosofia. Eros encarnava a paixão e o amor em todas as suas manifestações. Logo que nasceu, Zeus, sabedor das perturbações que iria provocar, tentou obrigar Afrodite a se desfazer dele. Para protegê-lo, a mãe o escondeu num bosque, onde ele se alimentou com leite de animais selvagens.

Afrodite era orgulhos e vaidosa, pois além de ser uma deusa muito doida, exigia ser a única lindeza linda lindona e lindíssima da área. Aí ouviu dizer nas coxias, nos bastidores, nos corredores, e nas camas que frequentava que existia uma moça mais linda do que ela. A mocinha chamava-se Psiquê (uma inocente e frágil encantadora e dócil e linda e pura moça pobre da periferia do Olimpo). (onde você já viu isto?)

Mamãe chamou o filhinho, que era caçador, e disse - Eros, leve suas flechas envenenadas com a semente da paixão e acerte em Psiquê para que ela se apaixone e se case com um homem feio, horroroso, cruel, manco, tarado e pobre, pois isto irá destruir sua beleza cândida. É claro que isto era uma questão mal resolvida em sua vida pregressa, pois foi forçada a se casar com deus manco e feio. Eros era de tudo um pouco, inclusive um voyeur nato. Foi à caça e ficou apaixonado pela mocinha pura e inocente. Ficava horas espionando suas atividades domésticas, culturais e seus inenarráveis banhos de purificação.

Toda noite Eros vinha ver Psiquê, mas em uma forma invisível, igual aos encontros de hoje pelas Redes Sociais. A moça estava vivendo muito feliz naquele barracão de zinco sem telhado lá no morro. Eros comprou um castelo, encheu de ouro, prata, perfumaria, empregadas, mordomos, etc, banheira de hidromassagem, churrasqueira (pobre adora churrasqueira) e mandou um mané do Olimpo pedir a mão da mocinha pura em casamento para ele, mas com o detalhe de que ela jamais poderia ver seu rosto, pois mamãe mataria os dois se soubesse daquilo.  e a mocinha aceitou aquele sacrifício de se mudar de seu pobre barracão para o suntuoso palácio do rapaz.

Desde então, Eros passava a noite com a amada, no escurinho do quarto, só numa relação relacionada relativa, na tela fria do computador do Olimpo, numa época sem luz nem internet nem netflix nem nada. E a danadinha não se deixava vencer pelo cansaço. Mas foi passando o tempo, e Psiquê ficava cada vez mais curiosa para saber como era seu marido. 

Certa noite, quando Eros veio ver Psiquê, eles se encontraram e se amaram com todo o ritual cabalístico do Facebook. Mas quando, esgotado pelas odes a Onã, adormeceu, Psiquê escondida e no silêncio do seu quarto, pegou uma lamparina espiã online, acendeu-a, e quando  viu o belo jovem de rosto corado e cabelos loiros, ficou encantada. Porém, num pequeno descuido, ela deixou o som do celular ligado, e quando o seu whatsapp deu um alarme das suas irmãs pobres, ele acordou assustado e, ao ver Psiquê na tela, desapareceu.

O encanto todo acabou, o palácio os jardins e tudo que havia em volta desapareceu, como num passe de mágica. Psiquê voltou a ser pobre, ficou sozinha num lugar árido, pedregoso e deserto. Aí Eros enlouqueceu, recorreu a Zeus, suspirou, chorou, bateu as asas, estremeceu o Olimpo, até que mamãe, vendo-se condoída pelo mal que causou ao filhinho e percebendo que a Psiquê era uma lindinha, mas bem chatinha, entediante e sem sal, liberou a passagem e os dois viveram felizes para sempre. 

É isto aí!


domingo, 4 de outubro de 2015

Julgamento pelo Tribunal da Consciência

Todos de pé, para recebermos Sua Excelência, o Meritíssimo Juiz do Tribunal da Consciência.

- Como o réu se declara?

- Inocente, meritíssimo.

- O senhor réu citou a palavra Meritíssimo com "eme" minúsculo ou foi erro de expressão?

- Desculpe, Meritíssimo, não ocorrerá de novo.

- Prossigamos com a Promotoria.

- Meritíssimo, o réu cometeu crime de traição à amada, ao manter um romance com outrem.

- Outrem da mesma natureza?

- Isto, meri, desculpe, Meritíssimo, outrem referindo-se a uma vulgar outra - o agravante deu-se em curso com aquela safada sentada ali, com roupa de biscate. Trata-se portanto de uma mulher fêmea do sexo feminino duplo X com padrão de identificação social característico das feminilidades convencionais deste modus operandi já esclarecido sobre a meretricem.

- E como a Promotora define o fato?

- Meritíssimo, o delito deveu-se ao relacionamento adúltero do réu com esta vadia sentada ali no canto, que partilha de um relacionamento libidinoso extra-conjugal com o traste, digo, com o réu aqui presente, e usurpa dos valores morais, cristãos e éticos da sociedade brasileira.


- A promotoria tem provas materiais, testemunhais, sociais, capitais, etc e tais? Parece-me que a Promotora considera que a moça também é ré, o que causa-me espécie, pois há conflito de versões entre as partes, que por si só, não é suficiente para imputar a responsabilidade ao acusado, sobretudo quando não há nos autos outros elementos probatórios que confirmem a sua autoria. Como bem sabe a senhora Promotora, aqui pode-se aplicar o principio do in dubio pro reo, absolvendo-o.


- Data venia, Maritissimo, tenho todas as provas que imputam o réu ao crime e tenho todas as ferramentas para provar que este cafajeste é merecedor da pena máxima.

- Mas como assim, o que é isto? Esta mulher é uma louca.

- Senhor, com réu, é proibida a sua manifestação neste recinto enquanto não autorizado, e caso queira contestar ou arguir a Lei, deverá ser por seu advogado legalmente constituído. Se o senhor não tiver um advogado o Tribunal da Consciência lhe concederá um dativo.

- Eu sou a advogada dele, Meritíssimo.

- Protesto, Meritíssimo. Como Promotora da Consciência, informo que esta senhora é a mãe dele. Senhor Juiz, peço o impedimento desta advogada por improbidade.

- Eu é que protesto, Meritíssimo, a promotora é quem deveria ser impedida por duplicidade de interesses.

- Isto é uma avacalhação. Quem a senhora pensa que é para falar assim de mim, e o pior, comigo?

- Eu sou a advogada e mãe do réu. E a senhora é a piranha que se sentiu traída por ele, que tem um relacionamento sério e honesto com a mocinha ali sentada.

- Piranha? repete, sua sua sua bruxa gorrrrda e velha.

- Gorrrda é como vai ficar a sua face de égua com o excesso de hematomas que vou provocar nela.

- Senhoras, por favor, senhoras - seguranças, alguém, guardas ...

- Depois deste tumulto desagradável no ambiente sagrado da essência da Lei Universal da Consciência, e com o impedimento natural, físico e amordaçado das partes, não declaro o réu inocente, mas desde já concedo-o habeas corpus preventivo perpétuo, por que já está condenado pelos autos da natureza.

É isto aí!

Quem é você?

Lili, você por aqui? Que surpresa agradável. Na realidade estou estupefato. Quantos anos, puxa vida, tem uns vinte anos que não te via, desde a nossa, quer dizer, da sua ... Bem, lembrei que fomos ao baile juntos, nossa - você estava tão linda, mas foi a última vez que te vi, não deu, pois é, não deu ... - a vida nos conduziu por caminhos estranhos e agora a vejo aqui. Você não vai acreditar, mas eu pensei em você todos os dias da minha vida desde a nossa, digo, da minha despedida.

Sabe o que estou achando estranho? Você não mudou nada. Está tão linda, tão jovem, tão - olha só, vou falar uma coisa aqui que não deve ser encarada de forma pejorativa, você está tão gostosa, um doce de mulher num corpo esculpido com arte e prazer. É isto, está sim. E o batom? Gente, que saudades tenho desta boca, deste sorriso que você faz agora, deste desviar dos olhos para baixo quando eu fazia um elogio.

Você não falou nada ainda, fica aí tão bonita, me olhando. Posso saber onde estamos? Estou confuso. Isto aqui é um hospital? Um pronto socorro? Sabe como vim parar aqui? Estou nesta cama, espera - estou sem roupa sob este lençol. Meu Deus do céu, como foi isto? Pode chamar alguém? Não consigo me levantar, não estou sentindo as minhas pernas - e você vai ficar só olhando? Faça alguma coisa, fala comigo, me diz onde estamos. E este frio? De onde sopra este ar que não vejo janela. Estranho, não tem janelas aqui.

Olha aqui sua vaca, sua bandida, faça alguma coisa. Quer saber por que esqueci de você Por que você era o que é agora, uma inútil .. vaca-vaca-vaca ... alguém aí vem me socorrer - socorro ... por favor .. socorro!! Espera, Lili, não vá embora, perdão, perdão, perdão, espera, espera... 

Acorda Geraldinho, acorda.

Mamãe?... nossa, tive um pesadelo terrível. Engraçado. 

Eu, Geraldinho? Você deu de gritar por uma vaca. Por acaso eu era a vaca? 

Não, mamãe, a vaca ia me pegar e você me tirou de lá ao me acor ... espera aí, mamãe, você já tem uns dez anos que morreu!!! Socorro!!!! Socorroooooo!!!!!

Geraldo... Geraldo... acorda, Geraldo!!!

Nossa, que susto, que sonho mais doido, eu sonhei com a Lili, que já faleceu, depois com a mamãe, mas ela ficava me chamando de Geraldinho, e eu sempre detestei de me chamar assim, então eu surtei, sei lá, e aí ... espera aí, que lugar é este e quem é você?

É isto aí!

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Nunca fuja dos seus problemas.

Chegou em casa metodicamente às vinte e uma horas. Encontrou a porta do apartamento apenas encostada, achou estranho, mas nada que fosse capaz de assustá-lo, pois já ocorrera em outras ocasiões. Entrou em silêncio e dirigiu-se ao quarto, e para espanto, surpresa e dissabor, a esposa dormia sob cobertas, candidamente aos braços do Oliveira, um idiota do quarto andar.

Voltou sobre os mesmos passos para não despertar os amantes. Saiu e nunca mais voltou. Entrou no carro aos prantos, dirigiu por umas três horas, parou numa cidadezinha discreta, onde tentou dormir e não conseguiu. Na manhã seguinte seguiu sem rumo para algum lugar onde pudesse se encontrar. Rumou para a Bahia, sem motivos que justificassem, pois detestava praia.

Uma semana parando aqui, ali e acolá até chegar em Jandaíra, na divisa com Sergipe. Aquietou-se numa pousada, onde conheceu Dasdô, uma morena estonteante, educada e o melhor, de boa prosa. Dasdô tinha acabado de enviuvar, estava ali sem rumo e sem presente, e ele querendo ficar sem passado. Aquilo podia dar futuro.

Passado uns seis meses resolveu retornar, para ajeitar as coisas, cuidar do divórcio, pegar suas coisas e sobretudo, livrar-se da ferida que acabou levando-o ao seu amor. Ao chegar ao prédio, o porteiro pediu que aguardasse, enquanto chamava pelo síndico. Uns vinte minutos se passaram, a polícia apareceu e o levou à delegacia, por duplo homicídio doloso, por motivação passional. 

Naquela noite que sumiu, o casal de amantes fora assassinado por sua arma, encontrada sob a cama. Nunca conseguiu provar inocência e a viúva do Oliveira, de posse de uma pequena fortuna de seguro, vendeu o patrimônio que acumularam e mudou-se para local incerto e não sabido. Seis anos depois, livre, volta para Jandaíra, aos braços de ... hummm, tem nada disto, ninguém volta ao que acabou.

É isto aí!



quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Os Anjos do Senhor I

A origem dos Anjos

Os anjos não existem desde a eternidade, eles foram criados por Deus no momento de sua criação ( Ne.9:6 - Sl.148:2; Cl.1:16 ). A bíblia não indica com precisão em que parte foram criados, mas podemos entender que isso deve ter acontecido imediatamente após ter criado os céus e antes de ter criado a terra, segundo podemos ver em Jó 38:4-7 – Gn.1:1; 2:1. Não podemos também definir número, mas sabemos que um exercito compreende grande quantidade e uma legião compreende um número grandioso ( Dn.7:10; Mt.26:53; Hb.12:22 ).

Deus certamente criou todos de uma só vez, pois os anjos não tem capacidade de propagar-se como o homem ( Mt.22:30 ).

A palavra original correspondente no grego é ( a g g e l o z = angelos ), é usado tanto para mensageiros humanos ( I Rs.19:2; Lc.7:24 e 9:52 ), quanto divinos.

O propósito da sua origem:

- Os anjos foram criados para darem glória , honra e ações de graça a Deus.
- Os anjos foram criados para adorarem a Cristo ( Hb.1:6 )
- Foram criados para cumprirem os propósitos de Deus:
- O ARCANJO: - Proteção de Israel ( Dn.12:1 ).
- Luta contra Satanás ( Judas 9; Apc.12:7 ).
- Anuncia a Vinda de Cristo ( I Tess.4:16 ).

Os Querubins guardam o trono de Deus ( Ez.10:1-4 )4.
Os Serafins se preocupam com a adoração a Deus perante o Seu Santo Trono ( Is.6:2-7 )
As diferentes ordens de Anjos, assistem a Deus em sua obra Soberana ( Col.1:16 e 2:10; Ef.1:21 e 3:10 ).

A natureza dos Anjos.

- Não são seres humanos glorificados (Hb.12:22,23):
- São seres espirituais – Incorpóreos ( Hb.1:14 ). Não tem corpo físico, mas podem assumir forma corpórea ( Gn.18:19 ). (Sl.104:4; Hb 1:7; Ef.6:2; Mt.8:16; 12:45; Lc.7:21; Apc.16:14 ).

São imortais – Os anjos não estão sujeitos à dissolução: nunca morrem. A imortalidade dos anjos se deriva de Deus e depende de Sua vontade. Os anjos são isentos da morte, porque assim Deus os fez. ( Lc.20:35,36 ).

** Não se reproduzem conforme a sua espécie – As escrituras em parte alguma ensina que os anjos são seres assexuados. Inferências encontramos referindo-se aos anjos, com o uso de pronomes do gênero masculino ( Dn.8:16,17; Lc.1:12,29,30; Apc.12:7; 20:1; 22:8,9 ). Mas, não obstante, o casamento, a reprodução, não é da ordem ou do plano de Deus.

- São poderosos – Dotados de poder sobre-humano ( Sl.103:20; II Pd.2:11 ).

- São uma classe de seres criados superiores aos homens ( Sl.8:5; Hb.2:10 ). Contudo, esse poder tem seus limites estabelecidos e não são Onipotentes ( II Ts.1:7; II Sm.24:16,17 ).

Veja demonstração de poder dos anjos – ( At.5:19; 12:7,23; Mt.28:2 ).
Obs: Quão capazes, portanto, são os anjos bons para ministrar ao homem; Confiemos, portanto, na força do poder do Senhor e de seus ministros, Amém!

São seres velozes – ( Mt.26:53 ) O pensamento que deve ser destacado é que os anjos podem, instantaneamente, aparecer em defesa de seu Senhor e nosso Deus. Como essas legiões de anjos podem passar com tal rapidez do céu à Terra, ultrapassa nosso entendimento. Sabemos apenas que a possibilidade do fenômeno indica uma atividade e rapidez verdadeiramente maravilhosa.

São seres com personalidade e identidade pessoais:
- Inteligência – Dn.10:14
- Emoções – Jó 38:7
- Vontade – Is.14:13,14
- Não são Oniscientes – Mt.24:36
- Não são Onipresentes – Dn.9:21-23
- Não são Onipotentes – Dn.10:13
- São perfeitos e sem falha – ( Gn.1:31 )
- São seres gloriosos.
- São dotados de dignidade e glória sobre-humanos.

Eis alguns dos principais Anjos do Senhor, da milícia celestial:

Serafins –  Que nos abrasem no amor a Deus, inflamem nosso coração no carinho a Maria. Que só nos entreguemos, louvemos e sirvamos a Deus.

O nome serafim vem do hebreu saraf (שרף), e do grego, séraph, que significam "abrasar, queimar, consumir". Também foram chamados de ardentes ou de serpentes de fogo. É a ordem mais elevada da esfera mais alta. São os anjos mais próximos de Deus e emanam a essência divina em mais alto grau. Assistem ante o Trono de Deus e é seu privilégio estar unido a Deus de maneira mais íntima, e são descritos em Isaías como cantando perpetuamente o louvor de Deus e tendo seis asas.

 Querubins - Que nos ajudem nas tentações, contra a fé, pureza e escrúpulos.

Do hebreu כרוב - keruv, ou do plural כרובים - keruvim, os querubins são seres misteriosos, descritos tanto no Cristianismo como em tradições mais antigas às vezes mostrando formas híbridas de homem e animal. Os povos da Mesopotâmia tinham o nome karabu e suas variantes para denominar seres fantásticos com forma de touro alado de face humana, e a palavra significa em algumas daquelas línguas "poderoso", noutras "abençoado".

No Gênesis aparece um querubim como guardião do Jardim do Éden, expulsando Adão e Eva após o pecado original (Gênesis 3:23-24). Ezequiel os descreve como guardiães do trono de Deus e diz que o ruflar de suas asas enchia todo o templo da divindade e se parecia com som de vozes humanas; a cada um estava ligada uma roda, e se moviam em todas as direções sem se voltar, pois possuíam quatro faces: leão, (O leão sempre foi reconhecido como forte, feroz, majestoso, ele é o rei dos animais e essa face simboliza então sua força). touro, (o touro é reconhecido como um animal que trabalha pacientemente para seu dono. Ele é forte, podendo carregar um urso, e conhece o seu dono). águia, (como um anjo, este pássaro voa acima das tempestades, enquanto abaixo delas existem tristezas, perigos, e angústias. Um pássaro ligeiro e poderoso, elegante, incansável) e homem, Esta face fala da mente, razão, afeições,e todas as coisas que envolvem a natureza humana, isso, para alguns estudiosos, significa que eles assim como os homens possuem o livre arbítrio. E eram inteiramente cobertos de olhos, significando a sua onisciência (Ezequiel 10). Mas as imagens querubins que Moisés colocou sobre a Arca da Aliança tinham forma humana, embora com asas (Êxodo 25:10-21; Êxodo 37:7-9).

Os Querubins, para alguns teólogos, ocupam o topo da hierarquia, pois alguns não consideram os serafins como anjos , uma vez que a palavra hebraica para anjo é "malak" (mensageiro) e da mesma forma no grego, anjo é "angelus" (mensageiro) e estas figuras aladas que aparecem, na Bíblia, apenas em Isaías capítulo 6, onde exaltam a Deus mas não comunicam mensagens ao profeta.

São Jerônimo e Santo Agostinho interpretam seu nome como "plenitude de sabedoria e ciência". São representados muitas vezes como crianças pequenas dotadas de asas, chamados putti (meninos) em italiano. Têm o poder de conhecer e contemplar a Deus, e serem receptivos ao mais alto dom da luz e da verdade, à beleza e à sabedoria divinas em sua primeira manifestação. Estão cheio do amor divino e o derramam sobre os níveis abaixo deles.
Tronos - Que esclareçam e iluminem os governantes, bispos e responsáveis por comunidades religiosas e civis.

Dominações - Que esclareçam os hereges, ateus e incrédulos. Também pelos que se empenham em difundir o reino de Deus.

As Dominações ou Domínios (do latim dominationes) têm a função de regular as atividades dos anjos inferiores, distribuem aos outros anjos as funções e seus mistérios, e presidem os destinos das nações. Crê-se que as Dominações possuam uma forma humana alada de beleza inefável, e são descritos portando orbes de luz e cetros indicativos de seu poder de governo. Sua liderança também é afirmada na tradução do termo grego kyriotes [küriotés], que significa "senhor", aplicado a esta classe de seres.

São anjos que auxiliam nas emergências ou conflitos que devem ser resolvidos logo. Também atuam como elementos de integração entre os mundos materiais e espirituais, embora raramente entrem em contato com as pessoas.

Virtudes - Que melhorem nossa vida espiritual, dando-nos coragem e força para cumprirmos as boas resoluções, (façamos-lhes a entrega de nossa oração pessoal).

As Virtudes são os responsáveis pela manutenção do curso dos astros para que a ordem do universo seja preservada. Seu nome está associado ao grego dunamis, significando "poder" ou "força", e traduzido como "virtudes" em Efésios 1:21, e seus atributos são a pureza e a fortaleza. Pseudo-Dionísio diz que eles possuem uma virilidade e poder inabaláveis, buscando sempre espelhar-se na fonte de todas as virtudes e as transmitindo aos seus inferiores.

Orientam as pessoas sobre sua missão. São encarregados de eliminar os obstáculos que se opõe ao cumprimento das ordens de Deus, afastando os anjos maus que assediam as nações para desviá-las de seu fim, e mantendo assim as criaturas e a ordem da Divina providência. Eles são particularmente importantes porque têm a capacidade de transmitir grande quantidade de energia divina. Imersas na força de Deus, as Virtudes derramam bênçãos do alto, frequentemente na forma de milagres. São sempre associados com os heróis e aqueles que lutam em nome de Deus e da verdade. São chamados quando se necessita de coragem.

Potestades - Que removam os obstáculos que possam impedir a execução dos desígnios de Deus, desfazendo as armadilhas e ciladas do inimigo. Também que inspirem os sacerdotes a se santificarem.

As Potestades ou Potências são também chamadas de "condutores da ordem sagrada". Executam as grandes ações que tocam no governo universal. Eles são os portadores da consciência de toda a humanidade, os encarregados da sua história e de sua memória coletiva, estando relacionados com o pensamento superior - ideais, ética, religião e filosofia, além da política em seu sentido abstrato.

Também são descritos como anjos guerreiros completamente fiéis a Deus. Seus atributos de organizadores e agentes do intelecto iluminado são enfatizados pelo Pseudo-Dionísio, e acrescenta que sua autoridade é baseada no espelhamento da ordem divina e não na tirania. Eles têm a capacidade de absorver e armazenar e transmitir o poder do plano divino, donde seus nomes.

Os anjos do nascimento e da morte pertencem a essa categoria. São também os guardiões dos animais.

Principados - Que defendam e protejam nosso país, cidade, Igreja. Que ajam como instrumentos de Deus na realização de milagres.

Os Principados, do latim principatus, são os anjos encarregados de receber as ordens das Dominações e Potestades e transmití-las aos reinos inferiores, e sua posição é representada simbolicamente pela coroa e cetro que usam. Guardam as cidades e os países. Protegem também a fauna e a flora. Como seu nome indica, estão revestidos de uma autoridade especial: são os que presidem os reinos, as províncias, e as dioceses, e velam pelo cultivo de sementes boas no campo das ideologias, da arte e da ciência.

Arcanjo Miguel - Que combata por nós o inimigo e o precipite do inferno, desfazendo toda a mentira e ilusão da qual se serve. Que aumente em nós o amor a santa missa e sagrada Eucaristia.

Arcanjo Gabriel – Que aumente em nós o amor a Mana e lhe apresente nossos pedidos.

Arcanjo Rafael - Que nos defenda das potências do mal, das doenças e nos acompanhe nas viagens. Que seja nosso consolo nas dificuldades e nos fortaleça no desânimo e depressão. Também que ilumine os padres confessores e orientadores espirituais.

Anjos da guarda - Que nos guardem, governem e iluminem. Que nos inspirem, suscitando-nos boas ideias e propostas.

É isto aí!

Como escrever um conto popular

Vladimir Propp (São Petersburgo, 29/04/1895 - 22/08/1970) foi um acadêmico estruturalista russo que analisou os componentes básicos do enredo dos contos populares visando identificar os seus elementos narrativos mais simples e indivisíveis. Foi um dos expoentes da narratologia. Propp recolheu vários contos tradicionais até chegar a um "corpus" de 449 contos. Procurou uma estrutura nesse corpus e encontrou 31 funções.

Propp demonstrou que os contos populares se constituem sempre em torno de um núcleo simples. O herói sofre um dano ou tem uma carência, e as tentativas de recuperação do dano ou de superação da carência constituem o corpo da narrativa.

As 31 funções podem ser agrupadas em 7 esferas de ação, agrupadas por personagens:

1ª Esfera - O agressor (o que faz mal)
2ª Esfera - O doador - o que dá o objeto mágico ao herói
3ª Esfera - O auxiliar - que ajuda o herói no seu percurso
4ª Esfera - A Princesa e o Pai (não tem de ser obrigatoriamente o Rei)
5ª Esfera - O Mandador - aquele que manda
6ª Esfera - O Herói
7ª Esfera - O falso herói


Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Vladimir_Propp



Eva, os iconoclastas e os enxames.

Leio blog de feministas, bem como de machistas. Não se pode perder o fio da meada. O que descobri é que feminista é feminista, e machista tem vertentes, sub-classes e divisões inferiores. Esta divisão apresenta diversas matizes, como os iconoclastas (fala sério - quantas vezes você já empregou esta palavra em alguma fala, texto ou pensamento? Eu esperei anos luz para encontrar um jeito de encaixá-la).

Aqui falo da iconoclastia (uau) no que se refere àqueles que vivem apenas para minar a reputação alheia, no caso, das feministas. Eles não tem uma ideologia formada, alicerçada em fundamentos sólidos (não aqueles sólidos residuais da maré baixa, mas os filosóficos). Apenas agridem, chutam, vociferam e isto faz deles apenas soldados desarmados em campo de batalha.

Tem os misóginos, com aversão às mulheres. É interessante notar que estes grupos são compostos por heterossexuais cisgêneros. Hã? Que negócio é este de cisgênero? Então - tem umas palavrinhas que estão entrando no nosso vocabulário tão devagar que a gente estranha pelo contexto, mas não se assusta com a grafia. Do latim, cis significa “do mesmo lado”. Cisgênero é um homem que nasceu com o sexo masculino definido e se expressa socialmente como homem (expressão de gênero), é decodificado socialmente como homem (papel de gênero) por vestir-se/comportar-se/aparentar com aquilo que a sociedade define próprios para um homem, e reconhece-se como homem (identidade de gênero), logo, é um homem (gênero). O mesmo vale para as mulheres.

Tem os fundamentalistas, e aqui a navegação é interessante - estão em todas as vocações religiosas, e neste item o sexo não importa, pois o comportamento é de enxame. Mas com subdivisões interessantes. Há enxames que fazem o enfrentamento com as feministas. Esta subdivisão tem pelo menos dois eixos: um que tem o intuito de dar visibilidade ao caráter fundamentalista de suas ações; e o outro, apregoado por forte esquema de políticas públicas de moral e civismo e pelos meios de comunicação moralistas que trabalham para que essa atividade terrorista/comunista/satânica das desviantes feministas e de todos que as apoiam sejam exterminadas para o bem da humanidade.

A outra subdivisão só tem comportamento de enxame em momentos únicos, por exemplo, quando em grupo, saindo ou entrando num evento da sua fé, e se depara com ações que vão de encontro à sua crença. Nada é fixo, nada supõe sistematização, longevidade, nem o território, pois, onde quer que estejam levam consigo sua marca; e nem mesmo há lideranças presentes.

Num outro enxame, que tomo a liberdade de denominá-lo de Enxame da Miséria Psicológica da Massa, e aqui vou dar uma esbarrada, dentro das minhas limitações psicanalíticas, na tese central de Freud sobre o mal-estar da civilização, onde há uma dimensão de conflito inerente ao sujeito em seu campo social que se presentifica em dois níveis: o da renúncia pulsional, que entendemos ser a troca "de um tanto de felicidade por um tanto de segurança" e o surgimento do que Freud chamou de "miséria psicológica da massa". Quando há uma cristalização nesse estado, "a ligação social se estabelece principalmente pela identificação dos membros entre si", e o sujeito cede a todos os ideais civilizatórios, identificado cegamente a um grupo. No estado de "miséria psicológica da massa" as singularidades são esvaziadas e submetidas a uma unificação do desejo, das escolhas, dos modos de apreender o mundo.

Já que toquei no assunto, bem, afinal o que querem as mulheres? perguntou Freud. Querem ser amadas e desejadas. Mulher gosta de se sentir única, singular, exatamente porque ela não tem uma definição padrão do que é ser mulher, e daí inventa a sua essência, não sob a óptica masculina, mas sob o seu desejo, e só a mulher tem a capacidade de fazer isto. Nós, filhos de Adão, somos retos, padronizados, torcemos pelo mesmo time, usamos a mesma roupa em várias ocasiões, tomamos a mesma marca de bebida, etc. Daí esta bronca toda. Basta elas se reinventarem que a maré sobe, como subiu no Paraíso.

É isto aí!


quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Ensaio Geral

Muito bem, todos nos seus lugares. Começando em 3... 2

- Espera senhor diretor

- Mas que merda! Fala Contra-Regra

- É que tem duas mulheres, e o roteiro só fala em uma.

- Caralho, quem colocou esta porra desta mulher aí?

- Fui eu, diretor, ela é minha namorada, então eu achei que ninguém iria notar.

- Alécio, você está doidão? Você bebeu, fumou, cheirou, introduziu ou inalou alguma coisa?

- Não, é que eu pensei que...

- Aqui você não pensa porra nenhuma, entendeu? Agora tira esta merda desta piranha daí.

- Hummm, magoei, diretor.

- Caramba. Gente, vamos continuar e deixem o Alécio chorando, que uma hora ele para.

- Muito bem, Ato três, cena quatro, todo mundo que está sobrando, cai fora e silêncio!

- Chega, cansei, não faço mais isto, estou fora.

- Puta que o pariu, Carmélia Cristina, está fora do que?

- É o Artuzinho, diretor, ele está diferente comigo, não me dirige as falas com educação, amor e cortesia.

- Mas não é ele, é o personagem, entendeu? É o personagem. Você não passou o texto?

- Passar passei, mas vai não vai rolar mais nada entre a gente???

É isto aí!

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Dalvinha na forma da lei

Dalvinha tinha dezoito anos e residia com a irmã e o marido, médico novo, educado, que a apresentou ao amigo, o entediante Dr. Torres, o mais antigo dentista da região, viúvo, com os dois filhos e netos morando na capital. Foi assim que a moça se viu casada com o odontólogo e tornou-se vizinha do delegado.

Então, certa vez, ainda de madrugada bateram na janela da autoridade policial. A patrulha comunicou que o médico tinha morrido. Levantou ainda tonto pela noitada anterior, acordou com dificuldade, dispensou os soldados e foi fazer um café.

Assim que abriu a porta dos fundos, para lavar o rosto no tanque, observou um vulto e percebeu que era a Dalvinha, com uma agilidade felina, pulando a cerca da divisa em direção à sua casa, provavelmente antes que o marido desse pela falta.

Tomou banho sem pressa, barbeou-se, procurou a melhor farda, e saiu a pé pela ladeira orvalhada em tons dourados do sol nascente, que lhe validava o apelido de Ladeira do Ouro.

Chegou à praça da Matriz, onde estavam diversas personalidades importantes, entreolhando-se e se perguntando como se deu uma morte tão rápida de homem jovem e pletórico?! Um conhecido das farras e carteado o puxou pelo braço e delatou sobre a suspeita de que o falecido estava de caso com a Dalvinha, e que talvez o dentista o tenha envenenado. Assim que falou e não viu nenhuma expressão no rosto do delegado, engoliu em seco, pigarreou, tossiu, sorriu sem graça, levou a mão na garganta e saiu em silêncio.

Passou na casa, cumprimentou e manifestou seus pêsames à viúva, visivelmente triste e abalada. Foi na farmácia comprar uma aspirina, mas o decano farmacêutico levou-o compulsoriamente até os fundos e  desabafou com sua voz rouca e asmática - delegado, eu acho que estou encrencado - estou tendo um caso com a Dalvinha usando o sobrado da loja para nossos encontros furtivos. Estou com medo, por que dizem que o médico também estava se relacionando com ela e vai que estas informações se cruzam. Eu sou inocente. Deu um abraço no velho amigo da família, encorajando-o - Para com isto, esqueça a Dalvinha e pronto. Não vou permitir que nada te aconteça.

No velório, o Dr. Fagundes, um juiz aposentado com seus quase noventa anos de vida, acenou para que aproximasse e pediu ajuda, pois vinha tendo uma relação intensa com a Dalvinha e parece que o médico também ... Com um forte aperto de mão no idoso, disse que iria resolver aquilo da melhor forma e que esquecesse a Dalvinha, pois existiam outras moças tão ou mais bonitas e disponíveis que ela, esperando por alguém.

As cantorias, as velas, os cochichos, as garrafas de café com biscoitos de polvilho, um bando de mulheres na cozinha e grupos espalhados pela mansão. O dia foi lento e tenso, com olhares, pudores, discursos e eventos lembrados com o morto. Um mês depois recebeu o laudo da autopsia, feita na capital, dando conta de uma falência súbita por uma cardiopatia grave, que era de conhecimento do falecido. Portanto, nada de crime.

Guardou silêncio, chamou os envolvidos com a esposa do dentista, e em conversas reservadas aconselhou ficarem longe dela, pois o laudo dava brecha para suposições. Tudo arranjado nas formas da lei, amasiou com Dalvinha, a quem jurou amor eterno e fidelidade.

É isto aí!

domingo, 27 de setembro de 2015

A paz do mundo


Vou poetar um poeminha meu, pequeno sem graça, sem jeito sem riso:

Estou contra
a paz do mundo
que faz de conta
que é rotundo

O que não se conta
e faz acúmulo
é que a paz do mundo
jaz no túmulo.

sábado, 26 de setembro de 2015

Geraldinha & Agenor, o nerd



Não existe felicidade, Geraldinha.

Como assim, Agenor?

Não existe e pronto, assim como não existe céu azul.

Danou-se de endoidar agora, homem. Se estudasse menos seria mais feliz. Olha lá fora, veja o céu - é azul.

Geraldinha, não tem nada de azul no céu, a não ser seus olhos.

Mas que homem burro. Meus olhos são castanhos quase pretos, Agenor.

Isto é verdade. Seus olhos são castanhos, quase pretos.

Finalmente concordamos com algo.

E vai concordar sobre o céu e assim por analogia, sobre a tal da felicidade.

Então fala, seu doido.

Geraldinha, o céu parece mais azul quando está limpo de poeira e fumaça, como acontece muitas vezes após uma chuva. Mas o fato real é que ele também muito transparente, porém não perfeitamente transparente.

Claro, não é Agenor? Se não fosse transparente, a gente não se via.

Mas bolinava, não é não?

Eita, Agenor, não se assanhe. Conta o resto.

O céu, o nosso céu, que chamamos de atmosfera. Atmos do grego é Vapor e Esfera é esfera mesmo. Então as moléculas de tudo que está disperso no ar passa a ser obstáculo para ... Geraldinha, para com isto.

Bobagem, Agenor, bobagem... vem cá que eu vou te condensar na minha atmosfera.

Geraldinha, eu estou te explicando uma coisa séria, Geraldinha, não faz isto, ah, não!! por favor... não... nãããão...

É isto aí!

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Os canalhas e as almofadas com cheiro de peido




Dia destes ouvi uma expressão curiosa, onde a pessoa comentou sobre determinado cidadão, comparando-o às almofadas de casa de rico, com cheiro de peido. Logo imaginei aquelas almofadas macias, confortáveis, de tecidos caríssimos, exalando o odor dos gases pútridos dos grã-finos. E não é que ao ver o indivíduo num acontecimento social, a imagem batia com a descrição?

De outra feita, um destes imaculados e santificados senhores da mais alta corte vil e infame, rico pela canalhice e poderoso pela usurpação, cumprimentou-me na saída de um evento futebolístico - sim, meus amigos, eu ainda acredito nos estádios. Repliquei o cumprimento, por que aprendi na infância, numa crônica do Nelson Rodrigues, onde falava sobre a expectativa para a Copa de 1970:

- "Desde quando o bonito ganhou a Copa? Demais a mais, só os subdesenvolvidos têm escrúpulos. O inglês é um grande povo. Na guerra, salvou o mundo com a sua resistência. Mas em 66 a Inglaterra foi de um descaro empolgante. Manipulou juízes, baixou o pau, fez horrores e ganhou. Portanto, com as suas qualidades o inglês salvou o mundo; com os seus defeitos, ganhou a taça."

Então guardei isto num canto qualquer do meu superego - só os subdesenvolvidos têm escrúpulos. Para ser capaz de combater o bom combate contra os almofadinhas com cheiro de peido e os canalhas de plantão, enalteçamos nosso espírito bretão, afinal nossa pátria mãe ibérica nasceu pela virtuosidade celta.


É isto aí!


quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Nunca mais Paris outra vez!


No café da manhã, leu no jornal que seu corpo seria velado na capela da cidade. Achou aquilo um tanto bizarro. A sua fotografia na reportagem era referente à um recente baile no Clube das Garças. Fixou o olhar na imagem para observar uma linda mulher bem ao seu lado esquerdo, com a mão direita sobre seu ombro, que não se lembrava quem era. Voltou à leitura, onde alguns amigos deram depoimentos que não conseguiram emocioná-lo. Acreditou que estava sonhando.

Tomou banho, colocou uma roupa discreta, ligou a televisão, e o apresentador falava da sua morte. Começou a achar que era sério, pois pessoas do seu círculo social, com voz embargada, entre lágrimas, falavam da sua importância política, social e econômica para a região.

O interfone toca. Atende, era uma voz feminina aparentemente conhecida, mas sem identificação. Manda subir. A moça, uma beldade da natureza feminina, entra com um sorriso enigmático nos lábios cerrados. Era a mesma da tal fotografia e abraçam-se em silêncio por um longo tempo. Enquanto afaga seus cabelos, olha novamente para seu rosto e não se recorda de onde a conhece.

Estou morto? - indagou - Então é assim que acontece? Empurrou delicadamente a garota para olhar nos seus olhos. Fitaram-se por uma eternidade. Quando deu por si, a beijou e só então percebeu que, de uma forma inexplicável, abriu-se um portal - o corpo dela transformou-se em passagem para um labirinto de luz e mistério.

Uma mulher apareceu e informou-lhe entrasse com muito cuidado, pois aquele era o cérebro da amada. Então ela bateu três palmas e duas moças com vestal sacro foram guiando o embasbacado visitante entre os neurônios, e ao redor seus olhos vislumbravam o efeito de bilhões de luzes neuro-neon, de múltiplas cores. Chegou na Amígdala Cerebrosa, onde dezenas de ninfas guardavam a entrada. As duas anunciaram o visitante. As ninfas deram passagem e continuaram a caminhada.

Todos os conteúdos emocionais presentes na memória da moça afloraram em sua mente. Ela o amava, sempre o amou, tudo nela e dela eram para ele. Mas onde eu estive enquanto quando fui amado de forma tão profunda? - se perguntava.  

Chegando num amplo salão, muito claro, mas sem luz aparente, percebeu-se só, e por instinto seguiu um facho de luz de intensidade maior. Deste ambiente seguiu para um adro, com sepulturas antigas e inscrições desconhecidas. Ela surgiu e lhe deu outro abraço, desta vez com um amor intenso. Eu te amo, eu te amo, eu te amo, sussurrou sem pressa.

Atento à todo aquele amor, meditou no mais profundo do seu pensamento - eu aqui, no bem bom ... quer saber? Nunca mais Paris outra vez!

É isto aí!


terça-feira, 22 de setembro de 2015

Paixão atávica

Vou poetar um poemameu:

Ela estudava lógica
Ele entonava graves
Ela traçava metas
Ele cantava óperas

          Ela dormia nua
          Ele insone clássico
          Ela sorria plácida
          Ele andava trôpego

                Ela ambidestra
                Ele anti-ético
                Ela chorava à mesa
                Ele escutava céptico

                      Ela psicótica
                      Ele distópico
                      Ela em sorriso tetânico
                      Ele com olhar despótico

                            Ela com choro trágico
                            Ele com gestos simbólicos
                            Ela fúnebre
                            Ele pernóstico

                                  Ela gélida excêntrica
                                  Ele excitação galvânica
                                  Ela anoréxica anêmica
                                  Ele com taras crônicas

                                        Ela foi ao médico
                                        Ele era a causa
                                        Ela sentiu-se péssima
                                        Ele evolução clássica

                                              Ela trocou as receitas
                                              Ele trocou os comprimidos
                                              Ela ficou atônita
                                              Ele reprimido

                                                    Ela desesperou aflita
                                                    Ele com dores cósmicas
                                                    Ela leu o diagnóstico
                                                    Ele era paixão atávica
                                             
                                 É isto aí!

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Poema medíocre


Por muito pouco a encontraria na praça. Havia escrito um poema único, doce, inocente e metódico. Coexistiam simetria e bom gosto, com as palavras suaves, ditas em elegante harmonia. Não tinha como dar errado, ela era a musa e aquele era o poema da nossa vida.

Busquei-a nas redes sociais, nos bares, nas esquinas, nos clubes, na faculdade, na rua, e nada encontrei. Era um poema lindo, feito como as tardes de outono, em serena brisa, céu azul e clima ameno. revisei as rimas, revisei as frases, revisei as palavras, reboquei o tema, alterei sinônimos, promovi sílabas tônicas e exaltei os átonos.

Havia em mim um poema, e de tão íntimo e profundo era seu conteúdo, que seria a nossa marca, o nosso destino selado por palavras que somos nós em códigos gráficos. Linda, tão linda, tão poesia, de tal forma que fiz um poema de cunho universal, englobando e envolvendo nossas almas, traduzindo-as na mais sagrada comunhão que une dois amantes.

Vivenciei um sentimento etéreo, decodifiquei a angústia das minhas insônias ... insônias ... malditas noites insones. Foi numa destas que saí para desmotivar minha ansiedade e ela passou - era apenas um poema medíocre nos braços de um apedeuta qualquer - não valia tudo que estava escrito.

É isto aí!

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Eu sou chato, mas sou legal

Olá, você está sozinha? Incomodo? Perturbo? Ocupo seu espaço sideral, lateral ou diagonal assimétrico? Gostou, não é mesmo? - O assimétrico é por conta das curvas da sua exposição espacial, que me apraz e seduz.

Eu até que sou tímido, mas é que ando tão esquisito, assim meio que, sabe, algo diferente, tipo assim, não sou eu em mim, entende? Tenho persistido em muitas situações meio que déjà vu.

Então ... se fala assim mesmo - déjà vi, mas escreve-se vu, é uma coisa meio que maluca isto, não é? Feito eu assim, meio que maluco, meio que doido, meio que sem sentido, mas plácido e lúcido.

Não, não cheirei nada não, nem inalei, nem traguei ou sequer injetei. É o meu normal isto daí, sou trans-normal, é uma coisa só minha, sabe? Só minha, assim como quero você só minha, estas coisas são só minhas, tipo assim uma rima poética sem licença ambiental. Deixa prá lá.

Por que você é tão linda assim? Eu queria poder te dar uma mordida, espera - melhor do que isto, uma dentada. Se vai ficar marca? Claro, será a minha marca.

Então? Vai ter um rola-moça ou você vai ficar aí com cara de paisagem? Olha, pode falar o que quiser, eu tenho espírito democrático, e esta bendita reação psicológica que faz com que meu cérebro transmita em High Fidelity, que é uma coisa pós pós estratostérica.

Não, eu não quis dizer estratosférica, de estar fora de uma esfera, e sim tostérica, que seria um neologismo quanto ao assento de escravos nas galés. É interessante, isto eu sei, eu sou um cara interessante.

Espera, não vai embora, eu posso querer te ouvir para saber seu nome, sei lá, que deve ser Débora. Não? Não é Débora? Espera - já sei, você se chama Linda, Não? Não é linda? Como assim? Volta aqui, por favor, não me abandone, eu sou chato, mas sou legal... Merda, estas coisas só estão ocorrendo por que eu não estou nada bem. Acho que vou me dar um tempo para esgotar um pouco de mim..

É isto aí!


Ele que vá à reputa e à triputa que o pariu!


Autor de Macunaima, Pauliceia Desvairada, Amar, Verbo Intransitivo e muita poesia, ensaios, estudos e com forte interatividade na formação antropológica da identidade e cultura nacional, Mario de Andrade também era um homem que colecionava inimigos.

Getúlio Vargas o odiava muito, a ponto de proibir quaisquer manifestações sobre sua morte, prematura, em 1945. Esta censura durou quinze anos para ser desfeita.

Homem culto, quando apelava, Mário de Andrade apelava feio. Quando tentaram reconciliá-lo com Oswald de Andrade, que ele só chamava de “Osvaldo”, atacou, numa carta ao amigo e discípulo Murilo Miranda: 

“Ele que vá à reputa e à triputa que o pariu”. 

É isto aí!

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Xeba

Xeba era um garoto normal, com aspirações comuns à todos os meninos do bairro. Tinha sonhos, delírios e alucinações espontâneas que em nada diferenciavam dos outros garotos da cidade, do estado, do país, do mundo, do sistema solar e o escambau. Enfim, Xeba era normal.

Xeba era preto, negro, afro-descendente, nego, negão, e todas as variáveis pejorativas que os meritocratas descrevem em conversas reservadas em salões nobres da civilização. Mas isto não fazia dele outra raça - só existe uma única raça humana, com variáveis da tonalidade da pele. Enfim, Xeba era humano.

Xeba era pobre, muito pobre, família sem recursos, sem uma moradia digna, sem o conforto das vitrines, sem as roupas de marca, sem os tênis determinantes. Sua roupa, sempre limpinha, mantida pela habilidade manual da mãe, era sua armadura contra as tempestades do mundo.

Xeba amava seus pais que o amavam também. Estudava numa escola pública, dominada pelo terror, e todas as formas de terror eram comandadas por finos e elegantes senhores brancos da mais alta camada social da promiscuidade pungente, para que Xeba e seus iguais sempre se sentissem inferiores e violentos.

Xeba morreu numa tarde fria, chuvosa, numa esquina qualquer, de uma rua qualquer, ao passar por uma destas enormes catedrais de consumo. Só isto já bastou para fazer dele um suspeito. Nas manchetes estampadas em letras garrafais, a mídia subornada dava pelo tombamento de um perigoso meliante liquidado em troca de tiros com a lei, a justiça e a ordem.

Xeba morreu sem nunca ter dado um beijo de amor, sem nunca ter abraçado Rosinha, a menina mais linda da rua, sem nunca ter comido um sanduíche daqueles lugares bacanas, sem nunca ter tido a oportunidade de ter cometido um delito. É agora apenas uma estatística, um número perdido entre a realidade e a ficção de que somos todos iguais perante a lei.

É isto aí!

* Fonte da charge, cujo autor é Edidelson Silva:
http://arquivo.geledes.org.br/racismo-preconceito/racismo-no-brasil/13098-alo-e-do-iml-temos-um-suspeito-aqui-morreu-porque-era-negro

O Complexo de Vira-latas - Documentário