quinta-feira, 16 de abril de 2020

As emoções negativas e as dores na Coluna Vertebral (http://www.biodiana.com/)


A coluna vertebral é repleta de todo o tipo de mensagens e, cada divisão anatômica, assinala um conflito emocional muito específico.

A coluna vertebral em si é o reflexo da forma como vivo os meus fundamentos / valores internos. Podemos olhar para a coluna vertebral como um pilar que nos mantém firmes. Os nossos fundamentos e valores (os nossos pilares) caso não sejam respeitados, entramos em conflito emocional e biológico, podendo afetar a coluna em determinados locais e com patologias específicas.

Assim, as patologias que afetam a coluna têm relação com: a minha vida, com o que penso, como o faço, como me relaciono e com a comunicação que tenho com os outros… São os FUNDAMENTOS BASE da nossa vida quotidiana.

A PALAVRA-CHAVE PARA TODO O SISTEMA OSTEOARTICULAR É DESVALORIZAÇÃO. NESTE CASO, EXISTE UMA DESVALORIZAÇÃO EM RELAÇÃO A VALORES CENTRAIS, ESTRUTURAIS, IMPORTANTES PARA MIM, NOS QUAIS NÃO ESTOU A CONSEGUIR RESPEITAR.

Ao nível da arquitetura anatômica, a coluna é a fundação de uma casa e a sua base, toda uma estrutura sólida que suporta tudo o resto, num eixo central onde tudo é sustentado e construído. É a referência na sensação de “movimento do fluir” do nosso dia-a-dia.

Na coluna encontramos cinco grande zonas simbolicamente distintas: CERVICAL, DORSAL, LOMBAR, SACRO e CÓCCIX. Em cada uma delas existem conflitos relacionados, mais precisamente em cada uma das 33 vértebras, variando em função da sua posição e dos órgãos nas quais se encontram relacionadas.

CERVICAIS

O pescoço é o prolongamento da cabeça e ajuda a aumentar o perímetro de recepção da informação que nos chega através dos 5 sentidos. Por outro lado, leva a informação da cabeça para a parte inferior do corpo. É um local de CONEXÃO entre cabeça-corpo, um lugar onde passam muitos condutos: os nervos, veias, artérias, traqueia, laringe, esófago, onde flui sangue, alimentos e informação. É a conexão entre o que ocorre na minha na cabeça e o com o meu corpo, ou entre o que ocorre no meu corpo e chega á cabeça. Assim, todas as patologias cervicais implicam um desacordo entre o que penso e o que faço. Há uma divergência entre os meus pensamentos e as minhas ações, levando a uma dor moral que se pode traduzir numa dor física na zona cervical. “Será que digo / faço o que eu penso?”

A palavra-chave das vértebras cervicais é a COMUNICAÇÃO. Nas cervicais também se encontram a nossa VOZ, isto é: o que dizemos, o que não dizemos, os segredos, a expressão do que somos em coerência com o que comunicamos, em conjugação com a cabeça, emoções e palavras. Por exemplo, um torcicolo é um sintoma que fala por si mesmo. Qual é a utilidade de um torcicolo? Impede o movimento lateral da cabeça, justamente afetando os músculos que nos permitem dizer “NÃO”. Momentos antes de um torcicolo, normalmente no dia anterior, relembrar qual foi o momento em que querias dizer “não” mas disseste “sim”. Vais encontrar uma resposta. Em torcicolos, por norma, podem encontrar-se pessoas que dizem “sim” quando querem dizer “não”, não existindo coerência entre o que pensam, sentem e falam /fazem.

DORSAIS

Em torno da parte central da coluna vertebral encontramos os órgãos básicos para a sobrevivência: coração, pulmões, fígado, estômago. Os conflitos emocionais que mais afetam esta zona e vértebras estão relacionados com pessoas que se sentem como sendo os PILARES DA FAMÍLIA, pessoas que são elementos centrais dentro do clã familiar, que se responsabilizam por carregar / solucionar os problemas de todos e de chegar a todo o lado. Com os “pilares da família” todo o mundo pode contar com eles e, ocupar esse lugar, implica transportar uma carga muito pesada. Sentem que trazem consigo o peso dos demais e necessitam de ser os mais fortes para suportar todos.

Para ilustrar este conceito de pilar de família, nada melhor que expor um caso de uma mulher que trabalha como enfermeira num hospital. Pela primeira vez na vida, entra em baixa médica porque desde há dois meses que não se consegue levantar. Os médicos diagnosticaram uma Espondilite Anquilosante, (patologia que leva à fusão das vértebras) sendo neste caso dorsais, provocando uma rigidez e impedindo movimentos livres. O que acontece é que ela trabalha para todo o mundo. Ela é o “Pilar” central de qualquer coisa, desde ao nível familiar, profissional e social, e nunca diz “não” quando alguém lhe pede algo, dizendo automaticamente “sim”, transportando consigo todos os temas “pesados” da família. A senhora cuidava dos seus irmãos quando estavam doentes, ajudava-os economicamente, judicialmente, nos quais se encarregava de ajudar quase todos eles. Com isso, consciencializou-se que precisa de uma coluna muito forte para suportar isso tudo. Podemo-nos perguntar: “porque esta mulher ocupa este papel na família?” Indo pela sua história pessoal, no momento do seu Projeto Sentido Gestacional descobriu-se que os seus pais queriam um rapaz em vez de uma menina e que ela teve que assumir inconscientemente, desde sempre, um papel masculino e forte, onde tinha que suportar tudo e todos, num misto de serviço com sacrifício (ver também o caso ELEFANTE DE CARGA).

Nesta zona também encontramos as costelas que conformam a caixa torácica, que por sua vez protegem os órgãos internos mais delicados. Quando há sintomas de dor ou fractura nas costelas trata-se de conflitos inoculados relacionados com as relações hierárquicas reais e simbólicas. Neste caso, as 4 primeiras costelas existe DESVALORIZAÇÃO em relação aos ASCENDENTES (pais, avós, tios, chefes, padrinhos…), as 4 médias com COLATERAIS (irmãos, namorados, colegas, amigos, primos…) e as 4 inferiores com os DESCENDENTES (filhos, sobrinhos, alunos…). As costelas são como se fossem uma árvore genealógica incorporada na zona dorsal e lateral do corpo.

LOMBARES

Esta parte baixa da coluna partilha um espaço com os órgãos sexuais, parte do sistema digestivo inferior, os rins e bexiga, e representa a base de apoio da nossa estrutura, o que nos mantém erguidos ou nos faz subjugar. De uma forma geral, as lombares estão relacionadas com o tema da “relação com o outro”, que é a frase-chave desta região vertebral.

A tônica emocional que compõe esta zona encontra-se sobretudo ligada com as RELAÇÕES e a SEXUALIDADE. Em muitas mulheres, encontram-se lombalgias frequentes por sentirem um sentimento de culpa de fazerem “algo” que não deviam, depois de terem relações sexuais com os seus companheiros ou maridos. Por vezes, nas suas relações vivem uma relação de submissão feminina (“o dever da mulher é agradar o homem”), causando um desrespeito com um valor central na sua vida, em relação a si mesma ou na forma como vive o seu casamento. No caso de homens, pode existir uma relação de subjugação às suas namoradas ou esposas, no sentido de ter que acatar exigências emocionais excessivas.

SACRO

Tal como o nome que define esta zona, “sacro”, encontra-se relacionada com valores SAGRADOS que regem a nossa vida e se encontram desrespeitados ou desvalorizados, sendo estes: religiosos, políticos, humanos, familiares, de relação, etc.

COCCIX

Esta é a zona afetada quando nos sentamos numa cadeira ou num lugar qualquer. Quando há conflitos com o cóccix, pode remeter a problemas de identidade ao nível estrutural, com o lugar onde ocupo na minha família, como se existisse a sensação de “não tenho lugar na minha família”, “que me sinto excluído / aparte da minha família”, levando a questões como “Onde me sento na mesa da minha família?”, O que sou para eles?”

Sempre que nos referimos a dores nos ossos e músculos, baseamos no terreno emocional dos conflitos de DESVALORIZAÇÃO com uma sensação de: sinto-me rebaixado(a), inferiorizado(a), desrespeitado(a), menosprezado(a), incompetente, incapaz de…, etc, onde existe um conflito entre os meus VALORES / FUNDAMENTOS e os RESULTADOS das minhas ações. 

Assim, em qualquer temática osteoarticular, a solução passa por VALORIZAR-ME A MIM MESMO, ATENDENDO AOS MEUS FUNDAMENTOS. É vital criar um sistema de valores nos quais me sinto bem, vivê-los em coerência com a minha vida, destacando-os em relação aos outros e no lugar do mundo onde ocupo.

Em todas as patologias da coluna, existe um bio-choque que gera uma emoção que não se expressa e logo aparece o sintoma, neste caso sintomas osteoarticulares. Ao longo do tempo vai aumentando a tensão emocional, levando ao chamado “efeito jarro psicossomático”, que consiste em acumular pequenas coisas de pequena importância que se vão repetindo ao longo do tempo, sobrecarregando o tecido muscular, articulatório, com desgaste do mineral ósseo. Ao fim de algum tempo, aparece o sintoma vertebral através de situação na vida aparentemente insignificante (um conflito com alguém, uma mudança de trabalho, um projeto novo, etc…), sendo essa a gota que faz transbordar o jarro psicossomático. Na maioria das vezes, baseia-se num conflito de baixa intensidade que se repete durante muito tempo.

Copiado e colado de:
 Fonte: https://www.verdadesdocorpo.com/2016/06/20/coluna-vertebral-e-a-relacao-com-as-emocoes/

Fontes original: biodiana.com
Traduzido por: Marco Sousa
Texto adaptado para: Verdadesdocorpo.com
Informação bibliográfica:
Sellam, Dr.º Salomon, Los huesos – generalidades (vol. 7), Bérangel Editorial, 2011
Sellam, Dr.º Salomon, Los huesos – La espalda (vol. 8), Bérangel Editorial, 2011

terça-feira, 14 de abril de 2020

Outra vez (Paulo Abreu)


Há beleza
dos seus olhos
ao movimento
do ar, levezas

Habito de você
a ternura das águas
sob as velas içadas
feito átimos de luz

Finda a jornada
advêm navegação
das memórias, reluz
o lado do seu lado

Outrora certeza
aos meus olhos a nau
flutua e do cais o nunca
 mais caiu em vagueza.

É isto aí!

*Escultura "Melancholy" de Albert Gyorg (Genebra, Suiça)

Vovó, o peixe-voador e a labirintite


Vovó Herta era muito séria, nunca a vi sorrir. Seu corpo era feito um cubo mágico. Tinha dois metros de altura, dois metros de largura e dois metros de profundidade. A voz lembrava uma tuba rouca. As mãos davam na medida de uma raquete de tênis. Já vovô era franzino, um metro e sessenta, corpo esguio. Vivia rindo, gesticulando muito, falando manso com sua voz baixa.

Um dia vovô Enzo trouxe da pescaria um peixe enorme. Colocou num carrinho de mão desde a margem do rio e veio carreando. Chegou, pigarreou e deixou na cozinha. Vovó Herta mediu o peixe com os olhos, mediu vovô Enzo com o dedo indicador, mordeu o lábio inferior, tossiu uma tosse forçada e seca e deu de costas perguntando - você vai limpar? - Claro que não, obrigação sua, minha função é abastecer. 

O peixe ficou na mesma posição por 4 dias, até que o cheiro insuportável fez tia Queta abrir uma vala no fundo do quintal e pagar dois meninos para enterrarem o cadáver putrefato.

Dois dias passados, vovô Enzo chega da pescaria com outro peixe maior ainda, também dentro do carrinho. - Está aqui, velha, vê se não faz de boba e limpa este peixe.

Vovó Herta fervia uma panelão de água destinada ao tingimento das roupas de cama, no fogão à lenha. Olhou com rabo de olho, nem titubeou, pegou nas duas alças e já virou mandando a água azul fervente sobre o que estivesse atrás dela. Vovô Enzo saiu um milésimo antes, graças ao seu corpo franzino, mas o peixe ganhou coloração nova. Três dias depois tia Queta repetiu o serviço funerário.

Na semana seguinte vovô Enzo saiu sorrateiramente e trouxe ... exatamente isto, trouxe outro peixe. Entrou confiante na cozinha empurrando o carrinho. - Velha, toma vergonha e limpa este peixe. Mas não a viu à beira do fogão. Sentiu que havia algo errado. Só ouviu o sibilar da corda de sisal e daí para frente tudo se deu em sete segundos.

Vovó Herta, depois de laçar o vovô e correr para ele rapidamente, mantendo um controle firme sobre o laço, rodou varrendo o seu braço direito sob o corpo franzino, fazendo com que ele caísse na vertical.

Segurando o vovô com o braço esquerdo, pegou as pernas dele e rapidamente embrulhou a corda de sisal em torno delas até os pés. Em seguida, já imobilizado, abriu o ventre do peixe no carrinho, deitou vovô sobre aquela sopa de órgãos, vísceras e sangue e levou para o quintal quando pretendia arremessar peixe e pescador, amarrados no carrinho, ao longe. Foi quando tia Queta veio correndo esbaforida, gritando - mãe, mãe, para, para ... papai tem labirintite.

- Como é que é, Queta?
- Abafada e arfando - papai tem labirintite.
- Porca miséria. É verdade! Vai, tira este porqueira daí. Vou tomar um banho...

É isto aí!






segunda-feira, 13 de abril de 2020

Um jogo no apartamento para romper o tédio da quarentena


Senhoras e senhores, aqui e agora o maior espetáculo do planeta. O jogo do século. Começa a peleja. Valendo a Taça Corona!

Abre os olhos, espreguiça e passa as pernas sobre a coberta. Zé Gomes, algum comentário?

Olha Carlosalberto. Vai ser o maior jogo da quarentena. Está todo mundo muito concentrado. E este passe que ele deu, olha, foi sensacional. Que jogada!

E segue o jogo, levanta, olha para a cama, encontra a patroa, pensou em dar um passe mas tem muita gente em volta dela, hem Zé Gomes - as crianças estão marcando muito a mãe, bem de perto, até pensou em querer voltar, mas assim não dá, Zé Gomes.

Olhá Carlosalberto, com este meio campo congestionado, com o cunhado e esposa e mais três crianças de visita e quarentena no quarto das meninas, vai continuar sem chegar nas redes até acabar a corona ou até o cunhado desconfiar e voltar para a cidade dele.

Aqui Rádio Pitangueira, a maior audiência do reino. Que foi agora, Zé Gomes?

Banheira, Carlosalberto ... na banheira ...ficou sozinho na zona do agrião.

Saiu da banheira, voltou para o quarto, e, olha lá, jogou a toalha ... Zé Gomes, pode isto?

Não deveria, mas a regra não é clara para toalha molhada, Carlosalberto.

Seguiu para o corredor, caminhou para a sala, driblou um menino, tropeçou na menina, foi interceptado pelo terceiro sobrinho, que jogo duro, hem Zé Gomes.

Ele quer ter o controle do jogo, Carlosalberto, mas o time do cunhado é muito bem treinado e retarda bem a partida.

Será que consegue controlar o jogo, Zé Gomes? Estou achando ele meio lento.

Olha, Carlosalberto, com o cunhado plantado na sala, ele vai perder o controle sempre.

Perdeu o controle outra vez, deu meia volta, correu para a cozinha. Falta, está tudo parado... mas o que é isto, Zé Gomes?

A sogra, Carlosalberto, deu o drible da vaca e marcou lugar, e é justamente onde ele mais gosta de ficar, daí deu uma cutucada na costela na velha para não perder a viagem. A danada rosnou mas não revidou, Carlosalberto. 

Esta quarentena está sensacional. Mas a sogra, hem!!! Voltou para o quarto, a patroa de costas na cama, de camisolinha solta, pegou no tranco, é agora, rompeu a defesa, é agora, vai mais vai mais vai mais, passou pela marca de penalty, é agora - opa, parou parou parou - deu ruim, hem Zé Gomes....

Carlosalberto, o juiz apitou bem marcado. Foi falta na cunhada. Ela trocou de posição com a patroa  enquanto ele perdia o controle para o cunhado e tomava o drible da vaca da sogra, e estava na mesma posição da irmã para conversas extra-campo, que deu uma saidinha rápida para trocar de uniforme e ele não foi avisado, Carlosalberto. Faltou o aviso dos companheiros.

Deu ruim, hem Zé Gomes, a cunhada sentiu a pancada, gemeu, chegou a sogra, confusão na área, a patroa saiu do banheiro, xiiii, rapaz, caiu o robe da velha, que coisa horrorosa. Zé Gomes, que confusão, hem?! Agora a patroa deu uma voadora nele. Caíram os dois, as crianças gritam, a cunhada grita, ele tenta se levantar, o juiz abre a contagem ...

Olha, Carlosalberto, você ainda não está vendo mas o cunhado veio lá da sala, de controle na mão, correu o olho, fez o sinal clássico de calma com as duas mãos e não perdeu o controle.

Mas este cunhado, hem, Zé Gomes!! Artista demais. Ainda deu uma piscadinha para a esposa.

Termina o jogo. Terminou!! Agora só amanhã, ninguém marcou, a jornada segue e a quarentena prossegue, Futebol é aqui. Considerações finais, Zé Gomes.

Olha, Carlosalberto, eu achei que se desse mais um drible, passaria fácil pela cunhada, marcaria o gol e subia na tabela. Mas no final levou um ponto, não importa se foi na testa, esporte é assim mesmo, o importante são os pontos. Mas, aqui prá nós, Carlosalberto, errar de marcação da patroa pela cunhada, não sei, fica para o juiz decidir na próxima pelada, digo, peleja.

Eu também achei que a marcação da cunhada deu mole, até a da  patroa é mais pesada, mas diga Zé Gomes, qual foi o melhor jogador em campo hoje?

Olha, Carlosalberto, o cunhado é um artista, dominou o meio campo, manteve o controle na mão e ainda apaziguou os ânimos exaltados, mas para mim a cunhada foi o grande nome do jogo.

Valeu, Zé Gomes, meu voto também vai para a cunhada, que desequilibrou a partida.

É isto aí!


Moraes Moreira. acabou chorare Valeu!!! Gratidão sempre!


O mundo pós-corona


Estou tentando ao máximo evitar falar desta pandemia. Talvez por isto o blog tenha dobrado seu número de acessos nas últimas semanas. Não que eu esteja alienado ao processo, pelo contrário, sou mais um entre bilhões envolvido dentro dele, mas o Reino da Pitangueira é um estado monocrático de direito.

Nesta semana que se inicia, teremos um crescimento de manifestação da enfermidade aliado ao crescimento de manifestação de insatisfeitos. Ontem atingiram o ridículo pela primeira vez, em São Paulo. São tão humanos quanto todos os povos do mundo, e a impressão que passam é o medo. Estão com medo de perder bens materiais, perder a liberdade, perder a qualidade de vida que tanto lutaram para conquistar. Eu também estou com medo, mas cada um revela o seu medo da forma que sua personalidade norteia.

Enquanto o povo se divide entre os que tem medo de perder bens materiais e os que tem medo de perder o amor que os envolve, o real poder, de uma maneira generalizada, em todo o mundo, supostamente, se articula para uma nova ordem mundial. Sem conflitos, sem oposição, sem adversidades, aqui e ali parece que estão sendo construídas estruturas que poderão resultar num admirável mundo novo.

domingo, 12 de abril de 2020

Uma conversa rápida sobre o perdão


Não é surpresa para você que vivemos tempos difíceis. Hoje vamos rapidamente falar do Perdão. Nunca se sabe nem do dia nem da hora.
Vamos lá? Anota aí:

Perdoar não é esquecer.

A mesma situação pode ter que ser perdoada várias vezes

Não existem pessoas que não merecem perdão

Perdoar não significa que você tem que se reconciliar com o outro

A outra pessoa não precisa pedir perdão para você perdoar

A outra pessoa não precisa saber que você a perdoou - vale para vivos e  aqueles que já partiram.

Você não precisa lidar com o perdão sozinho

Esta é a dica do dia!

sábado, 11 de abril de 2020

O Amor Bate na Aorta (Carlos Drummond de Andrade)

Drica Moraes em uma produção do Instituto Moreira Salles-IMS



O Amor Bate na Aorta (Carlos Drummond)

Cantiga de amor sem eira 
nem beira,
vira o mundo de cabeça
para baixo,
suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor.

Meu bem, não chores,
hoje tem filme de Carlito.

O amor bate na porta
o amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.

Entre uvas meio verdes,
meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.

Amor é bicho instruído.

Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que corre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.

Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender...

o dorso da baleia solitaria (the back of the lonely whale) Cassiana Maranha



Poema de Cassiana Maranha
https://www.facebook.com/cassiana.maranha/posts/111218665997130

Segundo Bukowski, o amor acontece a cada dez anos
Você me falou
Precisamente o que você me disse foi
O amor acontece a cada dez anos
E eu acabo de chegar aos dez

I wanna hold your hand
Eu deveria ter dito

Eu te lembrei do jantar
Do meu cabelo
E da forma como o teu corpo se movia ao redor do meu
Eu gostava de acreditar que você sabia o que estava fazendo
Que os movimentos bruscos, rápidos e certeiros
Remetiam a algo como certeza, domínio e
qualquer coisa similar ou mesmo igual a segurança.
Eu tenho vergonha
Foi a primeira coisa que você me falou
Eu tenho vergonha de tudo

I wanna hold your hand
Eu deveria ter dito

Imagine se fosse seguro
Respondi certeira
Neste exato momento eu embarquei
Em direção ao poço sem nome
Porque algumas coisas não tem nome
E outras a gente só não sabe

I wanna hold your hand
Eu deveria ter dito

Por falar em jantar
Foi lá que eu conheci o menino nômade de oito anos
Que me recitou um poema:
Quando você se afastar,
Faça devagar e suavemente
Faça como se eu estivesse morrendo
No meu sonho em vez da minha vida.

I wanna hold your hand
Eu deveria ter dito

As mensagens não paravam de chegar
E o meu medo você viu como charme
Se você se comportar, te levo café da manhã na cama
Você me falou
Você terá que ler a minha autora preferida
Eu te disse

I wanna hold your hand
Eu deveria ter dito

Enquanto você me apresentava os homens da sua vida
Eu te cobria com os abismos das minhas mulheres
Não espere para ter certeza, mexa-se mexa-se mexa-se
E eu achava que você sabia do que eu estava falando

I wanna hold your hand
Eu deveria ter dito

Você gosta do amargo.
Você me falou.
Gosto do que se despe e te despe
Independente do sabor.
Eu te respondi.

I wanna hold your hand
Eu deveria ter dito

Eu te comprei um livro vermelho
Comecei a grifa-lo quase que secretamente
Porque eu sabia que só o entregaria no fim
E vieram os desenhos, as escritas e todo o peso do meu corpo
Era pra você o livro
Depois eu soube que você achava um sacrilégio modificar a obra original
Mas era pra você o livro despido
Cada um pode mudar de opinião a hora que quiser.
Você me falou

I wanna hold your hand
Eu deveria ter dito

Tua voz é boa, segura. Eu gosto.
Você me falou

I wanna hold your hand
Eu deveria ter dito

No poço sem nome
Pude tocar os minutos do teu tempo
Eles pairavam no ar
E o brilho da pausa me desestruturava
Acho que foi isso que me manteve por perto
Dança comigo?
Você me perguntou

I wanna hold your hand
Eu deveria ter dito

Eu não sei dançar a dois
Respondi
Deixa que eu te conduzo
Você me falou

I wanna hold your hand
Eu deveria ter dito

Aos vinte e sete anos eu gostava de explicações
Não de entendê-las, mas de possuí-las
Eu não sou bom para explicar as coisas
Você me falou
Mas eu sou boa de entender
Eu respondi.
Eu sou estranho.
Você me falou.

I wanna hold your hand
Eu deveria ter dito

Por um breve instante eu saí do poço sem nome
E foi sem suavidade e rápido demais que eu te avisei
Isso tem um fim
Não sou homem pela metade
Você me falou

I wanna hold your hand
Eu deveria ter dito

Tenho problemas em dormir junto
Eu te disse
Tenho aqui uma escova de dente nova
Você me falou

I wanna hold your hand
Eu deveria ter dito

Você me estendeu um contrato
Um contrato de que eu poderia ir embora
A hora que eu quisesse
Mas que,
Sem dúvidas,
Você protegeria o menino nômade
Mesmo que pra isso tivesse que ir embora antes
E eu grifei no livro vermelho
Sobre os leões que rugem contra Deus
Quando percebem que seus focinhos são iguais.

I wanna hold your hand
Eu deveria ter dito

Tempo
Tempo é uma coisa que eu não entendo
Mas eu respeito
Só me diga quando
E você se segurou nos teus trinta anos de idade
me garantindo clareza

I wanna hold your hand
Eu deveria ter dito

De volta ao poço sem nome
Eu descompassava
Como se aquilo fosse eu
Também quero te ver, acredite.
Você me falou

I wanna hold your hand
Eu deveria ter dito

Soube de um poema cujo verso dizia:
Que coisa mais linda esse ácido despenteado, caramba.
O ácido é o desoxirribonucleico, DNA ou simplesmente, sangue.
Eu acho o meu sangue vermelho demais.
Eu te disse.
Você me abraçou.

I wanna hold your hand
Eu deveria ter dito

Eu não acredito nesse fim.
Você me falou.

I wanna hold your hand
Eu deveria ter dito

E depois disso eu caí em outro poço
Esse tem nome
E eu sei o nome
Mas não quero falar aqui

I wanna hold your hand
Eu deveria ter dito

Numa esquina qualquer
No tempo exato
A vida gritou para eu sumir
Eu grifei no livro vermelho:
Não sou de choro fácil.

I wanna hold your hand
Eu deveria ter dito

Quer ir ao parque?
Eu te perguntei.
Vou num tempo diferente do seu.
Você me respondeu.
E eu perguntei se esse era o fim.
Os cachorros me deram uma direção na vida incrível.
Você me respondeu.

I wanna hold your hand
Eu deveria ter dito

Num passado próximo
Rebobinando apenas alguns dias
Eu me gravei dançando sozinha pra você
Ao meu lado, uma taça de vinho
Ao seu lado, você escancarou ao mundo, feliz, o encontro de duas
As minhas células ressoaram uma dor intangível
O contrato sempre foi de desapego e eu não te devo nada
Você me falou
E eu entendi que a baleia era eu.

I wanna hold your hand
Eu deveria ter dito

Então eu abri a porta da memória
E me vi sentada na cama preta
Com o coração acalentado
Ao ver raízes nos seus olhos e excitação
Não tenho pressa em te conhecer.
Você me falou.

I wanna hold your hand
Eu deveria ter dito

Essas coisas acontecem assim, inesperadamente.
Você me falou
Não se engane, você sabia que havia chegado aos dez.
Eu deveria ter dito.
Eu não sei quantas vezes eu te vi nua
Você me falou
Acho que nenhuma
Eu deveria ter dito.
Não dou chance ao azar.
Você me falou.

I wanna hold your hand
Eu deveria ter dito

Minha mãe não teve contrações durante a minha gravidez.
É falta de coragem.
O médico falou
Nesses casos específicos, o bebe permanece durante alguns dias a mais no útero.
Durante este tempo, desenvolve um canal ligando o osso que eu não sei o nome que fica no extremo da cabeça com o outro osso que eu não sei o nome e que fica no extremo do calcanhar esquerdo. O canal atravessa o dorso e move a baleia. A falta de coragem é recompensada por um subterfúgio para sentir. E ela sente tudo. Ela é um canal e um canal é sempre atravessado.

I wanna hold your hand
Eu deveria ter dito

Eu prefiro ser a garota
Ou a baleia
Que tem um canal nas costas
E que te escreveu um poema.
Porque eu gostaria de segurar a sua mão, nada mais.

Cassiana Maranha

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Sob olhares do outono (Paulo Abreu)


Sinto sua falta
trazendo a angústia
e  abjeta ausência.
Ressoam funestas.

Minto ao tempo
e à chuva fina
deste outono triste. 
 Desejos desconexos 

Sinto nas palavras
que me conduzem ao
avesso da paz 
deste amor dileto

nas curvas da vida
feito um rio esmaecido
com margens estreitas,
enormes vazios irrequietos.


É isto aí!





Cuidados intensivos (Manuel António Pina)

Manuel António Pina – Uma noite com Vladimir – Singularidade

A esta hora e neste sítio
(miocárdio ventricular esquerdo)
é a abstrata vida que me assalta.
Eles não sabem
que o seu coração pulsa,
ferido,no meu coração,
que a minha dor alheia
vagarosamente mata
os seus sonhos,os seus sentidos,
os seus dias visíveis e invisíveis,
a linha dos telhados
ao longe sobre o céu.
Como saberiam
(com que palavras exteriores?)
que existem
dentro de mim
de um modo fora de mim,
os parentes,os amigos,
a vaga enfermeira da noite,
que enquanto o meu Único coração
morre na minha cabeça
a luz do quarto se
apaga para sempre
e o silêncio se fecha
sobre os corredores?
No quarto ao lado alguém
a noite passada morreu,
provavelmente eu.
Os livros,as flores
da mesa de cabeceira
conhecerão estas últimas coisas
em algum sítio da minha alma?

*O poeta, jornalista e cronista português Manuel António Pina nasceu em 1943, no Sabugal, distrito da Guarda, na Beira Alta, e faleceu no dia 19 de Outubro de 2012 no Porto - Portugal.

Tendo licenciado-se em Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, foi jornalista do Jornal de Notícias durante três décadas, tendo sido depois cronista do mesmo Jornal de Música e da revista Notícias Magazine.

A obra de Manuel António Pina incidiu principalmente na poesia e na literatura infanto-juvenil embora tenha escrito também diversas peças de teatro e de obras de ficção e crônica. Algumas dessas obras foram adaptadas ao cinema e televisão e editadas em disco.


O Vírus, o Luto e a dor da impotência mundial


Você já percebeu que estamos num estado mundial de Luto? O luto é um conjunto de reações a uma perda significativa e nós acabamos por perder esta sensação de invencibilidade atrelada a uma gama de tecnologia com a qual nos inteiramos da realidade real, virtual e artificial.

Mas só o humano vive o luto de forma consciente e espiritual concomitantemente, que pode ser pela morte de outra pessoa, conhecida ou não, ou por uma tristeza profunda causada por grande calamidade; dor, mágoa e/ou aflição.

No caso específico da Pandemia, existem aqueles que se recusam a acreditar nela, outros têm ódio e chegam até a agredir as pessoas de forma direta ou indireta, outros se sentem culpados pela dor do mundo e se abrigam aos seus credos e dogmas de fé de uma maneira hermética, outros entram em depressão e pouco a pouco, mais cedo ou mais tarde, há a aceitação, mas a aceitação não tem prazo nem tempo. Alguns nem chegam a aceitar a verdade, tamanha é a sua resistência diante do real.

Mas o que nos direciona ao Luto?

O Luto releva o aspecto tristonho das coisas.
A palavra "luto" vem do latim "luctus", que por sua vez carrega as seguintes informações:
De "us" - dor, mágoa, lástima, 
De "luctum", que por sua vez deriva de "lugĕo" chorar (pela perda de alguém ou de algo)

O cárcere compulsório e privado tem feito as pessoas reagiram de uma forma muito semelhante ao Luto. Cada um vai respondendo numa dor. Uma pessoa pode fixar-se na Negação e nunca mais sair dela. Outra ocupa a raiva com tamanha fúria, que todos ao seu redor ficam reféns da sua dor existencial. Um indivíduo não tem obrigatoriamente o mesmo tempo de permanência numa determinada fase, já que nossos perfis comportamentais são personalizados, e são eles que irão comandar a dor ou a razão.

Abaixo, de onde baseei o texto, as cinco fases do luto de Elisabeth Kubler-Ross . Em qual fase você está? O que você pode fazer para sair desta dor?

Fase 1) Negação
Seria uma defesa psíquica que faz com que o indivíduo acaba negando o problema, tenta encontrar algum jeito de não entrar em contato com a realidade. É comum a pessoa também não querer falar sobre o assunto.

Fase 2) Raiva
Nessa fase o indivíduo se revolta com o mundo, se sente injustiçado e não se conforma por estar passando por isso.

Fase 3) Barganha
Essa é fase que o indivíduo começa a negociar, começando consigo mesmo, acaba querendo dizer que será uma pessoa melhor se sair daquela situação, faz promessas a Deus. É como o discurso “Vou ser uma pessoa melhor, serei mais gentil e simpático com as pessoas, irei ter uma vida saudável.”

Fase 4) Depressão
Já nessa fase a pessoa se retira para seu mundo interno, se isolando, melancólica e se sentindo impotente diante da situação.

Fase 5) Aceitação
É o estágio em que o indivíduo não tem desespero e consegue enxergar a realidade como realmente é, ficando pronto pra enfrentar o problema.

É isto aí!




quinta-feira, 9 de abril de 2020

Amanda Machado, um livro de pessoa


Amanda descreve assim seu mais novo livro:

“O que os escritores devem fazer nos libertar, nos sacudir. Abra avenidas de compaixão e interesses novos. Lembrar-nos que podemos, simplesmente, aspirar a ser diferentes, e melhores, do que somos. Lembrar-nos que podemos mudar ”(Susan Sontag, 2008). Sob essa perspectiva, todo livro deve ter uma chance de ser lido. Libertar a quem lê e quem escreve; a quem olha e quem é olhado. A literatura é esse exercício infinito de liberdade no tempo e espaço; por isso também é uma ameaça ao status quo. A literatura cria e recupera novos tempos e geografias. Um livro nunca é tão “amontoado de palavras”, como desejável alguns, mas um universo repleto de possibilidades, inclusive a liberdade.
Esse texto não é recomendado, não é consultado, não é convidado para nada. Esse texto é um estrangeiro, um refugiado, um apátrida. Esse texto não tem geografia. Mas esse texto é tão irrelevante que não tem ajuda humanitária, esse texto está tão.
É uma mensagem na garrafa, não chega a tempo de salvar; então sirva para poesia. Esse texto é um sei lá, você é quem sabe, qualquer coisa que eu te falo. Esse texto não conhece a vontade. Não está apaixonado, embora tenha amor em cada linha. (Esse texto não ajuda em nada. P.07)
“Muita Magra para um Filho, Muito Gorda para um Homem” é uma voz que tenta ser ouvida; é um livro inacabado e que deseja durar até a última mulher liberada na Terra."

Detalhes do produto
Formato: Edição Kindle
Tamanho do arquivo: 259 KB
Tamanho da impressão: 93 páginas
Vendido por:  Amazon Ásia-Pacífico Holdings Private Limited
Língua: Português
ASIN: B086DNPG5C

Abaixo, indico a leitura completa deste extrato da quintessência, retirado do seu feminino blog Pareço Louca , publicado em 13 de Julho de 2018:

Muito magra para ter um filho, muito gorda para ter um homem
  Muito inteligente para ser bonita. Bela demais para ser esperta. Muito jovem para saber. Velha demais para aprender. Muito independente para ser acompanhada. Vulnerável demais para ir sozinha.  Muito vaidosa para as teorias e descobertas na Ciência. Desalinhada demais para os jantares e colunas sociais. Muito sensível para suportar o peso. Ambiciosa demais para ser afetada. Muito ensolarada para entender abismos. Soturna demais para fazer sorrir.
  Muito maternal para ser desejada. Sensual demais para ser respeitada. Roupa curta demais para não querer ser vista; roupa muito comportada para a idade.
- Que roupa você usava? Fazia o quê sozinha, na rua, uma hora dessas? Era inevitável isso.

Gostou? Leia na íntegra aqui:



quarta-feira, 8 de abril de 2020

Memórias virais


Tinha um sujeito que morava três casas para baixo, digo, para cima, porque o córrego corria do oeste para o leste e ele morava no sentido oeste. Casado, três filhos, duas meninas e um menino. Toda manhã passava em sua elegante bicicleta verde-esmeralda, alemã, de marca Göricke, que era um objeto de desejo que eu tinha para quando crescesse. 

A família era proibida de mexer com o veículo, mas quando chegava em casa, ali pelas dezessete horas, a meninada toda corria para ver de perto aquele símbolo místico da liberdade e da aventura, e eu ia também. Imaginava pilotar uma máquina daquele porte para além do mundo, rumo ao desconhecido.

Tinha Pneus Balão aro 26", plaqueta Göricke do caximbo dianteiro em relevo, pedivela e guidão com a marca Göricke estampada em baixo relevo, um emblema de paralamas muito bonito; freio tipo Varão dianteiro e traseiro; caixas de direção e central originais; partes cromadas lustradas e brilhantes; aros alinhados; punhos ergonômicos, de madeira nobre, e o cobre-corrente justaposto; um refletor traseiro; uma elegante campainha cromada no lado esquerdo do guidão e além disto reluzia o dínamo e o farol Inglês Lucas, entre dois retrovisores perfeitos.

O selim era fantástico, com três molas amortecedoras imensas, acolchoado, com uma bolsa de couro na sua parte traseira onde levava material de reparo, uma câmara vazia, tampas de pisto, uma chave de boca com 13 funções, uma tesoura, dois canivetes, lixa, cola, uma pequena pedra de amolar e um alicate. A bomba de ar ficava numa das duas caixas longitudinais encaixadas e soldadas imediatamente sob o bagageiro, uma de cada lado, com abertura lateral, travadas com três presilhas largas.

Na outra caixa levava diversas ferramentas, como um formão, chaves de fenda,chaves Kemli, dois alicates maiores e uma faca estilo punhal. Dizia que as eventualidades são muitas quando se está numa estrada. Além disto, duas bolsas laterais de couro pendiam sobre a roda traseira, fixadas ao bagageiro, promovendo conforto e segurança ao passageiro - que nunca vi levar.

Um dia montou na sua bicicleta, saiu cedo de casa como de costume e nunca mais voltou. Nas conversas de comadres no portão, cujos ouvidos infantis ficavam antenados, soube que fugiu com Amelinha, uma mocinha sem graça, meio amarelada, cabelinho aguado, que morava nos fundos da quinta casa acima, com a mãe velha e doente. 

Hoje fiquei pensando ... puxa vida, onde ele está pedalando neste instante, livre e solto, naquela potente Göricke? Por que eu nunca comprei uma Göricke para mim?

É isto aí!

segunda-feira, 6 de abril de 2020

É impossível não falar sobre isto

2001 Uma odisseia no espaço

Sentei à mesa para o ritual do café da manhã, abri a tela do notebook e a primeira matéria que busquei foi baseada um sonho que tive à noite, que foi sobre a descoberta da penicilina. A matéria afirmava que foi o primeiro medicamento amplamente utilizado na medicina; tendo a sua descoberta atribuída ao médico e bacteriologista escocês Alexander Fleming em 1928. 

Só em 1942 é que surgiu o termo Antibiótico, enquadrando a Penicilina, termo este derivado de Antibiose, da filosofia do século XIX. O incrível desta história, 90 anos depois, é que o mecanismo de ação das penicilinas não é totalmente conhecido. Isto, sim, é fantástico. O medicamento mais empregado no século XX jamais teve, até a presente data, nenhum informe sobre como funciona. Ora, bolas, funciona e pronto!

Pessoas que querem certezas, exatidões, verdades planas e plenas, deveriam voltar os olhos à penicilina - as coisas são por que são o que são, quer seja na vida profissional, na vida pessoal e sobretudo no amor. Ah! O amor! Não se explica, e quando o fazem, é o flagelo da existência. O importante é que flui, cura, resplandece, etc etc etc.

Agora está nas ruas, nas conversas dos guetos e das alamedas floridas o vírus que veio para destruir. Um vírus que está no mundo desde que o mundo é mundo. Para saber mais sobre a história natural dos vírus, a ciência se ocupa da  Paleovirologia, que  é o estudo de vírus que existiam no passado, mas agora estão extintos.

É isto aí!

Daqui para a frente, o texto não tem relação com o Vírus pandêmico, é apenas um convite para a reflexão. 

Atenção - O texto abaixo não é meu
Copiei e colei daqui: "Como ressuscitar um retrovírus extinto"
Fonte: 

Pesquisadores franceses ressuscitaram um retrovírus que ficou preso no genoma humano cerca de cinco milhões de anos atrás. Reunido a partir de seqüências existentes no DNA humano, o vírus reconstruído foi capaz de infectar células de mamíferos fracamente, sugerindo que ele funciona de maneira semelhante ao organismo extinto.

Os retrovírus inserem seu DNA no genoma do hospedeiro para se reproduzirem, mas se permanecerem tempo suficiente, poderão sofrer uma mutação que os impede de voltar a aparecer. Quase 8% do genoma humano consiste em tais seqüências de DNA retroviral capturadas, que gradualmente se tornam distorcidas ao longo dos milênios. Alguns dos que foram adquiridos mais recentemente, no entanto, têm sequências quase completas. Eles pertencem a uma família extinta de retrovírus chamada HERV-K (para retrovírus endógeno humano, tipo K). Alguns desses elementos do HERV-K parecem desempenhar um papel no desenvolvimento da placenta e até causam a formação de partículas semelhantes a vírus em certos tumores. Os pesquisadores não conseguiram isolar um vírus HERV-K infeccioso de amostras humanas para estudar sua possível função.

Thierry Heidmann, do Instituto Gustave-Roussy da França, em Villejuif, e seus colegas resolveram esse obstáculo ao comparar 30 sequências diferentes de HERV-K. Para cada posição em sua sequência final, eles atribuíram a base nucleotídica mais comum entre os 30 originais nessa posição, de acordo com um artigo publicado on-line em 31 de outubro na Genome Research . Eles chamaram o produto final de vírus de "Phoenix". Quando eles expuseram Phoenix a células humanas e de mamíferos cultivadas, eles observaram partículas de vírus espetadas saindo das células e flutuando entre elas. Os genomas das células também continham novas seqüências de HERV-K, indicando que os vírus as haviam infectado.

O grupo também descobriu que eles poderiam reconstruir um vírus infeccioso semelhante ao Phoenix unindo elementos de três seqüências conhecidas, um processo que poderia, em princípio, ocorrer em pessoas vivas, dizem eles. Felizmente, a própria Phoenix infectou as células fracamente, e a versão costurada foi ainda mais branda, talvez por causa das defesas celulares contra os retrovírus, relatam os pesquisadores. Eles observam que os pesquisadores agora podem usar Phoenix como um tipo de referência no estudo do possível papel da atividade espontânea do HERV-K no câncer.


PROPAGANDA
A equipe afirma que o Phoenix foi tratado de acordo com os regulamentos franceses e só seria enviado para outros laboratórios que concordam em seguir as precauções de nível 3 de biossegurança - a segunda mais rigorosa. Pesquisadores americanos usaram o mesmo nível de segurança na reconstrução da cepa da gripe responsável pela pandemia de 1918, como relataram no ano passado. Alguns pesquisadores discordam, no entanto, de trazer o retrovírus de volta à vida dessa maneira. O grupo não poderia saber ou prever a baixa infecciosidade do vírus de antemão, salienta o biólogo molecular Richard Ebright, da Universidade Rutgers, e, portanto, deveria ter realizado o trabalho com o mais alto nível de segurança depois de buscar uma revisão nacional ou internacional.


sábado, 4 de abril de 2020

Em ritmo de fim de festa


Fim de festa. Tudo fora do lugar, a cabeça em desalinho com o corpo, a voz embargada. Saiu fechando as janelas, mandando os pensamentos adormecidos se moverem e fechou a porta. Chorou ali mesmo, imóvel, no  desconforto do adeus.

Levantou-se, recompôs os sentidos, foi na despensa e pegou uns sacos de lixo, recolheu tudo que era possível e foi acumulando num canto da cozinha. Seis sacos de histórias, contos, revelações, sonhos descartáveis, assuntos de diversas espécias, versos e controversos e outras coisas estranhas. Enfim, tudo o que há de saldo de uma festa de término melancólico e monocórdico.

Ela disse adeus com toda a  razão, teve pleno direito de dizer adeus. Teve todas as certezas do seu lado. Teve a convicção, teve o bom senso, teve a história ao seu lado, teve o tempo e a realidade apoiando sua tese, teve a paciência, a inteligência, a sensibilidade e o raciocínio lógico depondo ao seu favor. 

Fim de festa. Não dá para cobrar de quem está certa. Ela disse adeus e ele não sabia ainda onde ficará seu passado no futuro que indubitavelmente chegará. Lembrou de Sun Tzu afirmando que "Há momentos em que a maior sabedoria é parecer não saber nada". O problema é que de fato não sabia o que fazer. Pensou, pensou e num gesto de iluminação mandou Sun Tzu plantar batatas, só então sorriu da sua reflexão indômita

É isto aí!










quarta-feira, 1 de abril de 2020

Não tem assunto novo não?


Neste primeiro de abril, estranho dia nacional da mentira, caminhei sob denso nevoeiro até atingir a Colina do Bom Senso. Lá se encontra o sensível putoscópio que utilizo para analisar as ações benignas e condescendentes que os homens de bem fazem pela choldra na pequena e pacata Pindorama, este divertido reino que se avizinha da Pitangueira.

Em lá chegando, encontrei a porta aberta e sinais de presença de um potentíssimo vírus, malvado, terrível, sem coração, que inviabilizou totalmente a capacidade de analisar o que se passa por aquelas bandas. Desta forma, por causa de um ser ultra-microscópico, Pindorama está impenetrável.

Sua festiva população está em clausura, sob as rédeas das redes sociais e dos informes televisivos, além disto bate panelas para isto e para aquilo, buzina automóveis frenéticos enquanto gritam beatas histéricas contra e a favor, apaixonam-se gatas e cachorros numa noite de lua nova, e a persona não cai.

Por hoje é só, por enquanto. Aqui, neste site indicado, você verá o mono-tema do dia nos principais jornais circulantes em rede nacional:  https://www.vercapas.com.br/

A pergunta que não quer calar: Não tem assunto novo não? Tem mais nada acontecendo?

É isto aí!








   

terça-feira, 31 de março de 2020

Cartas a Deus II


Deus, sim eu sei, no princípio o Senhor criou o céu e a terra, e a terra era sem forma e vazia. Eu não discordo, não acrescento nada, mas acho que quem o Senhor determinou que colocasse no papel o Gênesis teria, por descuido ou ignorância ou desinformado, esquecido do mundo microbiológico que antecede à vida de nós outros. É possível que apenas desconhecia o que não pode ser visto. Mas tudo bem, eu ouso refletir que caberia uma pequena revisão celestial, bem ali entre o fim do segundo e a madrugada do terceiro dia.

O fato é que eu e todos os que são imagem e semelhança do Senhor, temos cerca de 80 bilhões de neurônios e 10 trilhões de células que nos fazem valer a pena viver e as bactérias que habitam em nós são cerca de 100 trilhões de indivíduos. E os vírus são como grãos de areia numa praia deserta. Incontáveis. 

Além deles, temos as organelas, sendo a principal a Mitocôndria, que na plena convicção veio de Eva. Só as mulheres têm o poder de nos dar luz e calor. São as mitocôndrias, estes micro-organismos altamente complexos, que geram sozinhos toda a energia que consumimos. E isto é graças a Eva, e olha que poucos a agradecem por isto.

Eventualmente não há como desaperceber o caos que impera nas nações deste planeta. Tudo fica absurdamente fora do lugar, visto assim de uma maneira quase normal. Mas cá para nós, o que foi normalidade por aqui nos últimos hummmmm seis mil anos?

O que está destituído de razão, de propósito ou de sensatez? Sob qual ponto de vista? Está cada vez mais difícil o espírito socrático de perguntar por aí o que acham disto. Existem pessoas que não acham nada, mas têm (pasme, Senhor) uma esferográfica atômica ao alcance das mãos, e numa canetada, têm o poder de baixar decretos ou afetar e/ou eliminar outros humanos numa asséptica mortandade das infinitas bactérias hóspedes dos que lhe são imagem e semelhança. 

Então, Deus, esta carta é só um desabafo. Acho que o problema ainda é o mesmo - algumas pessoas continuam ignorando aquilo que não podem ou se recusam a ver. Ou pode ter ocorrido uma mutação com o surgimento de micro-organismos afetando os neurônios de certos coisos e coisas, cujo desalinhamento serve para dizimar as bactérias que ousem ser livres. Rogo que atenue a ação destes vírus deformadores da sua criação. Seja o que for, atendei a nossa súplica - livrai-nos do mal (o Senhor sabe quem ...)

A sua benção!

É isto aí! Amém.

domingo, 29 de março de 2020

Nada de novo no front da pandemia

O Grito Edvard Munch

Tudo agora é a pandemia. As questões sociais, espirituais e econômicas passam pelo vírus, como um deus invisível a colocar todos  sob seus pés, como se deuses os tivessem. Nós e esta mania estúpida de achar que tudo se assemelha ao que já conhecemos.

Mas não era sobre isto que ia falar. Eu queria falar sobre  "Nada de novo no front" - no final o protagonista morre - pronto, já contei o fim. Agora siga o roteiro e faça você também a sua analogia.Tire a palavra Guerra e coloque Epidemia.

Abaixo o texto que copiei e colei:
Copiei deste site: obviousmag.org 
Nesta página: Nada de novo no front

A obra cinematográfica Nada de novo no front, do diretor Lewis Milestone filmado na década de 1930 é uma adaptação do romance de cunho crítico e pacifista do escritor alemão Erich Maria Remark que havia servido nas trincheiras da primeira guerra em 1914 aos dezoito anos de idade. O autor do livro também sofreu com as atrocidades da primeira grande guerra deferida em capo de batalha. Experiência suficiente que lhe forneceu arcabouço para desenvolver o livro “Im Westen nichts Neues”.

“A oeste nada de novo”, no Brasil – Nada de novo no front - cujo filme abarca as experiências do jovem germânico Paul Baümer e seus companheiros que durante a guerra vão se conhecendo e vivendo experiências terríveis à medida que os desdobramentos dos fatos mostram a dura realidade do campo de batalha, onde cada um dos amigos morre, e apenas Paul (o personagem narrador) toma conta do desfecho central do filme onde, na medida em que narra às experiências, também desperta sobre seu papel e questiona tudo que vive. Paul acaba morto, mas a reflexão deixada oferece um roteiro bem adaptado e um filme que reserva várias reflexões acerca das consequências da primeira guerra mundial e seu impacto no mundo.

Até o final do século XIX as grandes potências já haviam se envolvido em guerras nos anos anteriores, contudo um conflito mundial da proporção que se desdobrou nunca havia sido experimentado pela humanidade. As sociedades ainda não haviam se estruturado de maneira mais heterogênea e seus grupos sociais, mesmo que distintos ainda não haviam percebido o quanto as novas tecnologias e consequências da revolução industrial poderia fornecer ou transformar o mundo que viviam as consequências econômicas, sociais, culturais e políticas estavam acendendo um barril de pólvora de hostilidades.

As grande potencias continentais como o Império Germânico, o Russo, o Império Austro-húngaro, França, investiam no neo colonialismo em terras Africanas que no estágio que se seguia a partilha da África aprofundava ainda mais as tensões que eram localizadas fora da Europa.

“Até o fim do século XVIII, essas potências tinham sido socialmente homogêneas, todas eram ainda sociedades primariamente agrárias, dominadas por uma aristocracia fundiária e governadas por dinastias históricas legitimadas por uma igreja estabelecida. Cem anos mais tarde, tudo isso fora completamente transformado ou estava sofrendo uma transformação rápida e desestabilizadora; mas o ritmo da mudança fora muito desigual. ”(HOWARD,2011,p.22)

Até o estopim de acontecimentos que são resultados de diversos fatores o historiador Eric Hobsbawm explica que desde a primeira grande guerra até a segunda seriam trinta e um anos de conflitos, neste sentido ambas as grandes guerras teriam seu estopim desde a declaração de guerra da Áustria contra à Sérvia em 1914, até a rendição do Japão 1945 depois de Hiroshima e Nagasaki. Para Hobsbawm, de 1815 até 1914 não havia existido nenhuma grande guerra entre potências, apenas os conflitos localizados em partes isoladas é que teriam sido travados por interesses diversos e não se coadunando por um objetivo mais significativo de expansão mundial. Conflitos entre Japão e Rússia, a Guerra da Criméia (1854-6), entre a Rússia e Grã-Bretanha e França.

“Paz significava antes de 1914: depois disso veio algo que não mais merecia esse nome. Era compreensível. Em 1914 não havia grande guerra fazia um século, quer dizer , uma guerra que envolvesse todas as grandes potencias, ou mesmo a maioria delas, sendo que os grandes participantes do jogo internacional da época eram seis grandes potencias europeias (Grã-bretanha, França, Russia, Áutria-Húngria, Prússia – após 1871 ampliada para a Alemanha – e, depois de unificada, a Itália), os EUA e o Japão .”(HOBSBAWM,1995,p.30)

Este conflito resultou justamente, na progressão de acontecimentos, que é quase consenso entre os historiadores contemporâneos do qual tudo realmente se passou como uma grande guerra de 1914 a 1945. Seria neste sentido que ao pós guerra estimulou o grande turbilhão de ideologias e novas estruturas no mundo, desde a economia com o comunismo e o grande embate durante os anos de 1950 com entre os EUA e a Rússia. No filme nada de novo no front centralizado na primeira guerra, nada do pós guerra é mostrado, contudo as perdas na Europa foram imensas desde humanas a econômicas.

“Locais, regionais ou globais, as guerras do século XX iriam dar-se numa escala muito mais vasta do que qualquer coisa experimentada antes. Das 74 guerras internacionais travadas entre 1816 e 1965 que especialistas americanos, amantes desse tipo de coisa, classificaram pelo número de vitimas, as quatro primeiras ocorreram no século XX: as duas mundiais, a guerra do Japão contra a China em 1937-39 e a guerra da Coréia. A maior guerra internacional documentada do século XX pós napoleônico, entre Rússia-Alemanha e França, em 1871, matou talvez 150 mil pessoas, uma ordem de magnitude mais ou menos comparável às mortes da Guerra do Chaco, de 1932-35, entre Bolívia e Paraguai. Em suma, 1914 inaugura a era do massacre. ” (HOBSBAWM,1995,p.32)

Além de todos este panorama vale salientar os atenuantes que aconteceram após a primeira guerra, quando a Alemanha foi rechaçada e humilhada com grandes penas durante o tratado de Versalhes, onde as medidas de contenção expansionista do império alemão deveriam ser controladas e a perda de territórios com graves consequências para sua geografia, e uma verdadeira reordenação dos diversos estados nação que surgiriam pós primeira guerra. Mesmo as grandes potencias vencedoras como Grã-Bretanha e França Jamais, ou pelo menos até o final da segunda guerra voltaram a se recuperar das grandes perdas econômicas e humanas, pois toda uma geração de homens novos (jovens) haviam sido mutilados ou mortos famigeradamente durante a guerra de trincheiras, se não morriam ficavam doentes e não rendiam nos campos de batalhas. A guerra que antes era algo romântico parecia depois disso um terreno tenebroso para aqueles que se desencantavam com a dura realidade das trincheiras.

 A obra de Hobsbawm mostra as conjunturas políticas e econômicas a respeito do conflito, no filme estes aspectos não são levados em consideração pois a perspectiva é centrada nos acontecimentos sucessivos que envolve tanto o principal personagem o soldado Paul Baumer, quanto seu amigos de regimento. No livro, em consonância com o filme a celebre frase destaca como já de início a guerra é algo aterrorizante. “A morte não é uma aventura para aqueles que se deparam face a face com ela” o livro em si é muito mais duro que o filme, diga-se de passagem, mas a atmosfera de uma adaptação cinematográfica nem sempre leva em consideração pontos tão específicos. Mesmo em momentos trágicos há sempre meios mais leves de deixar a película menos conflitante.

O cunho pacifista da obra, choca-se em determinados momentos com o filme, muito mais um triler psicológico do que centrado nas imagens que o livro denota como os massacres que vez por outra embrulham o estômago do leitor, contudo com dose certa de humor o filme em alguns momentos deixa a atmosfera mais leve. Mesmo no contexto social e romântico da belle époque a primeira guerra deixou marcas quase que intransponíveis nos jovens que lutaram a seu tempo, em 1940 o mundo havia mudado e as lutas nacionalistas ditavam, a belle époque tinha sido deixada para trás e um novo mundo, como consequência da primeira grande guerra havia sido deixado para trás.

“A primeira guerra mundial pôs fim a Belle époque, nome dado aos primeiros anos do século XX, que teriam sido felizes e despreocupados. Quando se fala em Belle époque tem-se em vista os privilegiados da fortuna, a gozar as custosas amenidades das grandes cidades, particularmente Paris. O fato é que também o europeu comum já desfrutava de melhores condições de vida e tinha esperanças de dias melhores, trazidos pela revolução industrial e pelas transformações sociais. Mas havia acontecimentos a apontar em sentido contrário e que deram lugar ao atentado de Sarajevo, o estopim da guerra. ” (MAGNOLI, 2009,p. 319)

O filme com seus tons Noir, reservado aos grandes filmes de romances da época de grande depressão, mostra justamente este final de época, cujo desvelo se mostra através de toda a frustração do soldado Paul Baumer. A história de Paul revela toda uma consequência muito maior de uma romance que entre o período de entre guerras teve como consequência uma película competente em revelar nuances importantes do livro de Eric Maria Remark. Com isso o filme traça todo um panorama e drama psicológico que centra seus acontecimentos nas reflexões e situação do soldado Paul.

Neste sentido, torna-se mais palpável como o filme revela toda a frustração de uma geração durante o pós-guerra sobre as atrocidades, como informa o historiador Eric Hobsbawm, ou Michael Eliot Howard, dois grandes analistas da história contemporânea, que descrevem os cenários e através de análises apuradas revelam o contexto que cerca o filme, a luz de suas colocações pode-se traçar um breve panorama do que representou a guerra e como o filme, como importante romance busca conscientizar sobre um dos primeiros grandes conflitos do séc. XX.



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sábado, 28 de março de 2020

Do dia que te vi (Paulo Abreu)


Sensações estranhas 
ocorrem a todo instante
e nenhuma delas
trás você de bicicleta

Também nenhuma delas
coloca você num boeing
voando sobre o planeta
só para me abraçar

Tentações estranhas
loucamente humanas
trazem você sorrindo
com seu batom nude.

Abracei você ontem
ausência me afligindo 
foi ontem, quero agora
ser o seu azimute.


É isto aí!