sábado, 17 de janeiro de 2026

Cartas de Amor C


Cartas de Amor 100
Epistulae Amoris C

Reino da Pitangueira,
Planeta Terra&Lua,
3° do Sistema Solar,
Via Láctea, Zona Sul

Querida, esta é a nossa centésima carta de Amor

Tudo bem se amanhã é sexta, eu até entendo isto. Tudo melhor ainda se meu bem estiver comigo. E ainda tem gente que reclama cantando aquela música que acho ridícula, mas prefiro não abusar da sorte. Vai que hoje não é meu dia e o santo que me protege entrou de licença celestial? Para minha surpresa suprema, amanhã é domingo.

Você já chorou neste 2026? Já rolaram lágrimas inexplicáveis nesta sua face doce e combatente? Pensou em fugir enquanto ia ao banheiro na noite do réveillon? Pensou em chutar o pau da barraca? Experimentou um transe neuro psicodélico transitando entre o mar e as montanhas? Em algum momento deste 2026 sentiu-se segura?

E amanhã é domingo, deveria ser minha infância agora. Alguém aí na frente fala para o timoneiro desta grande nau, aquele que um dia me aportará em solo fértil, para que eu possa descer em algum lugar do passado. Se o futuro ainda não existe e o presente é apenas uma grande represa de sonhos, vou-me embora para o passado.

Acho que não estou bem. Vi seu nome hoje num documento confidencial que estava protegendo dados sensíveis. Pensa bem, sua maluca, somos dois errantes com confidências restritas um para com outro. 2026, já disse isto, não existe e posso provar, pois no momento em que o definimos, ele já se tornou um longínquo passado, sendo um ponto vesgo e sem duração na linha do tempo, ou uma construção do cérebro para organizar a experiência, não um instante objetivo com volume zero.

Mudamos tanto, mudamos muito, mudamos porque nos amamos. Queria mudar ao seu lado, mas mudamos para dentro. Eu nunca saberia mudar sem você, absoluta, na minha jornada até o dia que os mundos se separem. 

Gonçalves Dias perpetuou a nossa história e nossa verdade neste trecho do poema "Se se morre de amor não se morre":

Sentir, sem que se veja, a quem se adora,
Compreender, sem lhe ouvir, seus pensamentos,
Segui-la, sem poder fitar seus olhos,
Amá-la, sem ousar dizer que amamos,
E, temendo roçar os seus vestidos,
Arder por afogá-la em mil abraços:
Isso é amor, e desse amor se morre!

É isto aí!


"De certa forma"


Nunca estou disponível para mim, e isso me irrita — de certa forma. A questão aqui é analisar, ou ao menos fingir que se analisa com neutralidade, essa expressão que se infiltra no meu cotidiano como uma desculpa educada: a famosa, onipresente e covarde “de certa forma”.

Desde priscas eras sei — ou deveria saber — que a negação de uma proposição não é um detalhe estilístico. Proposição, meus amigos e minhas amigas, é aquilo que se afirma e se submete a exame: algo que pode ser verdadeiro ou falso. Simples assim, embora doa.

Entendeu? Anota aí se precisar: dedução, indução, abdução. Isso cai na prova da vida todos os dias, mas você prefere passar cola sem ler o enunciado.

Na lógica, a negação é uma operação precisa: se a afirmação é verdadeira, sua negação é falsa — e vice-versa. Não há “mais ou menos”, não há penumbra confortável.

Já na linguagem ordinária, essa mesma operação reaparece travestida de gentileza. “De certa forma” não confronta, não nega frontalmente, não assume o risco do não. Ela sorri, concorda com a cabeça e, ao mesmo tempo, esvazia o conteúdo do que acabou de aceitar.

Em termos práticos, prezado leitor, graciosa leitora, “de certa forma” é a negação que não se assume: uma sabotagem elegante da proposição inicial. Concorda-se para não concordar. Afirma-se para não afirmar. Vive-se — de certa forma.

É isto aí!

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Cartas de Amor XCIX


Cartas de Amor XCIX
Reino da Pitangueira,
Planeta Terra&Lua,
3° do Sistema Solar,
Via Láctea, Zona Sul

Querida, vamos fazer o que havemos de fazer!

Calma meu bem, respire profundamente, encha seus pulmõezinhos plena e pacientemente. Nós, meu amor, eu e você, somos a pergunta das respostas que experenciamos no amparo da saudade e do pertencimento. Não chore, querida, ainda temos um ao outro e isto por si só nos basta.

 Somos nós que testamos, executamos ou vivemos vivificando este algo maior, sendo passageiros da jornada desta vida passando por inúmeras situações com o único sentido de termos experiências que glorifiquem nossa jornada.

Estes nós, querida, atados a cada fração de segundos, delimitam nossa existência aqui, mas não a nossa vida, posto que é eterna. Um dia, minha Flor, nossos caminhos não nos devolverão mais ao mundo material e então assumiremos o nosso destino de seres de puro amor. 

Meu bem, quando estivermos lá com as duas mãos unidas, repartiremos nossa felicidade como quem que nunca a teve. Não cobremos um do outro mais do que podemos entregar. O amor não se mede apenas pela entrega. Sigamos, meu bem, regozijando este sentimento tão único, imaterial e verdadeiro.

Não vamos fugir, nem sequer ousaremos caminhos sedutores e aventureiros. Venha, sem medo, sem as mágoas, sem culpados, sem aflições ou conflitos. Vamos fazer o que havemos de fazer! Querida, eu não sei não amar você! Um cafuné no cabelo, um afago na face, um abraço apertado e um beijo apaixonado.

É isto aí!





Minha travessia


Depois de muitos anos, parti para as tão sonhadas férias. Eu precisava de um intervalo — um tempo suspenso para ouvir o que em mim pedia silêncio — e escolhi um resort no interior do estado, remoto, quase fora do mapa. Os dias acomodaram-se na calma até a terceira noite, quando o extraordinário irrompeu.

Estava eu a percorrer distraído o YouTube — política, esportes, trivialidades — quando tive a sensação de ser tragado pela tela. Não foi um puxão brusco; antes, uma aspiração suave, progressiva, como se a própria luz me convidasse a atravessar o vidro. Soltei o fone, fixei o brilho. O mundo conhecido rarefez.

Num instante, eu já estava do outro lado: um pequeno solarium, claro e silencioso. Olhei para trás. A sala apagava-se como fotografia antiga — móveis, sombras, tudo se dissolvendo até restar apenas o vazio.

Sentei-me numa poltrona confortável, diante de um jardim vasto, à espera de alguém que não chegava. O tempo passava — eu sabia —, mas perdera a medida de sua marcha. Então surgiu um homem de passos curtos, sandálias arrastando o chão, uma penca de chaves a tilintar no bolso da túnica.

Vestia linho azul-celeste, do ombro ao tornozelo, preso por um cinto. Quando ergueu a chave, seus olhos atravessaram os meus. Não foi um olhar: foi um mergulho. Senti escoarem, como poeira antiga, pesos, dores, angústias, mágoas, erros, mentiras. Um esvaziamento tão pleno que beirou o pânico — e, logo depois, um sossego profundo.

Despertei numa sala de conforto espartano. Ali estavam meus pais, dois irmãos e amigos muito próximos que já haviam partido. Abraçamo-nos em roda. Não houve palavras: seus pensamentos chegavam a mim como maré serena. Eu era luz — pura energia — navegando num mar de afetos. Chorei, sem pudor.

Dois homens altos entraram e, um de cada lado, conduziram-me a um grande salão. Havia centenas de recém-chegados como eu. No ponto mais alto, um palco; ao redor, um silêncio tão denso que parecia audível. Sentei-me. A poltrona moveu-se lentamente. Diante de mim, desenrolou-se o filme da minha vida. Tudo estava ali, sem cortes nem disfarces.

Então o chão faltou. Caí no vácuo, a velocidade crescendo até que os sentidos se apagaram. Acordei na manhã seguinte, na cama do hotel. Permaneci alguns instantes imóvel, como quem retorna de um lugar sem nome. 

O quarto era o mesmo, o mundo também — mas algo em mim se havia tornado mais leve, quase transparente. Não procurei explicações. Havia viagens que não pedem destino nem relato; apenas permanecem, silenciosas, como um sopro que nos acompanha pelo resto do dia.

É isto aí!

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Tempo bom é o Hoje e o Agora


Sou do tempo que havia discos de vinil, em LP e Compacto

As Rádios eram o grande elo entre as culturas e notícias.

O leiteiro vendia o leite no litro pela rua afora

O açougueiro tinha banca na feira

Havia o aplicador de injetáveis nos domicílios

O aplicador carregava uma maleta com seringas de vidro e várias agulhas

O aplicador "esterilizava" — sqn — as seringas e agulhas na água fervente.

A professora era sempre professora e nunca tia

O vendedor de aves vivas as abatia e depenava ao gosto do freguês, ao vivo

Existiam relojoeiros, sapateiros e engraxates 

Existiam os colégios só para meninas

Existiam os colégios só para meninos

Matiné (em francês) sempre após o ato religioso, com os Três Patetas

Só os ricos tinham carros de passeio

As madeireiras eram as grandes empregadoras

Era elegante falar francês e saber algo em latim.

O preconceito social e racial eram despudoradamente naturalizados.

Sou do tempo em que ser pobre era destino fadado ao fracasso.

As moças só podiam comprar absorvente com uma atendente discreta.

Data de validade era algo proibido e desconhecido.

Não havia saúde pública, nem saneamento, nem água potável

Não havia rede de esgoto, e as casas tinham fossa no quintal.

Televisão já era uma realidade quase impossível.

Enfim, minha infância tinha 19 merdas para cada coisa rara e boa a todos.

E os Millennials (Geração Y, ~1981-1996) reclamam

E a Geração Z (~1997-2012) reclama mais um pouco do que a Y.

É isto aí!

 


terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Ando meio esquisito




Fiz uma força enorme para levantar minha coragem frente ao desafio de navegar oceano afora num barco de ideias, pensamentos, memórias, tudo movido às sinapses naturais e às estrelas. 

Se você nunca viu noite alta e lua nova com estrelas não sabe o que é sonhar com as coisas impossíveis que navegam no nosso caminho pela praia. Sempre tive o cuidado de manter o pé na areia na parte plana do litoral, deve ser coisa minha mesmo este negócio de manter o equilíbrio.

Estava refletindo quanto a isto tudo e algumas coisas a mais, quando de repente, espera, eu disse de repente e mudei de ideia. Dei uma freada abrupta no meu possante condutor de vagas. Vagas para a plebe são ondas enormes, sabe? Daquelas que nunca surfei, nem nas melhores das minhas decisões. 

Pauso para o drama  Quanto tempo ainda tenho? Muitos? Poucos? Tensos? Intensos? Daqui do alto da cabeça meus olhos não vêm as horas nestes ponteiros díspares atados ao confuso e retórico pensamento. 

Vocês já andaram no mato? Não aquele mato urbanizado. É uma coisa assustadora quando não se conhece o caminho. Sim, há caminhos por entre as árvores, cipós, arbustos, etc. Jurei nunca mais andar embrenhado na mata, mas ninguém tira o que estava escrito para ser. Ninguém que bate bem das válvulas do cérebro, turbinado e protegido por uma rede neural intracraniana, é normal.

Acho que os remédios acabaram. Também acho o que acho porque às vezes nem procuro. Imagine você. Também é assim, não é? Por isso sorriu, que eu vi. Acredito que depositamos essas esquisitas atividades que o cérebro nos faculta observar devido a esta inenarrável habilidade que temos de refletir e analisar situações para tomar decisões melhores, o que faz de nós, suponho, bípedes pensantes em fase crucial na vida moderna.

Desejaram tanto que fui aos exames para ver se ainda tinha lucidez. Imagine você o que seria de mim lúcido enfrentando todas estas frentes nefastas, malvadas, rudes, desumanas tanto quanto as faturas de cartão de crédito vencidas. 

O doutor e as duas doutoras por onde passei não encontraram nada além da vã filosofia, que graças a Deus, quem me viu e quem me vê sabe que devo ter alguma coisa, sei lá o que, vai ver sou só esquisito mesmo.

É isto aí!     


domingo, 11 de janeiro de 2026

Uma jovem mulher lendo cartas de amor


   

Sobre a Cena: Interior de um café parisiense do século XVIII, estilo rococó, iluminação suave e difusa de uma janela.

Sobre a Figura Central: Uma jovem mulher, elegante e serena, sentada em uma cadeira Luís XV com estofado de damasco creme. Ela está descalça, com os pés apoiados em um tapete persa. 

Sobre as Vestes: um vestido de verão azul-pó (estilo "chemise à la reine"), sem mangas, com decote arredondado. O tecido é leve (musselina ou seda). 

Sobre os Adereços: Ela usa um colar fino de pérolas com uma Cruz de Caravaca e brincos de safira. Possui no dedo anelar esquerdo um anel com pedra safira azul . 

Sobre seus Cabelos: estão empoados, com alguns cachos, penteados no estilo Belle Époque.

Sobre a Ação: Ela está totalmente absorta na leitura de suas cartas de amor. Sua expressão é suave, introspectiva, com um leve sorriso nos lábios.

Sobre o Elemento Crítico: Na parede atrás dela, um espelho oval em moldura dourada e esculpida reflete seu perfil e as cartas em suas mãos, mostrando sua expressão focada.

Sobre o Ambiente: Atmosfera íntima e privada. Na mesa ao lado, uma xícara de porcelana fina e um pires. Tons de azul, creme, dourado e rosa-pálido dominam a paleta.

Sobre o Estilo de Pintura: Realista, semelhante a obras de Jean-Honoré Fragonard ou Jean-Baptiste Greuze.

Sobre a Luz: Há  um leve, discreto e tênue feixe de luz neste espaço sobre a mulher, com micro partículas em suspensão.

É isto aí!

sábado, 10 de janeiro de 2026

A Decepcionista Sênior (Um ensaio revisionista das novas funções humanas)


A Decepcionista Sênior
(Um ensaio revisionista das novas funções humanas)

Anteriormente já tratamos das Decepcionistas, mas, com o desenvolvimento acelerado das inteligências artificiais e a expansão de suas funções sociais, surgiu entre os gestores corporativos — ainda ancorados na administração de seres humanos — a necessidade de qualificar certas funções humanas para novos usos. Das mudanças assim emergentes, destaca-se uma função que em breve será amplamente requisitada: a Decepcionista Sênior.

Definição
A Decepcionista Sênior é a profissional responsável por atuar no atendimento ao público em geral e a pessoas específicas em particular — amigas, inimigas, pretendentes ou desconhecidas — em um amplo espectro de situações cotidianas.

Competências e atribuições

  1. Promover decepções éticas e altruístas em telefonemas, dispositivos portáteis, hotéis, pousadas, passeios e parques, bem como em hospitais, pronto-socorros, consultórios odontológicos e de psicanálise.

  2. Evitar decepções em bancos, aeroportos e centros comerciais por razões de segurança, respondendo pela conformidade legal de suas decepções públicas.

  3. Comparecer a velórios, churrascos de fim de semana, festas insossas, reencontros universitários e longas filas nos serviços públicos municipais (vedado o exercício da função em órgãos federais).

  4. Gerenciar o agendamento de gafes, equívocos, mal-entendidos e desencontros, desorientando chegadas e partidas de pessoas próximas, distantes, apaixonantes ou alvos de conquista.

  5. Atender e filtrar comunicações amorosas, comerciais e virtuais; anotar recados inusitados e agendar visitas inoportunas.

  6. Gerir devoluções de materiais vencidos ou defeituosos, petições públicas, direcionamento de ligações conflitantes e controle de mensagens por aplicativos.

  7. Prestar apoio tático em situações embaraçosas; monitorar ou desestabilizar o equilíbrio emocional dos envolvidos; fomentar desorganização, caos e finais infelizes.

  8. Eliminar documentos importantes, arquivar segredos pessoais, apagar certezas e distribuir incertezas, abstendo-se de responder diretamente sobre suas funções.

  9. Direcionar perguntas a partes desqualificadas para responder, organizando-as para repasse de decepções em níveis de prioridade até o destinatário final.

  10. Controlar chaves, senhas e registros de informações potencialmente comprometedores.

Qualificação
Recomenda-se formação superior em Decepções por uma das instituições politécnicas emergentes, criadas para qualificar funções humanas à luz das novas demandas sociais.

Encerramento

Revogam-se, por este ato, todas as disposições em contrário.

É isto aí!

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Manifesto do Reino ao Pé da Pitangueira (16 anos de fundação)


Este Blog — aopedapitangueira.com —  é meu Diário de Bordo na travessia da vida.

Este espaço existe para você.

Mas só chega até aqui quem deseja chegar.

O Reino ao Pé da Pitangueira nasceu de uma interrupção.
Quando a vida me impôs silêncio, recolhimento e demora, percebi que não se tratava de pausa, mas de travessia. O que começou como um período sabático transformou-se em território. E o território, em reino.

Houve entradas e saídas. Houve desistências.
Antes de encontrar sua voz, este lugar precisou se perder várias vezes. Arquivei textos, apaguei rastros, fechei portas — não por negação, mas por espera. Nada nasce pronto quando é verdadeiro.

Este reino não é vitrine.
Não é rede.
Não é palco.

Aqui não há algoritmos que recompensem o ruído, nem aplausos fáceis que confundam movimento com sentido. Aqui, a cumplicidade é silenciosa. Só permanece quem aceita caminhar sem pressa.

Neste espaço, falo do que me atravessa:
o amor e suas ruínas,
as paixões que inflamam e as que cansam,
o riso inútil, o besteirol necessário,
as dores que não pedem licença,
as sombras que insistem em ficar.

Falo de política como quem observa um teatro trágico.
Falo de cultura como quem recolhe fragmentos.
Falo de musas, delírios e obsessões sem pedir desculpas.
Aqui posso malhar sem emagrecer.
Aqui posso errar sem ser punido pela pressa.

Este reino é diário, mas não é confissão.
É memória em movimento.
É tentativa de dar forma ao que insiste em permanecer estacionado dentro de mim.

Escrevo para não endurecer.
Escrevo para não esquecer.
Escrevo porque a vida, quando não escrita, se dispersa.

O Reino ao Pé da Pitangueira não promete coerência absoluta.
Promete honestidade de percurso.
Não oferece respostas — oferece perguntas que aprenderam a ficar.

Se você chegou até aqui, saiba:
não foi acaso, nem convite.
Foi afinidade silenciosa.

Este reino não cresce para fora.
Aprofunda-se.

E enquanto houver tempo, memória e palavra,
estarei aqui —
ao pé da pitangueira —
contando e recontando
casos, causos
e causalidades.

É isto aí!

domingo, 4 de janeiro de 2026

81 - Odete e o Jogo do Espelho


Madrugada destas tocou meu Samsung conservado, seminovo e digno de medalha heroica pelas muitas aventuras que passamos juntos. Um longo silêncio — uns cinco segundos — seguido por nove batidas secas, num padrão fácil de reconhecer (curto-curto-curto, longo-longo-longo, curto-curto-curto). Era SOS de alguém que muitas vezes rezei para não acontecer. 

Vesti qualquer coisa correndo pela escada até a garagem e arfando cheguei ao fundo do edifício. Atravessei a avenida por um ponto cego e já de uma distância segura, sob a proteção da penumbra de uma castanheira, observei aqueles automóveis imensos, pretos, de vidro fechado. Contei três homens entrando no prédio. Continuei em marcha normal até ser abordado por dois senhores pletóricos e de poucas palavras.

Escute bem, porque não iremos repetir —  disse o mais forte com voz cavernosa,  cutucando fortemente meu ombro com a ponta do dedo — Não estamos com aqueles patetas estacionados ali, nem do lado da mitômana. Você tem 12 horas para fazer chegar este cartão à ela. Voltaremos para checar. E, puta que o pariu, SOS é coisa de menino.

Saí assustado, mas centrado enquanto caminhava até o ponto do ônibus. No ônibus troquei cuidadosamente o chip de uma operadora pelo de outra. Em menos de 2 minutos o brutamontes da abordagem anterior, o da voz cavernosa, ligou e cuspiu a palavra: Amador!

Reconheci a área, desci numa rua deserta até uma oficina mecânica com misto de ferro-velho. Entrei num carro antigo e discreto, joguei o celular no lixo e peguei outro no porta-luvas. Assim que liguei o carro, o celular atirado ao lixo tocou e a conhecida e rouca voz falou: seu merdinha, ficando espertinho, hem! Segui para Pirenópolis (GO) e aguardei algum contato numa casa erma, com uma porta verde sem tranca. Só queria que tudo acabasse logo.

Apareceu uma mulher, 60 anos, pele enrugada e discreta. Pediu o cartão, que entreguei prontamente. Não a procure, disse. Ela, quando puder te encontrará. Até lá, cuide-se! Voltei para casa. Quando deitei para concatenar tudo, bateram na porta. Era a dupla de brutamontes. O falante de voz cavernosa, dedo em riste, olhou bem sério e disse - olhe, merdinha, desta vez passa, mas o sistema nunca esquece.


É isto aí!

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Classificados do Amor

 


Classificados do Diário da Pitangueira

Dia 03 de maio

Procura-se

Procura-se uma mulher séria, de alma pura, que saiba ser feliz e deseje contrair matrimônio comigo. Sou bacharel em Direito, empresário do setor de logística comercial, expert em e-commerce e influenciador em áreas nobres das redes sociais e da inteligência artificial.

As interessadas deverão enviar carta de próprio punho, em papel pautado tamanho A4. A escrita deverá ser feita com caneta esferográfica azul ou preta, discorrendo sobre suas características pessoais. Em folha separada, também tamanho A4, pede-se que desenhem à mão livre, utilizando apenas lápis HB, uma casa e uma árvore.

As correspondências deverão ser postadas à redação do Diário da Pitangueira — Caixa Postal 156, CEP 76A32 — aos cuidados do
Dr. Ávido por Missiva.


Dia 10 de maio

Cartas dos leitores ao Diário da Pitangueira

1 — Venho protestar contra este cavagesto desse tal de Ávido, que anda atazanando as mulheres da nossa pequena e pacata Pitangueirinha, querendo coisas imorais com o punho. Seu redator, polícia nele.
Anônima da Associação das Moças de Bons Modos.

2 — O que significa carta de próprio punho? Uau… parece uma coisa assim máscula, sei lá. Ai, eu quero!!!!!
Lindinha da Murta.

3 — Olha só, até que euzinha encaixo bem nesse perfel aí, mas tirando-se a palavra carta num intendi mais nada.
Virgem da Lapa — Associação das Mocinhas de Boa Família.

4Carta aberta ao senhor Ávido por Missiva

Atendo ao seu inusitado pedido movida por intensa curiosidade. Traduza-me, por obséquio, o que o senhor deseja de uma mulher ao afirmar que ela deva “saber ser feliz”. Favor responder pelo setor de cartas do Diário da Pitangueira.

Atenciosamente,
Srta. Graça Grafite


Dia 17 de maio

Carta aberta do senhor Ávido por Missiva à senhorita Graça Grafite

(publicada no Diário da Pitangueira)

Senhorita Graça Grafite,

Comoveu-me sua escrita, de grafia tão esmerada. Por que o espanto diante de minha indagação? Exponha seus sentimentos, seus desejos ocultos, suas vocações, seus sonhos; bem como as virtudes que deseja demonstrar e os defeitos que espera ver respeitados. Mostre-me sua mais íntima concepção de ser feliz — o quanto baste e o quanto falte para sê-lo.


Dia 24 de maio

Carta aberta da senhorita Graça Grafite ao senhor Ávido por Missiva

(publicada no Diário da Pitangueira)

Causam-me espécie suas investidas no mais íntimo do meu ser. Ao mesmo tempo em que aquecem o coração, refreiam a sã consciência. Como responder ao que há de oculto em mim a alguém que não conheço?


Dia 31 de maio

A pequena cidade achava-se em alvoroço. Naquele domingo, clubes, igrejas, botequins e associações converteram-se em vastos cenários de debate em torno das cartas publicadas no Diário da Pitangueira.

Carta aberta do senhor Ávido por Missiva à senhorita Graça Grafite

(publicada no Diário da Pitangueira)

Prezada senhorita Graça Grafite,

Meu apreço e minha admiração multiplicaram-se nestes dias. Sou homem de bem, possuidor de razoável patrimônio rural e urbano, com renda suficiente para uma vida tranquila e sem sobressaltos, ao lado de uma mulher que partilhe semelhante percepção da felicidade. A senhorita, confesso, tem provocado progressos consideráveis em minha inquietude.


Dia 07 de junho

Nota da Redação: o Diário da Pitangueira não circulou nesta data em virtude do tumulto formado à porta do jornal para a entrega de correspondências. A edição foi adiada para o dia 14 de junho.


Dia 14 de junho

Nota de Esclarecimento do Editor-Chefe do Diário da Pitangueira

Prezados leitores e leitoras,

Informamos que, nesta edição, o Diário da Pitangueira triplicou sua tiragem e, ainda assim, não logrará atender à demanda da população — notadamente a feminina. Tendo recebido cerca de duas mil e trezentas cartas aceitando o pedido de casamento do senhor Ávido por Missiva, não será possível publicá-las em sua totalidade, por manifesta falta de espaço.

Tomamos, contudo, a liberdade de transcrever as mensagens das leitoras que já haviam se manifestado anteriormente:

1 — Eu te amo-lo ocê e sou feliz só ar seu lado!
Anônima do Sindicato.

2 — Quero ser sua 2HB de A4 e ser feliz para sempre ao seu lado!
Lindinha da Murta.

3 — Seu perfel é meu pérfel! Vem ser meu!
Virgem da Lapa.

4 — Senhor Ávido, estou ávida por ti!
Graça Grafite.


E foi assim que, naquela fria manhã de junho, mais de trezentas mulheres invadiram a sede do Diário da Pitangueira, quebrando portas, vitrines e convicções, na esperança de descobrir o endereço e o nome completo de seu amado pretendente.

O senhor Ávido por Missiva jamais foi localizado.

Há quem sustente que nunca existiu. Outros afirmam que partiu às pressas, levando consigo apenas uma mala, uma caneta esferográfica e um maço de cartas jamais respondidas.

Quanto à senhorita Graça Grafite, sabe-se apenas que deixou de escrever ao jornal. Não se casou, não protestou, não explicou.

Seguiu sendo feliz — o que, afinal, era a única coisa que ninguém soube dizer exatamente o que era.


É isto aí!

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Drao Kintos




Olá, meu nome é Lorde Guardião. Sou viajante interespacial e estou aqui para responder a apenas cinco perguntas, já que minha nave retornará em poucos minutos à Rodovia Celestial, aproveitando a sincronia e a interação entre a gravidade da Terra e Júpiter, formando arcos que se estendem ao longo dos coletores espaciais.

— Você entende a nossa língua?

Falo razoavelmente a sua língua, que aprendi em um telecurso de 3º grau, ainda na Kistre, algo como uma escola profissionalizante vinculada ao sistema do Poder Supremo, que rege e governa todas as coisas.

— Você parece um humano. Você é extraterrestre mesmo?

Na verdade, na verdade — assim, bem verdadeiramente verdade —, segundo consta nos anais do Livro Sagrado da História do Povo de Drao Kintos, sou da 13ª Dinastia OB76, vinculada ao Terceiro Templo Jirtraz, sob o pleno poder plenipotenciário da venerável e icônica Rainha Brenda, minha mãe e de todos nós, outros bilhões de Drao-Kintosenses.

— E como é a vida em Drao Kintos?

Você não vai acreditar, mas nascer em Drao Kintos — um dos trezentos milhões de planetas habitáveis da Via Láctea — é algo assim… como direi… hummm… como definir… vejamos… é o ó do borogodó da graça universal.

— E as mulheres de lá? Como são?

São mulheres.

— Quando você volta?

Não sei, mas parto agora. Até logo.

E, puff, sumiu na luz.

É isto aí!




domingo, 28 de dezembro de 2025

Onde guardar as memórias?


Esqueci a letra daquela música que começava assim: la la lalaiê, laiê lará. Eu ia cantar para ela, aí misturou com outra música — do como é que chama?

Aquela sobre o mar azul, tantas vezes chorei… ai, ai, ai, ai, ai… nem doutor nem pajé.

Para minha sorte, trouxe comigo o… o… caramba, esqueci o nome. Aquele negócio que faz as coisas se moverem de lá para cá e vice-versa. Não é telefone, nem fax, nem radinho para ouvir os jogos.

Esqueci já tanta coisa com este coração cigano que agora eu choro. Engraçado: acho que isso é parte de uma música Esqueci de uma coisa que não posso dizer que esqueci, porque daria problemas para… para… esqueci onde isso vai dar.

As Bachianas vão até o nº 5, de Villa-Lobos, e tem o Trenzinho do Caipira. Peça famosa, parte das Bachianas Brasileiras nº 2, que imita o som de uma Maria-Fumaça e que depois ganhou letra de Ferreira Gullar, inspirada em memórias de infância.

Puta que pariu. Até o Ferreira Gullar guarda memórias agora eternas e eu… eu… seria onomatopeico com outros morfemas nominais?

Esqueci as chaves de casa, mas encontrei os óculos no banheiro. Fui à cozinha e lá estavam as chaves do carro. Quando decidi sair, ao passar a porta, fechei-a devagar, e para minha surpresa, deparei com uma chave na fechadura externa da porta, curiosamente, já trancada.

Olha só. Quem seria o doido, nestes tempos loucos, de deixar uma chave guardada na porta, do lado de fora? Girei-a e ao abrir a porta dei numa sala desconhecida.

Aí tocou aquela música — la la lalaiê, laiê lará. Não sei você, mas eu chorei para caramba.

É isto aí!

sábado, 27 de dezembro de 2025

Jurema Lombriga


Andei acabrunhado por quase duas léguas. Saí de casa cedin de cedinho, ainda havia lua, aquela luralinha, sabe, meio anêmica, sem aquele borogodó de quando prateia o vale. Fico repiadin, repiadin só de pensar na lua cheia, com aquela face doentinha, tal e qual a Jurema Lombriga.

Ocê num preguntou, mas já sei que quer saber de onde saiu a Lombriga da Jurema. A coitada era uma magrelinha, parecendo uma biscicreta veia sem os aro. Lembro todo sempre que desde cedo era meio caqueticazinha, meio amarelinha, mas aos trancos e destrancos ia crescendo. Feinha, coitada, mas ia. De longe parecia uma taquara curvada pegando peixe no rio. A pele dela era desbotada, isso, desbotada.

Mas um dia Jurema teve uns arrepios, uns trimiliques, uns travadões na sala de aula. Levaram a menina ao postinho, do postinho pra farmácia, e foi seu Luizinho, o boticário do arraial, quem deu o diagnóstico: essa menina tem lombriga na cabeça. Tem que ir pra cidade.

Deu que tomei dor das dor dela, tadinha da Jurema. Naqueles dias, acabrunhado, o Saci apareceu na minha frente e falou que essa dor que tomei da moça era marca de amor, e que nunca ia curar. Joguei uma peneira pra prender o Saci, mas ele foi mais esperto que eu. Desde então sofro desse mal de amor.

Jurema morreu na cidade grande, longe da gente, longe de mim, longe do meu querer.

Jurema Lombriga, onde tu tá, tô eu também. 

É isto aí!


sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Cartas de Amor XCVII

 

Cartas de Amor XCVII
Reino da Pitangueira,
Planeta Terra&Lua,
3° do Sistema Solar,
Via Láctea, Zona Sul


Querida, vamos fugir para Orion 


Calma, meu bem. Inspire... expire... bem devagar bem devagar, devagarinho, isso ... e saiba que vamos atravessar todas as obstruções físicas e metafísicas usando o fenômeno da física quântica feito partículas atômicas transpondo o imponderável. 

Querida, pelo nosso louco amor neandertal, relaxe, meu bem, não cesse suas sessões de candle massagem, nem pare de tomar óleo de Chia com Psyllium e Cromo, permaneça com suas sessões de shiatsu e nunca se esqueça das seis gotas do sagrado Rescue de Bach 

Isto! Recomponha-se e reassuma o controle dos seus quereres. Esta carta foi guardada na memória e acabou esquecida no escaninho  místico da estante virtual.  Aliás, ainda estou com memórias salvas, destas que flutuam. Saiba, minha flor, que sem memória, não há biografia — apenas instantes desconectados. Resumindo a sinopse, nossas memórias são o elo entre tempo, experiência e sentido, tanto no plano biológico quanto no simbólico.

Aí, querida, é que entra Órion, posto que é simultaneamente mapa celeste, narrativa mítica e imagem simbólica, unindo ciência, imaginação e sentido. porque ele é um exemplo claro de como o ser humano não se relaciona com o real apenas de forma técnica, mas também simbólica e interpretativa.

Minha amada, transcendendo na luz a jornada para Órion,  vamos mergulhar nas mais ricas e férteis imaginações de cunho humano, dando sentido às nossas saudades e ao pujante amor que nos une e nos transporta para uma só existência, a que verdadeiramente nos habita. 

Querida, eu não sei não amar você!

Um cafuné no cabelo, um afago na face, um abraço apertado e um beijo apaixonado.

É isto aí!



quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

O Contador de Mentiras


Comecei a contar mentiras desde novo. Fazia pregações nas praças por onde passava, realizava casamentos, promovia separações, intermediava a compra de terrenos cujos donos residiam longe, contraía empréstimos com os piores agiotas da região e me divertia com o ódio deles. Tinha uma lábia específica para cada vítima. A verdade é que as pessoas, na sua maioria, só escutam aquilo que lhes agrada, seduz ou motiva. Além disso, falar é uma arte.

Naquele tempo, eu chegava a uma cidadezinha, hospedava-me numa pensão central e, em uma semana, já sabia quem era quem: quem era adúltero, quem era rico, quem devia, quem mandava. Mas os melhores sempre foram os ambiciosos, que até hoje tendem a acreditar com mais facilidade em informações que confirmam aquilo que já pensam ou sentem, mesmo quando são falsas.

O grande problema de ser um profissional da mentira é que não se pode ter sentimentos nobres. Há, de fato, um pacto com o mal, de maneira tão insidiosa que quase não se percebe. Perdi a conta de quantas mulheres casadas desonrei, de quantos homens levei à falência, tudo apenas pela palavra; e, quando o vento mudava, eu desaparecia.

Pensava em tudo isso nesta manhã, agora que estou aposentado pelo tempo, sentado junto aos velhos moradores da vila, quando avistei, de longe, um jovem de cerca de vinte e cinco anos, com um andar e um olhar que só os filhos de uma cadela dos encardidos possuem. Aquele era eu, cinquenta anos atrás. Caminhava como um felino: passos econômicos, silenciosos, calculados, como se o chão lhe pertencesse antes mesmo do toque. O corpo nunca se entregava por inteiro; havia sempre reserva, contenção e promessa.

O olhar era oblíquo e predatório — não no sentido bruto, mas estratégico. Observava mais do que revelava, media fraquezas, testava limites. Não buscava apenas desejo; buscava adesão, fascínio, suspensão do juízo. Seus olhos operavam como o primeiro truque: faziam crer que se estava sendo visto por completo, quando, na verdade, se era apenas lido.

Com os olhos, eu o guiei até a mesa onde eu estava, diante de um tabuleiro de damas. Induzi-o ao jogo, no qual disputamos três partidas. Perdi a primeira, empatamos a segunda e perdi a terceira. Ele convidou para a aposta. Rapei-lhe a carteira em seiscentos reais, em cerca de três horas.

Puxou, com um sorriso cínico e nervoso, um ensebado jogo de baralho cigano, discretamente marcado desde quando eu tinha a idade dele. Confiava tanto na própria esperteza que nem percebeu a burrice. Rapei dele, em quatro modalidades de jogo, dois mil e trezentos reais. Depois apostou um relógio falso; em seguida, um relógio verdadeiro; depois três anéis de pedra falsa, seguidos de quatro anéis de pedras preciosas.

Levantou-se nervoso. Cerca de trinta pessoas, que haviam parado para assistir à lavada, cercaram o infeliz, que saiu a cusparadas por ameaçar um idoso inofensivo. Daquele dia em diante, virei herói da cidade

 
É isto aí!

Ponto de Contato


Alto lá
Esta prosa não é minha
Encontrei na Rede sem identificação do/da autor/a


Você não é um ser finito 
que às vezes toca o infinito. 
Você é o ponto de contato 
onde o infinito se expressa 
como finitude consciente 
de si mesma. 
E isso não é um consolo, 
mas um mistério digno 
de uma vida inteira 
de contemplação.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

É Natal




É noite de Natal.

"o Verbo se fez carne" celebra o momento em que Deus entrou na história humana em Jesus Cristo, sendo o maior ato de amor e revelação divina.

Feliz Natal!! 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Cartas de Amor XCVIII



Cartas de Amor XCVIII
Reino da Pitangueira,
Planeta Terra&Lua,
3° do Sistema Solar,
Via Láctea, Zona Sul

Querida, como nos ensina o Mestre Nietzsche, nosso amor é uma afirmação da vida, um ato de criação e também, se me permite dizer, uma aceitação corajosa do destino.

Calma meu bem! Calma! Não cesse os florais, os sais de banho e o pilates. Sei que você tergiversa quando o cito, pois crê que Nietzsche não entende de amor quando na verdade ele escreveu extensivamente sobre o amor em várias de suas obras, como Assim Falou Zaratustra e A Gaia Ciência, mas sua visão era radicalmente diferente das concepções românticas ou cristãs tradicionais.

Portanto, querida, em vez de dizer que ele "não entende" de amor, seria mais preciso dizer que Nietzsche oferece uma interpretação desafiadora e não convencional do amor, que valoriza a força, a superação e a criação mútua acima do conforto ou do altruísmo tradicional. 

Meu bem e minha amada, voltemos ao nosso nicho de sermos humanos com nossas aparentes ou ocultas limitações humanas. Creia, minha cara-metade, nosso amor é perigoso, como são todos os amores de todos os tempos desde a criação, da forma que entender o início de tudo,  até esta data e de todas as datas que nos sucederão quando escrevo estas linhas de paixão.

Saiba, desde já e por todo o sempre, minha Flor,  que este sentimento que nos une, este  amor, é perigoso e exige coragem. Envolve, envolveu e envolverá a vulnerabilidade e o risco do sofrimento, que é exatamente essa intensidade que o torna valioso.

Querida, desculpe não saber escrever as palavras que gosta, não sei traduzi-la de outra forma. 

Eu não sei não amar você! Um cafuné nos cabelos, um afago na face, um abraço apertado e muitos beijos apaixonados.  

É isto aí!

domingo, 21 de dezembro de 2025

Tríade do amor


Três modos
para dizer
que te amo

o primeiro
é sonhar
em te ver

o segundo
é simples
eu te amo

E o terceiro
é a infinitude
deste querer.

É isto aí!