domingo, 22 de junho de 2014

Doutrina das Plêiades Helênicas

Epitácio Junqueira era um chato. Certa feita teve uma experiência de contato imediato de quarto grau com o viajante inter-estelar Hamnym Kan, enquanto recebia um passe no terreiro de Mãe Aparecida. Abduzido, chegou à imensa nave, e lá recebeu a incumbência de criar um Templo de Cura, Libertação e Salvação na Terra.

Ao retornar, já haviam passados três dias desde seu desaparecimento, que ninguém percebeu na pensão e sequer fora notada a ausência no Departamento de Recursos Hídricos, onde ocupava o cargo de 3º Auxiliar da 2ª Secretaria do Gabinete Interino do Assessor Especial para Assuntos Regionais do Ministério das Cidades.

Em sua escrivaninha, cercado de papeis inúteis e arquivos mortos, transcreveu para o mundo a Doutrina das Plêiades Helênicas. Passadas algumas semanas sem conseguir avançar no Estatuto e no Organograma do Templo, eis que materializa-se em forma humana o Mestre Hamnym Kan, que passou então a promover todas as condições para que Epitácio construísse o Templo.

Segundo Kan, através das milenares gerações do saber, foram permitidas pelas fendas abertas pela Grande Consciência das Constelações, que os ensinamentos desta vertente espiritual promovesse uma nova concepção de mundo, onde os clãs nobres seriam responsáveis por nortear e conceder as determinações e doutrinas arcaicas simples, porém absolutas e transformadoras, que doravante seriam denominadas e conhecidas como “Oráculos do Amor”.

A salvação baseia-se na família, frisava Kan, e por família entendemos quaisquer aglomerações humanas por interesses comuns. São os Oráculos do Amor que nos enredam inconscientemente na repetição do destino de outros membros do grupo familiar, ensinou.

As ordens do amor são forças dinâmicas e articuladas que atuam nas famílias e necessitam dos relacionamentos íntimos, passionais ou espirituais para se manterem vivas. Percebendo a desordem dessas forças dinâmicas sob a forma de artífices transcendentais, através do Oráculo do Amor concederemos à ela (à desordem) um fluxo harmonioso como uma sensação de estar bem no mundo.

Desta forma, concedendo a harmonia aos quatro Clãs da Nobreza Cósmica, libertaremos seu mundo da escuridão do saber divino. Saiba, Epitácio, que existem quatro Clãs da Nobreza Cósmica na Terra, que são assim designadas: Clã das Plêiades Sarônicas; Clã das Plêiades Espórades Setentrionais; Clã das  Plêiades Jónicas e o Clã das Plêiades do Dodecaneso.

E eu, Kan, conheço cada uma delas e assim que construir o templo as enviarei para que se cumpram as profecias do destino da vida adâmica. Para iniciar seus trabalhos espiralizados em éter cósmico, será necessário um pequeno investimento inicial da ordem de alguns milhares de reais e tudo será ressarcido.

Assim, Epitácio endividou-se além do limite de suas posses construindo o Templo e recrutou as quatro cunhãs-poranga indicadas pessoalmente por Kan e que seriam as Fráteres da irmandade geradora da nova etnia salvítica.  

As novas Evas eram - Fráter Lúcia, do Clã das Plêiades Sarônicas; Frater Júlia, do Clã das Plêiades Espórades; Fráter Helena, do Clã das Plêiades Jónicas e a Frater Morena, do Clã das Plêiades do Dodecaneso.

E foi desta forma que detentores de grandes fortunas de origem desconhecida e não sabida passaram ao credo contínuo do Templo das Pleiades Helênicas. Na noite do grande culto, eis que foram iniciadas de forma didática as práticas da doutrina do Oráculo do Amor.

Fráter Lúcia, do Clã das Plêiades Sarônicas; Frater Júlia, do Clã das Plêiades Espórades foram ao púlpito e pregaram suas experiências místicas:

Fraternos e Fráteres, agradecemos aqui a noite da revelação que experimentamos com os noviços do Templo, que mostraram com muita consistência o verdadeiro caminho que uma Fráter necessita cruzar para alcançar o Ponto Andrômeda, único e exclusivo em nosso corpo material, como memória filogênica do Patriarca Hamnam Kan. Nós agradecemos ao nosso marido e pastor neste plano terrestre, Epitácio Junqueira por estarmos orgulhosas desta dádiva celestial.

Aplausos... gritos... aplausos... assovios... gritos...

O locutor, em lágrimas, fala - Vamos continuar nossos trabalhos espiralizados em éter cósmico ouvindo a Fráter Helena, do Clã das Plêiades Jónicas e a Frater Morena, do Clã das Plêiades do Dodecaneso.

Fraternos e Fráteres, repassamos aqui nesta noite a grande experiência da revolução que engrandeceu-nos, com os noviços do Templo, que penetraram com muita apetência o sentido da lascívia que uma Fráter necessita saber para compreender o Ponto Órion, introduzindo em nosso corpo material, a memória filogênica do Patriarca Hamnam Kan. Nós agradecemos e muito ao nosso marido telúrico Epitácio Junqueira, que permitiu termos vivenciado esta dádiva cósmica.

Aplausos... gritos... aplausos... assovios... gritos...

Epitácio viria a falecer pouco tempo depois, falido, triste e sobretudo virgem de relações carnais. O Templo manteve a ostentação do Oráculo do Amor e a vida seguiu seu destino com casos e acasos...

É isto aí!


Você me ama?

Você me ama?

Olha, eu...

Fiz uma pergunta simples, direta, por que não responde simples e objetivamente?

Não. Eu não te amo. Não amo desta forma passional que deseja, quase doentia.

Você ama outra, não é?

Não! Não é.

Ela já se foi e você continua acreditando neste sentimento, como uma lenda pessoal.

Não tem nada disto.

Sabe o mais engraçado? Devem ter feito um rompimento prematuro, onde o amor que os unia não conseguiu consolidar a ruptura por algum motivo fútil, um orgulho débil.

Onde você quer chegar com isto?

Em você! Quero chegar em você, quero você em mim, inteiro e não comprometido com um passado morto.

Nenhum passado é morto, faz parte da memória e a memória faz o mosaico da vida. Você já me tem, o que mais quer?

Já tenho? Eu verdadeiramente tenho você?

Sim. Estou aqui e esta é a prova viva de que me tem.

Nunca tive você e sempre me deixei enganar pela sua presença física. Mas quero o que está aí dentro - meu Deus! Isto me destrói, queria entrar dentro do seu coração e fechar esta ferida aberta por outra que nem conheço, nem sei como é...

Será que é possível continuarmos as nossas vidas com a paz que nos pertence?

Não sei se ela é gorda ou magra, negra ou branca, se fala gritando, que rebola enquanto anda. Quer saber? Nem ao menos uma foto dela você tem - já revirei sua vida buscando esta mulher, mas ela não está aqui fora. (batendo no peito com os punhos cerrados) Sai daí, saí agora, larga o que é meu agora... (chorando)

Para com isto. Temos uma história bonita, de harmonia, prosperidade e respeito. Para de se comportar como uma colegial.

Talvez ela tenha seios grandes como você queria que eu tivesse. deve ser isto. Deve ter também coxas grossas, cheias de celulite e estrias na barriga até chegar ao joelho. Bunda caída, isto, e fuma também. Deve dar vexame quando bebe...

Basta! Não chegará a lugar nenhum desta forma.

Não vou parar (gritando)! Não tenho como competir com uma lenda (chorando)! Não tenho razões para te abandonar. Mas vou embora assim mesmo - chega! Não dá mais! Eu não sei amar sozinha...

Eu não sei mais o que dizer.

Então não diga. Guarde suas palavras para o dia que nunca virá e neste dia há de perceber que ela nunca seria a razão e o único motivo da sua felicidade. Adeus... vou para nunca mais voltar.

(silêncio tenso)

E se eu partir e você a encontrar? Te perderei para sempre, não é? Se ficar, ela ficará atormentada. Quer saber? Eu não vou mais. Que aquela vaca se exploda. Não vou mesmo. Me dá um abraço?!

(silêncio contemplativo)

Fala a verdade... você me ama?

(silêncio)

É isto aí!


sexta-feira, 20 de junho de 2014

O que lhe custa me ter?



Marinalva e Mariana eram irmãs inseparáveis, apesar da diferença de cinco anos entre elas. Marinalva, mais nova, casou aos quatorze anos e logo engravidou de uma menina, Virginia, e a tia, Mariana, foi madrinha.

Alguns meses depois, ao leito de morte, a mãe das duas fez Marinalva prometer que entregaria sua filha, Virgínia, à clausura para que Mariana conseguisse um bom casamento.

Três anos depois Mariana fugiu da cidade com o anão do circo mambembe que passara no vilarejo. Neste mesmo ano nascia a segunda filha de Marinalva, Marina. Como havia feito uma promessa à mãe que não se cumprira, procurou o padre da cidade, que imediatamente transferiu as suas filhas - Marina seria enclausurada aos quinze anos para garantir um casamento de excelência à Virginia.

Deu-se que Virginia foi tratada com mimos e graciosidades, enquanto Marina recebeu o tratamento das prendas domésticas, da cozinha ao corte e costura, passando pela lavagem de roupa e limpeza geral. Cresceram como duas princesas bem educadas dentro de um sistema de castas.  

Anos depois, deus-se que Orlando Tavarez, um frequentador assíduo do bordel local, cantor e dançarino de tango e bolero, tirado a galã portenho, com seu tipo branquelo longilíneo, de pernas longas e arqueadas, fumante compulsivo, voz grave e rouca, vestindo sempre um terno de linho de risca de giz enamorou-se da prometida ao convento - Virgínia.. Deu-se que num dia de outono cruzou um olhar de desejo com a moça aos seus dóceis quatorze anos, quando ela atravessava a avenida em direção à Igreja.

Seguiu-a, abordou-a no interior do templo e com sua sedução em nível profissional, transbordou o coraçãozinho ingênuo da moça de fé, esperança e amor. Encontraram-se mais de uma dezena de vezes no mesmo local. A mãe passou a desconfiar do inesperado movimento de fé da filha, e foi atrás para descobrir que sua família estava praticamente caindo em desgraça, com a graciosa pérola entregue a um mau caráter desprovido de emoção e principalmente de dinheiro e futuro.

Naquela noite, após explicar ao marido que passaria a noite com uma parturiente do circulo bíblico, partiu para o bordel, onde, exuberante, arrancou o desejo de Orlando Tavarez. Dançaram, roçaram, alisaram, gemeram, e em momento caliente, sussurrou-lhe ao ouvido - Marinalva , o que lhe custa me ter? Afastar-se da minha filha é meu preço, Orlando Tavarez ...

Assim, mais uma vez Marianalva salvou a reputação da família toda, da irmã, das filhas e o pagamento da promessa à mãe que subiu aos céus. Manteve por algum tempo o romance com Orlando. Virgínia casou-se com Epaminondas Marcos Felício, um próspero novo-rico da cidade, Marina mudou-se para São Paulo e a tia Mariana, cansada da vida mambembe, acabou num Convento, depois de provar das experiências de mais um anão de outro circo que a abrigava.

É isto aí!


quinta-feira, 19 de junho de 2014

Carminha na Copa

Abrem as cortinas e começa o espetáculo. Armando avança pela lateral, sobe sem pressa, a esquerda está livre, avança sem contenção, passa pela ala, alcança o flanco, dribla, procura o gol, tem o montinho artilheiro na frente, mas prefere o ataque frontal e ... falta, falta ...

Calma, Carminha.

Ah, vai Armandinho, bate logo, o campo já está todo alagado, a bola está pesada...

Olha só, Carminha, com você narrando não tem artilheiro que marca. É muito complicado.

Qual é, Armando? Entra no clima da Copa...

Copa, Carminha? Não podíamos ser iguais aos casais normais, na cama ... no quarto ...?

Caramba, você é muito conservador. Parece até a Inglaterra! O mesmo jogo desde 1950.

Ah, não... ah, não!!! Conservador não! Você sabe que por muitas vezes apresentei táticas diferenciadas  e várias delas fizeram sucesso.

Sim, é verdade, apresentou muitas táticas, mas sempre no começo do segundo tempo faltava técnica, talento e folego ...

Agora fiquei com raiva.

Isto, Armandinho, põe prá fora esta adrenalina e parte prá cima com seu potencial de destruição da zaga...

Para com isto, Carminha, vamos voltar ao tradicional...

Tradição é tudo, Armando, mas sem uma revolução no plantel, não sobe no podium, nem beija a taça.

Como assim? Revolução?

Não se faça de bobo, um doping discreto, azulzinho...

Nunca precisei e não faço uso, só jogo limpo. E com esplendor...

Armandinho, queridinho, lindinho, amorzinho, não quero saber de esplendor, quero bolas na trave por noventa minutos e o artilheiro entrando sem humildade no gol, meu bem, e o jogo é meu, o campo é meu, a rede é minha e aceito doping, querido, ninguém vai saber...

Jura?

Juro. Agora faz que nem bandeirinha e levanta logo o mastro da bandeira e vem prá banheira, que não estou impedida...

Puxa vida, Carminha, você sabe tudo de futebol...

Tudo e mais um pouco, meu bem... tudo e mais um pouco...

É isto aí!



quarta-feira, 18 de junho de 2014

Laurinha, a lenda da paixão


Albertinho conheceu Laurinha na escola aos treze anos. Foi amor à primeira vista, daqueles que destroem a adolescência e se arrastam para a vida. Laurinha era a mais bonita das mais bonitas meninas da escola. Tinha tudo que uma moça precisa ter para ser apaixonante e ele apaixonadíssimo. 

Tudo era mágico e encantador. Carregava sua mochila, fazia seus deveres e trabalhos, trocava as provas e em troca ela deixava que ficasse próximo dela na fila de entrada das aulas.

Albertinho, aos quinze anos, fazia parte do pequeno grupo dos melhores amigos de Laurinha. Festas, bailes, baladas, bebedeiras, passeios no parque, viagens com a turma, praia, montanha, cinema, shows imperdíveis, etc. e tal. Laurinha estava lindíssima, corpo se formando em graça e harmonia.

As dezessete anos Laurinha enfrentou a disputa por uma vaga universitária, acompanhada de Albertinho, seu escudeiro, confessor, ombro amigo, e cúmplice nas coisas boas e doidas da juventude. Naquele tempo Laurinha enamorou-se de Cacaso, rompendo assim uma amizade que juraram nunca terminar. Em função disto, Albertinho tomou outro rumo, outra cidade, outro curso e outros sonhos.

Oito anos depois, na fila de entrada do "The Eugene O'Neill Theater", no coração de New York, encontram-se para surpresa e felicidade, ainda que contida. Estavam solitários em busca de um encontro consigo. Depois do espetáculo, saíram conversando, jantaram juntos e despediram jurando um encontro na manhã seguinte, que não ocorreu, dado a ausência de Laurinha no local marcado.

Aos trinta e dois anos encontraram-se no velório do pai dela, numa estranha coincidência de estarem na cidade na mesma época, quando um infarto fulminante e inesperado levou o progenitor da amada. Trocaram olhares, afagos, abraços e não teve como não notar que estava casada. Albertinho sentiu-se mortalmente ferido. Chorou convulsivamente no enterro e trancou-se na casa dos pais até o dia da partida.

Aos quarenta anos, Albertinho já havia perdido todas as esperanças, era um homem rico, realizado, triste e solitário. Laurinha fora o seu único e grande amor platônico. Vivia apenas para o trabalho, sem amigos e sem vida social, sempre discreto e contido. Um dia recebe um pedido de amizade no Facebook - era Laurinha dando sinal de vida e levantando a bandeira da paz.

Laurinha estava divorciada, perdera tudo, desde o patrimônio construído até a autoestima. Mas Albertinho viu ali a oportunidade de reconquistar a amizade e quem sabe, conquistar seu coração. Trouxe-a para dentro da sua casa, e imediatamente deu-lhe uma suite ampla, um carro do ano, cartão de crédito e conforto.

Naquela noite, em uma provocante lingerie, Laurinha caminhou exuberante aos aposentos de Albertinho. Ao abrir a porta, deparou com seu objeto de desejo sentado confortavelmente em uma poltrona imensa, com um pijama de seda verde fluorescente sob um roupão escarlate de veludo 100% algodão com gola xale e aplicação de renda guipure.

Mas o que é isto, Albertinho? 
- Laurinha, eu sempre desejei me vestir igual a você, ter um corpo igual ao seu e um cabelo igual ao seu...

E foram felizes para sempre!

É isto aí!


  

Ao Amor Antigo

http://500px.com/photo/1778766/junge-liebe-alte-liebe-(young-love-old-love)-by-susanne-g%C3%BCttler

Autor: Carlos Drummond de Andrade: 
Poema: Ao Amor Antigo 
Fonte: http://pensador.uol.com.br/frase/MTcwOTI/

Ao Amor Antigo
O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
a antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

Um conto da Luz


Acordei cansado, com aquela sensação de uma noitada intensa, apesar do frio e da solidão do quarto. Levantei com dores espalhadas em músculos até então discretos e solidários. No criado mudo um bilhete em papel amarelo, com grafia Voynich, em tinta verde escuro.

Confuso, caminhei até o banheiro, todo molhado, duas toalhas no chão, a banheira ainda cheia e uma necessaire na bancada, com aquelas dezenas de utilidades femininas.

Após o banho, mente vazia, caminhei ao closet, e tudo estava estranho, as roupas eram minhas, e apesar de saber que estava em casa, estavam rigorosamente arrumadas.

Na cozinha uma garrafa vazia de um legítimo pinot noir da Borgonha, ao lado de duas taças de cristal que desconheço a origem. Fiz um expresso duplo, que bebi devagar, sem açúcar, tentando lembrar de algo referente ao que via. Nada... nem sequer uma réstia de lembrança.

Na sala havia uma foto, como um desenho, em tons lilás, e eu com minha favorita camisa azul. Não vejo rostos, estamos nos beijando e atrás há um facho de luz intenso. A princípio achei que era uma fonte, mas minha memória fez referência a este processo luminoso. 

Saí aturdido, entrei no elevador, alcancei o hall, onde seu Joãozinho estava sentado como sempre ficou, olhei para o relógio da portaria, que marcava sete e quinze da manhã. Procurei a chave do carro no bolso, e não a encontrei. Voltei ao apartamento. A porta não abria. Conferi o andar e o número. Voltei ao hall, e havia uma pessoa diferente na recepção.

Fui para a rua e percebi que estava em um local incerto e não sabido. Não reconheci o ambiente externo e em desespero, ao ver que uma moça passava ao meu lado, segurei-lhe firmemente pelo braço, olhou assustada para mim e gritou. Vieram dois policiais e imediatamente me prenderam. Na delegacia ninguém acreditou ou entendeu a minha história.

Não tinha documentos, os endereços e telefones que forneci não existiam, as pessoas que indiquei eram desconhecidas e meu endereço residencial não era meu.  O delegado olhava com aquele jeito duro que os policiais olham as pessoas - queria entender o que passava. Eu não havia cometido nenhum crime, mas a minha versão era no mínimo estranha.

Um moça educada e simpática encaminhou-me para uma sala de conforto espartano, onde acabei cochilando. Mergulhei numa cascata de luz e acordei novamente em casa. Desta vez ela estava presente, linda, perfumada. Não sei se morri ou viajei em um deslocamento espaço-temporal, mas não estou muito preocupado com isto agora.

É isto aí!


segunda-feira, 16 de junho de 2014

Carminha discutindo a ciranda da relação

Então, Carminha, o que de fato ocorreu?

- Como assim, de fato, Armando?

Responde com uma pergunta por não ter respostas?

- Ter respostas?

Mantém o instinto de preservação da sua versão, mantendo questionamentos nas respostas.

- Ando contemplativa, sei lá, estou misteriosa demais comigo mesma.

Sinistro isto daí!

- Não, tem nada de sinistro, Armando, eu explico ou não explico, não sei.

Carminha, você está saindo do foco da questão.

- Foco? Um ponto para onde convergem os raios luminosos? Não existe isto.

O que não existe, Carminha?

- Como eu, uma pessoa iluminada, sem modéstia, gostosa e sedutora, abandono o foco?

Entendo, mas agora diga o que de fato ocorreu.

- Não vai mais perguntar? Será imperativo agora?

Não! Não vou mais perguntar. Quero a verdade.

- Quero isto, quero aquilo, quem você pensa que sou?

Vai falar ou terei que buscar as respostas em outra fonte?

- Ah! Voltaram as indagações... então tem dúvidas...não confia mais em mim.

Eu não tenho dúvidas. Eu não sei o que você fez, mas quero ouvir de você por que está estranha!

- Nervosinho, hem... demorou!!!

Não estou nervosinho, nem doido, há algo, mas não sei o que é....

- Humm, então está atento aos meus mínimos erros, como suspeitei.

Do que você suspeitou, Carminha?

- Não falo...

Fala Carminha, pelo amor de Deus, fala o que sabe...

- Não falo!!

Olha, vou dar uma volta, refrescar as ideias e na volta você fala?

- Pode ser...

Carminha, eu te amo, e quando eu voltar não poderá existir segredos entre nós...

- Sim, amor, claro... -  Alô? Beto??? Ele saiu para espairecer. Não se preocupe, amor, ele não sabe de nada entre nós...

Então, Carminha, o que de fato ocorreu?

- Como assim, de fato, Beto?

Responde com uma pergunta por não ter respostas?

- Ter respostas?

Está bom, então, Carminha...

- Como assim, que bom? Você está com alguém aí, Beto? Beto??Fala a verdade, Beto, quero a verdade...

Que isto, amor, estou sozinho...


É isto aí!

domingo, 15 de junho de 2014

Mia Couto - Prostituição auditiva

Alto lá, este texto não é meu!
Copiei e colei:
Autor - Mia Couto
Conto - Prostituição auditiva
(in Na Berma de Nenhuma Estrada e outros contos, Caminho)
Fonte - http://jardimdasdelicias.blogs.sapo.pt/271016.html


O português gostava era de ouvir as pronúncias dela. Pagava notas só para a ficar escutando a noite inteira. Mariana não tinha que fazer mais nada: só divagar, devagar, sem sexo nem nexo. O tuga, mili­tar até aos botões, só queria que a prostituta falas­se.

—  Mas falar o quê?

A primeira noite ainda a moça perguntou. Depois, entendeu que ele gostava era de nenhumices, simples perfume de sílabas. O homem estaria ali por livre e não espontânea vontade? Enfins, coisa de branco.

—   Vocês, as pretas, não são como as nossas mu­lheres.

—  Como não somos?

—  Vocês falam com o sangue.

Mariana ainda insistiu namoriscar, remexendo as carnes, toda ela oferecível. Mas ele nada. Ficava quieto, só os olhos desembarcavam no corpo dela. A prostituta até se ofendia com aquela inactuância do macho. Seria porque ela não apresentava tatuagens, como os homens de sua raça requeriam? Mulher sem riscos na flor da pele é mulher escorregadiça. Esse é o mandamento da tradição. Mas parece não era.

—   É escusado, Mariana, Eu não toco em preta. Fui educado assim.

—   Ao menos, me espalhe um creme, mezungo.

—   Um creme?

—   É que nós, pretas, secamos mais que lagartos. É nossa raça, assim. Me esfregue um creme, me faça um favor.

Mas ele recusava, nem pele nem óleo. Alergia a gorduras, justificava já em antecipado arrepio. Ela, então, a si mesma se besuntava. Demorava os finos dedos nas intimidades, escorria sensualidade pelas reentrâncias. Depois, já bem bem abrilhantinada, ela se rebolinava à frente do militar lusitano.

— Ainda você não me quer?

Negativo. Mariana, já sem fogo, deitava em esteira e palavreava sem fim. No colchão rasteiro, o portuga adormecia. Ela ainda ficava falando por um tempo, até se certificar de que ele descera às fundezas.

Horas depois, ele se apressava a sair. Pagava os variáveis honorários. Ela armafanhava os dinheiros no soutien. Já sabia o seguinte: antes de sair, o branco lhe pedia para cheirar as notas, tomava-as como se fossem delicadas flores e nelas aspirava fundamente o cheiro do suor dela. Depois, tocava as notas e di­zia:

— Eu transpiro para as ter, tu tem-las transpira­das.

Ela sorria, sem entender o repuxado português, quem sabe era uma simples lusofolia. Ao despedir-se, a mulher sempre insistia em lhe perguntar o nome, apelido de sua existência. Mas ele suavemente se desleixava: nunca, nem jamais.

— Meu nome? Não interessa, não te interessa.
Ele não queria, não podia, não devia. Branco que frequenta as negras não leva sobrenome. É um sol­dado, ponto final. E colocando um dedo ríspido so­bre os lábios de Mariana chegou mesmo a ameaçar: que nunca mais ela se atrevesse a querer saber da identidade dele.

Até que certa noite a prostituta se apresentou afónica, enguiçada nas cordas.

—  Hoje não tenho palavra para lhe dar, soldado.

Foi murmúrio único. Ele se sentou. Sentiu, ante­cipada, a carência da voz dela. Nunca concebeu que a falta desse reconforto lhe viesse a doer tanto. Olhou para Mariana, estranhando. Canoa se inventou antes do rio? O militar se aprontou em serviço de cozinha. Instantaneou um chá, desses curadouros de gargan­tas. Mariana se consolou mais com o gesto dele que com o remédio. Rodou a chávena de alumínio en­quanto olhava para nada:

-  É que bateram em Helena. Mataram ela!

—  Quem é essa, a Helena?

—  Era uma outra... colega.

Ela dobrou as costas, chorando. O militar se sen­tou por trás dela e lhe falou. Com voz de mar, suas palavras eram vagas que nunca encontravam praia. E contou-lhe da sua tristeza. Sim, ele também sabia o que era ver morrer um colega. E se perguntava, tal como ela:

-  Que faço eu no meio disto tudo? Esta guerra, de quem é esta guerra?

A prostituta deu por ele limpando o rosto na man­ga. Uma furtiva tristeza, véspera de lágrima? Entendeu tocar-lhe o cabelo, esse cabelo fino que faz com que os brancos aparentem bonecos de brincar. Mas já o português pegava a caixinha do creme.

—  Deixa, eu te esfrego, Mariana.

Ela sobrancelhou uma surpresa. Ele aceitava tocar-Ihe?! Voltou a sentar, oferecendo as costas. A mão dele sonhou, divagante e devagarosa. Os dedos re­cheados de óleo pareciam chuva escorrendo sobre água. Mariana sentia o aconchego dele.

E eles, muito ambos, aconteceram-se. O soldado escutou, pela primeira vez, o sotaque do corpo dela. O mundo a perder de vistas, o rio perdendo as mar­gens. No final, bem no fim de tudo, ele se estendeu na esteira e, olhando para além do tecto, disse:

—  Sou Raimundo, o major Raimundo!



quinta-feira, 12 de junho de 2014

E a Copa chegou

Bem, o assunto é Copa do Mundo, porque seria inevitável recusar o tema. Aconteceu o esperado, e o Brasil vendeu a Croácia por 3X1. Aí os analistas deitaram a falação em um erro do juiz, que marcou um penalti em cima do Fred, forçado no melhor estilo Fred.

Erros acontecem no futebol de todas as formas e um erro deste em um clima hostil por parte da imprensa hostil não será perdoado. Li e ouvi comentaristas remunerados na casa dos seis dígitos deitarem falação. Um deles, tirado a intelectual, com formação universitária na elite do ensino bandeirante, bateu pesado. Logo ele, que se diz o baluarte da integridade e que em recente recepção da presidente foi indelicado ao extremo, em uma pergunta idiota, desqualificada e má.

Teve no decorrer do espetáculo de hoje o xingamento à presidente, vindo da Ala Vip, conforme denuncia do site da maior e mais poderosa rede de mídia do país - bem, isto também foi comentado pelos senhores da razão perpétua, como uma vingança pessoal, e não como um ponto negativo. 

Lembro de uma crônica lida a poucos anos, apaixonante, em defesa do infrator, quando o time querido pelo padrão platinado teve um penalti safado, provocado pelo El Gordo, que tirou o título nacional do Cruzeiro, em nome da boa intenção e dos interesses maiores da nação fiel.

Ah, ia esquecendo - os argentinos também deitaram falação... logo eles que ganharam a Copa de 78 e a de 86 com  a lisura de um cleptomaníaco em surto.

Bem, o texto acima ficou ruim, chato, mas precisava documentar isto.

É isto aí!

terça-feira, 10 de junho de 2014

O golfinho



Quando eu penso que o presente está corrompido, leio no site do Yahoo a notícia de que a NASA financiou um projeto onde uma mulher fazia sexo com um golfinho, para análise de comportamento, aulas de inglês e comunicação com extra-terrestres.

O fato ocorreu em 1963/1964, segundo revelações da cientista envolvida no experimento. O golfinho não fez nenhum pronunciamento (ainda).

Se quiser ler a reportagem logo, ela está aqui, e o vídeo documentário atual, por favor - nada de zoofilia na rede,  onde a mulher relata a experiência está aqui.

Também chamou minha atenção - sim, prezados leitores, não bastou o relacionamento passional técnico-científico para comprometer minha humanidade, continuando - foi o comentário que você poderá ler na íntegra logo abaixo da sinopse do documentário da BBC, indicado acima, no segundo "aqui". É de uma cientista elogiando e desejando ter feito parte ativa do projeto.

É isto aí!

domingo, 8 de junho de 2014

Esquinas e contra-esquinas.

http://napiwhistler.cafeblog.hu/2014/02/ 

Souza era o poeta parnasiano da vila. Suspirava entre vielas e colunas pela amada distante, recitando Olavo Bilac em torrentes de paixão - mal a via e declamava:

"Olha: não posso mais! Ando tão cheio Deste amor, que minh´alma se consome De te exaltar aos olhos do universo..."

Stella era bonita, muito bonita, na realidade era linda. Nasceu e cresceu numa simplicidade espartana, tinha ares de nobreza e olhos de humildade, como dizia o Souza. Passava nas estreitas ruas arrancando sorrisos fáceis de toda a vizinhança - gente, tão linda e tão educada, que coisa, dizia o Souza.

Souza também dizia que o modo de Stella caminhar, ou estar parada em pé, indicava muito sobre a sua educação, além das dicas que fornecia para o conhecimento da sua personalidade e do seu estado de ânimo. Tinha uma postura natural e sem afetação, traduzindo sempre atenção e consideração às pessoas com quem interagia socialmente.

Foi Souza que sacou que Stella caminhava com o corpo disposto na sua posição natural de caminhar, a cabeça levemente inclinada para a frente, com o olhar posto alguns metros adiante, evitando tropeços e esbarros em pessoas e objetos e oscilava minimamente os quadris, sem as contorções do rebolado.

Certa vez Souza falou sobre o olhar de Stella. Dizia que ela, ao olhar à sua direita ou à sua esquerda, distribuía o giro progressivamente valendo-se em primeiro lugar do movimento dos próprios olhos. E ainda segundo Souza, dado o grande poder estético que tinha o modo de olhar de Stella, este movimento não era muito acentuado. 

Observe, dizia Souza, observe Stella em pé. Enquanto conversa, não se põe a balançar o corpo, para frente e para trás, nem apóia o corpo em apenas uma perna e estende a outra displicentemente para frente com o risco de fazer alguém tropeçar na ponta do seu pé. 

Após minuciosa análise, Souza descobriu como os músculos do rosto de Stella se contraiam suavemente para sinalizar sentimentos e significados. A sua expressão facial era suave e sempre ornada com um sorriso sincero.  

Stella nunca soube sequer da existência de Souza. 

É isto aí!


O velho estilo golpista nunca foi embora.


Inimigo político de Getúlio Vargas, Carlos Lacerda foi o grande coordenador da oposição à campanha de Getúlio à presidência em 1950 e durante todo o mandato constitucional do presidente, até agosto de 1954. 

Uniu-se a militares golpistas e aos partidos oposicionistas - principalmente a UDN, num esforço conjunto para derrubar o presidente Vargas através de acusações que publicava em seu jornal, Tribuna da Imprensa.

Lacerda participou ainda de nova tentativa de golpe de estado em 1955, quando se uniu aos militares e à direita udenista para impedir a eleição e a posse do presidente eleito Juscelino Kubitschek e seu vice-presidente, João Goulart.

As manobras golpistas começaram já no período eleitoral, quando ocorreu o episódio da Carta Brandi, uma notícia supostamente falsa plantada pelos opositores no jornal de Lacerda que envolvia João Goulart num pretenso contrabando de armas da Argentina para o Brasil.

Após a eleição de Juscelino, Carlos Luz, presidente interino à época, aliado aos militares e a Carlos Lacerda, tramaram um novo golpe. A bordo do Cruzador Tamandaré, fizeram a resistência, mas foi alvejado (o navio) a tiros pela artilharia do exército a mando do General Teixeira Lott, que tinha pretensões de se candidatar à presidência. Foi o último tiro de guerra disparado na Baía da Guanabara no Rio de Janeiro. Durante anos, o episódio ficou conhecido como o golpe de Lott.

Em 1961 fez um discurso atacando, pela televisão, o presidente Jânio Quadros, antigo aliado. A renúncia de Jânio ocorreu em seguida, em 25 de agosto.

Foi um dos líderes civis do golpe militar de 1964, porém voltou-se contra ele em 1966, com a prorrogação do mandato do presidente Castelo Branco. Segundo Lacerda, a prorrogação do mandato de Castelo Branco levaria à consolidação do governo revolucionário numa ditadura militar permanente no Brasil, o que realmente aconteceu. Confiava no sucesso do governo que tinha realizado no estado da Guanabara para enfrentar o candidato de oposição Juscelino Kubitschek.

Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Lacerda


Heart Of Gold (Neil Young)


Neil Young – Heart Of Gold / Sugar Mountain
Label: Reprise Records – 14140
Format: Vinyle, 7", 45 RPM, Single
Sortie: 1972
Genre: Rock
Style: Folk Rock, Country Rock, Classic Rock


Neil Young (Toronto, 12 de novembro de 1945) é um músico e compositor de origem canadense, que fez sua carreira nos Estados Unidos.

Conhecido por sua voz suave e suas letras pungentes, é uma lenda do rock americano, mas seu estilo musical também inclui o folk e o country rock, alternando com álbuns mais "pesados" em que algumas músicas se aproximam do hard rock, com guitarras "sujas" e longos solos improvisados com muita distorção.

Seus shows são verdadeiras celebrações de rock usualmente acompanhado da banda Crazy Horse desde o início de sua carreira. Foi considerado o 17º melhor guitarrista do mundo pela revista norte-americana Rolling Stone.

A sua composição de grande sucesso - "Heart of Gold" - foi lançada no seu quarto álbum Harvest, e é o único single nº 1 de Young nos Estados Unidos. No Canadá, alcançou o primeiro lugar na parada nacional de singles da RPM pela primeira vez em 8 de abril de 1972, data em que Young ocupou o primeiro lugar nas paradas de singles e álbuns. 

A Billboard classificou-a como a música nº 17 em 1972. Em 2004, a Rolling Stone classificou-a em 297 em sua lista das 500 melhores canções de todos os tempos, em 303 em uma lista atualizada de 2010,  e em 259 em 2021. 

Heart Of Gold (Neil Young)

I wanna live, I wanna give
I've been a miner for a heart of gold
It's these expressions I never give

That keep me searching for a heart of gold
And I'm getting old
Keep me searching for a heart of gold
And I'm getting old

I've been to Hollywood, I've been to Redwood
I've crossed the ocean for a heart of gold
I've been in my mind, it's such a fine line

That keeps me searching for a heart of gold
And I'm getting old
Keeps me searching for a heart of gold
And I'm getting old

Keep me searching for a heart of gold
You keep me searching and I'm growing old
Keep me searching for a heart of gold

Se não conseguir abrir o vídeo pelo Blog, clique aqui: Heart of Gold




Fonte no Youtube: Musica&Poesia
Artista: Neil Young
Compositores: Neil Young
Licenciado para o YouTube por
WMG (em nome de Reprise); ASCAP, LatinAutorPerf, LatinAutor, AMRA, Hipgnosis Songs Group, LLC e 19 associações de direitos musicais


sábado, 7 de junho de 2014

No divã da Pitangueira - A sombra

Começou achando que aquilo era estranho, uma aberração, uma anormalidade. Tinha vergonha de falar para as pessoas, tinha medo de ser mal interpretado. Procurou o analista da Pitangueira, afinal aquilo já estava passando dos limites.

- Doutor, eu preciso falar...

(silêncio contemplativo)

- Não sei como dizer isto (lágrimas)

(silêncio interrogativo)

- Sabe, as pessoas me acham esquisito...

(silêncio investigativo)

- Mas eu não sou esquisito. Não me entendem...

Quem não entende?

- Eles, as pessoas, a família, ninguém compreende...

Pessoas da família ou pessoas estranhas e a família?

- Faz diferença para o senhor ser incompreendido?

Não, para mim não. Mas para você parece que é importante.

- Como assim "para mim"?

Quem o trouxe aqui, Lindolfo?

- Vim só, por que? Você acha que ela me trouxe? Como soube? 

Não sou o oráculo das suas dúvidas, Lindolfo, as respostas estão em algum lugar dentro de você.

- Nãããããããoooooo!!!! Nããããããããããõooooo!!!! Não está dentro de mim...

O que não está dentro de você?

- Minha sombra, não percebe? ela... ela.... meu Deus, você não vê?

O que vê que eu deveria ver, Lindolfo?

- Meu Deus, você não vê minha sombra?

Fale-me mais sobre isto. O que há na sua sombra?

- Não é o que há... meu Deus... como explicar... olha, eu não sou doido...

Sim, prossiga, sei que você não é doido. Fique à vontade para falar o que o aflige. 

- Sabe, puxa vida, como falar... ela, a minha sombra, olha - eu não sou gay, mas a minha sombra é uma mulher...

Entendo... prossiga...

- Entende, você entende? Entende mesmo? Olha, ela... ela... é incrível...ela.. ela... (lágrimas escorrem).

(silêncio estarrecedor)

- Ela é ninfomaníaca. Ela é insaciável, quer sexo o tempo todo, me provoca, me deixa louco, fico excitado, e ela nunca sacia.

Olha só, esta imagem é um arquétipo; uma projeção do seu sub-consciente, que é composto por um conjunto organizado de imagens, palavras e emoções, formando a estrutura autônoma e dissociada do eu consciente. 

- Você disse que entende, mas não sabe de nada, tem nada disto de arquétipo.

Ouça, Lindolfo, esta sombra feminina constitui apenas uma “sub-personalidade” comparável a uma “personagem” de uma peça de teatro, autônoma, independente de você e dotada da sua própria personalidade, projetada por você.

- Doutor, o senhor está excitando ela com este papo.

É, e como você acredita que isto é possível? Lindolfo? Lindolfo? Cadê você?

- Aqui, embaixo do divã com meu arquétipo...

Caramba, que sombra gostosa é esta. É real, que isto??? Nunca vi isto!!!

- Tira o olho, doutor, tira o olho, é minha... isto, mexe sua doida, aí, que loucura...ela ficou excitada demais com esta conversa...

É isto aí!

terça-feira, 3 de junho de 2014

As Anjos

Tem uma semana que venho estudando e ensaiando falar sobre Anjos, e a protelação é forte. Como não acredito em coincidências, acho que o material estava ruim. A questão central da discussão é referente a nós - eu você e mais uma meia dúzia de generosos amigos que teimam em ler este blog.

Você já viu um Anjo? Assim, de verdade? Já ouviu o canto de um Anjo? Sabe a diferença entre querubins, serafins, arcanjos, etc? Todas as religiões, doutrinas de fé e crenças do mundo falam nos Anjos, sem exceção.

Os relatos bíblicos e a hagiografia cristã contam que os anjos muitas vezes foram autores de fenômenos miraculosos, e a crença corrente nesta tradição é que uma de suas missões é ajudar a humanidade em seu processo de aproximação a Deus. Podem ou não ter asas, podem ser muito parecidos conosco, mas sempre estarão ao serviço de Deus? Não, nem sempre, pois são imagens do Senhor - Anjos não têm Livre Arbítrio - podem tomar uma decisão, porém esta decisão é perpétua. 

Na prática, os Anjos Celestiais transmitem a vontade, o pensamento e o desejo de Deus entre os seres humanos. São a "Palavra" de Deus. Já pensou assim? Você é imagem e semelhança do Senhor e lança mão da sua palavra para manifestar a sua vontade, o seu pensamento e /ou o seu desejo ao mundo.

Aí um engraçadinho, sempre existem os engraçadinhos diz: mas e o mudinho? Mudo não fala... Assim como Anjos se manifestam em múltiplas formas, há também aqueles entre nós que se manifestam de formas diferentes da nossa.

Pense bem da próxima vez que for falar algo - serão anjos que estará enviando ao próximo. Se forem palavras malditas, serão anjos caídos.

É isto aí!

domingo, 1 de junho de 2014

Carminha e o cara esquisito.

Peter Lindbergh Helena Christensen ET Vogue

Duas amigas no salão em uma tarde de sexta-feira:

E aí Carminha? Deu bem na festa da Odete?

- Sei lá, ainda tenho dúvidas. Conheci um sujeito lá, mas cara é meio estranho. Esquisito, sabe? Sei lá...

Ficou e gostou?

- Fiquei, gostei, adorei, descabelei, gritei, amei, enlouqueci, mas o cara é esquisito.

Ele é feio?

- É lindo, maravilhoso, forte...

Ele é fraquinho na hora H?

- Viril, potente, másculo, insaciável e dominante.

Casado?

- Solteiro, solteríssimo, desimpedido e desenrolado.

Analfabeto funcional? Semi-letrado?

- Que isto, não... graduado, pós graduado, experiencia internacional....

Ah, sei... é violento, grosso, mal-educado?

- Que isto, educadíssimo, elegante, roupa fina, fala baixo e sem vícios de linguagem.

Olha Carminha, ele é gay? Pode falar...

- Não, com certeza não. Tenho a convicção. Mas ele é estranho, sabe... sei lá, meio esquisito.

Entendo. Mas o que faz ele ser esquisito?.

- Ele... ele... como falar... ele

Fala menina, sou sua amiga, pode falar.

- Ele.. ele.. bem, ele não tem tatuagem, não fuma, não fala palavrão, não bebe mais que uma dose, não usa drogas, não tem cárie e nem restauração, não tem unha inflamada, o carro é limpo, não canta nem fala sozinho no banheiro, come de boca fechada, mastiga sem barulho, não usa perfume, desligou o celular, não acessou a internet, pagou todas as contas, abriu a porta do carro para mim... sabe.. é muito certinho...

Credo Carminha, que cara esquisito, só pode ser um ET...





sábado, 31 de maio de 2014

Transmissões secretas da Nasa?


Eu não sei se existe vida além da que sabemos, mas o sujeito que tentou provar isto documentalmente não viveu muito para confirmar o que descobriu.

Martyn Subbs desenvolveu câncer no cérebro e morreu logo depois de divulgar seu trabalho de captação das imagens dos filmes da NASA-STS sobre ufos no espaço.

Abaixo estão em ordem os vídeos publicados no Youtube. Você decide:







Transmissões Secretas da Nasa 7/7 PTBR

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Conto simples da felicidade intangível


Ouvi um badalar de sinos dobrando ao longe, cada vez mais altos, e à medida que aumentavam, sentia-me estranho. Abri os olhos devagar e os badalos diminuíram, mas a enxaqueca estava instalada. Olhei para os lados, com certo desconforto. Estava deitado em um imenso sofá branco, e ao meu lado, nua, uma das mais lindas mulheres que já vi.

Acordamos juntos. Dei conta da minha nudez ao procurar o celular. Ficamos nos entreolhando por uma eternidade de segundos. Aí então conversamos:

- Olha, eu posso explicar...

Espero que sim.

- É... eu também. Você viu as minhas roupas?

Não. Você vê as minhas?

- Também não. Mas que tal tomarmos um banho e depois resolvermos tudo?

Perfeito. Estou toda suada, cabelo pregando e você cheio de marcas estranhas, parece batom com molho... além de estar bem suado também.

O banho foi épico. Coisa de realização de um desejo de adolescente. No quarto haviam roupas sobre uma cômoda lateral, confortáveis. Ela colocou um vestido branco excitante e para mim calça e camisa de linho branco. Caminhamos para a copa, onde uma mesa de jantar estava servida, fartamente elegante e pomposa.

- Posso saber o seu nome? - perguntei degustando uma lagosta.

Bárbara, e o seu?

- Carlos Lindolfo.

Esta casa é sua?

- Não. Não é não. Achei que fosse sua.

Sabe como veio parar aqui?

- Não lembro. E você?

Não tenho a menor ideia...

- Será que morremos?

Não sei. Nunca vi você, nem lembro de algo... espere...

- Sim?

Entrei em uma loja ontem, eu acho que foi ontem à tarde, e uma pessoa me perguntou o que desejava mais na vida, e respondi que queria ser feliz.

- Meu Deus, aconteceu a mesma coisa comigo. Era uma loja diferente, que nunca havia percebido, na Alameda das Flores. Uma pessoa fez a mesma pergunta e dei a mesma resposta que você. Aí não lembro de mais nada até acordar aqui.

- E o que faremos?

Nada! Vamos aproveitar até ver onde isto vai...

- Gostei disto... nada de complicar.

É isto aí!

Vai ter copa

Atenção: Este poema não é meu. Copiei e colei
Autora: Profª Marta Godoi
Vai
Vai ter
Vai ter copa
Vai ter protesto
Vai ter lucro
Vai ter prejuízo
Vai ter tristeza
Vai ter alegria
Vai ter ódio
Vai ter paz
Vai ter vitória
Vai ter derrota
Vai ter vencedor
Vai ter vencido
Vai ter verde e amarelo
Vai ter azul e branco
Vai ter ida
Vai ter volta
Vai ter abuso
Vai ter bondade
Vai ter lágrima
Vai ter gol
Vai ter grito
Só não vai ter o nada
Porque o nada não é nada
Nada como ter um pouco de tudo
Sem nada de nada, nadica de nada, nadinha
Só quem já morreu
Será?
Vai ter dúvida
Não vai ter resposta

Vai ter vida