terça-feira, 26 de maio de 2026

Cartas de Amor 123


Reino da Pitangueira,
Planeta Terra & Lua,
3º do Sistema Solar,
Via Láctea, Zona Sul

Cartas de Amor 123
Epistulae Amoris CXXIII

Querida, eu menti para você

Era para ser uma coisa simples. Eu deveria apenas dizer que amo você, explicar e explicitar este amor e pronto: a carta cuidaria de dar voz à minh’alma. Mas aconteceu que fui abduzido em um experimento transcendental.

Eu menti para você e não soube desmentir. Sei que isso a magoa, mas é o melhor que tenho para entregar hoje. Sim, sei que a história parece, a princípio, uma farsa grotescamente manietada, porém não tenho como contá-la de outra forma que não seja a minha versão dos fatos.

A verdade, ou melhor, a minha verdade é que eu surfava em outro universo — paralelo ou estacionado no ventre de uma onda existencial que não existe para nós neste plano. Você me cobra o passado e eu, neste presente contínuo, apenas creio que naquele instante, pelo pertencimento recíproco, projetamos a eternidade para um campo inexato.

O que a deixa abalada é que eu, você e este quartzo pulsamos, cada qual, em intervalos próprios de mudança do tempo. E, mesmo assim, navegando nesta instabilidade pessoal, onde você insiste em um mundo real e sólido, experienciei a emoção de perceber que cada ser é anexado às suas vontades e desejos ao seu próprio tempo, à sua própria maneira.

Querida, somos emoções e experiências. Não navegarei pela física nem pela teologia, já que ambas também mergulham em plasmas profundos quando o assunto é o tempo. E nós, apenas nós dois, aqui, neste lugar e neste instante, somos os únicos que têm consciência da morte.

Eu não sei — e nunca soube — não amar você.

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