domingo, 18 de maio de 2014

No Divã da Pitangueira - A transferência


Olha, estou com tanta vergonha, não sei como falar sobre isto. É tão... tão... constrangedor. Puxa vida, não sei mesmo como explicar esta coisa em mim.

- Se não está sentindo bem em falar sobre isto hoje, podemos voltar ao tema pendente da fase da adolescência quando...

Sim, entendo, mas preciso falar sobre isto. Está me sufocando.

- Então fale, sentirá melhor assim.

Eu não sei explicar. Há um calor infernal que queima dentro de mim, parece que estou endemoniada, sei lá, possuída por uma entidade espiritual das trevas... (lágrimas contidas) 

- Estou ouvindo.

Olha, não pense mal de mim. Não sou assim, quer dizer, não sei por que isto acontece comigo, mas sempre que penso em determinada pessoa, meu corpo arde em sensações indescritíveis... (leve sorriso malicioso).

- Não penso mal de você, acredite. Fale mais sobre isto.

Obrigada pela confiança. Você me deixa mais a vontade... sempre. Mas ocorre que não consigo explicar tudo. Há uma espécie de ritual em meu corpo. Sinto tremores, arrepios e quando isto ocorre tenho a sensação de volovelismo e depois necessito deitar, sabe. Mas não necessariamente deitar. O desejo real é postar-me de barriga para baixo e efetuar movimentos circulares de braços e pernas para os lados.

- Entendo. Você tem a sensação de planar e cair suavemente em direção à água e então começa a querer nadar em "crawl"

Nossa, você entendeu tudo. É isto mesmo. E depois vem o desejo de deitar de costas sobre o piso.

- Sério?

Sim, tenho um forte desejo de relaxar, e deito de costas até que a tensão passe.

- E que mais?

É como um sofrimento que não encontro palavras.

- Continue...

(choro) Talvez (soluços) um pouco de calor me alivie... por que sofro assim?

- Calor? Como assim? Não havia falado sobre isto.

Calor humano (lágrimas), que aqueça minha alma...

- E com que frequência você vivencia estas sensações?

- Permanentemente. Por exemplo, neste momento desejo suas mãos massageando a minha pele, tocando meu corpo. Com certeza me dariam muito alívio...

- (silêncio)

- Sim, me perdoa, mas sinto necessidade de que alguém forte me estreite em seus braços e me dê o alívio de que necessito...

- (silêncio)

E você é o único homem que pode me aliviar esta angústia.

- Vamos trabalhar melhor isto. O fato é que, na verdade, você está vivendo um sentimento transitório que faz parte de seu processo de cura.

E agora, assim, nua no divã, você percebe em mim uma ameaça à sua integridade física, moral e ética?

- Por favor, entenda, o que está ocorrendo é que há um bloqueio em sua memória, e você não recorda coisa alguma do que seu subconsciente escondeu e reprimiu, mas expressa-o pela atuação, ou seja, reproduz aquela situação não como uma lembrança, mas como uma ação repetitiva e inconsciente. 

Você não me acha gostosa? Nem bonita?

- (gaguejando e suando) Olha, você está promovendo transferências, com reduções das reações e fantasias que, durante o avanço da análise, despertaram e tornaram-se conscientes, mas com a característica de substituir alguém por mim. Isto passa, acredite. Você está a um passo da cura.

E agora, em pé atrás da sua poltrona, nua, passando a língua no seu pescoço? E agora sentada nua no seu colo, posso ficar assim?

- (desesperado) Dizendo de outra maneira, toda uma série de experiências psíquicas prévias é revivida, não como algo do passado, mas como um vínculo atual com a pessoa do analista. Algumas são simples reimpressões, reedições inalteradas. Outras se fazem com mais arte e passam por uma moderação do seu conteúdo, uma sublimação.

Assim, mordendo sua orelha, eu te digo, em sussurrante e ardente desejo - não quero ser mais psicanalisada, nem curada, nem tratada, quero ser amada...

-  (tremendo e babando) Por outro lado, o motor da análise é o afeto. Pode haver uma situação artificial em que o amor pode ser vivido de modo a levar o paciente à autonomia, e não à dependência ou submissão. Freud já alertava que os pacientes se curam por amor ao analista. 

Meu Deus do céu, isto quer dizer...

- Sim, é possível que nem tudo comece ou termine em Édipo

Não fala mais nada, cala a boca e me beija!

É isto aí!

sábado, 17 de maio de 2014

No Divã da Pitangueira - A silente.



Era final da tarde de uma sexta-feira. Estava sozinho na clínica, preparando-me para romper a barreira do sábado, desejando estar na melhor companhia feminina, desde que fosse bonita e inteligente, a melhor companhia musical e etílica, quando adentra à sala uma mulher voluptuosa, cabelos negros, expressivos olhos azuis e sorriso com boca de luar, como nos ensinou Drummond (aqui).

Calça jeans, camisa de algodão com rendas, um suéter com casaco sobretudo que combinava com o sapato, meias coloridas, brincos grandes em aro, joias combinando com o brinco, uma charmosa boina e um batom discreto.

Foi tudo o que observei durante quarenta e cinco minutos, cujo silêncio foi tenso. Olhava-a, buscava uma resposta, media seu corpo, admirava sua beleza, expressões e o perfume que exalava.

Ao término, levantei e caminhei para a porta. Ela calmamente retirou da bolsa os duzentos reais do pagamento da sessão e colocou por sobre a mesa. Na semana seguinte e nas oito outras repetiu a cena. 

Fui em busca de uma orientação com meu analista supervisor, mestre no Colégio de Formação de Analistas da Pitangueira. Recebeu-me com a frieza de sempre, a indiferença dos doutos. Falei sobre a moça, seu silêncio, a forma como isto estava me destruindo, irritando, promovendo a ira ainda disfarçável. 

No decorrer dos eternos quinze minutos das suas sessões, ao custo de seiscentos reais por visita, acendeu um Cohiba Robusto, coçou o queixo, olhou-me no vazio e pronunciou - Olha rapaz, o silêncio é o real do discurso e anuncia o discurso do inconsciente. Saia do lugar comum e recupere a percepção do todo. 

Deixei o dinheiro por sobre uma enorme bancada lateral, onde estavam muitos pagamentos de outros muitos clientes, alguns em embrulho de presente, outros em papel higiênico limpo, outros dentro de embalagens de absorvente, outros em embalagens de preservativos, outros em sacos de vômito de vôo, outros em lenços descartáveis, muitas moedas, notas rasgadas, dinheiro com bilhetes grampeados, etc.  Saí pior do que entrei. O que não estava vendo?

Por onde começar? Ela ficava praticamente imóvel, sem muita expressão facial ou gestos manuais. Não tinha movimento involuntário das pernas, nem mexia no cabelo..., espera, tem alguma coisa aí. Vou buscar nas anotações o que não vi:

1ª semana - Silêncio total. Vestia calça jeans, camisa de algodão com rendas, um suéter com casaco sobretudo que combinava com o sapato, meias coloridas, brincos grandes em aro, joias combinando com o brinco, uma charmosa boina e um batom discreto.

2ª semana - Silêncio total. Vestia calça jeans, camisa de algodão com rendas, um suéter com casaco sobretudo que combinava com o sapato, meias coloridas, brincos grandes em aro, joias combinando com o brinco e um batom discreto.

3ª semana - Silêncio total. Vestia calça jeans, camisa de algodão com rendas, um suéter com casaco sobretudo que combinava com o sapato, meias coloridas, brincos grandes em aro e um batom discreto.

4ª semana - Silêncio total. Vestia calça jeans, camisa de algodão com rendas, um suéter com casaco sobretudo que combinava com o sapato, brincos grandes em aro e um batom discreto.
5ª semana - Silêncio total. Vestia calça jeans, camisa de algodão com rendas, um casaco sobretudo que combinava com o sapato, brincos grandes em aro e um batom discreto.

6ª semana - Silêncio total. Vestia calça jeans, camisa de algodão com rendas, um casaco sobretudo que combinava com o sapato, brincos pequenos em aro e um batom discreto.

7ª semana -  Silêncio total. Vestia calça jeans, camisa de algodão com rendas, um casaco sobretudo que combinava com o sapato e um batom discreto.

8ª semana - Silêncio total. Vestia calça jeans, camisa de algodão com rendas, um casaco sobretudo, sandália e um batom vermelho.

9ª semana - Silêncio total. Vestia calça jeans, um casaco sobretudo, sandália e um batom carmim.

10ª semana - Silêncio total. Vestia bermuda desfiada jeans, casaco sobretudo, sandália e um batom magenta.

Naquela sexta-feira a recebi com um largo sorriso. Sentou-se trajando um sobretudo. Pedi para tirá-lo. Por debaixo um corpete branco de renda e meias brancas com cinta-liga...

A partir daquele dia nunca mais as sexta-feiras foram as mesmas.

E ela, decididamente falou: - Até que enfim!

É isto aí!

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Um roteiro básico sobre dramalhões latinos

Alto lá - Este texto não é meu 
Copiei e colei
Autora: Profª Marta Siqueira de Godoi Sampaio


Numa barulhenta esquina da Cidade do México, dois velhos amigos se esbarram e surpresa, Carmen Mercedes quase a gritar, pergunta, ansiosa:

- Rodolfo Ramon, como vai? E a sua virtuosa mãe? Recuperando daquele mal que a deixou acamada?
Carmen Mercedes aproxima-se mais abraçando fortemente o amigo.

Rodolfo Ramon retribui o abraço e afasta-se e, lentamente, olhando Carmen Mercedes nos olhos, e, apertando as mãos, responde:

- Não queira saber, Carmen Mercedes! Antônia Madalena, minha amada mãe, passa os dias entrevada no leito de morte a gemer dia e noite, noite e dia!

Carmen Mercedes, pesarosa, coloca as mãos sobre as mãos e depois no rosto de Rodolfo Ramon e tenta confortar o amigo:
- Oh, meu Deus! Quanto sofrimento para um ser humano tão cheio de predicativos!

Rodolfo Ramon quase a soluçar:
- Pois, sim estimada amiga! Meus dias de tormenta são intermináveis! Finjo viver para não machucar ainda mais a minha sofrida mãe! No íntimo estou morto!

E os dois se abraçam e choram em ombro amigo.

- Oh, Rodolfo Ramon!

- Oh, Carmen Mercedes!

Gentilmente, ele tira um alvo lenço do bolso do paletó de risca de giz e seca as caudalosas lágrimas de Carmen Mercedes enegrecidas de rímel. E ela retribuindo a gentileza, ajeita com pontiagudas unhas rubras uma fina mecha de cabelos que teimou em sair do topete negro esculpido em gel de Rodolfo Ramon. Se abraçam novamente e depois se separam sem mais se olharem nos olhos. Assim, cada um vai carregando nos ombros fatigados, pelas ruas mexicanas, os flagelos da vida.

Estou grávida

Maurício, eu estou grávida.

- Grávida? Como assim grávida?

Grávida, Maurício, estou esperando um neném, um bebê, uma criança.

- Mas assim, de repente, aqui nesta laje?

Sei que é uma notícia bombástica, mas recebi o exame do laboratório e senti o frio na barriga.

- Carminha, você é louca!

Maurício, para com isto, estamos nesta juntos.

- Estamos, Carminha? Estamos nesta juntos? 

Como assim? Estamos juntos.

- Da raiva à culpa, passando pelo medo e pela angústia? É assim?

Cafajeste! E a mão direita bate espalmada no peito do rapaz.

- Humm, bravinha também.

Para com isto (chorando)! Não vê que estou arrasada?

- Carminha, qual o problema de você estar grávida?

Filho de uma puta, seu safado, cafajeste - dois murros no peito com as mãos fechadas.

- Pelo menos está mais fraca, e isto já ajuda na relação.

Você é ordinário mesmo. Eu sabia, devia ter escutado meu instinto.

- Devia mesmo, pelo menos eu não teria te dado o carro, a viagem a Paris, o cartão de crédito...

Para Maurício, não é disto que estou falando...

- E a cirurgia plástica, o analista, realmente poderia ter evitado...

(Chorando convulsivamente) ...eu não sou só um objeto Maurício, uma carne exposta na moldura da sua cama... (soluços, lágrimas e tremores labiais).

- (Silêncio contemplativo)

Não vai falar nada?

- (Silêncio inquisitório)

Fala alguma coisa, Maurício...

- (Silêncio exclamativo)

Vou ficar gorda, a pele flácida, as coxas com estrias e celulite, sem pintar os cabelos, sem conseguir tomar meus drinks e fumar qualquer coisa. Vou ficar horrível, Maurício, horrível.

- (Silêncio de alivio)

E sabe o que é pior? Sabe o que é pior?

- (Silêncio segurando um leve sorriso)

Ele vai saber e vai dar pulos de alegria. E a idiota aqui perdida, gorda e o pior - pobre.

- Calma, Carminha, veja o lado bom da coisa.

Que lado bom, Maurício? Que lado bom? Porque, Maurício, porque? Por que você é estéril e meu marido é fértil? Meu filho vai ser herdeiro de pobre, e meu futuro, minha velhice? Maurício, espera, volta aqui, Maurício...

- Saiu correndo antes de dar as gargalhadas atravancadas no peito ...

É isto aí!


A geração dos riscos e cicatrizes

“Futebol em Brodósqui” – Cândido Portinari- 1935

De acordo com os reguladores (saúde, educação, segurança) e burocratas de hoje, seria tecnicamente impossível que as pessoas, este blogueiro incluído, nascidas entre os anos 40 e 70 do século XX, sobrevivessem. As tintas eram à base de chumbo e o colchão das camas, de capim ou palha seca. Não existiam frascos de medicamentos com tampa de segurança para crianças, nem armários com dezenas de caixas de remédios e quando montávamos na bicicleta, nenhum de nós usava capacete. 



Bebíamos água da mangueira do jardim. Comemos muito pão com manteiga e bebemos refrigerantes com açúcar, mas raramente alguém ficava acima do peso, e estávamos sempre a brincar lá fora. Compartilhamos um refrigerante com os outros, que beberam da mesma garrafa e do mesmo copo e ninguém realmente morreu por isto.

Enquanto as meninas adoravam ficar em pequenos grupos, com brincadeiras mais tranquilas, os meninos gostavam de passar horas brincando com carrinhos de lata, índios e soldados e também corriam a toda velocidade descendo um morro, com uma toalha presa ao pescoço, para sentir o prazer de voar, e apenas muito mais tarde descobriam que não tinha freios nos pés e que voar daquela forma era impossível..

Depois de algumas quedas e machucados, choros e dores, aprendíamos a evitar e resolver o problema. No dia seguinte saíamos de manhã e brincávamos o dia todo, e a volta para casa ocorria quando as luzes da rua estavam acesas. Não havia maldade, nenhum adulto nos incomodava. Ninguém tinha celular, não tínhamos Playstations, Nintendo ou X-Box - em geral, sem jogos de vídeo, TV com três ou quatro canais sem som surround, e computador era uma coisa que não era do nosso conhecimento. . 



Tivemos amigos! Fomos para fora e os encontramos! Caímos dos galhos das árvores, com arranhões e cortes, alguns quebraram pernas ou braços, outros bateram com os dentes, mas nunca houve ações judiciais a partir desses fatos. Houve acidentes! Nenhum outro poderia ser responsabilizado -. apenas a nós mesmos. Lutamos uns contra os outros, teve raiva, choro e gargalhadas, e aprendemos a superar isso, encontramos nos jogos como piques e bolas, roda e danças, uma alegria imensurável.

Apesar de todos os avisos, raramente um ou outro tinha um machucado de maiores cuidados, mas nem por isso havia olhos arrancados ou membros amputados. Amigos caminhavam juntos para uma casa conhecida, batiam na porta, entravam direto nos assuntos e se misturaram na conversa. Na escola
alguns estudantes não eram tão espirituoso como os outros, mas eram minoria, geralmente isolados, eram reprovados algumas vezes e ficavam aqueles gigantes no meio das crianças mais novas, sem nenhum preconceito.

O carro era sem cinto de segurança. Adultos fumavam em qualquer ambiente. Ninguém dava uma carona, e a ida à escola era a pé ou de bicicleta, sem tranca ou cadeado. Enfim esta geração que produziu alguns dos melhores tomadores de risco, os melhores solucionadores de problemas e inventores de todos os tempos, com uma explosão de novas ideias, tinha liberdade, fracassos, sucessos, amor e responsabilidade, e aprendemos a lidar com tudo isso. Se você é um deles, Parabéns! 


É isto aí!

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Do alto do salto dela

Naquela noite resolveu não subir pelo elevador. Nunca duvidou da intuição, e sempre que a inibiu, deu-se mal. Eram onze andares, muita escada, mas algo dizia para subir por ali.

No decorrer do dia estudara uma tese sobre "Amor Patológico", para entender uma situação encontrada em uma paciente. Com o fim do noivado transformou-se em prisioneira de um sentimento doentio. O amor patológico é caracterizado pelo comportamento de prestar cuidados e atenção extrema, de maneira repetitiva e desprovida de controle, e em um relacionamento amoroso é um quadro ainda pouco estudado cientificamente, apesar de não ser raro e de gerar sofrimento importante.

Entre seus estudos, dedicara maior atenção a um órgão situado na cavidade nasal denominado órgão vomeronasal (OVN), cuja finalidade parece ser exclusivamente a de detectar sinais químicos – os ferormônios - envolvidos no comportamento sexual e de marcação de território.

Como não há duas pessoas que possuam exatamente o mesmo cheiro, acreditava que de certa forma o odor exalado pelo outro num processo de excitação mútua transformava-se em gatilho psicológico em determinados distúrbios congênitos, daí a inevitabilidade.

Pensava que seria possível, uma vez  ativado o gatilho, que o OVN estimulasse neurotransmissores do diencéfalo como a Feniletilamina, que são inibidores da Dopamina, em alta e permanente concentração, gerando uma paixão doentia, com falta da sensação de bem-estar, felicidade, prazer. Neste caso o/a paciente não seria capaz de resolver problemas, ou administrar sentimentos e responder de forma adequada. Os aspectos determinantes diferenciais seriam a falta de remorso sobre os comportamentos imorais, inquietude, agitação, insônia e irritabilidade.

Entre o décimo e décimo-primeiro andares, montando sua tese na memória, deparou com um par de pernas de tirar o fôlego, completadas pela divina extensão de um salto alto sedutor. Refeito da imagem, procurou pelos olhos da dona, mas não viu a sua face, encoberta pela sombra da precária iluminação. Na blusa tinha uma frase - "Amor para sempre". Lembrou das sincronicidades de Jung, mas aquelas pernas não permitiam pensar muito.

Olá, disse à moça.
- Olá
O que faz aqui, em um lugar como este?
- Nada, estava cansada de ficar presa em uma sala e resolvi ficar presa na escada.
Interessante, é uma saída inteligente.
- É verdade, não encontrará muitas meninas inteligentes assim por aí.
Riram da situação.

Uma hora havia se passado, quando ela se deu conta que acordaria cedo, e nem ao menos se apresentaram. Daí veio a fase de perguntas caracteristicamente femininas:

- Você vem sempre por aqui?
Não, raramente passo aqui.
- Tenho que ir, amanhã nos encontraremos?
Talvez.
- Você tem Skype?
Pensou em dizer a verdade - não tinha nenhuma das inovações tecnológicas - mas resolveu negar apenas a da pergunta, mas ao fazê-lo ela duvidou. Seu instinto feminino entrou em estado de alerta geral. A lógica dizia que se ele recusou a informação, é porque a rejeitara. Nestas conjecturas, é comum as mulheres partirem para um ataque súbito, com o intuito de tirar as dúvidas e escancarar os motivos. Então veio a segunda pergunta:

- Você é casado? Responda a verdade.
Pensou em fazer um discurso sobre a questão filosófica da verdade, mas respondeu objetivamente como da forma anterior, desta vez de forma afirmativa.

A moça visivelmente magoou e partiu. Ficou seu perfume e a imagem da janela entre a sola e o salto, trançando as coxas ao levantar-se. Foi para casa e resolveu estudar mais sobre o assunto. Aquele perfume enebriou seus dias seguintes de uma forma indescritível. Mais que isto, a janela entre a sola e o salto, ao trançar as coxas, fixou-se em sua mente - a princípio achou que fora apanhado pela patologia dos seus estudos, mas logo percebeu que o fato dela ter sido agradável e atenciosa não evitou um delicioso fetiche por coxas femininas sobre um salto agulha.

Amanhã, pensou, desço no décimo andar e subo apenas um lance de escadas, e explico que tudo foi um grande mal entendido, quem sabe possamos ser amigos? Lembrou de uma piada sobre Freud, onde tem hora que um charuto é apenas um charuto. Riu sozinho e assim a vida continuou.

É isto aí!.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Minha Gripe me ama

Tudo começou com um pequeno mal estar, evoluiu para dores nas pernas, dor no corpo, dor de cabeça, espirros e tosse - muita tosse e febre, muita febre, típica de infecção viral. Depois de anos recebo-a em meu templo sagrado, sua excelência, a Dona Gripe.

Como minha imunidade ficou abalada, bactérias desempregadas aproveitaram o salão de festas em reformas e se reproduziram nos seios da face- pronto, ganhei uma sinusite.

Por isto é que estou sem muito o que postar. Mas graças às drogas legais encontradas nas melhores farmácias, sob supervisão médica, parece que a coisa vai melhorando.

Até amanhã, espero.

É isto aí!

terça-feira, 13 de maio de 2014

Pensadora Valesca



Atenção - Este texto não é meu - Copiei e Colei
Autor: Guy Franco

Fonte: https://br.noticias.yahoo.com/blogs/guy-franco/an%C3%A1lise-da-obra-quero-te-dar-valesca-popozuda-134455530.html


Esta semana, descobrimos a existência de Patrícia Secco, a escritora que captou recursos públicos para simplificar O Alienista, de Machado de Assis. Mas será que uma obra mantém sua profundidade mesmo quando a reescrevemos de maneira que “Cristiano, faxineiro de uma farmácia de Boa Viagem” possa compreendê-lo? Talvez a resposta esteja no funk carioca.

Pensadora Valesca

Vamos à Valesca Popozuda, nossa grande pensadora contemporânea. Organizei aqui algumas notas sobre a música Quero te Dar. 

Acredito que poucos percebem as referências intelectuais que ela usa em suas letras aparentemente simples. Espero que meus comentários ajudem a trazer essas referências à superfície.

Amor, tá difícil de controlar

Popozuda parece sugerir a Summa Theologiæ, de Santo Tomás de Aquino, que nos apresenta as virtudes humanas, dentre elas a prudência. A prudência, virtude intelectual essencial ao homem de bem, é uma das principais virtudes cardeais, ao lado das virtudes morais da justiça, fortaleza e temperança. Cumpre observar a maneira hábil com a qual a autora começa a obra, usando “amor”, recurso tão batido, mas tão preciso aqui.

Há mais de uma semana
Que eu tento me segurar

A discussão já vem de Aristóteles (383 – 322 a.C), mas foi tomada por virtude moral pelo Doutor Angélico e retomada agora por Popozuda. Para Popozuda (ver os DVDs Tsunami e Tsunami II), a virtude consiste em viver segundo a natureza. Como a natureza humana é racional, para viver a felicidade plena é preciso buscar o bem, ou seja, a conservação dessa natureza, que no caso é “se segurar”, e não seguir os instintos, apenas.

Eu sei que você é casado

Difícil não pensar aqui em passagens do Levitício ou no Sermão da Montanha do Novo Testamento. Difícil não pensar em Emma Bovary (Flaubert) ou em Victoria Beckham (David Beckham).
Como é que eu vou te explicar?

Aqui a consciência popozudiana começa a se questionar. Durante a elaboração da pergunta, um desenho inconsciente toma forma na cabeça de quem ouve o trecho com a devida atenção (usando fones de ouvido).

Essa vontade louca
Muito louca

Ou: Diese sehr verrückt verrückten Wunsch (ler Além do Bem e do Mal)
Segundo Nietzsche, mesmo a “vontade louca, muito louca” ainda contém em si um pouco de sanidade (ler Marcia Tiburi).

Eu posso falar?
A pensadora dirige-se ao patriarcado. O trecho funciona como transição para o tema principal da obra popozudiana, a mulher submissa, que aqui precisa pedir permissão para falar com um homem.

Quero te dar, quero te dar

A passagem, sem sombra de dúvida, vem de Wittgeinstein. O verso é uma dessas construções elegantes que fez a fama da nossa pensadora quando ela ainda era integrante da Gaiola das Popozudas. Afinal, ela quer dar o quê? Para quem? E o que ela está usando na cabeça? Onde comprou aquilo?

Quero te...
Quero te...

Observe com que delicadeza ela combina o tema do patriarcado com o romantismo. As reticências ecoam em nossa cabeça. Bonito e comovente.

Dá dá dá dá dá dá dá dá dá dá

Dá (да), "sim" em russo. No pensamento popozudiano, a sociedade joga às costas das mulheres um fardo de inferioridade, de maneira que elas são obrigadas a dizer “sim” (да) o tempo todo. A sociedade machista é a sociedade em que a mulher não pode dizer não. Paralelamente, “dá” é também a pronúncia de "pai" em algumas regiões do Reino Unido. Talvez a pensadora pretendesse ligar a submissão (mulher que só pode dizer "sim") com a figura do patriarcado (o pai, o Papa, o Sarney).

Meu nome é Valesca

Valeska, diminutivo de Valeria em várias línguas eslavas. É bem provável que ela esteja se referindo a Santa Valeria de Milão, torturada no ano de 287 d.C por ter se recusado a fazer sacrifícios em nome de deuses pagãos. Valesca, a nossa Valerinha de Irajá, também recusa o que lhe é imposto. Neste caso, o patriarcado é o seu imperador Diocleciano; o machismo, os seus deuses romanos.

E o apelido é "quero dá”

Ou: quero sim. Embora se chame Valesca, para a sociedade ela ainda é a mulher submissa que só pode responder “sim” - daí o apelido.

Ai, ai que vontade louca
Difícil de controlar

Peço que ignore esses versos caso não tenha lido O Vermelho e o Negro, de Stendhal. Pouparei o leitor de spoilers.

Tô tô tô tô tô tô tô tô

Perceba como a repetição da sílaba cria uma linha melódica como se fosse o eco de uma martelada, de um som metálico. Nota-se a sugestão de fábrica, de processo industrial. Difícil não pensar em Pierre Schaeffer, Stockhausen e outros compositores experimentais, pais da música eletrônica que conhecemos hoje.

Tô doidinha pra te dar

Aqui tem algo que me faz pensar. Que incidente teria levado Popozuda a ficar doidinha de uma hora para a outra? Esse incidente teria alguma relação com o homem casado? Ele tem filhos? Com quem ela está desabafando tudo isso? E por que quando a observamos de lado parece que ela vai tombar?

Quero te dar beijinhos

Talvez uma forma indireta de dizer “eu te amo” (ver Senhor dos Anéis).

Vem cá, vem cá, vem cá

É quase certo que Popozuda tenta incorporar aqui algo que remete às lendas folclóricas, talvez ao canto da sereia. O trecho final fica em suspenso. Nesse ponto talvez seja melhor o ouvinte se deixar levar pelo canto de Valesca.



O Neo-Cristão e o Neo-Próximo


Ontem presenciei um conhecido, não cristão, ser atacado de forma cruel por neo-cristãos, por que tem um pensamento político que difere do ódio destilado na mídia, e o que chamou minha atenção foi que os três que jogaram pedras, o fizeram em nome de um deus - não aquele que determinou apenas dois mandamentos para esta geração - Amar a Deus e Amar ao próximo, concomitantemente.

Lembrei de um fato ocorrido comigo, que marcou minha percepção com o neo-cristianismo. Uma conhecida postou uma série de denúncias graves contra políticos da esfera federal. 

Perguntei se aquelas denúncias tinham fonte ou fundamento, pois sendo ela uma pessoa que postava tanta Palavra Cristã, como poderia jogar pedras tão fortes sem fontes ou provas, e sem nem ao menos conhecer aquelas pessoas?

Eis que um amigo dela, que não conheço, saiu em sua defesa, me tratando da forma como foram agredidos os políticos. Havia fogo em suas palavras, ódio e desespero, só não havia fundamentação. Agrediu resguardado em um sentimento limitado, em nome de um deusinho destes que semeiam desavenças contra fieis de outras profissões de fé, por que aí não é pecado. Deve ter tido um orgasmo naquele dia. 

Até pensei em fazer uma defesa, em nome da Palavra e pela Palavra, mas vi que seria bobagem, algo como dar pérola aos porcos. Chafurdam no ódio e desde então os denomino de neo-cristãos.

Nada mais falso do que um neo-cristão. Visto assim de longe é um exemplo de ser humano. Entre seus pares é um apóstolo de Cristo, mas as evidências param aí. Estão se espalhando rapidamente por todo mundo, sem o menor constrangimento. São os fariseus do século XXI, dominando todos os meios de comunicação e de controle social.

Um neo-cristão frequenta a igreja, o templo, a missa, o culto, a cerimônia, o centro espírita, etc., como qualquer cristão. Fala de Jesus com uma intimidade contagiante, o conhece como poucos. Tem trechos de sua doutrina decorados, e se apresenta com supostas manifestações de fé.

Mas o que distingue um neo-cristão do Cristão? Primeiro nunca está só, anda em bandos organizados, têm medo de expor suas ideias em público e somente acessam informações que atendem aos seus desejos. Não suportam a contestação, adoram o poder absoluto e a sociedade dividida por castas dogmáticas. O ódio é patente, e há o nítido sentimento de desprezo e descaso para com o próximo. 

Sua fé possui sementes de diversas naturezas que desabrocham em ódio por diferentes formas, desde um simples boato a ações mais maquinadas, feitas nas sombras, para destruir alguém. O neo-cristão julga e condena todos e tudo que não faz parte do seu credo. 

Jogam pedras, jogam às feras, aos leões como ocorre  no linchamentos físicos e morais. Lembram-me as virgens  néscias do Evangelho de Mateus. Em tudo parecem com as Virgens que esperam e confiam no Senhor, mas na hora de confirmar a fé, fogem, pois não há substrato em seus sentimentos.

É isto aí!

domingo, 11 de maio de 2014

O Quiasma do Flavinho

Armandinho, como está chegando o ENEM e eu sei que você vai estar presente nas provas por que sua mãe me disse, eu quero marcar este encontro como se fosse um quiasma!
- Só um momentinho, dona Carminha, vou pegar papel e caneta. Pronto - Está aqui.

Mas o que é isto? Está de palhaçada agora?

- Não entendi. Não foi o que você pediu?

Armandinho, um cartão escrito Ponto de Quiasma, marcado com X em neon não é uma coisa normal.

- Ah, não é isto então...

Não é isto nem aquilo. Eu quero uma conjunção carnal.

- Agora, dona Carminha?

Não, idiota, sou mulher de esperar. E a propósito, para de me chamar de dona, pelo amor de Deus.

- Beleza então.

Beleza então o que?

- Parar de chamar a senhora de dona e esperar, pois você mesma falou que era mulher de esperar.

Armandinho, ou você vem me ter agora ou cale-se para sempre.

- Cálice? Para sempre? Como assim, dona, digo, Carminha?

Ahn? O que? Surtou? Está surdo?

- O cálice que você quer guardar para sempre nele o tal de quiasma, sei lá.

Nossa, como você é burro, só compensa por que você é muito gostoso, vai Armandinho, vem.

- Resolve, Carminha, é para ir ou vir?

Armandinho, olha para mim.

- Assim?

Isto, olha para mim, nos meus olhos. Não tira os olhos dos meus olhos e para de rir.

- Mas você está com uma cara muito engraçada.

Para de rir, Armandinho. Eu estou tremendo de raiva. Armandinho, fixa nos meus olhos enquanto vou tirando a sua roupa.

- Mas você falou que estava com asma e agora quer tirar a minha roupa?

Asma? Eu falei isto? Quando eu falei isto?

- Você disse sobre um tal de quiasma, sei lá, achei que ia ter um ataque.

Armandinho, um quiasma é um ponto de coito entre os cromatídeos, mediante a divisão celular. Ok? 
Lancei mão de uma analogia. Mas agora chega, tira a minha roupa, por que eu já tirei a sua.

- E que hora é para parar de olhar nos seus olhos?

Ai, Armandinho, presta atenção, a partir deste momento nós dois vamos ficar nus, deitados na cama, assistindo Dr. House na TV, ok?

- Aí disse tudo...

Ai, meu Deus, ou o meu processo seletivo está muito frágil, ou as opções de mercado estão cada vez mais ruins... não para Armandinho, não para ... a propósito, você já fez dezoito anos?

É isto aí!

sexta-feira, 9 de maio de 2014

No Divã da Pitangueira - Sonhos estranhos


Sabe, doutor, estou tendo sonhos estranhos. Na segunda-feira sai correndo nua pela calçada, aos gritos de "pega, pega". Uma multidão prontificou-se a acompanhar-me e uníssonos gritavam "pega, pega". Atravessei a avenida, subi a ladeira, desci na primeira à esquerda, cansada, suada e não conseguia mais alcançar meus ex-seguidores, que me ultrapassaram, aí cai em um buraco e desapareci.

Entendo, mas o que foi estranho?

Como assim? Ninguém me pegou, nada aconteceu, só passaram por mim. Eu  queria uma mão suada em minha pele nua, subindo e descendo aquela ladeira e nada aconteceu. Isto é estranho. Mas na terça-feira recebi a bola na intermediária do meu campo, dominei, corri com a equipe toda ao meu lado, os adversários estavam paralisados, só meus companheiros corriam ao meu lado. Eram todos homens, estavam nus e eu vestida de noiva, tocando a bola até o gol adversário. Quando cheguei, sozinha, sem nenhuma marcação, chutei para fora e um buraco enorme abriu, e foi por onde entrei ou caí, sei lá, e acordei na minha cama, sozinha e toda suada.

Interessante. Quer falar mais sobre isto?

Então, na quarta-feira...

Não quer voltar ao vestido de noiva e o buraco?

Sim, mas na quarta-feira estava dentro do banheiro, no final do corredor de um Boeing 747-8, a mais moderna aeronave comercial do mundo, com cerca de 450 passageiros, em uma viagem entre Fortaleza e Porto Alegre. Nisto um estridente alarme soou e fui chamada imediatamente à cabine. Saí correndo completamente nua, imensa de gorda, seios caídos, e só tinha mulher nas poltronas, histéricas, descompensadas, tipo assim.

Interessante, pode falar mais sobre isto?

Claro, pois me deu um ódio danado. Todas, inclusive mamãe e minhas duas irmãs, além de uma dúzia de primas estavam dando nota para mim em uma tabuleta e nenhuma foi maior que três, fora as vaias. Cheguei à cabine e sob intensos protestos, gritaria, vaias, peguei o manche e pousei a aeronave em Caratinga. Fiquei arrasada com as notas ... 

E tinha algum buraco?

Buraco, não lembro, espere, engraçado, já que perguntou, a pista era em um enorme buraco. Mas o pior foi na quinta-feira, quando eu era uma abelha, não uma abelhinha, era uma abelha-rainha, gordíssima, comendo doces e favos até entupir a garganta, e não parava de comer. O salão da colmeia era lotada de zangões, mas nenhum deles queria nada comigo e como estava muito gorda, não conseguia apanhá-los. Tentei sair por um estreito buraco e acordei toda suada e chorando ou zumbindo, sei lá.

E a sexta-feira?

Pois é, então, sexta e sábado não sonho nada disto. O que eu tenho que fazer? Estou preocupada. 

Então; estar nu diante de alguém num sonho  não quer dizer que você seja secretamente uma exibicionista ou sedutora; provavelmente significa que você está sendo aberta e vulnerável, sendo você mesma sem máscara, proteção ou condicionalismos culturais. Mas como estes sonhos sempre referem-se à você mesma, pode significar que perdeu ou sente falta de alguma qualidade que é auto representada. 

Eu sempre peço aos meus pacientes que geralmente nestes sonhos recorrentes de fuga, voos, quedas em buracos ou abismos, recolham os elementos que, ainda que pareçam insignificantes ou incongruentes com o resto do sonho, a fazem individualizar o nó de onde nasce o sonho e o caminho da auto-descoberta e das futuras mudanças da própria interioridade. 

Mas no seu caso, o que acho mesmo é que esta mania de começar a louca dieta mágica para emagrecer nas segundas-feiras e abandoná-las na sexta ainda é a maior causa destas suas experiências oníricas ...

É isto aí!

quinta-feira, 8 de maio de 2014

A semente do ódio

Tem hora que dá uma vontade danada de falar de política, mas as coisas estão em um processo, em escala mundial, assustador. Na primeira fase deste blog, quando iniciei, fui mais ousado, mais tocado as estas questões, denúncias e críticas. Um dia cansei daquilo tudo. Parti para escrever coisas que fazem a vida mais engraçada.

Porém a palavra da moda é "Ódio". Como sobra ódio na mídia e nas redes sociais - é impressionante. Dia destes um articulista/cineasta da campeã de audiência, publicou no jornal do maior grupo de imprensa falada/escrita/televisiva da nação, que tudo de errado no Brasil é culpa do PT, inclusive o assassinato de uma criança de onze anos no RS pela madrasta é culpa do PT. Bem, nunca até então tinha lido nada tão odioso.

Tenho amigos do PSDB que têm nojo do PT e amigos do PT que têm nojo do PSDB. Não era para ser assim - a relação teria que ser democrática. Políticos que roubam devem ser presos - cadeia neles, sem dó, além disto não existem só desonestos nos dois maiores partidos do país. Existem pessoas do bem, que acreditam no que defendem.

O que a mídia mais faz é propagar o ódio. E as redes sociais cuidam de propagá-las por capilaridade. Não precisa ser especialista em nada para saber. Pessoas boas passaram a deter ódio por outras pessoas e coisas. Isto não ocorria. Idosos e adolescentes da minha esfera de relacionamento, familiares, gente da mais íntima e pessoal relação agora têm ódio. Enfim, a semente foi plantada e dividiu o país. 

Quem ganha com isto? Pense bem antes de responder. 

Com certeza, você que lê este texto sabe que existem no seu círculo de amizade pessoas que odeiam:

- pentecostais.
- espíritas e todas as doutrinas espirituais/espiritualistas.
- católicos.
- protestantes.
- neo-pentecostais da prosperidade.
- renovação carismática.
- judeus, árabes, russos e asiáticos.
- policiais.
- políticos.
- moradores de rua.
- gays, lésbicas e simpatizantes.
- negros, mulatos, pardos, mamelucos e índios.
- presidiários.
- porteiros, empregadas domesticas, babás, diaristas.
- nordestinos.
- futebol, carnaval, páscoa, datas comemorativas, aniversários.
- etc (infelizmente a lista é extensa)

E incrível, são todas pessoas boas, que amam sua família, trabalham honestamente, mas adoecem pelo ódio que pretende fazer deste país um quintal de luxo da nova ordem que está aí.

Eu queria ter falado do Jair Rodrigues, mas este ódio de brasileiros contra brasileiros está levando o Brasil a um estágio que agradará apenas aos que não querem fazer deste país uma grande nação.

É isto aí!


Pessoas


quarta-feira, 7 de maio de 2014

As Copas e Juras de Carminha

Diga, quer dizer, me explique, Carminha, por que você não gosta de Copa do Mundo?

Bem Armandinho, vou tentar te explicar:

Era 1970, a Copa do Mundo era o máximo. Tinha uma TV Colorado RQ na sala da minha casa. Eu tinha dezesseis anos. Lembro que naquele dia cheguei alegre, acompanhada de Betão, um amigo de escola.

Conversávamos animadamente na sala, ouvindo um long-play na velha e boa eletrola Philips, esperando o horário do jogo, quando mamãe entrou, viu meu olhar preso ao dele e desmaiou em lenta e contínua queda, surpreendentemente evitando a quina da mesa e desviando de uma banqueta.

Levei-a ao hospital em pânico, e ali jurara no seu leito de morte que seria virgem para sempre. Esta seria a maior promessa de negociação que já fizera com os céus, se não fosse o fato de mamãe não ter morrido nem naqueles dias, nem nestes quarenta e quatro anos que se seguiram.

Aos vinte anos, em 1974, assistindo ao jogo da Copa do Mundo, em uma enorme e colorida TV Telefunken, ao lado de Kaká, um gato da faculdade, nós dois no maior clima de carrossel holandês, mamãe nos flagrou em delito de amor, levou as mãos ao pescoço, sentindo-se sufocada, iniciou uma tosse irritante, e em um frenético acesso, caiu na poltrona, de braços, olhos e boca abertos. Corri com ela para o hospital, e desta vez achei que ia morrer de verdade e jurei nunca mais chegar perto de uma laranja mecânica. Ficou muda desde então.

Aos vinte e quatro anos, em 1978, enquanto o caldo fervia na Copa do Mundo, Juan, um elegante argentino que residia duas quadras abaixo, levou-me para assistir "A Dama do Lotação", e já em casa, na volta mostrava-me as qualidades do churrasco dos pampas de uma forma incontestável. Mamãe chegou na área de serviço no momento que eu, me sentindo tocada pelo clima, incorporava o desejo da Sônia Braga. Levou as mãos ao peito, deu um gemido estarrecedor, caiu lentamente ao lado do tanque e ficou paralítica.

Chegou ao hospital ainda desacordada. Ali tive a certeza de que iria morrer de verdade e jurei nunca mais pegar em uma picanha portenha  e muito menos torcer para a Argentina. 

Aos vinte e oito anos, já no exercício legal da profissão na qual graduei, na Copa de 1982, encantei-me pelo quadrado mágico de Telê, um pretinho charmoso que trabalhava na mesma empresa, e o "quadrado mágico" nada mais era do que seu recanto do amor total - um quarto e sala no centro. Até hoje não sei como, mas mamãe muda e paralítica bateu na porta do apartamento, e me senti como o Brasil perdendo para a Itália. Sentada na cadeira de rodas, fez vômitos intermináveis e desmaiou, desta vez já sentada. Voltamos para casa e jurei nunca mais acreditar em quadrado mágico, penetração dupla pelos flancos, falsos pontas muito menos em seleção dos sonhos.

Aos trinta e dois anos, durante a pouco inspirada Copa de 1986, enquanto a insossa seleção da Pré-Era Dunga arrastava-se em campo na velha e boa Philips, estava numa sessão psico-social com o Juvenal, um discreto analista - formado no Colégio Oficial dos Analistas da Pitangueira - que imprimia zangado suas impressões digitais em meu expansivo psicodrama carnal. Inexplicavelmente mamãe chegou na sala batendo um irritante pandeiro, sentada em sua cadeira de rodas, muda e paralítica, com aquele olhar de censura crônica, em estado de ódio e desespero.

Juvenal saltou do sofá, em rudimentar vestimenta adâmica, aproximou-se dela, olhou-a com firmeza psicoativa e meteu-lhe um pescoção espalmado no pé do ouvido, que a atirou ao chão em épica queda. Mamãe, por milagre divino, levantou-se agilmente e aos gritos voou na jugular de Juvenal com tal ira, que achei que iria trucidá-lo ali só com as unhas.

Engalfinharam em uma luta de titãs em fúria, quebrando tudo que podia ser quebrado na sala, com estalos, urros e gemidos, só apaziguados por uma imobilização feita pelo Juvenal, que depois vim a saber era um Hara Gatame, do caratê.

Desde então mamãe passou a ter uma sessão por semana com ele, mas exigiu um tatame no consultório, e a partir daí as copas perderam um pouco o sentido para mim, sabe, sei lá, desde então fiquei sempre com aquela estranha sensação de estar faltando alguma coisa nelas.

É isto aí!

terça-feira, 6 de maio de 2014

A professora novata


Atenção para a chamada. Levantem a mão para que possa ir identificando vocês.

Aline, ..., Júlia, ..., Leviederson Júnior ..., Leviederson - quem é o Leviederson?

- Aqui, professora.

Acho que conheço seu pai. Ele não é o Dersinho dos Móveis?

- Ele mesmo, professora.

Olha só, que coincidência bacana. Fomos colegas de faculdade. Ele tinha o apelido de Isca.

- Isca? Nunca ouvi falar, professora.

Não? Eu que coloquei este apelido nele - por que era pequeno e mole.

- Não entendi, professora.

Deixa prá lá, fala prá ele que a Musa dá aula prá você.

Papai, papai, tem uma professora que disse que te conhece. Ela te chamou de Isca e falou que se chama Musa.

- Mas que filha da p... ah! A Hangar então é a sua professora. Beleza.

Hangar, pai? Como assim?

- Tem espaço até prá Boeing de tão grande é a entrada e larga que é a saída..

- E aí, Leviederson, falou com o Isca?

Falei, mas ele disse que não sabia nada de Musa, mas se lembra da Hangar.

- Mas que vea... ah! Claro, era assim que a sua avó era conhecida. Dê um abraço nela por mim. E dê um abraço na Butantã? Está bem?

Butantã?

- É como sua mãe era chamada - apelido carinhoso que coloquei nela.

Mamãe, mamãe, tem uma professora que te conhece. Ela te chamou de Butantã e a vovó de Hangar.

- Ah! Aquela pu... ah, sei! Eu sei quem é. É a Musa, não é?

Ela mesmo, como você sabe, mãe?

- Por que ela era a Musa dos Rapazinhos Alegres, entre eles era chamada de Cometa, só vinha de rabo.

Professora, minha mãe falou que você era a Musa dos Cometas, acho que é isto.

- Olha só, a prost... a sua mãe aprendeu a falar palavras difíceis. Que bacana. Fala com ela que vamos fazer um trabalho sobre cascavel e ela seria muito importante na elaboração do projeto. Poderia até doar material para o trabalho. E o seu pai, como ele esconde cobra, a gente pensa em outras experiências.

Papai, mamãe, a professora falou que o papai esconde a cobra da mamãe, que serve para doar material para um trabalho na escola.

- Olá Leviederson, como estão seus pais? Mandaram algum recado especial?

Olha só professora, só concordaram em um termo - o meu pai falou que você é uma puta safada, minha mãe falou que você é safada de uma lésbica e minha avó falou que você é travesti bem safada, então como não chegaram a um acordo de gênero, hoje não tem recado.

E foi assim, sem entender nada, que eu fiquei de castigo depois da aula, cheguei em casa e apanhei do meu pai, minha mãe me colocou de castigo outra vez e minha avó lavou minha boca com sabão, ah, também mudei de escola...

É isto aí!

domingo, 4 de maio de 2014

No divã da Pitangueira - A vaca!


É tanta coisa, que nem sei mais por onde começar.

- Comece de algum ponto, marcante, determinante, que a trouxe aqui.
Não há um ponto específico. Beto já estava esquisito, estranho, sei lá. Começou a acordar com o despertador à três horas da manhã e me possuía de uma forma mais forte, digamos assim.


- Com violência?
É, um pouco. No princípio eu não gostava muito, mas com o passar do tempo a força foi ganhando elementos potencializadores, estimulantes, plug vibrador rotativo, anéis, e uma série de coisas outras, e uau, ficou indescritível.

- Com a sua permissão?
Sim, sempre, era cada vez mais tenso e ... gostoso ...

- Prossiga
Aí começaram os fetiches. Pediu que eu fantasiasse de palhaça. Vesti a fantasia, e pela primeira vez não fizemos nada. Ficou um tempão parado, olhando para mim, olhos fixos nos detalhes da fantasia, e... chorou.

- Conversaram sobre isto?
Não, achei que poderia ser apenas uma coincidência, e aí continuou pedindo outras fantasias básicas - secretária, ascensorista, bailarina, e eu adorava. Mas um dia pediu para que eu vestisse de costureira, e eu achei aquilo muito estranho.

- Como é isto?
Cabelo preso, sutiã largo, vestido com a cintura bem marcada, e grandes bolsos, fita métrica no pescoço, espuma em pulseira no punho esquerdo, sapato fechado. Mas chorou de novo. Fiquei arrasada. Achei que era comigo.

- E que havia de estranho?
Bem, o pai dele tinha sido palhaço de circo quando solteiro, e conheceu a mãe que era costureira, foi quando abandonou a vida circense e virou balconista de farmácia. Sabe, achei tudo esquisito.

- Humm, interessante. Sei, e aí?
Ficamos uma semana sem nada. Voltamos aos encontros das três horas, sempre com toques e retoques físicos e mecânicos, se me entende. Eram fantásticos, muita energia, muita agitação, tudo era frenético.

- Entendo, pode prosseguir.
Foi aí que um dia chegou em casa puxando uma... uma... meu Deus, nem consigo falar... desculpe, mas o choro é incontrolável...

- (silêncio)
Desculpa, mas não consigo parar de chorar... ele... ele.. trouxe uma... uma... puxa vida... como explicar isto?

- Trouxe exatamente o que para dentro de casa?
Uma vaca (choro). Ele trouxe uma vaca... (choros, gemidos e soluço)

- Uma vaca? Como assim? De plástico, inflável, de papelão, um painel?
Não, uma vaca de verdade, com chifre, sinete, peito farto e gorda, muito gorda.

- Sério?
Por que brincaria com isto? Era uma vaca e sabe o nome daquela vaca? Sabe o nome dela?

- (silêncio)
Catarina, o nome da vaca era Catarina.

- E este nome é importante para vocês? Fale mais sobre isto.
É a mãe dele que chama Catarina, ele chamava a vaca de mãe e queria que ela participasse da nossa rotina das três horas da manhã. Não aceitei nos primeiros dias, mas acabei cedendo, desde que ela ficasse só olhando. Mas a Catarina, digo, a vaca ficava lá me analisando, conferindo meus movimentos, mugindo e reprovando minhas atitudes, até que... até que... oh, meu Deus... por que? por que?... desculpe as lágrimas...

-  (silêncio)
Até que ele começou a insistir comigo de que aquela vaca deveria estar entre nós, na cama...

- E você?
Aí não aguentei, bati o pé, gritei, enlouqueci...

- E ele? falou alguma coisa?
Ficou com a vaca e me expulsou de casa...

É isto aí!  
  

sábado, 3 de maio de 2014

Julinha


Lavinia Teresa era uma mulher linda e triste. Quando começou a frequentar as sessões de análise da Pitangueira, ficou semanas muda, até que começou a falar de Carlos Heitor.

A questão era que Carlos Heitor começou a ficar meio esquisito, fazendo coisas que nunca fizera. Conversava sozinho em demasia, escrevia poesias secretas, suspirava pelos cantos da casa, enfim, havia algo ali. Não engordou, nem emagreceu, não mudou de emprego, nem de carro, mas estava diferente.

Lavinia Teresa, a fiel esposa andava preocupada. Fiscalizava suas roupas, desde o cheiro até supostos bilhetes, nada de errado. Via e revia o histórico do seu notebook, buscava seu perfil nas redes sociais e nada. Mas algo estava errado.

Contratou um detetive para segui-lo, contratou uma moça para assediá-lo, enviou-lhe cartas românticas anônimas, perfumadas e com marcas de batom. Nada ocorria. Carlos Heitor continuava com aquele sorriso irônico, o olhar distante e claro, meio esquisito.

Na certeza de que ainda conseguiria algo, trouxe a sua mãe para dentro de casa, que em épocas anteriores, motivava tensos diálogos com o genro. Nada aconteceu. Passou a andar nua nos aposentos. Passou a desligar a televisão quando ele estava na sala. Passou a queimar a comida e nada.

Na realidade, se é que existe uma realidade, Carlos Heitor era fruto da imaginação de Lavinia Teresa. Isto por si só já seria um fato preocupante, mas Lavinia Teresa era personagem real da imaginação de Martha Gomes. Martha foi a maior e melhor amante de Francisco Carlos, em seus delírios virtuais - nunca existiu uma mulher como Martha, dizia.

A primeira vez que Julinha encontrou com Francisco Carlos, foi em uma experiência neuro-sensorial inesquecível. Vítima da violência doméstica, entrou por uma porta do cérebro, onde o mundo perfeito não deveria existir, todos eram projeções de todos, sem violência e sem amor, mas em paz. Carlos Heitor desequilibrou este mundo, com um sentimento que não conhecia - a estranha e exótica felicidade.

É isto aí!

quinta-feira, 1 de maio de 2014

No divã da Pitangueira - o iPhone

Belinha tinha uma paixão que mais parecia uma doença neuro-degenerativa, destas que provocam o declínio das funções intelectuais, reduzindo as capacidades de trabalho e relação social e interferindo no comportamento e na personalidade dos amantes.

Desde quando tem isto, Belinha?

Desde o início de mim, acho, por que está dentro de mim. Não me vejo neurótica, apenas contemplo toda minha jornada, de maneira única. Eu li numa revista, sabe, que disse que eu tinha um tal de amor patológico, só por que dizem que sou dependente dele, 

E você tem obsessão por ele?

Não dá para negar, chega a um ponto que o amor ficou obcecado e euzinha deixei a minha vida para viver a dele.

E os amigos? A família?

Deixei os amigos, e ele ocupa mais espaço do que a minha família, o trabalho e outros afazeres, 

Entendo. Tem medo de perdê-lo?

Um medo incontrolável.

Belinha, não há um quadro instalado de depressão, fobias - como a síndrome do pânico - e ansiedade. É só uma dependência mesmo, que é possível de tratar se você concordar em ter uma mudança de atitude. Está disposta a acabar com este sofrimento? 

Ah, não... nada substitui meu iPhone 5s de 64 gb.

É isto aí!

quarta-feira, 30 de abril de 2014

A moça do Concurso Público

- Nossa, como você está gostosa!

Olha, para seu governo, "nossa" é pronome possessivo, mas você o utilizou como um pronome possessivo substituindo um substantivo, subentendendo que estou em sua percepção de  "gostosa", que sei que sou, mas não para seus desejos reprimidos.

- Mas o que é isto? Bebeu?

Mas que analfabeto funcional. Veja, "Isto" indica um ser que se encontra junto ou perto do emissor, que no caso é você, e com certeza não estou perto nem pretendo estar. O correto neste caso é "Isso", que indica um ser que se encontra junto ou perto do receptor, que sou euzinha. Portanto, nada de intimidades, entendeu?

- Caramba, você é completamente maluca.

Caramba é uma expressão de interjeição que pode significar admiração ou surpresa, e não sei se você entende a diferença entre estas palavras. Além disto, o sufixo -mente, do latim vulgar mens significa "Alma", de maneira que uma alma completa maluca não é uma expressão inteligente.

- Olha só, veja bem, enchi, acabou, vou embora, adeus, até nunca mais outra vez.

Que frase péssima, muitas pausas, e erros crassos. Comecemos pelo Olha só - isto é uma explicação do que é percebido a partir de um ângulo de visão. Caso você tenha a intenção de determinar que eu perceba algo, use o imperativo - Olhe só, entendeu?.

- Adeus!

Espera... espera... gostei do seu "Adeus", foi denso, intenso, fica... Volta aqui... volta...

- Só depois de você passar no concurso. Enquanto isto, adeus!

É isto aí!