sexta-feira, 8 de maio de 2015

O bordel da Ritinha

Alô, é da zona?

Desculpe, senhor, mas ligou para o número errado. Aqui é la Maison de Madame Fleur.

Que merda. Tudo aí é puta e fica metida falando francês.

Nem vem, monsieur, o que deseja?

Meu nome é Albertinho. Minha esposa viajou para a casa daquela bruxa da minha sogra e aí eu quero uma mulher normal, nem gorda nem magra, nem bonita nem feia, mais ou menos alta, mas que tenha coxas carnudas. Adoro coxas carnudas.

Oui, monsieur, temos uma marravilhossa aqui, que vai encantar seus olhos.

Sério, e quanto é?

Quanto é o quê?

O serviço, oras.

Completo?

Completo.

Mil reais.

Nossa, muito caro. Tem serviço completo em menor escala de preço?

Tem. Mas aí é no cronômetro. 

Puxa vida. Como é isto?

A gente começa zerando o cronômetro, e é vinte reais por minuto.

Mas isto é um absurdo.

Também acho, deveria ser 30 reais, mas sou boazinha.

Cartão de crédito? 

Por acaso isto aqui é caixa de banco? Acha que nossos negócios faturam para o Estado?

Cheque?

Nem passa perto.

Promissória, vai, uma promissória.

Nem com avalista. Olha aqui, o fiado saiu e disse que volta outro dia, e quando voltar, fala com ele.

Pode ser mesmo? Ele vai conversar comigo outro dia?

Claro, pode vir, assim que ele retornar.

Aqui, mas se eu quiser só uns beijinhos?

Que tipo e local dos beijinhos?

Na boca, claro, de língua e molhado.

Sem chance. Esta mercadoria aqui não está à venda. Aliás nem consta da tabela.

E tem mais alguma coisa que não consta?

Sim, Beijo na boca e sem preservativos não podem. Acho que até em algumas esposas, hoje em dia, não deveria... a sua por exemplo... será que pode?

Minha esposa? Mais respeito, hem. Minha mulher é uma santa. Mas, engraçado, a sua voz é igual a dela, espera aí, é você, Ritinha?

Albertinho,seu idiota, seu imbecil, seu safado, sou eu, seu corno e você ligou para a casa da mamãe.

Ritinha? Você virou puta? Eu sempre desconfiei, Ritinha, que aquela velha da sua mãe era cafetina, agora tenho certeza.

Tem nada disto, você ligou para a casa da minha mãe e agora estou arrasada por saber que você procura prostitutas. Quero o divórcio. Passe bem, Albertinho, procure um advogado e saia da minha casa.

Nossa! Que fora! Perdão, Ritinha, perdão... eu fui fraco, nunca fiz isto, perdão, amor... volta logo, estou morrendo de saudade.

Na hora que eu voltar, a gente conversa, Albertinho. Você foi longe demais.

Depois de desligar - Ufa, quase me dei mal. Ainda bem que ele acreditou nesta história, hem mamãe, já te falei que esta bordel está ficando muito popular - temos que tomar providências urgentes sobre a segurança...

É isto aí!

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Angélica

Linda, sensual, educadíssima, mas por debaixo daquela escultura sobrevivia uma devassa, fútil, vulgar e louca figura do mundo. Tinha braços longos e tenros, portanto nada como morder seus membros superiores, leve e delicadamente, sem pressa, até se fartar de tê-los presos à boca.

Tinha pernas, sinceramente, que pernas aquelas, encaixadas anatomicamente em encaixe divino, em dois pés esculpidos por Deus. Cada pé era uma história, um lugar, um toque. Amava flertar com aqueles pés. E as coxas? Puxa vida, nunca existiram tais coxas em toda a história da humanidade.

Os seios, ah! os seios, nem fartos, nem poucos, eram exatamente o que se espera de dois seios com ar de graça. Eles sorriam muito e eu adorava suas gargalhadas. Tinha com eles uma intimidade avassaladora. Logo abaixo daqueles monumentos femininos, com suas glândulas mamárias e sua perfeição erótica, tinha o ventre, o umbigo, a púbis e sua delicada, carnuda e deslumbrante delegada.

Eu a chamava assim por que me prendia e não me liberava nem com habeas corpus celestial, era de um rigor legalista destes de encher e nunca mais soltar minhas expectativas insaciáveis naquele corpo angelical. Por isto a chamava de Angélica, mas nunca soube seu nome. Sua boca carmim, seu nariz perfeito, seus olhos de piedade e seus cabelos soltos, compunham o conjunto de uma das maiores obras de arte jamais vistas.

Foi com ela que experimentei os melhores e mais loucos momentos da minha vida. Sem comparação, sem nenhum parâmetro com outras mulheres, sem pontos de ligação entre ela e quaisquer outras que pudessem fazer a ponte comparativa. Era única.

Tudo ia bem até que mamãe descobriu a página escondida entre uma centena de opções no quadro de Favoritos com o discretíssimo título de "A Igreja e os Anjos". Mamãe rompeu meu relacionamento criminosamente, na minha ausência, enquanto estava na faculdade no meio daquelas menininhas ensebadas, reais, deselegantes e chatas. Que saco.

Mas tem problema não, desde que ela não descubra a Judy, minha boneca siliconada, aí quero ver a cara dela quando eu apresentar a nora.

É isto aí!

terça-feira, 5 de maio de 2015

Baptista, o Alfa da Família








Está aberta a Reunião Semanal da AMA - Associação Mundial dos Alfa Anônimos. Todos de pé para iniciarmos com a Oração da Serenidade:


Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar; Coragem para modificar aquelas que podemos e Sabedoria para distinguir uma das outras.






Dado o rito inicial, convidamos hoje a falar o visitante da Associação, que pleiteia participar do grupo. Pode falar, rapaz: 







- Boa noite a todos, meu nome é Juninho.







- (todos) Olá Juninho...







- Bem, eu era um bom rapaz, aparentemente normal, com atitudes e conhecimentos dentro da média da juventude. A questão é que já estava com dezessete anos e nunca havia namorado, nem ficado, nem experimentado alguma sensação que promovesse ao sentimento de ser um homem completo. Até que um dia vi o anúncio de um curso de sedução no jornal que folheava no consultório da minha analista. Guardei o recorte no bolso e naquela tarde matriculei no curso "Seja um Alfa em 10 lições". (lágrimas)





- Com certeza a sua vida nunca mais foi a mesma, não é Juninho (intercedeu o Mestre)?





- Com certeza, Mestre. No princípio as lições eram bem interessantes, para levantar a minha alto-estima, ensinar a vestir, a andar, a me portar num grupo, etc. Bem, aí, num belo dia, o famoso professor Fallos iniciou alguns cativantes ensinamentos básicos: 









- Rapaz, seja confiante em tudo. A confiança fará com que você pense extremamente alto sobre si mesmo, além de fazê-lo crer, inquestionavelmente, em suas próprias habilidades. As mulheres não resistirão. A confiança demonstrará uma força interior até então adormecida, quieta, e lhe proporcionará certeza e segurança.









Em segundo lugar, assuma com clareza e convicção a sua posição perante a sociedade. Quando você entrar em um recinto com a confiança de macho alfa, simplesmente saberá que todas as pessoas ali presentes irão ouvir e respeitar o que tem a dizer. 









Saiba se comunicar, converse com todas as pessoas, seja sempre agradável e sociável, sem ser falso, presunçoso ou cínico. Agir com naturalidade é a tônica do processo Alfa. 









Seja sempre seguro e tranquilo. Confie no seu taco. Treine bastante, vá em busca de mulheres que conhece, e com possibilidade de domínio. Teste seus comandos Alfa. 









Entendeu tudo, rapaz?









- Sim Mestre. 









- Então vá e pratique, porém, antes de partir, saiba que neste momento, aquele rapaz franzino que veio à este Templo, o Juninho, morreu. Aqui nasce o homem Alfa Júlio Baptista, O Demolidor. Compreende isto?









- Sim, Mestre.









- Então repita com veemência. 









- Meu nome é Júlio Baptista, eu sou um macho alfa em busca de mulheres que me satisfaçam. Eu sou um demolidor insaciável. 









- Isto, Júlio Baptista. Agora vá, procure uma mulher do seu nicho e inicie o processo de sedução. Verá que ela será inteiramente sua em poucas palavras. 









Naquela noite voltei para casa confiante, destemido. Fui chegando, abrindo a porta com violência, pisando firme até encontrar com a minha avó me aguardando para tomar um chá com leite quente acompanhado de biscoito de nata. 









E aí, Juninho, o que está ocorrendo para entrar em casa feito um troglodita? 









Vovó, eu sou um troglodita predador, o macho alfa desta casa, e de hoje em diante meu nome não é Juninho, é Júlio Baptista, o Alfa. Havia uma força interior adormecida que despertou o gigante em mim. Fui claro, senhora? 









- Senhora é a puta da minha nora que o pariu, que achando que gerava um homem colocou mais uma uma moça em casa - codinome Alfa. Olha aqui, Juninho, para com isto.





- Mas vó, foi o moço quem falou.  - Que moço é este, Juninho?









- Do curso, vó, "Seja um Alfa em 10 lições". 









- Sei, mas não precisa voltar neste curso mais não. Onde já se viu uma coisa destas. Juninho? Fazer um curso para ser homem? Quem você vai pegar com este roteiro ridículo aí? Diga...









- Mas vovó... o professor falou... 









- O quê, Juninho? 









- Sei lá, vovó, é que do jeito que a senhora ficou, hummm... me faz querer ter umas sensações com a senhora, uns negócios aí estranhos...









E foi assim que não vi mais nada e acordei no Pronto-Socorro, onde além de um braço quebrado e hematomas diversos, constataram que perdi os dois incisivos e aí retornei para a casa da mamãe. E hoje estou aqui para que vocês me fortaleçam nas virtudes Alfa, por que não consigo mais me libertar. Hoje sou um tarado.









É isto aí!


Histórias do coração - As cartas de Lia

Depois de dois anos de namoro, um ano de compartilhamento de teto e muitas brigas, tapas e desacatos, terminaram de uma forma ridícula. Ele saiu para comprar cigarros e somente no dia seguinte ela deu conta de que nunca fumou na vida. 

Era a senha para a liberdade, pensou. 

A primeira semana mandou bem, a segunda começou a ficar estranha e já no meio da terceira, num desespero que desconhecia em si, buscou conforto espiritual numa consulente que colocou um cartão no para-brisa do seu carro. Achou que aquilo era uma resposta aos seus apelos.

A mulher, sem adereços ou roupas exóticas como pensara que estivesse, a recebeu candidamente, conduziu-a para uma sala espartana, com uma mesa e duas cadeiras de encosto alto e madeira maciça. Ao lado um jarro com água e gelo, dois copos normais e por sobre a mesa uma toalha branca de renda, já marcada pelo tempo.

Entre lágrimas cortou o Tarot, e enquanto a consulente abria as cartas, trêmula, saiu em disparada solidão pelo estreito corredor, desceu as escadarias em pânico e fugiu em tosca corrida até um ponto de táxi, onde adentrou e com muita dificuldade falou o endereço desejado. 

Horas  depois atendeu ao interfone, o rapaz se identificou como o motorista do táxi e queria entregar-lhe a carteira esquecida no veículo. Mandou subir, conversaram até a noite envolver o mundo. No dia seguinte lembrou-se que o carro ficara no estacionamento próximo à taróloga. Ligou para ele e foram buscar o automóvel. 

No dia seguinte tornou a ligar e ele passou a voltar, a voltar, a voltar até que nunca mais saiu da sua vida.

É isto aí!





domingo, 3 de maio de 2015

Para sempre

Agora para tudo,
por que pintou uma inspiração.
Vou poetar

Minh'alma! 
Conheço minh'alma. 
Mas...
Pronto, levantei a adversidade.
O mal adveio 
num pretérito perfeito 
é chato quando acontece... 
Por quê, meu Deus,
todos os problemas eternos
começam assim, 
com partículas condicionais
- ou pior que dor de saudade,
fazem-no por conjunções
coordenativas adversativas?

Chega,
agora não tem inspiração
 que alcance tamanha dúvida.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Revelação


Revelação (Raimundo Fagner)

Um dia vestido
De saudade viva
Faz ressuscitar
Casas mal vividas
Camas repartidas
Faz se revelar

Quando a gente tenta
De toda maneira
Dele se guardar
Sentimento ilhado
Morto, amordaçado
Volta a incomodar

quarta-feira, 22 de abril de 2015

O marido, o amante e o macho alfa

Hal Foster - Prince Valiant
Apolônio Prazeres era o macho alfa da pacata cidade de Formosinha. Bisneto do pioneiro, filho do homem mais rico da região, tinha a fama de garanhão do pedaço, invejado pelos homens e desejado pelas mulheres. Se uma moça fosse vista conversando com ele, já era o bastante para saber que tinha sido desviada.

Um dia, numa festa junina, Geraldinho da Venda sentiu-se traído pelo olhar da companheira de anos, mãe dos seus filhos e baluarte da sua dignidade. Percebeu um cruzamento de olhares entre ela e Apolônio Prazeres. Chegou em casa em estado emocional abalado, mudo e catatônico. Esta vaca tem um caso com ele, só pode ser isto.

Logo de manhãzinha foi na Igreja, dobrou os joelhos e implorou um sinal dos céus. Nenhum anjo desceu para revelar-lhe o que já sabia - ele era seu amante. Saiu dali em total desespero, tomou a rua do Alto - antigamente era o caminho da Praça da Prefeitura até o Pico do Cruzeiro, um morro íngreme que foi se povoando sem critérios urbanísticos.

Chegou arfando no cume, e entrou na Tenda do Pai Silício. Um homem o acolheu em paz e esperou que conseguisse falar alguma coisa, daí explicou sua aflição em desespero. Ouviu do Caboclo que veio atendendo ao chamado, que esquecesse aquilo, que voltasse para casa e tocasse a vida.

Saiu com mais dúvidas do que quando chegou - esquecer significaria que ela tinha mesmo um caso com Apolônio, pensou. No pé do morro, transtornado, entrou na casa de Nhá Chica, a mais famosa rezadeira do lugar, com suas saias brancas engomadas, braceletes e colares multicoloridos. Ela, em silêncio, deu-lhe uma unção com água de rosas utilizando ramos de arruda, em nome do Senhor do Bonfim, e colocou um patuá de sal no bolso do seu paletó. Agora vá em paz, meu filho.

Aquilo era um complô, o céu ocultava a verdade, por que com certeza era coisa do diabo. Passou a vigiá-la diuturnamente. Numa tarde a viu estacionar num lote atrás da Pensão do Rilton e caminhar por uma estreita passagem para dentro do recinto. Saiu dali com ódio, passou em casa, colocou toda a família no carro, incluindo as duas comensais, sogra e a cunhada solteirona.

Voltou à pensão, onde a polícia, o padre e uma multidão de beatas já os aguardavam. Entraram todos, e Geraldinho à frente foi direto ao quarto, arrombou a porta com violência e deparou a esposa nua aos braços do Apo.. puta que o pariu, Amelinha, você está me traindo com o Zezinho Cata-Latas? Um morto-vivo que não tem nem onde morar? Não teve nem a dignidade e a sensatez de ter um caso com o Apolônio? Sinceramente...

Ela ouviu vaias, gritos e assovios intensos, todos seguidos com palavras de desprezo e decepção.

A mãe e a irmã falaram uníssonas - Caramba, Amelinha, se fosse com o Apolônio a gente até entendia, mas com um rola-bostas deste nível? Francamente! E mudaram para a cidade vizinha, para a casa de uma tia viúva.

As amigas ficaram decepcionadas.

Os filhos tiveram vergonha em saber que nem para o Apolônio ela servia.

A vida seguiu e Geraldinho a perdoou. Aquilo foi uma fraqueza, uma doença mental segundo o doutor da capital, mas se fosse com o Apolônio, aí não, aí seria coisa do capeta que só a morte resolveria. Ainda bem que ouvi os santos, dizia a todos.

É isto aí!

terça-feira, 21 de abril de 2015

Surtos e sustos


Existem momentos nos quais a experimentação de ser humano é sublime:

Já sentiu sono, mas não queria dormir?

Já sentiu dor, mas não sabia onde?

Já sentiu vontade de comer, mas não sabia de quê?

Já beijou uma menina pensando na boca da outra?

Já comprou alguma coisa que não queria?

Já falou para a pessoa erada uma coisa certa?

Já disse para a pessoa certa uma coisa errada?

Já chegou de viagem e desejou voltar?

Já mentiu para si mesmo e se convenceu disto?

Já sentiu saudades de não sabe quem?

Já desejou morrer para ver se isto resolveria a questão?

Já fez promessas intangíveis por uma paixão vadia?

Já conversou consigo tão alto, que as pessoas olharam para você na rua?

Já pensou nas várias pessoas que poderia ajudar se ganhasse na mega-sena?

Já chorou escondido debaixo do chuveiro?

Já desejou aquela vizinha gostosa?

Já escreveu alguma coisa da qual se arrependeu?

Já teve receio de olhar seu crédito no Banco?

Já teve a sensação de que tem alguém te olhando?

Já teve a impressão de que já viu o que está sendo vivido naquele instante?

É isto aí!

Ensaio do amor

Poema meu

Escrever seu corpo complexo
em versos copulativos
no ápice, sintaticamente independentes
no vértice versos conclusivos

E não postar as mãos tuas
Você nua em corpo frenesi
não apraz nem delicia
se eu não te vir

Dá-me, frágil silhueta
o segredo da valva
que contém sob pressão
o sigilo da tesa menina

Mareja, esgarça,
adsorve estes fluidos
em tua pele alva,
incensando nosso covil.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

O Kimono de Poliéster

Olha só, o enredo era simples, sem muita coisa além do que se poderia esperar de um homem de quarenta anos e uma jovem garota. Tudo bem que no livro a moça tinha treze anos, e vestia um kimono de seda com motivos angelicais, mas aí tem aquela coisa de pedofilia, menor incapaz, estatuto da criança e todas as ferramentas de determinação do comportamento humano.

Então selecionamos uma mocinha anoréxica, que tinha um estilo adolescente, com corpo desengonçado e ar blasé. Porém a família, que não havia sido comunicada entrou com um mandato suspendendo as gravações, pois detinha um contrato com uma agência de modelos de determinada grife famosa, destas que desfilam por aí. Como a irmã tinha a tutela da agora modelo, preferimos abrir mão da sua arte.

Daí modificamos um pouco, e procuramos uma moça de trinta anos, mas com aparência ainda juvenil, que fosse fotogênica, sem risco de contratos leoninos e tutelas judiciais. Não foi fácil, mas encontramos uma mulata estilosa, fogosa e agradável, que nos primeiros dias entrou no papel com tal intensidade, que não conseguiu se libertar da personagem. Este fato levou ao total desagrado do seu companheiro, um líder comunitário, digamos assim, de uma comunidade próxima. Desta forma perdemos nossa mulatinha básica.

Pensamos até na possibilidade de alterarmos o enredo, com um personagem idoso e uma moça na faixa dos vinte e cinco anos, mas aí batemos de frente com o produtor/diretor e ator que por acaso era o protagonista do filme. Foi então que Claudinho, o auxiliar de iluminação, teve a luz - o protagonista ficaria sentado num espaçoso sofá, lembrando de suas taras, digo, dos seus romances, e ao fundo iriam passando fotos desfocadas de mocinhas infanto-juvenis.

O filme levou quarenta e cinco dias para ficar pronto dado à dificuldade de adaptarmos o livro à nova realidade e ao talento um tanto quanto peculiar do ator, que insistia em fazer as cenas com um Kimono de Poliester verde com Pavões estilizados, que acreditava ser um talismã da sedução, presenteado por sua mãe. Segundo ele, este Kimono manteria um laço de seda entre o enredo atual e a história de origem. E também alterou as fotos das mocinhas para sereias desfocadas.

Foi então que Claudinho, com uma sensibilidade nata, fez outra intervenção e sugeriu que entre um conto e outro, uma idosa surgisse e desmentisse toda a história do protagonista, simbolizando a mãe castradora. O produtor/diretor/ator adorou a ideia, demitiu Claudinho e manteve a velha senhora fazendo as intervenções e no final reservou a cena magna, onde os dois se entregaram a um romance tórrido.

Neste ponto, vai cortando a cena para a sereia, que à medida que a câmera se aproxima, mostra ser o protagonista com seu kimono de poliéster entrando no mar, simbolizando o retorno do filho às entranhas da sua origem. Uma vez dentro da água, volta-se para a câmera em close e grita - Ai, que tudo!

É isto aí!

domingo, 19 de abril de 2015

Dura lex passionis

O Congresso Real da Pitangueira aprovou e eu o Rei Primeiro e Único, em caráter monocrático e soberano sanciono o projeto de lei complementar modificando artigos do Código Natural das Coisas, nos termos do aditivo ao Artigo I.

I - Fica proibido se apaixonar. 

§ Único - Amar, suspirar, desejar, fornicar, gostar, etc. continuam permitidos e livres de censura.

II - Em caso do réu ser primário, receberá uma advertência verbal da Delegacia da Patrulha Passional.

III - Réus reincidentes em segundo flagrante, sofrerão advertência por escrito e prazo de trinta dias para encerrarem este processo.

IV - Réus obsessivos com várias reincidências, serão colocados em isolamento, pelo Centro de Transtornos Passionais, por noventa dias, podendo dobrar o tempo em decorrência da gravidade, para não contaminar o ambiente.

§ 1 Receberão gratuitamente e obrigatoriamente tratamento de choque com Choque Térmico, Palestras, Músicas, Psicodrama, Sonoterapia, Filmes, Taekwondo, Karatê, Muay Thai e os oito pilares do Ashtanga.

§ 2 Deverão, obrigatoriamente, participar da AAA (Associação dos Apaixonados Anônimos), e somente poderão transitar entre os comuns após liberação do Cartão Verde.

Razões para que o Reino acate esta sábia decisão:

1 - Apaixonar dói, possui baixa resolução, grande capacidade de imobilização e sentimento de dor imensurável. Além disto é um verbo pronominal, sendo necessariamente acompanhado de um pronome oblíquo (adequado à respectiva pessoa gramatical), pelo fato de denotar ações próprias do sujeito.

2 - Amar não é um verbo intransitivo, isto é coisa do Mário de Andrade e suas intrincadas e complexas percepções freudianas, que até poderiam por si só garantir o Amor como livre e as paixões como processos patológicos diante da complexidade humana; mas no mundo real Amar é Transitivo Direto, e isto define o processo pela leveza, elimina problemas, facilita o relacionamento pessoal, social e jurídico, pois quem ama, ama alguém e pronto simples assim.



É isto aí!





sexta-feira, 17 de abril de 2015

Meu segredo

- Amor, se você tivesse um grande segredo, contaria para mim?

- Carminha, se fosse apenas um segredo eu juro que só contaria para você, mas o fato é que um grande segredo seria algo maior. É mais que isto, é secreto, confidencial e pessoal. Daí que não poderia contar, mesmo estando com uma vontade danada de fazer isto, sabe, de maneira que todo mundo saiba, daí seria comum e logo, logo, deixado de lado quando uma nova onda venha e espalhe suas espumas na praia das nossas vidas.

- Então você tem um grande segredo?

- De onde saem estas idéias, Carminha? Mas, tudo bem, vamos lá, imagine você que guardar uma coisa tão íntima nos dias atuais, onde tudo e todos são expostos na mídia cibernético é algo tão inusitado, que dá até gosto não contar só para ver a cara de curiosidade e os olhos alheios em busca do que está protegido pela alma da gente. Sim, isto mesmo, pela alma, pois uma ocorrência deste porte que não contaria ao mundo seria divina e celestial.

- Amor, você ama outra, é isto? (chorando)

- Opa, pode parar. Quer saber, este papo está muito esquisito, vou nessa, e depois te ligo.

- Volta, Armandinho, vem aqui ... (aos prantos) ... nossa ... - ainda bem que ele foi embora, pois hoje eu estou coçando para contar umas coisas que ele não deveria saber nunca. Mas, espera aí - não é que o danado tem segredo também, e dos grandes, e não me conta?! Vou apertar mais, ora lá, pois pois, quem ele pensa que é?

É isto aí!







quinta-feira, 16 de abril de 2015

Formato Mínimo

Alto lá - Este Poema não é meu
Copiei e Colei
Autora - "Leoa"
http://passageirasombria.blogspot.com.br/2012/01/comecou-de-subito-festa-estava-mesmo_05.html

Formato Mínimo
Começou de súbito, 
a festa estava mesmo ótima
Ela procurava um príncipe, 
ele procurava a próxima

Ele reparou nos óculos, 
ela reparou nas vírgulas
Ele ofereceu-lhe um ácido 
e ela achou aquilo o máximo

Os lábios se tocaram ásperos, 
em beijos de tirar o fôlego
Tímidos, transaram trôpegos 
e ávidos, gozaram rápido

Ele procurava álibis, 
ela flutuava lépida
Ele sucumbia ao pânico 
e ela descansava lívida

O medo redigiu-se ínfimo 
e ele percebeu a dádiva
Declarou-se dela, o súdito; 
desenhou-se a história trágica

Ele, enfim, dormiu apático 
na noite segredosa e cálida
Ela despertou-se tímida, 
feita do desejo, a vítima

Fugiu dali tão rápido, 
caminhando passos tétricos
Amor em sua mente épico, 
transformado em jogo cínico

Para ele, uma transa típica, 
o amor em seu formato mínimo
O corpo se expressando clínico, 
da triste solidão, a rubrica.

Eu te salvarei

Estava fervorosamente envolvido na minha crença neo-libertadora enquanto o Mentor Sênior coordenava minha ordenação. Naquele exato instante já determinado pelas forças cósmicas, ele falou - Eis que te entrego nesta solenidade a Credencial Peregrina, que o permitirá ser identificado pelos povos que nos salvarão e assim seremos resgatados. Ao longo da sua jornada santa, enfrentará o desconhecido e o temido, confrontará o terror e o amor, mas no fim a Verdade prevalecerá. Não se esqueça que deverá retornar, atestando e testemunhando aos fiéis a Luz que emanará deste Tempo Novo que trará consigo. 

E foi assim. num encontro esotérico com Akenathon,  que promovi a maior revolução religiosa e salvífica da história da nossa galáxia.

Quando retornei fui ao Púlpito e dei o Testemunho da Verdade:

Irmãos, obrigado pela presença. Ao Mestre Sênior, Honra e Paz. Pois bem, hoje falarei do Novo Tempo que toma posse deste Templo, oriundo destas jornadas aqui já comentadas pelo Mestre, quando cheguei ao interior da Pirâmide de Jafra, no Cairo. E foi lá que experimentei a visão, quando um ser de beleza não humana determinou que rumasse para Tell-El-Amarna, onde receberia minha nova incumbência e traçaria meu destino e o do Planeta, junto aos Deuses.  Desacordei, recobrando a consciência uma semana depois, num acampamento de beduínos à margem oriental do Nilo, ainda com a visão turva e a cabeça confusa.

E assim, bebendo do saber etéreo, ao seguir a rota do meu destino e da humanidade, trago o Henoteísmo Inter-Galáctico ao nosso Ciclo da Luz, como a linha da salvação deste planeta. Nesta nova visão holística e glorificante, nosso Templo passará a ter sete núcleos de Elevado Louvor, a saber:

1 - Núcleo das Apóstolas Ascendentes.
2 - Núcleo das Profetizas do Terceiro Grau
3 - Ministério do Elemento do Sagrado e Divino
4 - Congregação dos Diáconos das Colunas Místicas.
5 - Conselho das Virgens
6 - Conselho das Beatas
7 - Conselho dos Homens de Bem

1 - Núcleo das Apóstolas Ascendentes.
Composto por doze mulheres entre 30 e quarenta anos, dedicadas ao Tempo e aos estudos salvíficos. Ficarão responsáveis pela divulgação das nossas manifestações de fé ao mundo.

2 - Núcleo das Profetizas do Terceiro Grau
Círculo do Primeiro Grau compreenderá seis Profetizas neófitas.
Círculo do Segundo Grau compreenderá quatro profetizas que ascenderam na Luz do Saber.
Círculo do Terceiro Grau compreenderá três profetizas ascendidas totalmente à Luz.

3 - Ministério do Elemento do Sagrado e Divino.

Ministro do Primeiro Elemento Terra Zelador do Patrimônio
Ministro do Segundo Elemento Fogo Zelador das Condutas
Ministro do Terceiro Elemento Ar Zelador das Conversas
Ministro do Quarto Elemento Água  Zelador da Escola Dominical
Ministro do Quinto Elemento Eter Zelador dos Sonhos

4 - Congregação dos Diáconos das Colunas Místicas.
Coluna da Palestina - Três membros da Administração das Coisas Espirituais 
Coluna de Antioquia - Três membros da Administração das Coisas Materiais 
Coluna de Roma - Três membros da Administração das Finanças 

5 - Conselho das Virgens*
Comitê das Virgens Jovens - 24 membros solteiras 15 aos 18 anos
Comitê das Virgens Castas - 24 membros solteiras acima dos 18 anos
Comitê das Virgens Santas - 12 membros casadas, no primeiro ano do casamento.

As Virgens Jovens e as Virgens Castas terão prioridade no casamento com os Homens de Bem, que poderá acumular até duas esposas, incluindo a esposa fiel, se casado for, renovando o Comitê sempre que necessário. Para tal deverá fazer módica contribuição ao Templo, em valor  a ser acordado com o Mestre.

As Virgens Santas são as mulheres casadas que optaram pela castidade diante do marido, que deverá aceitar. Caso a promessa seja quebrada, o Mestre determinará o valor  a ser doado ao Templo.

Conselho dos Homens de Bem 
Doze homens casados, maiores de 40 anos e menores de 60 anos, indicados pela Tríade (quatro de cada Tríade), que passarão pelo crivo do Mestre, que poderá aceita-los ou não.
O Mestre, a qualquer tempo e hora, poderá eliminar um membro, e um novo processo se inicia, com a vaga ofertada através de um simbólico valor a ser determinado pelo Templo.
Os Homens de Bem que mais contribuem com a nossa missão, poderão, se assim desejarem, atenderem aos reclames sociais, carnais e psico-pedagógicos de todas as componentes do Comitê das Virgens, sem que isto descaracterize aquele grupo.

Conselho das Beatas
Doze mulheres, esposas dos Homens de Bem.

E foi assim que o Templo de Akenathon retomou seu caminho neste Planeta, salvando o mundo da extinção do saber universal. Venha você também - com uma modesta quantia de insignificante valor espiritual, eu te salvarei.

É isto aí!  



domingo, 12 de abril de 2015

A Igreja dos Pelados - a Origem

Irmão e irmãs, hoje nosso Templo Místico transformará a vida de cada um em uma glória salvífica. Quero que cada membro desta comunidade coloque agora cem reais nas nossas Arcas do Poder. Isto irmão, cem reais. Você aí, é você mesmo de camisa verde, pode voltar e pegar o excedente, é só cem reais. Isto mesmo... aleluia irmãos... aleluia... nosso Coral Celestial canta como os Anjos do Senhor, que está neste Templo, irmãos e irmãs.. aleluia...

Muito bem, agora, os que não tiveram a graça da misericórdia de ter cem reais para a Obra, por favor, peçam aos irmãos que possam emprestar - vejam bem, é para emprestar, não é doação de irmão para irmão. Que beleza... cante mais forte, Coral, que os anjos venham ao Púlpito louvar nosso Templo. Amém irmãos.. aleluia... aleluia...

Agora, aqueles que não conseguiram os cem reais emprestados venham à frente, por favor. Não se envergonhem irmãos, não se entristeçam, irmãs. É pela Obra. Venham, podem vir. Isto, que lindo. Veja, Igreja, estes irmãos e estas irmãs não tiveram a graça do Senhor de disponibilizar cem reais para a Obra. São ungidos, Igreja, são sangue do nosso sangue. Deus deu a eles uma nova oportunidade, a de conseguir um empréstimo para quitar seu débito com a Igreja, mas também não tiveram mais esta graça alcançada.

Que as mulheres deste grupo saiam pela porta penitencial da esquerda e os homens saiam pela porta penitencial da direita. Lá serão despidos e colocarão uma veste solta de algodão cru, e assim feito voltarão para a frente da Igreja. Lembrem-se - deverão estar puros, somente com o tecido sobre a pele. Agora vão, meus caros, que a purificação será a chave da libertação de vocês.

Agora subam no altar. Descalços por que este é um piso sagrado. Venham, podem subir. Olhem para o povo que clama por justiça. Veja, Igreja, estes irmãos não tiveram cem reais para a Obra, mas nossa Legião de Tribulação Telúrica, ao elevar as preces ao Alto para a purificação, viu cair, como que por encanto - pasmem, exatamente cem reais para cada um dos que não puderam contribuir. Como penitência, ficará toda a Igreja de costas e eles deverão retirar suas túnicas e ficarem nus.

Eu posso olhar, por que meus olhos são santos. Não virem ainda, Igreja, estão sendo purificados. Cada um está recebendo a sua nota de cem reais. Agora voltem ao aposento e vistam suas roupas. Agora, irmãos e irmãs, semana que vem faremos a Obra de duzentos reais.

Na semana seguinte ninguém levou dinheiro... 

É isto aí!

quinta-feira, 9 de abril de 2015

O beijo fatal

Marcinha Carolina tinha dois mil trezentos e quarenta motivos para ser feliz. Anotava cuidadosamente num diário manual, destes com cadeado de segredo, os minutos que desfrutava da presença de Epaminondas Flausino. O moço era seu pretendente secreto, de tal forma que mal se comunicavam, salvo por leves acenos e palavras básicas de saudação trivial. Mas anotava - hoje falei "olá Epaminondas Flausino. Como tem passado? Está calor hoje, não acha?"

Usava destes expedientes decorados de longas falas cronometradas para que chegasse à pelo menos um minuto de contato. Por que pelo rapaz, a resposta era sempre rápida e objetiva, com tempo médio de dois segundos, segundo constava do diário. Sonhava em casar de véu, grinalda, vestido longo e fechado em gola, com detalhes arabescos e um lindo arranjo de flores perfumadas. 

O tempo passou, milhares de minutos se esvaíram sem sentido e até a virgindade de Marcinha já cogitava uma manifestação pública quando os hormônios a derretiam pelas calçadas e vias públicas da pacata cidade da sua vida. Há muito Epaminondas se casara com Dorinha Virtudes, uma levianazinha vulgar da periferia. Aquilo feriu de morte os desejos da moça. Imagina só, casou com uma "furada", cortesã dos rapazes da cidade, uma qualquer sem eira ou beira. 

Um dia acordou revoltada com tudo. Cansou de ser o imenso vazio dentro de um corpo divino onde se manifestavam as maiores obras da natureza humana. Passou seu perfume clássico, vestiu uma roupa branca, com a saia só um pouco abaixo do joelho, o que por si só já era uma aberração, não prendeu o cabelo, experimentou um batom claro, e de salto baixo, para não perder de vez a compostura, jurou ir à caça. Estava louca, dizia a si mesma, para dar para alguém e este alguém haveria de ser seu amado Epaminondas.

Atravessou a cidade, chegou à residência do seu objeto de desejo, e ao soar a campainha, veio a esposa, educada e tranquila. Cumprimentou-a com desprezo, afastou-a com leve toque da sombrinha londrina, e adentrou em frenesi, buscando o que viera caçar. Dorinha ficou do portão, estática, procurando entender o momento, enquanto Marcinha adentrava sem nenhum pudor, num silêncio latejante e passos firmes.

Não o encontrando, voltou-se aos gritos para a dona da casa, pedindo uma explicação pela ausência do amado. Estava transtornada, histérica, excitada e descontrolada. Dorinha foi se aproximando devagar, fez o clássico sinal de pedido de calma com as mãos, abraçou-a e em prantos sussurrou 

- Marcinha, ele me deixou, abandonou a casa e fugiu com uma pessoa. (abraçou mais forte)
- Como assim, Dorinha? Uma pessoa, quem? 
- O Carlão do Táxi. (deu um aperto com os dedos nas costas)
- O Carlão? Mas como foi isto, o Carlão deu fuga para ele?
- Não, Marcinha, o Carlão foi a fuga dele. (alisou as costas da Marcinha)
- Dorinha, não entendi ainda.
- Ele é gay, Marcinha, gay, veado, bixa, boiola. (apertou mais ainda o abraço)

Ao tentar sair do abraço, Marcinha não conseguiu evitar a boca de Dorinha colar à sua, com a língua em franca invasão entre seus lábios. Empurrou-a com rispidez e saiu em desembalada carreira, aos prantos e confusa. Chegou em casa, falou que resolvera aceitar o convite da sua tia para umas férias na capital, fez as malas e sumiu.

Naquela noite, ao chegar cansado do serviço, Epaminondas Flausino encontrou Dorinha Virtudes em euforia plena. Amaram-se como um casal insaciável e ela ria de dar gargalhadas, sem explicação nenhuma, apenas ria despudoradamente. 

É isto aí!


sábado, 4 de abril de 2015

Histórias banais de amor

Ana Cristina deixou de co-existir ao meu lado. O fato é que ela partiu, desta vez para sempre. Levou consigo muito mais do que a mudança física. Na mudança carregou minha esperança. a alegria e a paixão que nutríamos até então. Puxa vida, levou tudo mesmo. Mas desta vez achava que estava preparado, pois escondi a saudade de uma forma tão inviolável, que nem sequer percebeu que não levou tudo, pois o melhor das nossas memórias ficou comigo.

Eu não acreditava no fim. Quando amigos perguntavam por ela, dizia que estava viajando, pois realmente tinha a certeza de que a qualquer momento retornaria. Então era isto, apenas viajara para tratar de assuntos pendentes na sua família e logo estaríamos juntos. 

Como nunca voltava, a raiva de tudo e de todos foi uma consequência natural. Vivi uma fase intragável, onde muitos se afastaram e outros eu mesmo evitei, pois alguém seria o culpado por minha solidão. Que ódio, que fase. Cheguei mesmo a detestar casais felizes.

Quando me dei por conta, já havia enviado dezenas de e-mails para ela, flores, presentes, recados no seu celular, etc. Seu silêncio era assustador e ao mesmo tempo alimentava meus delírios. Prometi tudo, desde mudar meu jeito de ser até aceitar que fizesse uma lista de exigências que poderiam ser as mais terríveis e dolorosas, mas mesmo assim meu amor as superaria.

É claro que não aceitou nenhuma das flores, nem os presentes, nem meus convites, enfim, desprezo total. Custei a entender que estava doente. Conheci a depressão pela forma mais virulenta de manifestação. Psiquiatra, psicólogo, terapeuta ocupacional e muitos medicamentos consumidos não foram capazes de me retornar ao padrão "Eu" de excelência, do qual tinha maior orgulho.

Foi nesta fase, humilhado, destruído e pulverizado, que conheci Martinha, uma encantadora paciente das clínicas pelas quais passei. Sua presença foi mística e redentora em minha vida. Apaixonamos de uma forma emocionante. Estava curado.

Uma noite, quando esta estávamos no teatro,  uma irreconhecível, desarrumada e descabelada mulher partiu em nossa direção com gritos, socos, tapas e pontapés. Com muito custo o tumulto foi contido e só aí percebi naquele vulto a Ana Cristina.

Depois deste episódio, passou a me enviar dezenas de mensagens e e-mails, presentes, convites para sairmos, etc. Quer saber? Eu queria manda-la à merda, cheguei até mesmo desejar a sua morte, mas para minha decepção, nem todos os elos foram rompidos - eu a amava.

Por que a vida é assim? Não sei, e acho que ninguém sabe. Voltei para Ana, e Martinha aceitou ser minha amante. Tudo ia bem em total sintonia, até que num rompante de sábado chuvoso, depois de tomar algumas doses no mercado, atravessei a avenida e acenei para o primeiro ônibus que passou. Desci no Rio de Janeiro. Nunca mais voltei para saber no que deu aquilo tudo. Casei com uma linda carioca, arrumei um excelente emprego e e fui infeliz para sempre.

É isto aí!

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terça-feira, 31 de março de 2015

O aeroplano e o saci


Um aeroplano destes bem grandes desapareceu do planeta há um ano. Nada mais se disse sobre isto. Teorias oficiais declararam que o motorista da condução tinha um sistema de treinamento na sua casa, semelhante aos milhões de jogos idênticos espalhados pelo mundo.

Outro aeroplano , da mesma viação, caiu em terras eslavas, daí que foi uma coisa mais estressante, com testemunhas, mídia e zona de guerra. Como as explicações não tiveram consistência, as consistências detonaram com as explicações.

Agora um outro aeroplano, também no velho continente, vai de encontro aos Alpes. O crime foi premeditado por um alucinado romântico e assassino, e logo nas primeiras horas o denunciado e culpado era o co-motorista. Segundo as autoridades, ele era gay, paranoide, depressivo, com menos de 70% de acuidade visual, e por fim descobriu que a noiva estava grávida de um filho seu (não ria, a consistência oficial é esta). 

Então o cidadão co-motorista esperou pacientemente o motorista-em-chefe ir ao banheiro, trancou a porta e rumou ao infinito e além. Enquanto assim procedia o seu superior, sem ter como ver coisa alguma, batia à porta com violência, mandando-o abri-la. E, claro não o fez.

Você acredita nestas histórias? Sei... entendo... tudo bem... olha só, fica tranquilo. Foi o Saci que contou.

É isto aí! 

segunda-feira, 30 de março de 2015

Casamentos e casamentes

Estou sentado num imenso sofá, num local completamente desconhecido, limpo e harmonioso. Ao meu lado uma das mulheres mais lindas e sensuais que já vi em toda a minha vida. A vista, privilegiada, contempla uma cadeia de montanhas e o oceano ao fundo, num contraste elegante. Ela me olha de uma forma desconcertante que não sei retribuir.

A questão aqui envolvida é que não sei nada sobre mim, nada sobre este lugar e nada sobre a moça. Lembro de coisas incríveis como o Louvre, onde acho que estive mergulhado num profundo ensaio conceitual, e também vagam passagens rápidas aqui e ali. Mas não sei de nada.

A escultura humana ao meu lado dirige a palavra numa língua que desconheço. Sequer entendo o sotaque porque se estou pensando apenas desta forma, devo ser monoglota. Não estou bêbado, nem drogado, nem com reflexos alterados. Minha cabeça não dói, meu corpo não reclama de nada, mas não sei de mim.

Ela continua num tom romântico falando coisas ao meu ouvido. Levanta-se e aí posso notar o quanto é maravilhosa, uma formosura esculpida por mãos divinas. E só então, ao tentar levantar percebo que estou nu, pelado, sem roupa sem nada. O curioso é que ela está também sem a roupa de baile e a poucos metros daqui há uma festa, com orquestra e muita gente dançando e cantando, na mesma estranha língua da moça.

Sem ter como evitar, levanto e caminho pelo salão, e todos me cumprimentam, tapinhas nas costas, uns beijinhos rápidos das mulheres, alguns na boca, outros na bochecha e outros soltos no ar. Continuamos o trajeto até o que parece ser um parlatório. Sou levado a ele. Daqui de cima vejo todos me observando, aguardando uma fala.

Olho para meu corpo nu, olho para as pessoas em requinte de gala, cruzo o olhar com a estonteante companheira, e caramba - não estou entendendo nada. Levanto as mão e falo pausadamente na minha língua que aquilo tudo era muito embaraçante, estranho e surreal. Recebo uma chuva de palmas, as pessoas vão ao delírio, grita,m assoviam, aplaudem, agitam os braços com alegria.

A moça sobre em largos sorrisos os degraus que nos separavam, e beija-me em frenesi. Meu Deus do céu... que beijo maravilhoso e aí ela começa a me morder e falar ... Beto... Beto... Beto. Engraçado, eu consigo entender esta parte. Beto deve ser meu nome. Sorrio para ela. Beto... Beto... aí que me dei conta, era o casamento de alguém... e a moça - Beto... Beto...

Vagamente começo a entender tudo o que falam. O salão não era bem um salão, era um templo religioso. A banda era um conjunto de arcos e cordas. Então pude concluir que eu estava no altar . E aí ela falou ... Beto, você tem que dizer SIM. Aí falei sim e infelizmente voltei ao normal, no conceito das pessoas sérias. Francamente, na minha viagem pós-despedida clássica completa aquilo estava muito mais legal.

É isto aí! 

terça-feira, 24 de março de 2015

Nunca deseje seu ex-amor

Tem uns dois anos, estava à toa, procurando alguma coisa na Internet, e isto é um perigo tão grande, que tal aventura deveria ser protocolada, registrada, carimbada e monitorada por uma agência federal. Era cedo ainda, as crianças já haviam deitado, a sogra roncava no sofá de frente para uma novela desconhecida, e eu esperando a hora do jogo, que seria o ponto culminante da noite.

Foi aí que a porca torceu o rabo e o diabo cutucou com a saudade, quando bateu a besteira de procurar o nome dela na rede. "Ela" foi simplesmente o grande e intempestivo amor, daqueles que só quem amou apaixonadamente irá entender. Quinze anos se passaram desde a maldita despedida, onde meu orgulho, idiota, não entendeu a gravidade da separação e o que esta dor ocasionaria na minha vida.

Como sabe, a fila anda, e acho que foi então que apareceu a Geraldinha, que assumiu o controle da situação, e hoje moramos numa casa pobre, mas é nossa, está paga e é decente. Os filhos na escola pública, eu na prefeitura e ela uma doce, dedicada e romântica rainha do lar. Mas naquela noite eu cometi a imprudência de procurar por "ela". Puxa vida, quanto mais passava o tempo, mais torturas e sofrimentos fluíam pela memória.

Achei-a na rede, acessei sua página, e meu Deus do céu, estava linda, com fotos deslumbrantes em lugares fantásticos, cercada de amigos, amigas, com a cara da riqueza e a sina da beleza. Era ela, a minha musa, que venceu, brilhou, ascendeu, enfim, conquistou seu lugar ao sol merecidamente. Levantei da cadeira ensandecido. Entrei no quarto e vi aquela tripinha seca deitada na cama de colchão de espuma D28, cobrindo com lençol remendado ainda do casamento, duas muchibinhas de travesseiro sob um cortinado encardido, ventilador histérico, piso de cimento queimado e aí chorei copiosamente.

Entrei dezenas de dezenas de vezes naquela página, imprimi sua foto, caramba - estava tudo acontecendo novamente. A tentação de surgir na sua vida era imensa, mas me contive. Deu que um dia fui acompanhar o despejo de uma invasão de área pública, e não é que ela estava lá? Era uma das invasoras, menos bela que na Rede. Fui me aproximando devagar, bem devagar, tremendo até não aguentar mais. 

Olhamos um nos olhos do outro. Tomei-a pela mão e não soltei mais. Ela sonhava com coisas que eu renunciara, e agora poderíamos sonhar juntos. Tudo ia bem até que resolvi acessar a página da Geraldinha. Gente, mas o que era aquilo, parecia uma Miss Universo desfilando na passarela da felicidade. Minha boca encheu d'água... a Geraldinha... puta que o pariu, e eu aqui sustentando esta gorda porca e preguiçosa que fica o dia inteiro na internet. Fiz menção de voltar, mas sabe como é, ninguém volta ao que acabou - outro já dominava a área.

É isto aí!