quinta-feira, 18 de junho de 2015

O segredo do marido, da esposa e da amante


Quando amanheceu, ainda caminhava por todo o apartamento, bastante contrariada. Não sorria aqueles dentes alvos, não passara o perfume preferido e nem saíra nas duas tardes quentes, anteriores, para tomar guaraná com açaí. O fato se deu desde que turva ficou quando soube por mensagem anônima que Olavinho tinha um caso. Logo ele, puxa vida... logo o Olavinho, o herói, o amor, a paixão, o companheiro, o amante, o melhor amigo.

Chorou convulsivamente por dois dias seguidos, obtendo bolsas enormes sob os olhos e um nariz irritantemente irritado. Ao deparar com sua imagem no espelho, sentiu o golpe da deterioração humana. Estava acabada por aquele amor. Nunca mais outra vez, refletiu. Olavinho agora era um pote de ódio a ser vedado para sempre. Nenhum homem merece tanto sofrimento - olhos nos olhos do seu reflexo jurou, pela alma de todas as mulheres do mundo que jamais outra vez seu coração se daria a tão grande apego.

Reclusa e incomunicável, recebeu a visita da melhor amiga, duplamente desesperada. Teve receio e dificuldades para abrir a porta, mas acabou cedendo pela possibilidade de repartir a dor. Era Soninha no interfone.

A moça entrou já em prantos, buscou o ombro da melhor das melhores amigas. Entre lágrimas e soluços não conseguia falar. Acolheram-se entre seus braços e mantiverem-se solidariamente em prantos únicos e direcionados à mesma dor. Convenceu-a a sentar e trouxe-lhe um copo de suco de maracujá. Soninha tomou trêmula, sem sentidos, olhos parados, em total ritmo de implosão sentimental.

Já refeita, ao menos em condições de expor seus pensamentos em conflito, dirigiu-se à melhor amiga:

- Amiga, estou arrasada

- Puxa vida, Soninha, não fica assim não. O que aconteceu?

- Eu estava tão nervosa, até te mandei uma mensagem... mas acho que não mandei, sei lá, estava desesperada.

- Mensagem? Que mensagem?

- O O... o O... (lágrimas) o Ola... (lágrimas e lábios trêmulos) o Olavinho tem uma amante (chora convulsivamente, tronco inclinado, cabeça sobre as coxas e mãos segurando a face).

- Sério? O seu marido tem amante? De onde você tirou isto, Soninha? O Olavinho é um exemplo de marido, pai, empresário, enfim, é o modelo de homem para a sociedade.

- É que eu vi um anel de brilhantes no cofre tem uns quinze dias, e meu aniversário já foi há três dias, e ele não me deu nada, e aí olhei no cofre e estava vazio, então só pode ser de alguma vadia.

- Que isto Soninha, é só isto? Tem nada disto, amiga, ele queria te fazer uma surpresa, te dando o anel junto com o carro novo, ele mesmo me contou, mas o carro ainda não chegou, pode ficar tranquila, está tudo bem.

- Puxa vida, amiga, você é a melhor amiga do mundo, mas e agora? Eu desconfiei dele e por causa disto a surpresa acabou.

- Fica tranquila e faz bastante festa, por que segundo ele me pediu para verificar o carro chegará na semana que vem, está bem, amiga?

- Nossa, fiquei tão feliz agora, que alívio, amiga...

Já em casa Soninha reflete, socando levemente a palma da mão esquerda com a direita, com aquele olhar semi-cerrado e lábios espremidos - coitada da minha amiga, vê se eu ia querer só um anelzinho de aniversário...


É isto aí!

  






sábado, 13 de junho de 2015

Então está bem, tem amor mais não

Então foi isto
assim do nada
Um tipo esquisito
e uma fulana errada

Impávida perfídia 
na deselegante volúpia
Entre estalos e carícias,
trama a conduta

Ela, cabelos soltos
ele, encaracolados
Ela, doida normal
ele, doido danado

Disse adeus brincando
acenou-lhe sorrindo
                                                        Ele experimentou o pranto
                                                        da vida a fórceps parindo
  
                                                        Dois amores etéreos
                                                        dividiram lustres na sala
                                                        Ela ficou com as fotos
                                                        ele levou ama-la


É isto aí!




segunda-feira, 8 de junho de 2015

Lendas do Coração - Sangue e Arena


Teodoro Borges era um funcionário público exemplar, destes metódicos e fiéis ao serviço. Em vinte e oito anos de carreira jamais atrasara, faltara ou mesmo reclamara de quaisquer coisas que o aborrecesse. Andava sempre num indefectível terno de linho azul marinho com suspensórios sobre uma camisa de algodão egípcio em tom azul claro e uma gravata borboleta para cada dia da semana. Os sapatos ao lustro máximo, as meias esticadas no limite e eventualmente, nos dias mais frios, um cachecol de casimira japonesa.

Numa tarde modorrenta de verão, adentrou à repartição pública um toureiro, destes matadores, com o cabelo todo preso para trás, e uma roupa somente vista em fotos e obras de arte. Maria Garcia levantou seu óculos piciné à altura dos seus olhos de peixe morto e aos gritos pouco peculiares, agudos e estridentes gritou - gente, é o Dr. Teodoro Borges. Todos correram para ver a cena. Estava transfigurado e olhando em pânico para aquela estranha platéia em choque.

Teo, como era conhecido, estava com um traje de luces,  vestindo uma pequena jaqueta vermelha com arabescos dourados, com ombreiras largas e grandes aberturas nos braços, chamadas de Chaquetilla sobre uma camisa de seda em amarelo suave, e no pescoço o Corbatin, que é uma gravata quase de uso exclusivo dos toureiros.

A Taleguilla, ou seja, a calça, extremamente justa e apertada, começava acima da linha da cintura terminando no joelho, era do mesmo tecido da Chaquetilla, e tinha presa à ela um elegante e largo suspensório magenta. As meias eram em dois pares, sendo as de baixo brancas de algodão presas à Taleguilla e as de cima, de seda, em tom rosa. 

As Zapatillas, ou sapatos, eram pretos com um laço de couro bem pronunciado sobre o dorso do pé. À mão tinha uma Capote de paseo, que é aquela capa de seda usada no início das touradas para a apresentação ao público, também em seda fina, lilás com arabescos em ouro.  

Na cabeça um Montera preto, com dois relevos na laterais, bem encaixado, de maneira que acompanhava os movimentos da cabeça. No bolso um lenço de seda com a estampa de Nuestra Señora de Guadalupe.

Dr. Parreira, o chefe da seção foi chegando e abrindo caminho. Olhou bem, cutucou-o com o indicador e disse.
- Mas o que é isto, Teo?

No comprendo lo que usted dice, señor. No lo sé y tampoco de este Teo a quién se refiere.

- Para de brincadeira, Teo. Sou eu, o Parreira. Maria, chama lá a Margareth, fala que é urgente.

Dra. Margô, o Dr. Parreira solicita sua presença com urgência na seção.

Dra. Margô, a chefe do Departamento veio às pressas. Chegou esbaforida e ao ver a cena fez uma expressão a princípio de espanto. Foi se aproximando, chegando bem devagarinho e  dirigiu a palavra ao toureiro.

Hola! ¿Qué tal?,

Estoy bien. ¿Y tu, Marguerita?¿ Como estás?

¿Entonces? ¿Eso es verdad?

Sí y no. Como se puede ver con sus propios ojos, yo no sé si es correcto, pero yo te quiero más que a nada.

Teodoro avançou em passos de toureiro na direção de Margô, tocou-lhe delicadamente a face, rodopiou seu Capote de Paseo magistralmente sobre os dois e deixou-o cobri-los por inteiro e para surpresa e desespero geral, desapareceram sob ele, por encanto. Todos se voltaram quase que imediatamente para Seu Clebinho do RH, marido de Margô, que na frente de dezenas de olhares cínicos, ao grito ritmado de "pula, pula", transformou-se num imenso e selvagem touro, avançou bufando e urrando rumo à janela e saltou do 1° andar para o vazio existencial, desaparecendo no infinito da rua descalça. 

É isto aí!





sábado, 6 de junho de 2015

Mercinha da Lanterna Azul


Olá gente, meu nome é Clover, e eu gosto de ser chamado assim mesmo Clô-vér. Ok? Muito bem, todos na marcação. Gente, presta atenção. Este é o primeiro ensaio da dramaturgia que têm em mãos. E vê lá, hem. Todos já leram o roteiro? Alguma pergunta? 

Pois não, Robertinho? Gente, para quem não conhece, este é o Robertinho, cujo pai é o chefe do serviço de de ..., como dizer, bem, isto, distribuição e controle de tráfego, digamos assim, aqui na nossa comunidade e é o patrocinador desta peça.

(todos batem palmas para o Robertinho)

Seu Clover, veja bem, só uma dúvida, aqui. O senhor mencionou algo sobre ler o roteiro. Roteiro não é aquele sujeito que a gente paga para mostrar as atrações turísticas quando a gente viaja? Eu não vejo nenhum aqui.

(todos têm risos discretos e olhar de espanto)

Robertinho, aquele denomina-se "Guia Turístico". Roteiro é a peça propriamente dita escrita pelo dramaturgo, e nós estamos aqui reunidos em nome do seu pai, nosso grande benfeitor (palmas de todos) para transformarmos este roteiro numa peça teatral.

(todos olham em direção ao Robertinho, que não olha para ninguém.)

Gente, façam igual ao Robertinho, se tiverem dúvidas, parem o ensaio e perguntem. É assim que se faz. Parabéns Robertinho (palmas para o Robertinho). Então vamos lá, atenção na ordem de fala e não se preocupem com a cenografia, pois ela ainda está em fase de implantação. 

Seu Clover, desculpe, mas eu não estou entendendo uma coisa aí que o senhor falou e eu acho, por favor, não me leve a mal, eu acho e só acho mesmo que estas palavras aí que o senhor falou são de baixo calão.

Quem perguntou?

Eu, aqui atrás, meu nome é Regina Gulla, com dois eles, viu gente? Dois eles, não vão confundir, hem... risos só dela.

Regina Gulla, gente, o pai da Regina Gulla é o dono agência de segurança, digamos assim, aqui da nossa comunidade e foi ele quem levantou, digamos assim, todas as roupas e figurinos que vão ser utilizados na peça (todos aplaudem a Regina). Então, Regina, quais são as palavras que você sentiu ou percebeu serem de baixo calão?

Seu Clover, é minha formação, sabe, sou muito educada e minha família é muito religiosa. Uma é esta aí, gente nem sei se vou conseguir falar... dra...dra...dramaturgo e a outra é, ai meu Deus, deve ser até pecado repetir o nome... mas é esta tal de cenografia.

Bem, Regininha, posso te chamar assim? Obrigado. Bem, Regininha, o que você entende quando falo Dramaturgia e Cenografia?

(Vermelha, tremendo, gaguejando e com olhos mareados) Bem, seu Clover, é para responder mesmo? Todo mundo já sabe. 

Pode falar, Regininha, você está só entre amigos.

Ah, seu Clover, está bem. Dramaturgia não é aquele negócio onde todo mundo come todo mundo e Cenografia não é quando filmam isto e vendem o filme?

(Ohhhhh! Uns seguram o riso, outros ficam estupefatos)

Regininha, alguém te ensinou errado, minha filha. Olha só, vou escrever aqui no quadro a palavra Cenografia, que vem do grego "skenográphos". Viu? Ela ser refere ao cenário desde a montagem até a realização do evento e Dramaturgia, do grego "Dramatourgia" e ela, a dramaturgia, não está relacionada somente ao texto teatral, ela está presente em toda obra escrita para as artes cênicas. Entendeu?

Agora entendi, Seu Clover, muito obrigada.

E aproveitando, agradeça ao seu pai pelas roupas e, claro, pela segurança do espetáculo (palmas de todos para o pai da Regininha).

Bem, já que tiramos todas as dúvidas importantes...

Seu Clover, seu Clover...

Quem chamou?

Aqui, Zequinha do Gás.

Pois não?

Seu Clover, o que significa esta coisa de "Artes cênicas"?

Escuta aqui, Zequinha, você é quem?

Sou filho da Mercinha da Lanterna Azul ...

Ah! A Mercinha da Boite?

Isto mesmo, seu Clover, o senhor conhece a minha mãe?

O suficiente para saber que você é um tremendo de um filho de uma puta desinformado, agora cala a boca, volte-se para a sua insignificância na pirâmide social, que vamos começar logo o ensaio, por que a sua mãe, Zequinha, não quis dar nada de graça para mim, ouviu, Zequinha? Ela não quis dar nada de graça para... ajudar na peça, digamos assim.


É isto aí!


sexta-feira, 5 de junho de 2015

Um dia de cada vez



Acordou exausto, ao lado uma mulher nua, das mais lindas mulheres que já ousou pensar. Ligou o celular e viu umas quarenta chamadas, umas do escritório, outras da esposa, outras dezoito de um número estranho e desconhecido. Olhou as horas - vinte e trinta, pensou e falou alto e bem assustado - caramba, oito e meia da noite.

Entrou rápido no banho, e enquanto a cabeça esfriava começou a se indagar onde estava, com quem estava e como chegou ali. Puxa vida, será que tive uma amnésia. deixa eu ver - meu nome é João, meu pai Juca, minha mãe Marinalva, moro da rua da Angústia, 117. Não... não perdi a memória. Mas como vim parar aqui? Será que esta mulher me drogou? Mas como fez isto? refez mentalmente umas dúzias de vezes o percurso rotineiro e nada de lembrar de algo. Saiu do banheiro com mais perguntas do que quando entrou.

Ao parar de esfregar a toalha no cabelo, percebeu que a desconhecida não estava mais na cama, mas haviam dois homens, destes com sobretudo marrom e chapéu panamá, sentados aguardando perceptivelmente a sua disponibilidade. Olhou desconfiado e cumprimentou com uma saudação simples, sem nenhuma resposta. Um terceiro com jeito de chefe entrou, olhou para a dupla, fez sinal discreto com a cabeça, levantaram, o algemaram sem violência e o conduziram ao lado externo.

Era uma casa de madeira, muito bonita, de dois andares, no meio de uma floresta densa, com um jardim deslumbrante em toda a sua volta. Só havia um carro, onde o colocaram e seguiram em total silêncio os quatro passando por uma vila em estilo germânico, com placas e cartazes supostamente em alemão ou polonês. Mas o que significa isto? Perguntou. O suposto agente ao se lado falou alguma coisa parecida com alemão em tom tão áspero que entendeu ser um cala a boca.

Numa estrada vicinal, de súbito, dois furgões fecharam a passagem, saltaram três pessoas de cada, com armas potentes, atirando contra o automóvel, que imediatamente parou. Algemaram os homens em torno de um tronco de árvore, pelas mãos e pelos pés, e atearam fogo ao veículo. Foi jogado com violência no carro. Aí não viu mais nada, quando uma injeção foi aplicada sem nenhum cuidado na sua coxa esquerda. Abriu os olhos bem confuso e não sabia quanto tempo havia passado Ao lado, a mesma mulher nua, das mais lindas mulheres que já ousou pensar. Estava sem o celular.

Olhou nos olhos dela, sorriram e beijou-a sem medo do amanhã. Desligou de todos os problemas e refletiu - quer saber? Um dia de cada vez!


É isto aí!

quinta-feira, 4 de junho de 2015

O Casamento na roça e a flor de maracujá


Querido Ambrósio
Ispero quiesta carltinha te encontre em paz. Aqui na roça tudo bão. A Margarida deu vinte e dois litros de leite otro dia e o capadin que tava na engorda pro natal já tá com pouco mais de cem quilo. Sabe a Lambretinha? A danada pariu no meio do pasto, precisa ver a lindeza do cabritinho. Maracujá este ano não está dando muito nem prá carmar a gente qui nem eu, que tô aí, né Ambrósio, nesta seca danada. Beijos da sua amada, Chiquinha.


Querida Chiquinha

Sua carltinha se me incontrô, muito gradecido. Ocê querdita que naqui na cidade as coisa são quase iguá que na roça? Óia a Margarida, tem um tanto dela aqui donde moro, cada peitão que dá medo até de pensar em ordenhar, mais de vez em quando ando pertando uns só pru mode de mantê as prática. Aqui tamém precisa ver a quantidade de capado, Chiquinha, é trem de louco. E tem umas maracujá lá onde eu trabaio que dão o ano inteiro, cada frô mais linda que a outra, e sabe como é, na precisão eu acabo comendo uma e outra prá carmar os ânimo. E Lambretinha? Ocê já é titia, hem Chiquinha, deve de ser a a cara dos sesu irmão. E aqui tem chovido muito, não tem seca não.


Querido Ambrósio

Ispero que esta carltinha te encontre vivo. Aqui na roça tudo em paz. Óia bem o qui vô ti dizer - eu tenhu cara de boba e é só isso, Ambrósio. Aconhesso bem dessas vacas da cidade, óia Ambrósio, cuirdado que elas pode inté ficá mansa por causo do capim qui ocê pranta, mas prestatenção, dos capados daí é engraçado mesmo, achu que ocê vai tê o mermo destino quando batê os óios nieu, Ambrósio. Agora titia de cabrito é as rameiras das suas irmã, e tem mais, destas frô de maracujá que ocê tá comeno aí, pode continuar por causo de que a seca aqui já já acaba puruquê os pepinos cresceram tudo nim vorta daqui de casa.


Querida Chiquinha

Si aprepare e arrume se toda e tudo, por causo de que nestes porquin dias de cabá o meis, já vorto pru nosso casamento.  


Querido Ambrósio

Nossenhoraparecidoperpetusocorro, vai sê bão dimais da conta. Ocê divinhou meus pensamento, amor.


É isto aí!






  

terça-feira, 2 de junho de 2015

O tempo e a rosa



Sabia muita coisa 
e também poucas coisas. 
Promovia a distinção entre o gerúndio, o particípio, 
o infinitivo pessoal e o infinitivo impessoal 
dos verbos que circulavam 
pelos egos presentes e ausentes. 
E hoje penso que a palavra 
sempre foi exatamente esta 
- ela promovia a distinção das formas, 
dos conteúdos e dos pensamentos.

Morreu de forma estranha, 
como estranhas são todas as mortes. 
Partiu sem dizer adeus, 
e como todos que se vão, 
fica a ausência, 
aquela enorme agonia 
que ocupa corações e mentes 
diuturnamente, 
como uma cadeira marcada 
esperando pelo dono do lugar. 
Eis aí um grande mistério da vida, 
este de desaparecer o corpo 
e permanecer os ensinamentos 
e o pensamento vivo 
como uma vela em chamas.

Já que citei a vela 
lembrei que um dia, 
em algum lugar do passado, indagou-me: 
Diga, como uma vida vem andando no espaço 
e tal qual uma vela acesa, 
atinge o fim do pavio 
se não somos uma tocha humana? 
Então como se dá o fim 
se não temos princípio pirotécnico?

Isto é devido ao tempo, bati de pronto. 
Ela riu muito 
- rapaz, escute o segredo da vida: 
O tempo não existe, 
ele é uma criação humana, não dos deuses. 
Ele, o tempo, é apenas uma ilusão. 
Somos todos passageiros 
deste espaço que agora ocupamos 
e assim seremos em outro espaço, 
em outro espaço e outro e outro ...
até chegarmos ao fim da viagem 
que nunca tem fim. 
Seja bom sempre, 
faça o bem sempre, 
e siga reto, 
pois assim sua vida terá mais obstáculos do que as outras, 
mas terá a sabedoria de desobstruir a estrada.

Partiu e ficaram as rosas que plantou, 
e ficaram e ficaram e ficaram...


É isto aí!

domingo, 31 de maio de 2015

Coisa mais linda


Composição: Vinícius de Moraes e Carlos Lyra
Quem canta - Roberta Sá

Coisa mais linda  é uma uma canção composta por Carlos Lyra , gravada em 1961 por João Gilberto (Coisa mais linda). Como em muitas das canções da bossa nova, a letra, escrita em 1959 pelo aclamado poeta Vinícius de Moraes, exalta a beleza de uma mulher, de estar apaixonado e do próprio amor. A bossa nova reagiu ao tema tradicional do “Ninguém me ama, ninguém me quer”, falando de praia, mar e amor. A música extrai seu som singular de uma batida de samba renovada, uma melodia harmoniosa e letras alegres, positivas, emitidas quase num sussurro.

Coisa mais linda - Poema de Vinícius musicado por Carlos Lyra:

Coisa mais bonita é você, Assim,
Justinho você, eu juro, 
eu não sei porque você.
Você é mais bonita que a flor,
Quem dera a primavera da flor
Tivesse todo esse aroma de beleza 
que é o amor
Perfumando a natureza numa forma de mulher

Porque tão linda assim 
Não existe a flor
Nem mesmo a cor não existe
E o amor
Nem mesmo o amor existe

E eu fico um pouco triste
um pouco sem saber
se é tão lindo o amor
que eu tenho por você


Roberta Sá, Roberta Varella de Sá (Natal, 19 de dezembro de 1980) é uma cantora brasileira de MPB, samba e bossa nova. Sua discografia conta com seis álbuns de estúdio, e dois CD/DVD ao vivo. Em 2007, Roberta Sá foi indicada ao Grammy Latino na categoria de "Artista Revelação", juntamente com o sambista Diogo Nogueira.


Histórias do Coração - Julinha feliz para sempre!

Frederico estava numa entendiante festa de natal da turma do escritório da namorada, uma escultura de mulher que fazia olhos e corpos se virarem para sua sempre perfumada existência. Enquanto circulava pedrinhas de gelo com o dedo indicador no copo, ouviu a conversa entre a companheira e duas amigas tão estonteantes quanto.

Não falei para vocês? Julinha é anti-social. Não veio e jamais virá, ela se sente superior, sei lá, não se mistura. As três riram muito da ausência da moça.

A amiga disse - Julinha é uma boba, tem uma vidinha normalzinha, sem saltos, sobressaltos, espasmos ou orgasmos que a fizessem perceber que há vida lá fora. Vinte e oito anos, graduada, pós-graduada, psicanalisada, viajada, bilíngue, eficiente, moderninha, sempre com aquele sorriso enigmático estampado na alva face brejeira. As três deram gargalhadas pela vidinha da moça.

A outra acrescentou - Que eu saiba, aquela paranoica não tem amigas, nem namorado, nem instantes, momentos ou spots de prazer. Não tem referências bibliográficas para citar, filmes cult, peças de teatro inolvidáveis, músicas prediletas e nem religião confessa. Nunca se soube de que tivesse um bar preferido, uma bebida única, um restaurante predileto ou mesmo um prato que a identificasse. As três se curvaram de tanto rir pelas paranoias da moça.

Volta para a namorada - Minha tia falou que ela nunca praticou delitos de quaisquer intensidades, nem colou nas provas, nem desejou o namorado das outras meninas, nem chorou em público, nem reclamou uma cutícula inflamada ou uma unha quebrada. Se tinha cólicas, sofria em silêncio, assim como quaisquer outras enfermidades. As três destilaram uma fina ironia e escárnio pela honestidade da moça.

A amiga intensificou os dados - Ela é ridiculamente certinha. Não possui roupas da moda, nem sapatos de princesa, nem lingeries caras, nem jóias de metais preciosos, muito menos diamantes ou rubis... Frederico pediu licença e  saiu dali mareado, procurou e encontrou Julinha e foram felizes para sempre.  

As três fizeram juras eternas de ódio da moça.

É isto aí!

quinta-feira, 28 de maio de 2015

O realismo fantástico da política tupynambá (incorporando o personagem)

2º Ato, Cena 1

Marreta, você só tem que entrar pelo lado direito, aí vem andando furtivamente em diagonal até o centro, onde está marcado, volte-se para a platéia, abaixe a cabeça, faça uma expressão de dor, leve a mão esquerda ao peito e a direita à testa, e caminhe com dificuldade até o segundo ponto marcado, em linha reta, e pare, solte os braços, e ainda de cabeça baixa, olhe para o público com um sorriso sarcástico.

E você, Manezinho, vem andando descontraidamente da esquerda em diagonal até o centro, onde está marcado, volte-se para a platéia, abaixe a cabeça, faça uma expressão de fome, leve a mão direita sobre o estômago e a esquerda à boca, e caminhe desconfiado até o segundo ponto marcado, em linha reta, e pare, solte os braços, e ainda de cabeça baixa, olhe para o público com um sorriso simplório.

Neste momento a sonoplastia emitirá um som de peido, alto e facilmente identificado. Então um olhará desconfiado apontando o dedo para o outro e voltam ao ponto de entrada do cenário, pelo mesmo trajeto, em passos rápidos. Entenderam? Agora façam.

Mas o que é isto? É para um entrar pela direita, e outro pela esquerda. Qual o problema de vocês? É uma crítica de valores. Venham separados, um pela direita e outro pela esquerda. Tem nada disto de se cumprimentarem no centro e caminharem juntos. 

Corta - Mas que merda é esta? Tudo bem, você entrou pela direita, mas não é para fazer movimentos em círculo. Faça a diagonal para o centro. É uma metáfora, entendeu? Me-tá-fo-ra. O que não está entendendo? E você? De onde tirou esta ideia de que pode vir de costas da esquerda até o centro? Acha que assim ninguém percebe? Tem que fazer parecer que o caminho está livre, que é parte natural do processo que está ligando os dois pontos, entendeu?

Parem tudo, voltem e recomecem. Pombas, Manezinho, não é para ficar no centro com olhar ameaçador à direita. Nem mesmo mandei você, Marreta, voltar de onde veio depois da cara feia do Mané. Simples assim, cumpram o script. 

Mas que palhaçada é esta agora? Tira já estes óculos escuros de mafioso. Onde já se viu isto? E este colarinho imenso? Venha da direita para o centro sem máscara, sem esconder o rosto, apenas venha. E você, Mané? Tira esta merda desta camiseta regata com bolsa pochete. Voltem lá e se arrumem.

Puta que os pariu, de onde tiraram este rebolado para fazer a diagonal? E este boá no pescoço dos dois? Parecem duas vedetes da chanchada. E você, anda normal, caralho, nor-mal. E você, o que é este pó branco no nariz? Eu falei que isto não vai dar certo nunca, mas os patrocinadores... Bem, recomecem.

Incorporem o personagem, sintam o poder na mão dos dois, se odeiam e se completam. Penetrem fundo na história. Vocês agora são a personificação do texto. Tirem do fundo da alma todos os seus sentimentos. Isto, muito bem, Excelente. Que sarcasmo realista. Isto, mostrem que incorporaram os personagens. Agora o olhar e ... puta merda.. que cheiro é este? Vocês se borraram simultaneamente quando chegaram na frente do povo? Caramba - isto é realismo fantástico...

É isto aí!




terça-feira, 26 de maio de 2015

Histórias do coração - Eu te amo para sempre!

Era apaixonado, destes que esperavam um simples olhar para sentir-se contemplado. Ela era a mais linda, a mais rica e a mais charmosa menina da escola. Eu carregava seus livros, fazia seus trabalhos, assinava seu nome na lista de presença e ficava ali, suspirando a espera de que alguma coisa espetacular acontecesse entre nós naquela pequena e pacata cidadezinha do interior.

Concluímos o segundo grau e ela sumiu, de forma que nunca mais a vi, bem como sua família, pois mudaram todos para a capital, segundo Tia Geninha, que sabia tudo o tempo todo. No baile ela me beijou de forma inesperada. Foi meu primeiro beijo na boca, de uma maneira singular, sem saber onde fazer o que com os braços ou com a língua. Ficamos abraçados uma eternidade e aí disse adeus.

Trinta e dois anos depois estava viajando a negócios e pernoitei no interior de São Paulo, rumo ao Paraná, quando tive uma imensurável e terrível dor de dente. A cidadezinha é uma estância climática, muito bonita, mas pequenina, sem muitos recursos de atendimento à saúde. Liguei para a recepção do hotel  e pedi ajuda, pois a sensação de sofrimento era insuportável.

Passados longos dez minutos, um táxi surgiu e encaminhou-me a uma casa muito bonita, imensa, nos arredores da cidade. O motorista disse que o hotel já havia contactado a dentista, e que logo iria me atender, e que ela já tinha este hábito de receber turistas em caso de emergência. Fui andando meio desconfiado, mas aí as luzes foram acesas e uma idosa surgiu na porta, perguntou se eu era a pessoa indicada pelo hotel, respondi que sim, mandou-me entrar e esperar pois a doutora já iria me atender.

Enquanto esperava, vi seu nome  nos quadros da parede, além de fotos da minha cidade natal, rostos conhecidos, velhos amigos, etc. Aquilo me anestesiou. Iria vê-la e de repente tudo era ansiedade. Era ela, minha musa, meu amor, minha metade, a razão dos meus dias na Terra. Fechei os olhos e senti seu perfume, seus cabelos longos, castanhos e cacheados, seus braços de princesa, suas pernas perfeitas, sua boca de carmim, tudo isto agora deveria se transformar no instante mágico do encontro com minha alma gêmea.

Ouço passos, são dela, sei que são pois são passos de uma deusa. Começo a suar e tremer todo o corpo. Lágrimas caem, acho que vou beijá-la assim que... espera aí. Você é a dentista?

- Sim, disse uma mulher horrorosa, rosto desfigurado por plásticas, seios turbinados com silicone, cabelo escorrido, meio vermelho, meio abóbora, com raízes brancas aparentes, dentes amarelados por nicotina, cheiro de perfume barato, jaleco imundo e ensebado, colocado por sobre uma camisola transparente que denunciava uma desproporção entre altura e largura, onde a calcinha tinha um furo sobre a primeira dobra da coxa esquerda. Pernas com varizes geográficas e uma sandália rasteirinha com pom-pom lilás compunham o conjunto. 

A dor voltou para meu desespero. Levou-me ao consultório, que na penumbra e pela dor, julguei ser uma pocilga sem nenhuma capacidade de suportar uma mínima visita de agentes sanitários, e talvez pela falta de um raio-x, foi martelando dente por dente até atingir a fonte do problema. Urrei aos céus. Explicou-me que se tratava de um possível processo infeccioso, e que apenas iria abrir para diminuir a pressão do abcesso, de maneira que pudesse prosseguir viagem até um centro maior e cuidar da causa. O problema era que não teria como anestesiar pois a área estava muito inflamada.

Perguntei o preço, e determinei que fizesse o que deveria ser feito. Logo ao iniciar a incisão, senti um jato de pus saindo seguido de outro e outro e não sei mais quantos. O cheiro na sala ficou insuportável. Ela foi alvo da trajetória na roupa, no cabelo, no rosto e eu, devido ao odor e dor, tive uma forte ânsia seguida de vômito aos seus pés, desmaiando em seguida.

Acordei de manhã numa confortável cama de um estranho quarto grande e  limpo. Ela entrou, perguntou se estava bem, se ainda doía. Examinou a área com espéculo, apalpou a região e ficou ali me olhando com aqueles olhos estrábicos rasos. Disse que ligou para o hotel pedindo umas roupas minhas e o rapaz que as trouxe ajudou-a a me trocar e me deitar. Foi muito atenciosa, verificou tudo, e me mostrou um banheiro, onde pude lavar o rosto e me recompor. Na saída, estava sentada à mesa, onde um café da manhã farto e variado nos aguardava. Foi então que muito educadamente falou:

- Eu tive a impressão de que conhecia você desde a hora que chegou.

- É, pode ser, viajo muito, talvez a gente tenha se visto por aí, mas tenho um rosto comum.

-  Não. Seus olhos. Eu conheço você, mas não consigo ainda ligar os fatos. Nós já nos vimos, tenho certeza. De onde você é?

-  Eu? Moro no Rio de Janeiro.

- Não foi isto que perguntei, mas sim onde nasceu?

- Ah, quer saber isto (esta velha está me cercando). Bem, nasci no Dobrado do Onça, no interior de Minas.

- Olha só, eu morei lá. Tenho até umas fotos na entrada do consultório. Meu pai era médico naquela região e quando terminei o segundo grau ele resolveu mudar para São Paulo. Agora me lembrei de você.

- Sério? Lembrou de mim?

- Sim, mas você não mudou muito, ficou mais velho ainda, mas sem dúvidas, pela sua idade aparente só poderia ser meu professor de Português, não é isto? Engraçado, ficou muito mais velho do que eu poderia imaginar...rs

- Mais velho é a... é a... não deu prazo para terminar. Ela levantou de sobressalto e me deu o segundo beijo das nossas vidas, aquele que esperei por décadas e eu... hummm... gostei.

- Seu bobo, você acha que eu não te reconheci? Sempre soube que voltaríamos a nos encontrar...

E foi assim que aquela pequena cidade do interior paulista virou minha rota de trajeto pelo menos uma vez por mês, por uns dois anos, até que resolvi ficar por lá para sempre.

É isto aí!


sábado, 23 de maio de 2015

Albertinho em "Minha mãe não me entende!"


Eu preciso pedir um favor a você.

Pode pedir o que quiser.

Então vá embora.

Das coisas absurdas da vida, este é um dos exemplos a ser dado à humanidade. Eu te deixar...

Por favor, vá embora.

É bem verdade que nunca te amei, mas isto só não basta e não pode ser o motivo

Não, não é isto.

Então o que o faz pensar que pode me mandar embora?

Não sei, é uma coisa em mim, um sentimento, uma voz...

Ah! Então você confirma minha tese de que tem outra.

Não, nada disto, nada de outra.

Se eu for embora, você terá que ir comigo. Já pensou nisto?

Penso zilhões de coisas quando te ouço, mas...

Precisa fazer pentazilhões de coisas comigo.

- Albertinho... toc toc toc... Albertinho... sai deste banheiro e para de ficar falando sozinho, com perguntas e respostas ridículas. Ficou doido?

- Caramba mãe, não estou falando sozinho... você nunca me entende.

- Sei. Sai logo e vai caçar o que fazer.

É isto aí!


Dia Branco Geraldo Azevedo




Dia Branco
Compositores: Geraldo Azevedo / Renato Rocha. 
Cantor: Vander Lee
Fonte da imagem: Musicare Oficial
Fonte do texto: DUBAS


Em meados da década de 1970, a carreira solo de Geraldo Azevedo começava a todo vapor. Seus primeiros discos revelavam canções capazes de unir estéticas variadas, do rock’n’roll aos gêneros tradicionais nordestinos. Na safra daquela época, surgiu uma melodia inspirada no disco triplo All Things Must Pass (1970) – o primeiro de George Harrison após a separação dos Beatles -, que Geraldo ouvia com frequência (Clique aqui para ouvir Geraldo Azevedo falando). 

Ao conhecer a composição, Renato Rocha, também um jovem músico em ascensão no cenário cultural do Rio de Janeiro, encaixou os primeiros versos da letra no ato. Tudo indicava então que surgiria rapidamente uma das primeiras parcerias entre eles. Mas a empolgação inicial deu lugar ao trabalho duro: faltava compor a segunda parte. Durante mais de dois anos, a dupla passou dias e noites em claro até chegar ao resultado desejado. Em 1979, nasceu “Dia Branco”, que foi lançada originalmente no disco “Frevo Mulher”, por Amelinha, então esposa de Zé Ramalho. 

Se você vier pro que der e vier comigo
Eu lhe prometo o sol... se hoje o sol sair
Ou a chuva... se a chuva cair
Se você vier até onde a gente chegar

Numa praça na beira do mar
Um pedaço de qualquer lugar
E neste dia branco se branco ele for

Esse tan...to, esse canto de amor
Se você quiser e vier pro que der e vier comigo
Se branco ele for
Esse tanto, esse canto, esse tão grande amor, grande amor

Se você vier pro que der e vier comigo
Eu lhe prometo o sol... se hoje o sol sair
Ou a chuva... se a chuva cair
Se você vier até onde a gente chegar

Numa praça na beira do mar
Um pedaço de qualquer lugar
E neste dia branco se branco ele for

Esse canto, esse tão grande amor, grande amor
Se você quiser e vier pro que der e vier comigo, comigo, comigo



Vander Lee , que nos deixou precocemente em 2016, canta de uma maneira única e fantástica este clássico de Geraldo Azevedo/Renato Rocha, registrado nesse show realizado no Palácio das Artes (BH), 2007.









sexta-feira, 22 de maio de 2015

Contos do coração - Morrer de amor.


Não é fácil morrer de amor, pensou e não teve a coragem de dizer. Apenas a admirou ao longe, partindo em viagem única, sem adeus ou algo assim. Devia ter dito tudo, deveria tê-la beijado mais, abraçado mais, brigado mais, mas não fez nada além do que se faz quando se ama. A dor da ausência inclui esta solidão com sensação perpétua do vácuo, refletiu.

Voltou para a casa deserta e imensa, onde ecoavam soluços e lamentos. Não lembra como entrou, mas logo a viu e ela estava como uma coisa triste desmanchada no sofá. Aquilo era o que era - uma coisa triste, infinitamente triste. Esperou-a adormecer e também adormeceu ao seu lado, sentado ao chão, exausto e confuso.

Acordou sozinho, o dia já avançava. Dois anjos o espreitavam com a plácida ternura angelical. Saltou lépido e no súbito pôs-se em pé. Sentiu que deveria partir, mas seu coração, ah! seu coração. Olhou em lágrimas ao redor e seus olhos somente testemunharam a dor do vazio. Ao lado dos seres celestiais abriu-se um portal e nele apareceu o inesperado. Era ela e estava mais linda ainda, fazendo sinal para que se apressasse. Caminhou cambaleante pela luz e tomou-a pela eternidade. 

É isto aí!


quinta-feira, 21 de maio de 2015

A estalagem casamenteira

Deveria ser um final de semana de descanso e contemplação, mas a chuva, o frio e as condições da estrada inibiram turistas de ocupar uma estalagem no alto das montanhas. Somente duas pessoas solitárias conseguiram chegar na quinta à noite, e cada um seguiu imediatamente para o seu aposento.

Jerebinha, o hóspede do chalé 03 era viúvo, engenheiro e empresário, franzino, tímido e introspectivo. Naquela manhã subia a trilha de acesso à hospedaria depois de um breve circuito de meditação em silêncio, floresta e bichos. Ao chegar na estreita ponte que separava a civilização da natureza, a hóspede do chalé 05, com idade pelos 45 anos, de corpo bonito acima da linha de peso, rosto angelical e curvas excitantes bloqueava a passagem.

Morta! Ela está morta! Gritou lá da sala o estalajadeiro. 

A moça mesmo assim teve medo, pânico, horror, pavor ou alguma coisa entre uma crise nervosa e um processo histérico - mas eu tenho medo!!!

Não precisa se preocupar, pode passar, que não há como ela te fazer mal, tornou a gritar, agora com um tom entre irônico e irado.

Ela deu mais um passo e pronto, paralisou de vez. Travou todo o corpo, musculatura tesa, olhos estatelados, sudorese intensa e à sua frente uma ratazana de proporções felinas jazia no caminho, provavelmente intoxicada por venenos de combate aos da sua espécie.

Jerebinha deu mais uns passos e percebeu que deveria fazer algo pois estavam a uma altura de dois a três metros por sobre um riacho gelado, fundo e cristalino, e uma queda ali teria consequências de risco. Foi aproximando devagar, bem devagar, até chegar ao ponto entre a ratazana e a moça e chutou o corpo do animal para fora do caminho.

Então ela desmaiou, e ele ágil e educadamente inclinou-se a tempo de segurá-la para que não machucasse, e ai pode sentir sua pele macia, seu perfume delicado e a seda dos seus cabelos. A arrumadeira veio com um chá e ajudou a trazê-la até a varanda. Já acomodados no sofá, continuou a acalmá-la, segurá-la, foi então que a achou mais bonita ainda , gostou do contato e assim nasceu um grande amor.  

Na semana seguinte, Carminha chegou à hospedaria e ao chegar no balcão, "seu" Joãozinho olhou para ela e perguntou? E aí? Trouxe  a sua ratazana?

Claro, o senhor acha que eu ia esquecer?

Então se arruma, que o hóspede do Chalé 07 já deve estar voltando da caminhada...

É isto aí! 








terça-feira, 19 de maio de 2015

Os Blogs, a mídia e o ovo da serpente


Li nesta manhã que um jornalista/blogueiro* foi assassinado e decapitado no norte de Minas Gerais há três dias, segundo a polícia civil. O caso está sendo investigado. É muito triste.

Vivemos num mundo ainda a ser descoberto - a Internet, onde tudo que se posta é perpétuo, imutável. Fazer denúncia sobre crimes, lidar com denúncias como exploração de menores, tráfico humano de meninas, roubo em cofres públicos, etc. é bom, e sempre gera a exposição de fatos que cobram respostas do Poder Público, mas tem quem não acha que é tão bom assim. Este alguém (entre eles pode estar o possível gerador dos delitos), por sentir-se ameaçado pela exposição, talvez tome atitudes contra a integridade física ou moral do denunciante, para silenciá-lo por intimidação ou atos mais graves.

O blogueiro, em geral, está só. Não tem os recursos jurídicos da grande imprensa, não tem segurança pessoal nem sequer garantias de proteção. Escrever o que se pensa é experimentar a liberdade jornalistica, pode até gerar renda para sustento, mas temos que ter a certeza de que, nestes casos, toda ação gera sempre uma reação maior ou pior, sempre contrária ao denunciante.

Os dois texto abaixo não são meus, e serão mais um empecilho, em brevíssimo futuro, contra os blogueiros que fazem deste espaço seu meio de vida. Um foi criado pelos grandes jornais europeus e o outro foi uma resposta de neutralização deste ato pela gigante das comunicações mundiais. Então o caminho natural das coisas será sempre mudar tudo para que tudo permaneça sempre como está, como profetizou Lampedusa no clássico romance Il gattopardo sobre a decadência da aristocracia siciliana durante o Risorgimento.

I **Grandes jornais se unem e criam uma nova mídia:

Com o domínio das empresas de tecnologia, como: Facebook, Twitter, Google e Linkedin, surgem uma crise nos principais meios de comunicações jornalísticos, nos quais se sentem a mercê das políticas e estratégias dessas plataformas. Afirmando também que os jornais estão a cada dia perdendo força no mercado publicitário.

Para combater essa crise, foi criada uma estratégia que envolve os principais jornais do mundo, como: The Guardian, CNN Internacional, Financial Times, Reuters e The Economist.

Essa estratégia é a realização de uma aliança entre eles, com o propósito de posicionar melhor seus portais de noticia no mundo digital, e assim, se tornando mais relevantes na web. A rede é conhecida como Pangea, o mesmo nome que se dá a união geográfica de grandes continentes.

A plataforma possibilitará aos anunciantes que comprem espaço publicitário em todos os sites afiliados com apenas uma operação. O foco principal é atingir pessoas com poder de consumo maior, sendo que a maioria dos leitores dos jornais possui esse patamar.

A Pangea será lançada em abril, com uma versão beta. A equipe espera um aumento de até 20% nas vendas digitais. Hoje a Pangea, somando todos os portais afiliados, possui 110 milhões de leitores. A associação não quer parar por aí, pensam para os próximos meses integrar novos jornais, segundo Tim Gentry, diretor do Guardian News.

II *** A entrega da alma / Bruno Tortuga

Comercialmente talvez faça sentido o NYT e outros grandes veículos fornecerem conteúdo direto ao Facebook. Mas ao dar ainda mais força a essa rede social como o feixe central da troca e difusão de informação no mundo, podem não estar entrando no time vencedor, e sim chocando o ovo da serpente

Comercialmente talvez – nada mais que talvez – faça sentido o NYT e outros grandes veículos entrarem nessa de fornecer conteúdo direto ao Facebook (N.E. – ver aqui). Ainda espero os detalhes das condições e fontes de receita para os jornais para fazer um juízo menos precipitado.

Mas por enquanto me parece um erro grave.

Em parte entendo a capitulação. “Una-se a eles”, diz quem entende que já não pode vencê-los. Mas ao dar ainda mais força, consolidar ainda mais essa rede social como o feixe central da troca e difusão de informação no mundo, esses veículos podem não estar entrando no time vencedor. Mas chocando o ovo da serpente.

Porque para mim a arquitetura do Facebook é a exata corrosão de muitos fundamentos jornalísticos – justamente os que instituições como NYT e Guardian deveriam preservar – em prol de uma dinâmica que dissolve as barreiras do entretenimento e do jornalismo, da mera distração e da notícia, da relevância social e dos interesses estritamente pessoais.

E isso tem efeito especialmente nefasto, me parece, no papel mais importante do jornalismo. Que não é gerar audiência ou tráfego. Mas impacto. E é justamente isso que tenho sentido ultimamente. Um acelerado processo de erosão do impacto que o jornalismo causa na sociedade. E a ascensão do ruído, da falta de contexto, do buzz e da cultura de trends e hashtags como os maiores influenciadores da opinião pública. Isso muda a forma como público entende e consome jornalismo. E tende, a curto prazo, a transformar tudo nessa palavra leve, porém perigosa: conteúdo.

Claro que o processo é bem mais complexo do que isso. Mas o Facebook é protagonista nisso. E sua estrutura não indexada, sem mecanismo de busca, compulsiva e impermeável, tende a aprofundar esse cenário.

Claro que posso – e no fundo espero – estar errado. Mas ao abraçar o Facebook como parceiro, o NYT e grande elenco podem estar cometendo um erro equivalente, digamos, ao do PT dando os braços ao PMDB. Você pode até chamá-lo de parceiro. Mas quando você olhar pro lado… eles tomaram algo que não estava no contrato: a sua alma.

Fontes:

*** Sobre a entrega da alma dos grandes jornais:


quinta-feira, 14 de maio de 2015

Assunção da Virgem Maria - visões de Maria Valtorta


Visões de Maria Valtorta*

8 de dezembro 

Quantos dias se passaram? É difícil precisar. Se alguém julgasse pelas flores que formam a coroa em volta do corpo inerte, diria que se passaram apenas algumas horas. Porém se julgasse pelos ramos de oliveira sobre os quais as flores repousam, os ramos com as folhas já secas e por outras flores secas caídas como relíquias sobre a cobertura do esquife, poderia se concluir que alguns dias se passaram. 

Porém o corpo de Maria é exatamente o mesmo como se tivesse acabado de dar o último suspiro. Não há traço de morte na Sua face ou nas Suas pequeninas mãos. Não há nenhum odor desagradável no quarto. Ao contrário, um aroma indefinível como incenso, lírio, rosa, lírios do vale, ou ervas da montanha, se misturam e estão suspensos no ar. 

João, que não se sabe por quantos dias se manteve acordado, caiu no sono, vencido pelo cansaço, sentado num banquinho, seus ombros recostados à parede próxima a uma porta aberta que dá para o terraço. A luz da lamparina, que, do chão, ilumina-o, permite ver a sua face cansada, e também muito pálida, exceto a sombra avermelhada ao redor dos seus olhos, de tanto chorar. 

Já deve ser aurora, pois a luz pálida ilumina o terraço, e as oliveiras em volta da casa já são visíveis; uma luz que se torna cada vez mais forte e, penetrando pela porta, torna mais nítidos também os objetos do quarto, que, estando longe da lamparina, eram antes impossíveis de se visualizar. 

De repente, uma luz intensa enche o quarto, uma luz prateada com contorno azulado, quase fosfórica, se torna cada vez mais forte, fazendo desaparecer a aurora e a lamparina. Uma luz como aquela que inundou a Gruta em Belém, no momento da divina Natividade. Então, nesta luz paradisíaca, criaturas angelicais surgem, ainda mais brilhante, na luz já intensa que inundou o quarto. Como já acontecera quando os anjos apareceram para os pastores, uma dança de clarões de todas as matizes saem das suas asas e se movem suavemente, emitindo murmúrios harmoniosos, tão doces como se fossem tocados por uma harpa. 

As criaturas angelicais se posicionam em volta da pequena cama, se curvam diante dela, levantam o corpo imóvel e, batendo as asas mais vigorosamente, acentuando o som já existente, abrem uma passagem milagrosamente no teto, como abrira milagrosamente o Sepulcro de Jesus, e se elevam, levando o corpo da sua Rainha, o Santíssimo Corpo, é verdade, porém, ainda não glorificado, e, portanto, sujeito às leis da matéria, para as quais Cristo não era sujeito, pois Ele já estava glorificado quando ressuscitou dos mortos. O som produzido pelas asas angelicais aumenta, e agora é tão potente quanto o som de um órgão.

João, que, embora ainda adormecido, moveu-se duas ou três vezes sobre o seu banco, como se tivesse sido perturbado pela luz forte e pelo som das asas angelicais, desperta completamente por causa do som poderoso, e, também, por causa da forte corrente de ar que, descendo da abertura do teto e atravessando a porta aberta, forma um turbilhão que agita a colcha da cama, agora vazia, e a vestimenta de João, apagando a lamparina e fechando a porta com uma batida forte. 

O Apóstolo olha em volta, ainda meio sonolento, para reparar o que está acontecendo. Nota que a cama está vazia e que o teto está aberto. Entende que um acontecimento maravilhoso teve lugar. Sai para o terraço, e, como pelo instinto espiritual, ou por uma chamada celestial, levanta a sua cabeça, fazendo sombra com as mãos sobre os olhos, evitando o sol, a fim de ver, sem no entanto ser impedido de olhar para o sol nascente. 

E ele vê. Vê o corpo de Maria, ainda sem vida, como que adormecido, ascendendo cada vez mais alto, sustentado pelo grupo angelical. Como último gesto de adeus, as bainhas da manta e do véu são agitadas, provavelmente pelo vento causado pela rápida assunção e pelo movimento das asas angelicais; e algumas flores, aquelas que João colocou e renovou em volta do corpo de Maria, e que com certeza permaneceram entre as dobras do seu vestido, chovem sobre o terraço e sobre o chão do Getsêmani, enquanto a hosana potente do grupo angelical se move cada vez mais longe e se torna tênue. 

João continua a fitar aquele corpo que se eleva em direção ao Céu e, através, certamente, de um prodígio concedido a ele por Deus, para confortá-lo e compensá-lo por seu amor à sua Mãe adotiva, vê distintamente Maria, envolta agora pelos raios do sol já bem alto, aparecer da êxtase que separou a Sua alma do Seu corpo, e ressuscitar, colocar-se em pé, à medida que agora goza também dos dons típicos dos corpos já glorificados. 

João olha e vê. O milagre concedido a ele por Deus permite-lhe, contra todas as leis naturais, ver Maria como Ela é agora, enquanto ascende rapidamente ao Céu, cercada, porém agora não mais auxiliada pelos anjos que cantam hosanas. E João está extasiado pela visão da beleza que nenhuma pena do homem, a palavra humana, ou trabalho de artista poderá ser capaz de descrever ou reproduzir, porque é de uma beleza indescritível. 

João, ainda recostado contra a parede baixa do terraço, continua a fitar aquela forma brilhante e esplêndida de Deus - porque Maria pode realmente ser dita assim, formada de uma maneira única por Deus, Que desejou-A imaculada, para que Ela pudesse formar o Verbo Encarnado - enquanto ascende cada vez mais alto. E DDeus-Amor permite-lhe um último prodígio supremo para o Seu perfeito discípulo amoroso: ver o encontro da Mãe Santíssima com o Seu Filho Santíssimo, Que também esplêndido e reluzente, indescritivelmente belo, desce rapidamente do Céu, alcança a Sua Mãe, aperta-A no Seu coração e, juntos, mais brilhantes que dois astros do céu, dirigem-Se ao Céu de onde Ele veio. 

A visão de João terminou. Ele abaixa a sua cabeça. Sobre a sua face cansada, estão visíveis tanto a sua dor da perda de Maria quanto a sua alegria pelo Seu glorioso destino. Porém, agora a alegria excede a dor. 

Ele exclama: “Obrigado, Meu Deus! Obrigado! Eu previ que tudo isto ia acontecer. E queria estar acordado, a fim de não perder nenhum momento da Sua Assunção. Porém já não dormia há três dias! Sono, cansaço, junto com a dor, sobrevieram e derrotaram-me justamente quando a Sua Assunção era iminente... Porém, talvez Vós quisestes assim, ó Deus; para que eu não me afligisse naquele momento, nem que sofresse mais... Sim, Vós certamente assim desejáveis e agora, quisestes que eu visse aquilo que sem o Vosso milagre, não poderia ver. Permitistes vê-La novamente, embora já tão longe, já glorificada e gloriosa, porém, como se Ela estivesse perto de mim. E ver Jesus novamente! Oh! Visão felicíssima, inesperada e não aguardada! Ó dom dos dons de Deus-Jesus para com seu discípulo João! Graça Suprema! Ver Meu Mestre e Senhor novamente! Vê-Lo próximo à Sua Mãe! Ele como o sol, Ela como a lua, astros esplendorosos, pois estavam gloriosos e felizes por se reunirem para sempre! O que o Paraíso será agora que Vós brilhais nele, Seus maiores astros da Jerusalém celeste? Qual o júbilo dos coros angelicais e dos santos? É tal a alegria que a visão da Mãe com Seu Filho me concedeu, algo que cancela toda a dor Dele, todas as dores de Ambos, e mais, também a minha, e a paz me domina. Dos três milagres que pedi a Deus, dois se realizaram. Vi a vida retornar à Maria, e sinto a paz voltar para mim. Toda a minha angústia termina porque presenciei-Vos reunidos na glória. Obrigado por tudo isto, ó Deus. E obrigado por terdes feito tudo isto para que eu veja, mesmo para uma criatura santíssima, todavia ainda humana, aquilo que cabe aos santos, aquilo que acontecerá após o último julgamento, a ressurreição do corpo, a sua reincorporação, sua fusão com o seu espírito, que ascende ao Céu no momento da sua morte. Eu não precisava ver para crer. Pois sempre acreditei firmemente cada palavra do Mestre. Porém muitos duvidarão disto, após eras e milhares de anos, e a carne, que se tornará pó, é permitido tornar-se um corpo vivo. Serei capaz de dizer-lhes, jurando pelas coisas mais sublimes, que não apenas Cristo ressuscitou, pelo seu próprio poder divino, assim também a Sua Mãe, três dias após a Sua morte, se de morte isto pode ser chamado, ressuscitou, e com a Sua carne juntando-se à Sua alma, elevou-Se para a abóbada eterna do Céu, ao lado do Seu Filho. Serei capaz de dizer: “Creiam, ó Cristãos, nos corpos ressuscitados, no fim do tempo, e na vida eterna de almas e corpos, uma vida bem-aventurada de santos, e terrível para as pessoas culpadas, impiedosas e sem arrependimento. Creiam e vivam como santos, como viveram Jesus e Maria, a fim de adquirir o que Eles obtiveram. Vi Seus corpos ascenderem ao Céu. Posso testemunhá-los. Vivam como justos, para que um dia possam estar no mundo eterno, em corpo e alma, próximo ao Sol-Jesus, e Maria a Estrela de todas as estrelas.” Novamente obrigado ó Deus! Agora deixai-me juntar o que resta Dela. As flores caídas dos seus vestidos, os ramos da oliveira deixados na cama, e deixai-me preservá-los. Eles servirão... Sim, eles servirão para ajudar a confortar os meus irmãos, que tenho esperado em vão. Cedo ou tarde os encontrarei...” 

Ele recolhe as pétalas das flores que caíram do céu, volta ao quarto, segurando-as envoltas na sua túnica. Então olha mais cuidadosamente à abertura do teto e exclama: “Outro milagre! E outra proporção maravilhosa nos prodígios das vidas de Jesus e Maria! Ele, Deus, ascendeu por Si, e por Sua vontade deslocou a pedra da Sua Sepultura, e apenas com o seu próprio poder, ascendeu ao Céu. Por Si. Maria, a Mãe Santíssima, porém, filha de um homem, por meio do auxílio angelical, teve a sua passagem aberta para a Sua assunção para o Céu, e sempre através de auxílio angelical, foi assunta. No Cristo o espírito voltou a animar o Seu Corpo enquanto estava ainda na Terra, porque tinha de ser assim, para silenciar os Seus inimigos e para  confirmar todos os Seus seguidores na Sua Fé. Em Maria o espírito voltou ao Seu Santíssimo Corpo quando estava nos domínios do Paraíso, pois não havia outra necessidade para Ela. Poder perfeito da Sabedoria Infinita de Deus!...” 

João agora recolhe numa peça de pano, as flores e ramos que estavam ainda na pequena cama, ele adiciona a estes, o que havia recolhido fora, e coloca-os sobre a tampa do esquife. Então, abre-o e guarda o pequeno travesseiro de Maria e a colcha da pequena cama nela; desce à cozinha, junta outros utensílios usados por Ela - as agulhas, a roca para fiar, e os Seus utensílios da cozinha - e os acrescenta às outras coisas. 


Fecha  o esquife e senta-se no banquinho exclamando: “Agora tudo está consumado para mim também! Posso ir livremente onde quer que o Espírito de Deus me leve. Posso ir!  E semear a Palavra Divina que o Mestre me deu para que possa transmiti-la aos homens. E ensinar o Amor. Ensiná-lo para que eles possam crer no Amor e no seu poder. Fazê-los conhecer o que o Deus-Amor tem feito para os homens. O Seu Sacrifício e o Seu Sacramento e o Rito perpétuo, por meio do qual, até o fim dos tempos, seremos capazes de estarmos unidos ao Jesus Cristo na Eucaristia e renovar o Rito e o Sacrifício que Ele nos ordenou a levar adiante. Todos os dons do Amor perfeito! Fazê-los amar o Amor para que possam crer Nele, como nós verdadeira e sinceramente cremos. Semear o Amor para que a colheita seja abundante para o Senhor . O Amor alcança tudo, Maria disse-me na Sua última conversa comigo, aquele que Ela definiu justamente , no Colégio Apostólico como aquele que ama, aquele amoroso preeminente, o antítese de Iscariotes, que era ódio, como Pedro era impetuoso, e André brandura, os filhos de Alfeu, santidade e sabedoria combinadas à nobreza de caráter, e assim por diante. Eu, o discípulo que ama, agora que já não tenho nem o Mestre e nem a Mãe para amar na terra, sairei para espalhar o amor entre as nações. O Amor será a minha arma e a minha doutrina. E por meio dele derrotarei o demônio, o paganismo e conquistarei muitas almas. Assim continuarei o trabalho de Jesus e Maria Que eram o amor perfeito sobre a Terra.”

*  Sobre Maria Valtorta:

1.     Pe. Gabriel M. Roschini, Professor da Universidade Pontifical Laterana de Roma, Filósofo e Teólogo, um Mariologista de renome, declarou que “Maria Valtorta (1897 - 1961) de Viareggio, Itália é uma das 18 maiores personagens místicas de todos os tempos.”

2.     Monsenhor Ugo Latanzi, Diácono da Faculdade de Teologia da Universidade Pontifical Laterana, escreveu em 1951: “A autora... não poderia ter escrito tais materiais abundantes... sem estar sob influência do poder sobrenatural”.

3.     Monsenhor Alfonso Carinci, Secretário da Congregação dos Ritos Sagrados, afirmou em 1946: “Não há nada nela contrária ao Evangelho. Pelo contrário, este trabalho é um bom complemento do Evangelho, contribui para o melhor entendimento do seu significado... Os discursos do Nosso Senhor não contêm nada que seja contrária ao seu espírito.”

4.     O Papa Pio XII afirmou numa audiência particular em 1948: “Publique este trabalho como está... Quem o ler compreenderá.” (Osservatore Romano, 26 de Fev., 1948).

Maria Valtorta nasceu em Caserta no dia 14 de março de 1897, filha única de um Oficial da Cavalaria e de uma ex-professora de Frances, ambos lombardos. Criou e formou-se em várias cidades do norte (Faenza, Milão, Voghera) mostrando um caráter forte, ressaltados a capacidade humana e extraordinários dotes espirituais. Completou os seus estudos no prestigioso Colégio Bianconi de Monza.

Durante a Primeira Guerra Mundial foi enfermeira “samaritana” no Hospital Militar de Florença, cidade em que morou por muito tempo e onde foi marcada pelas provas mais duras, provocadas pela terrível mãe, que por duas vezes infligiu um seu legitimo sonho de amor, e por um subversivo, que pela rua lhe desferiu uma paulada nos rins. Recobrou-se, em parte, com umas férias de dois anos em Reggio Calábria, junto a parentes ricos e dedicados.

Em 1924 estabelecia-se com os pais em Viareggio, onde aplicou-se, na Paróquia, como delegada da cultura para os jovens de Ação Católica. No entanto, os seus sofrimentos aumentavam e a sua ascensão culminava em heróicas ofertas de si por amor a Deus e à humanidade. A sua verdadeira missão, aquela de escritora mística, amadureceu e desdobrou-se nos anos centrais da sua longa enfermidade, que a obrigou a estar de cama desde 1934 até à sua morte, ocorrida em Viareggio no dia 12 de outubro de 1961.

Em 1943, enferma há nove anos, Maria Valtorta aderiu a um pedido do confessor e escreveu a sua Autobiografia. Revelando o seu talento de escritora, preencheu, em um lance, sete cadernos para narrar sem reticências a própria vida, humana até à passionalidade, ascética até o heroísmo. Logo em seguida dava inicio a uma produção literária prodigiosa.

A maior obra de Maria Valtorta, publicada em 10 volumes, é O Evangelho como me foi revelado. Estando sentada no leito, Maria Valtorta escrevia de seu punho em cadernos comuns, de um lance, sem preparar esquemas nem corrigir. Freqüentemente alternava a versão dos episódios da obra maior com aquela de outros argumentos, que teriam depois dado corpo às obras menores. Estas últimas foram publicadas – além do volume da Autobiografia – em cinco volumes:

- três volumes de miscelânea intitulados Os cadernos (respectivamente dos anos de 1943,1944, 1945- 50);

- o volume intitulado Livro de Azaria;

- o volume das Lições sobre a Epístola de Paulo aos Romanos.
  
"O Evangelho como me foi revelado"
  
Narra o nascimento e a infância da Virgem Maria e do seu filho Jesus, os três anos da vida publica de Jesus (que constituem a parte mais ampla), a sua paixão, morte, ressurreição e ascensão, os primórdios da Igreja e a assunção de Maria. Literariamente elevada, a obra descreve paisagens, ambientes, pessoas, eventos, com a vivacidade de uma representação; apresenta carateres e situações com habilidade introspectiva; expõe alegrias e dramas com o sentimento de quem participa realmente; informa sobre características ambientais, costumes, ritos, culturas, com particulares irrepreensíveis. Através da aliciante narração da vida terrena do Redentor, especialmente com os discursos e os diálogos, a obra ilustra toda a doutrina do cristianismo segundo a ortodoxia católica. “Dons naturais e dons místicos harmoniosamente unidos – assim descreveu o Veneravel Gabriele M. Allegra, ilustre apreciador da obra valtortiana – explicam esta obra-prima da literatura religiosa italiana e talvez, deveria dizer, da literatura cristã mundial”.

Como adquirir a obra em Português: