domingo, 20 de junho de 2021

Envelhecer é um ato de rebeldia


Envelhecer é um ato de rebeldia, que promove a completa desilusão para com todas as coisas. Quando se pensa que já se viu de tudo, sempre temos um elemento surpresa para confirmar a tese. É uma mistura de tristeza com desapego. Envelhecer é ingressar num plano anti-material.

Cerca de quinhentas mil almas jovens, adultas e idosas partiram de forma precoce, recentemente, por questões supostamente da mais suma atitude doidivana que teve como objeto de causas públicas a vontade consciente de fazer diferente. 

Quinhentas mil pessoas, quinhentas mil ... quantas mais deverão evoluir ao óbito para que o bom senso prevaleça?

É isto aí!

Anda menino



Desanda menino
cresce depressa
e aprenda devagar
Descaia das nuvens

despoje-se dos trecos
bola de gude, pião
logo virão as moças
as prosas, a paixão

terá versos e rimas
dentro do seu ensejo
ah, moleque!
pode querer errar

Anda menino
vai sem pressa
entregar ao amor
as flores do desejo

saiba ser moço
o amor corre solto
prende com gosto
prazer e saudade

Anda menino
não volte mais
não olha para trás
não minta para si

não desvie da rota
dos seus sonhos 
desejos e amores. 
O real inexiste.

É isto aí!

Seu Jorge / Damien Rice - The Blowers Daughter/ É isso Aí



Music video by Seu Jorge / Part. Especial: Damien Rice performing The Blowers Daughter / É Isso Aí (The Blowers Daughter).

Música: The Blowers Daughter/É Isso Aí (The Blowers Daughter) (Ao Vivo)
Artista: Seu Jorge, Damien Rice
Compositores: Damien Rice
Licenciado para o YouTube por
UMG (em nome de EMI Music Brasil Ltda); Sony ATV Publishing, LatinAutorPerf, UNIAO BRASILEIRA DE EDITORAS DE MUSICA - UBEM, Warner Chappell, LatinAutor, LatinAutor - Warner Chappell, PEDL, CMRRA e 7 associações de direitos musicais

SE o vídeo abaixo não abrir, clique aqui e assista: Seu Jorge



sábado, 19 de junho de 2021

Qual a nossa função? (Informação Incorrecta)

Alto lá
Este texto não é meu
Confesso que copiei e colei
Autor: Max


No longínquo 1972, o autor italiano Franco Battiato (infelizmente desaparecido nas semanas passadas) publicou um álbum com o título de Pollution, que Frank Zappa definiu como “genial”. A última canção do lado B tem um título significativo: Ti sei mai chiesto quale funzione hai?, em bom português “Alguma vez te perguntaste qual função tens?”. Reencaminho a pergunta para os Leitores: alguma vez nos perguntámos qual função temos?

Digo isso porque há alguns dias reparei (não importa como) que a maioria das pessoas nem consegue pôr de lado uns trocos, poupar algo, construir um pé de meia para planear o futuro ou fazer frente a importantes despesas imprevistas. Isso significa que a nossa não é vida mas sobrevivência: trabalha-se para conseguir pagar as contas, as dívidas, os empréstimos, tudo na esperança de que não haja situações delicadas a surgir porque, neste caso, toda a contabilidade precária fica virada de avesso.

Não há dinheiro para comprar um carro, que ainda é o principal meio de transporte, sobretudo fora das grandes cidades. É preciso pedir um empréstimo sob forma de crédito e pagar em 24, 36, 48, 60 prestações com juros não indiferentes (numa altura em que aqui na Europa o custo do dinheiro é negativo).

Um exemplo prático: para adquirir o mais pequeno carro da Toyota, o Aygo x-Play (versão base, tipo quatro rodas-um volante-uns bancos e nada mais) com o asmático motor de 72 cv, é preciso pagar 694 Euros de entrada inicial (o mínimo requerido), mais 48 prestações de 217.78 Euros, mais a super-prestação final de 4.834,40 Euros. Tudo isso perfaz um total de 15.981,84 Euros (contra um preço pronto pagamento de 14.380,00 Euros), com um TAEG (Taxa Anual Efectiva Global) de 7.34%. O que é fantástico considerando, repito, que o custo do dinheiro na Europa é negativo neste momento.

Não há dinheiro para comprar um bem essencial como é a casa. A situação melhora ligeiramente (o TAEG é inferior) no caso dum mútuo para adquirir um imóvel, mas aqui falamos de prestações que deverão ser pagas ao longo dum par de décadas e que incidem de forma bem mais significativa no orçamento familiar.

Também os electrodomésticos são vendidos em prestações e incrivelmente, mas talvez nem tanto, até os smartphones (opinião pessoal: se o Leitor considera um crédito para pagar os smartphone, façam um favor a si próprio e pense seriamente na hipótese do suicídio, não pelo facto de não ter dinheiro mas por pedir num empréstimo para comprar um smartphone…).

O recurso ao crédito é uma boa oportunidade quando o custo do dinheiro for baixo (como é o caso nesta altura) e o montante em causa for elevado, para não reduzir o nosso capital. Mas quando se fala dum automóvel económico ou de bens com valores inferiores, é óbvio que o crédito é utilizado não como operação financeira mas pela simples razão de que na nossa conta não há dinheiro suficiente. Então temos que reflectir e recorrer à pergunta de Battiato: qual a nossa função?

Porque se trabalhar 8 horas por dia, cinco ou sei dias por semana, não é suficiente para adquirir um miserável carro sem recorrer a um empréstimo, para pagar com tranquilidade as nossas contas todas (luz, água, gás, saúde, comida, vestuário, escola dos filhos, taxas e impostos, etc.), para juntar uns trocos que poderão dar jeito no futuro… se trabalhar não dá para isso, então dá para quê?

Na nossa vida o trabalho tem um papel absolutamente preponderante, absorve a maior parte das nossas energias, é motivo de tensão, de preocupações, de conflitos: tudo isso poderia encontrar uma justificação pelo menos perante um vida economicamente satisfatória (não “desafogada” ou “de luxo” mas minimamente satisfatória), mas se o dinheiro fruto do trabalho não consegue proporcionar um mínimo de tranquilidade mesmo ao absorver a maioria das nossas energias, então qual a nossa função? Vive-se com qual objectivo? Apenas trabalhar? A reforma? É este o nosso glorioso programa? Trabalhar até os 65 anos para depois gozar da pensão durante os últimos anos, quando a parte melhor da vida (em saúde, com um longo prazo de projectualidade pela frente) já sumiu? Sempre esperando de não morrer tão cedo, caso contrário nem conseguimos gozar a reforma e o Estado fica com as contribuições todas…

Infelizmente o programa parece ser mesmo este: trabalhar a vida toda, sem conseguir uma nível económico plenamente satisfatório (eis o contínuo recurso ao crédito), parar apenas quando a saúde começa a falhar.

Podemos confortar-nos com o facto de ter sido sempre assim? Acho que não. Para já não sabemos com certeza se sempre foi assim: foi nos últimos três/quatro mil anos e nos Países mais avançados, não nas comunidades mais “primitivas”. Apesar de eu gostar imenso da História, sob vários aspectos não acho que o passado fosse melhor do hoje: no passado morria-se por uma apendicite ou até por causa duma gripe mal tratada, não brinquemos. No passado nem havia o conceito de reforma. Mas, em qualquer caso, o facto de “sempre ter sido assim” não significa que tenha sido e que também será esta a melhor ou a única maneira de viver, sobretudo ao considerar que se alguns aspectos melhoraram com o passar do tempo (a citada saúde, por exemplo), outros pioraram (o tempo dedicado ao trabalho aumentou de forma significativa após a Revolução Industrial).

Pelo que seria preciso ir além de quanto alcançado no passado e no presente. E é aqui que encontramos um grande obstáculo: as duas ideologias mais difundidas hoje em dia, o Capitalismo e o Comunismo, constituem dois lados da mesma moeda, oferecendo um modelo de sociedade centrado no mito da produtividade, portanto no trabalho. E, neste sentido, o projecto representado pelo Grande Reset é mais do mesmo.

Não acham tudo isso curioso? Não acham estranho que qualquer modelo seriamente tido em conta e oferecido às massas implique necessariamente uma sociedade baseada no trabalho qual única viável? Uma sociedade que tem como ponto focal da nossa existência o trabalho? Que exalta o sucesso unicamente conseguido no âmbito do trabalho? Que utiliza o tal sucesso no trabalho para “medir” o grau de sucesso pessoal?

Trabalhar é normal, até os animais fazem isso para sobreviver: a caça, por exemplo, é um trabalho. Mas todos os grandes mamíferos dedicam ao trabalho pouco tempo, gastando boa parte do dia no completo ócio ou, em muitos casos, em actividades recreativas. Que eu me lembre, somos os únicos animais “superiores” que gastam quase metade do dia (temos que considerar também os tempos das deslocações casa-trabalho-casa) no trabalho. Há algo que não bate bem, porque isso significa que a nossa função, neste determinado período histórico, é apenas aquela de trabalhar. E sem que isso permita viver sem preocupações de ordem económica. É o “trabalha, produz, morre” que vi escrito num moro há anos.

Não se fala aqui do objectivo da nossa existência, algo que eventualmente cada um tem que dar-se; é preciso não confundir porque aqui fala-se da função prevista por todos nós no seio da actual sociedade. Pelo que repito a pergunta aos Leitores: qual a nossa função?

Quem sabe isso quer dizer amor - Coral "Da boca pra fora" de Campinas


Fonte - Youtube  

Arranjo e direção musical de Marcelo Santos

Edição de áudio e vídeo de Juninho Musselli

Produção remota do segundo semestre de 2020 do Coral "Da boca pra fora" de Campinas
"Quem sabe isso quer dizer amor" de Márcio Borges, Lô Borges e Milton Nascimento

"Quem sabe isso quer dizer amor"
Autores: Lô Borges; Márcio Borges

Licenciado para o YouTube por
Deckdisc, The Orchard Music (em nome de Deckdisc); UNIAO BRASILEIRA DE EDITORAS DE MUSICA - UBEM, Sony ATV Publishing, LatinAutorPerf, SOLAR Music Rights Management e 3 associações de direitos musicais

sexta-feira, 18 de junho de 2021

Que amor é este sem princípios e sem fins?



Não estava sentindo-se muito bem já a alguns dias. Aquilo era terrivelmente chato. Tinha lá suas obrigações pessoais e coletivas para com as cosias sagradas, coisas normais, coisas comuns e coisas malucas que guardava consigo em segredo íntimo. Mas aquele mal estar talvez fosse um pandemônio do Armagedom pessoal.

Nestes momentos, socorrido pelo Lô Borges, pensava em tudo que é possível falar, que servisse apenas para neutralizar a saudade dela, como sinais de bem, desejos vitais ou pequenos fragmentos de luz, falar da cor dos temporais, do céu azul, das flores de abril e pensar além do bem e do mal. Quanta poesia exposta em palavras tão singelas, refletia.

Não estava sentindo seu bem. Talvez a morte fosse a próxima visita. Deu que deu vontade de chorar. Então a vida é isto, receber a morte e se permitir ser levado assim, do nada, com dinheiro guardado no banco esperando alguma oportunidade, a prestação do carro, o aluguel do apartamento, a despensa cheia, a diarista das quintas-feiras, o lavador do carro, a pizza e o sorvete no congelador. 

Ser levado sem dizer adeus ao amor, aquela que se fazia cor, fragmentos de cor, estrada de fazer o sonho acontecer. O amor eterno, meu deusinho dos amores eternos, que amor é este sem princípios e sem fins? De onde veio, para onde foi e quando retornará todo este sentimento?

Pensou na camisa cara que ganhou esperando uma oportunidade para usar, aquela gravata que  o pai deu o nó de gravata Windsor. O pai ... o pai já partiu e nunca mais usou a gravata. Aquela viagem, aquele beijo, aquela tarde, aquele dia, aquela raiva dela. Ouviu passos no corredor. Cada vez mais perto. Cada vez mais perto ...

Correu para o quarto, trancou a porta e ficou no mantra - Pense rápido, pense rápido - e a única coisa que vinha ao comando desta ordem minimalista era Taiguara cantando "Teu sonho não acabou". Palavra por palavra os versos foram se fazendo canção. 

Hoje a minha pele já não tem cor, vivo a minha vida seja onde for, hoje entrei na dança e não vou sair,  vem que eu sou criança e não sei fingir. Eu preciso, eu, preciso de você, ah, eu preciso, eu preciso, eu preciso muito de você ...

Levantou-se, enxugou as lágrimas, abriu a porta do quarto e o som da campainha o trouxe de volta ao mundo ainda real. Trêmulo, dirigiu-se ao seu destino, continuou andando, andando, atravessou o material e o tangível e prosseguiu até ser completamente luz.

É isto aí!

Músicas incidentais:




quinta-feira, 17 de junho de 2021

O dia que liguei para mim



Dia destes peguei o telefone e liguei para mim Assim que começou o diálogo fiquei meio cismado. Claro, você pode achar estranho eu ficar cismado comigo mesmo, até mais do que ligar para mim e atender, porém ocorre que faço isto frequentemente, numa imensa naturalidade.

O fato da cisma deu-se por que eu estava irreconhecível, desde o sotaque até os recursos linguísticos e o trejeito da voz. Percebi logo um fundo musical leve e suave com Carlos Gardel e um sotaque do tipo porteño de La Boca. Aquilo foi muito bizarro. Fingi que não notei a estranheza só para escutar até que ponto eu chegara ao fundo do poço.

Daí perguntei sobre a vida, a natureza das coisas, o trânsito , o tempo, as ruas, a tristeza pelos cantos, as agruras do oprimidos, a violência dos opressores, a igreja, a religião, a religiosidade, a moda das ruas e dos guetos, a bebida do momento, as músicas mais badaladas, a dança mais famosa, etc.

Eu, não este, mas o outro, o esquisito, do outro lado da linha respondia tudo ora com muita tranquilidade, ora tal qual um ofegante e  falante vendedor de artigos da mais fina quintessência, só comercializados lá na Ciudad del Este, às margens do rio Paraná. Aquilo me enlouquecia, um eu com sotaque xeneize e artifícios manjadíssimos de técnicas comerciais de convencimento, se portando como um guerreiro da querida república guarani.

Então criei coragem e perguntei: você está usando máscara?

Logo o eu estranho e bizarro respondeu, com fúria - ¿Estás loco? ¿Bebiste ayahuasca? ¿Por qué no preguntas lo que quieres saber?

Ela ... ela ...

¡Habla cabrón!

Ela ... hummm... está com você?

Si tu quieres saber ...

Não! Esquece. Não quero mais saber. Aí arrependi rapidamente falei em seguida, depressa e engolindo sílabas - Naverdade ... euliguei ... parasaberse ... se ... se ... seela ... seela ...

¡Habla cabrón!

Se ela me ama, é isto. Ela me ama? Ela te falou alguma coisa? Assustado com a coragem, desliguei antes que o eu xeneize/guaio falasse ou respondesse algo que eu não soubesse ou não estava preparado para saber.

Daí a pouco respirei fundo, fiz a técnica de pausar a respiração, contar até cansar, tomei fôlego, coragem e decisão e liguei de novo para mim.

O eu xeneize com estratégias de vendas paraguaias não só não atendeu mais, como desligou o aparelho. Pensei comigo - este sujeito é sistemático, estranho e muito esquisito. Melhor torcer para o River Plate.

É isto aí!

quarta-feira, 16 de junho de 2021

Instituto Oficial de Metadêutica



Recentes pesquisas realizadas pelo famoso Instituto Oficial de Metadêutica, do longínquo e desmascarado território de Taoquei, localizado na Península da Planosfera, feitas pelos mais nobres  cientistas da Via Láte-A, liberaram dados, metadados, supradados, chupadados e francodados sobre importante levantamento estatístico de complacência da choldra pelas excentricidades do núcleo central da supremacia pela graça da tradição, famíliae et propriedades.

Só como adendo, como a tradição é importante no núcleo, na placa alusiva a Missão, Visão e Valores do famoso Instituto Oficial de Metadêutica, há um especial destaque à Visão:

Visão da Familiae - Resgatar as origens etimológicas da Familiae, obedecendo aos conceitos que formaram nossa sociedade, onde a origem etimológica da palavra vem do latim famulus, quer dizer escravo doméstico. É portanto, na sua real origem, o conjunto dos escravos pertencentes e dependentes de um chefe ou senhor. 

Segundo historiadores, historiógrafos, analistas, mestres, apedeutas, jornalistas, comentaristas e poetas, este termo foi criado na Roma antiga para servir de base para designação de grupos que eram submetidos à escravidão agrícola. 

Como pode-se supostamente deduzir, tudo parece que vai se encaixando com a perfeição do saber do líder. Falando em líder, Segundo o Líder Supremo, não saber é sempre melhor do que saber, pois permite menos variáveis.

Voltando ao tema:  

Levantamento estatístico  de complacência da choldra pelas excentricidades do núcleo central da supremacia pela graça da tradição, famíliae et propriedades. 

Segundo levantamentos oficiais do Instituto de Metadêutica, quanto mais plano é o globo ocular, mais plano fica o mundo. As pessoas com vista reta, plana, sem interferências laterais, são capazes de enxergar apenas o óbvio. Estas são puras, castas, educadas, obedientes e civilizadas e sabem que a Terra é plana, sem questionar, apenas porque naturalmente sabem.

Já as beligerantes, aquelas que possuem o globo ocular esférico, que  é uma aberração anti-paradisíaca, passarão pela prova divina da imunidade de rebanho. Aquelas agraciadas com a vontade celeste serão salvas, já as relutantes, antagonistas do bem comum, a estas as batatas.

Segundo a oficial vice-mor da Saúde Plena, Capitoa Sotomo Quina, já está provado pelos estudiosos gugoulianos de que caiu por terra (plana - sic) a falácia de que o problema com a distribuição normal é que os matemáticos pensam que é uma lei da natureza enquanto os cientistas da natureza acham que é uma lei dos matemáticos. Vai doer, mas vai ser gostoso, disse um alto escalão do baixo clero paralelo e  simbiótico do Grande e Supremo Líder.

É isto aí!




 

terça-feira, 15 de junho de 2021

Nunca mais outra vez



Quando um indivíduo
perde por burrice
ou vai saber, azar
ou inveja ou infortúnio
uma mulher linda, 
inteligente, educada
gentil, adocicada
genial, tensa, brava
ávida leitora de livros
sempre ao seu lado 
com assuntos diversos
determinada, elegante
companheira, amiga
trazendo na alma
a grandeza da paixão
portando uma atmosfera
voluptuosa, sensual, 
agradável aos olhos
à mente, aos sonhos
pode saber, com certeza,
vai chorar sem igual
por toda a dolorosa vida 
e nunca mais outra vez
a sorte lhe dará tal beleza 

É isto aí!




Intuições e deduções




Dorinha mal tinha saído de casa, teve uma intuição, deus três passos para trás, quando de súbito um caminhão perdeu os freios e isto a levaria de encontro ao muro da casa ao lado. Entrou correndo pelos fundos, assustadíssima, e teve a intuição de abrir a porta que dava na cozinha. Ao rodar a maçaneta, viu uma cena estranha. Não era sua casa. Era sua casa, mas não do jeito que conhecia, ou não era, mas tinha que ser.

Carminha acordou assustada, sentido uma coisa estranha no ar, uma coisa pegajosa, esquisita, sem odor ou forma. Teve medo de abrir os olhos até que a sensação desaparecera. Ouviu um barulho como se fosse uma pessoa lixando uma madeira com lixa d'água, num local próximo. Riu do absurdo daquele instante. Ao abrir os olhos, viu uma cena estranha. Não era seu quarto. Era seu quarto, mas não do jeito que conhecia, ou não era, mas tinha que ser.  

Patrícia chegou dos serviço exausta, procurou as chaves na bolsa e nada, procurou, procurou, despejou tudo no chão da calçada, abriu os fechos secretos, jogou tudo de volta, buscou em cada bolso. Pensou em ligar para o escritório e descobriu que também estava sem o celular. Resolveu tentar a sorte e quem sabe esquecera a porta sem tranca apela manhã. Ao baixar a maçaneta, viu uma cena inusitada. Não era sua sala. Era sua sala, mas não do jeito que conhecia, ou não era, mas tinha que ser. 

Dedé acordou na hora do almoço, deu de ombros com a bagunça espalhada, levantou-se, espreguiçou lentamente, olhou em volta, deu meia volta para a direita, meia volta para a esquerda, o caos reinava aqui e ali, em cima e abaixo dos olhos, olhou-se no espelho, acertou o cabelo, viu que estava acima do peso e abaixo da autoestima. Olhou bem no fundo dos seus olhos e sussurrou - Dedé, sua danada, foda-se esta merda toda!  

É isto aí!



































sábado, 12 de junho de 2021

Sei, sei bem



Não sou seu
Sei, sei bem
À paciência
faço divagar 
a paz pedida
Ter saudade
traz sua voz
e este corpo
e esta calma
tanto a dizer
tão somente 
eu amo você 

É isto aí!

  

sexta-feira, 11 de junho de 2021

Brejo da Cruz (Chico Buarque) em Quatro Atos distintos




Atenção
As citações abaixo não estão inter-relacionadas no âmbito temporal, não se deram uma em função da outra. Estão isoladas na Rede, cada uma dentro de um contexto próprio.


ATO 1
Fonte da Imagem: Yahoo
Fonte da reportagem: Yahoo
Fome explode no Brasil: Pela 1ª vez em 17 anos, mais da metade da população não tem garantia de comida na mesa
- Mais de 116 milhões de pessoas estão em situação de insegurança alimentar no Brasil
- Crise social agravada pela pandemia deixou 19 milhões com fome durante o ano de 2020
- A incidência da fome é maior nas casas chefiadas por mulheres e por negros


ATO 2
Autor da frase: Padre Duarte Lara
Porque o Mal, o Demônio, por meio de tudo isso que estamos vendo acontecer, desta degradação moral, está atingindo algo que é precioso aos olhos de Deus: As crianças…
Enquanto o Mal atingia os homens e as mulheres de maneira geral, Deus permitia, porque de certa forma nós, adultos, temos como nos proteger, temos como dar respostas diferentes àquilo que nos é oferecido, temos como reagir…Mas quando tratamos das realidades das crianças, crianças puras e inocentes, incapazes de se defenderem, sendo corrompidas pelo mal moral e por estas ideologias, as coisas mudam de figura no plano Divino…
A ira de Deus não permitirá que o Mal as atinja por muito tempo machucando e maculando as nossas crianças…e por isso Jesus voltará!


ATO 3 
Mt 18, 1-10
“Naquela hora, os discípulos aproximara-se de Jesus e perguntaram: “Quem é o maior no Reino dos Céus?” Jesus chamou uma criança, colocou-a no meio deles e disse: “Em verdade em verdade vos digo, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus. Quem se faz pequeno como esta criança, esse é o maior no Reino dos Céus. E quem acolher em meu nome uma criança como esta, estará acolhendo a mim mesmo.
Quem provocar a queda de um só destes pequenos que crêem em mim, melhor seria que lhe amarrassem ao pescoço uma pedra de moinho e o lançassem no fundo do mar. Ai do mundo por causa dos escândalos. É inevitável, sem dúvida, que eles ocorram, mas ai daquele que os provoca […]
Cuidado! Não desprezeis um só destes pequenos! Eu vos digo que os seus anjos, no céu, contemplam sem cessar a face do meu Pai que está nos céus.” 


ATO 4
Brejo da Cruz
Chico Buarque

A novidade
Que tem no Brejo da Cruz
É a criançada
Se alimentar de luz

Alucinados
Meninos ficando azuis
E desencarnando
Lá no Brejo da Cruz

Eletrizados
Cruzam os céus do Brasil
Na rodoviária
Assumem formas mil

Uns vendem fumo
Tem uns que viram Jesus
Muito sanfoneiro
Cego tocando blues

Uns têm saudade
E dançam maracatus
Uns atiram pedra
Outros passeiam nus

Mas há milhões desses seres
Que se disfarçam tão bem
Que ninguém pergunta
De onde essa gente vem

São jardineiros
Guardas-noturnos, casais
São passageiros
Bombeiros e babás

Já nem se lembram
Que existe um Brejo da Cruz
Que eram crianças
E que comiam luz

São faxineiros
Balançam nas construções
São bilheteiras
Baleiros e garçons

Já nem se lembram
Que existe um Brejo da Cruz
Que eram crianças
E que comiam luz

quinta-feira, 10 de junho de 2021

O bate-papo do dia a dia


Todo dia recebo telefonemas oriundos de São Paulo, seguidos de um glacial silêncio. Estes paulistas são uns loucos, mas acho que não gastam tempo com silêncio, logo percebo que é uma máquina. Ela vai anotando os horários que atendo, meu timbre de voz, quanto tempo levo para atender, o que falo, como falo, enfim, vai me marcando feito um gado de corte. 

Hoje recebi o telefonema de uma mulher querendo auxílio para o Hospital Tal e Tal, em Belo Horizonte. Respondi que também morava em Belo Horizonte e bastaria ela me indicar como encontrá-la, já que resido próximo ao Hospital Tal e Tal, e teria o prazer de passar por lá, e conversarmos sobra a ajuda à instituição. A então simpática senhora teve um surto existencial e desligou o telefone. 

Precisei que um eletricista fizesse a manutenção de um sistema elétrico na minha casa. Já esteve aqui quatro vezes, sendo que na última não havia ainda alcançado o portão e o problema retornou. Sorriu meio sem graça, foi lá, fez o novo reparo mágico. Sessenta minutos depois, liguei para o talentoso profissional, pois outro problema surgira em função dos ajustes que fizera. Voltará amanhã. Tem serviço que agarra mesmo, e nestas horas temos que ter o bom senso.

Como Coach, o que mais chega para mim nestes tempos Covid não são casos para coaching. Geralmente a pessoa está insegura, indecisa e não sabe o que quer e faz os seguintes reclames, não necessariamente todos, mas um combo sem fugir muito da relação abaixo:

Apreensão Medo Angústia Inquietação Insônia Dificuldade de concentração Incapacidade de relaxar Sensação de estar "no limite" Preocupações com desgraças futuras Pensamentos catastróficos, de ruína ou adoecimento 

Seguido de 

Sudorese Falta de ar Hiperventilação Boca seca Formigamento Náusea "Borboletas" no estômago Ondas de calor Calafrios Tremores Tensão muscular Dor no peito Taquicardia (coração acelerado) Sensação de desmaio Tonturas Urgência para ir ao banheiro.

Tempos difíceis...

É isto aí!



Descobertas escalafobéticas





Agência Neogovernamental
depois de pesquisas sérias
num secreto laboratório central  
do que importam nas esquinas

Entre ruas escandalosas 
descobriu-se em arrepios
o até então inexplicável
tal qual o preço da gasolina

perscrutando os envolvidos 
do porquê o rato arruaceiro
roía a roupa do rei de Roma.
no seio da terra latina

ora, direis, está resolvido
pelo aroma e pelo cheiro
o insensível roedor real
é viciado em naftalina

É isto aí!
 

quarta-feira, 9 de junho de 2021

O Amor e o Pertencimento




O pertencimento 
é a crença pertinente ao amor
numa origem ancestral comum 
que une distintas almas. 

Passam a pensar em si mesmos 
como membros um do outro
na qual símbolos expressam valores, 
medos, sonhos e aspirações. 

Quando a característica dessas almas
é sentida subjetivamente como comum, 
podem sentir a ascendência comum, 
surgindo assim a pertinência, 

Partilham um destino comum, 
estabelecem um sentido de homogeneidade 
ambos numa grata comunhão
com a heterogeneidade do mundo.

A sensação de pertencimento 
significa que precisamos nos sentir 
como pertencentes àquela pessoa
e ao mesmo tempo livre para amá-la


É isto aí!



terça-feira, 8 de junho de 2021

Coluna Social da Marquesa 8

 

Coluna Social da Marquesa
Diário da Cidade DC
Em sociedade tudo é brilho
Reino da Pitangueira 12 março

Nestes tempos terríveis, finalmente uma ilha de paz e diversão ocorreu quando fomos a un merveilleux bal masqué produzido, promovido e agraciado pelo simpático casal K. Pataz e sua voluptuosa esposita Crème Nata, a top das tops dos balneários caribenhos. La Crème trajava um conjunto salmon com uma saia ampla e volumosa com a cintura bem marcada, com um corte evasê onde a barra do vestido ficou com mais roda do que quase o dobro da circunferência dos ombros. Atrás um corte longitudinal de causar espanto aos púberes e imberbes.

Numa discreta mesa no canto esquerdo estavam a desbotada e ex do maxi-super K. Pataz, Rosinha Gata e seu amiguinho de estimação Alfredo. A decadente vestia estiloso conjunto da vanguarda de mulher para mulher, se é que você me entende, com direito a ombreira e cinto de plástico colorido, acompanhando um cafonérrimo reloginho chinatown, vinculado a um indefinido raifone lilás escuro, meio violeta, meio roxo, meio morto. Alfredo estava hummmmm.. inadequado.

Do outro lado do salão, Tirano Trago, abraçado às duas moçoilas da fina delicadeza mundial, recebia de forma muito muito amigável, o cumprimento caloroso da esposita de K. Pataz, Crème Nata. Não tendo onde sentar, a voluptuosa sentou-se sobre a perna esquerda do bom amigo, enquanto as moçoilas experimentavam a textura da roupa da esposita, de uma forma, digamos, pouco convencional.

Pelo início da madrugada, K. Pataz atravessou o salão, passou por Tirano, acenou com a cabeça, dando um sorriso estático e foi dar porrada no Alfredo, por suspeita de possível atitude inadequada para com a ex, Rosinha Gata, que aos berros pediu para que parasse. Dois senhores que acompanhavam Tirano, ao seu comando, detiveram a fúria do homem ferido na honra  e o levaram para o andar superior, onde já se encontravam as duas moçoilas, que trataram de dar-lhe conforto, segurança e paz. 

Rosinha foi convidada a juntar-se ao colo esquerdo de Tirano Trago, e aproveitando a proximidade com a esposita Crème, a voluptuosa, deu-lhe de unhada na face com a mão direita e tapas na outra face com a mão esquerda. Tirano não lembrava de tanta diversão assim desde o colegial. 

Foi um dos mais divertidos bailes de máscara da história, nos moldes da contemporaneidade global...


Coluna Social da Marquesa
Diário da Cidade DC
Em sociedade tudo é brilho
Reino da Pitangueira 19 março

Direito de resposta 

- Eu, Rosinha Gata, declaro que jamais participei de festinhas decadentes, não conheço nenhum Alfredo e tenho um excelente relacionamento com meu ex-marido.

E quanto a você, sua vaca de quinta coluna, sua hora vai chegar.


Coluna Social da Marquesa
Diário da Cidade DC
Em sociedade tudo é brilho
Reino da Pitangueira 26 março

Ai, gentem, que meda, que nada!!!! Rosinha Gata esteve aqui com glamour, desta vez acompanhada do nosso amado amigo Tirano Trago. Sentamos e tragamos o cachimbo da paz do Tirano. Uau!! Em sociedade tudo é brilho!!!

É isto aí!

Insônias do outono



Insônia é um negócio antinatural. Deve haver em algum lugar uma lei para proibir estas coisas. Uma noite custa 36 horas para passar entre a zero hora e o amanhecer, e o mais incrível é que ainda tem a danada da fome. Insônia, apetite, reflexões ridículas... opa, e ainda tem os pernilongos, o silêncio irritante, a ampliação do barulho do teclado e aquela sensação de cansaço com compromisso às sete horas da manhã.

Tudo bem, vá lá que acabo concordando que o pensamento é aquilo que é trazido à existência através da atividade intelectual. ... Mas o pensamento no processo de insônia não seria um processo mental que supostamente reside na mente humana e proporciona ao ser humano modelar a sua percepção do mundo. É algo sobrenatural.

Enquanto num dia normal, com sol sobre este lado do planeta da alvorada ao crepúsculo, o pensamento tem a capacidade de compreender, formar conceitos e organizá-lo, quando a noite vem, nebulosas, seres etéreos e seres extraterrestres forçam nosso corpo a estabelecer relações entre nós outros e os conceitos cósmicos por meio de elementos de variadas funções extra corporais e mentais, criando novas representações e soluções, que vão de questões pessoais, passionais, relativas até chegar aos grandes conflitos mundiais.

É verdade que existe o  pensamento lógico, crítico, reflexivo, prático e o sistemático, mas isto é no decorrer do turno matutino e vespertino. A madrugada não permite isto, até mesmo por que tem aquelas coisas fixas, aquela pessoa, aquela conta, aquele vinho, aquela viagem, aquele instante, aquela situação, tudo colado numa tela de bloqueio com supercola.  

E olha que não vou entrar no mérito dos pensamentos intrusivos, comuns aos mortais. O insones dispensam estas rotas de fuga da memória, das experiências de aprendizado, das evidências constatadas, das observações neurosensoriais, etc. A Insônia não permite que uma concorrência deste nível venha a transformar sua arte em placebo. A insônia é um estar em mim.

É isto aí!

 



segunda-feira, 7 de junho de 2021

Aeropita - a Agência Aeroespacial do Reino da Pitangueira


Se fosse dada a você a oportunidade de viajar no tempo pretérito, por nove locais, quais escolheria?

Foi esta pergunta que fiz na Real Academia de Ciências do Reino da Pitangueira, que provocou profundas mudanças no ser e estar do pensamento científico e tecnológico do Reino.

Deu que por causa desta indagação que fiz no discurso anual de abertura de trabalhos, estou agora me preparando para entrar na astronave construída pela Agência Aeroespacial da Pitangueira, a famosa Aeropita. Neste momento, dezenas de técnicos com o maior prestígio intergaláctico estão programando as nove coordenadas possíveis - dentro do universo das nove cordas - de partida e regresso, de forma segura e confiável.

A nave tem três níveis, sendo o primeiro a base de propulsão cibernética da Mecânica Quântica Heterodoxa. Como sabemos, a mente existe além da realidade física, pela consciência, subconsciência e inconsciência. Segundo os cientistas, analistas e especialistas da Aeropita, essa full-consciência pode, portanto, viajar no tempo, pelo fato de que todas as possibilidades estão contidas nesta ordem e que toda a realidade contida na ordem explícita é um reflexo desta ordem.

Teremos também uma inteligência artificial com 200 terabytes, denominada Cretina, com memória genética filogênica, de vinte e sete pessoas das diversas qualificações na nata da nata da alta sociedade do reino da Pitangueira. O objetivo foi resgatar a memória ancestral no código genético de cada um, imutável e inabalável, independente do portador atual. Uma vez recolhidas e isoladas, este material passou a validar a ação antropológica de acesso à ancestralidade pela consciência do navegador.

As nove coordenadas que foram calculadas dentro do princípio algoritmo  servem para eliminar o Efeito Borboleta de muitas intervenções no passado. A lógica algorítmica deu-se por uma sequência finita de ações executáveis que visaram obter uma solução para quaisquer tipos de problemas temporais e/ou atemporais, valendo-se de  procedimentos precisos, não ambíguos, padronizados, eficientes e corretos.

No segundo nível está o dormitório, a cozinha, a sala e o banheiro, tudo com conforto e segurança. Este ambiente, como o anterior, tem janelas panorâmicas para a parte externa por razões de segurança e curiosidade. Há também um compartimento com um Tear que opera com fios de algodão e lã de carneiro, sob o comando do computador central, quando identificadas as roupas da época onde é atracada a astronave.

O terceiro nível comporta a navegação da astronave, com potentes computadores, instrumentais, janelas com vidro blindado e a conexão visual e sonora de acesso e contato com o mundo exterior. 

O detalhe físico interessante é que o tempo do destino não implica no tempo presente. Assim poderei viajar para Bagdá, por exemplo, ficar por lá um ano e regressar 90 segundos após a partida. Bem, vamos ver no que vai dar isto. Mas ...

Como existem opiniões fortemente divergentes entre os grupos da equipe antropológica, teólogos, geólogos, físicos, filósofos e historiadores, somente iniciaremos os testes, e deveremos listar os prováveis destinos com um consenso, uma vez que o seguro não cobre este procedimento, de maneira que não poderá ser acionado em nenhuma circunstância, toda a estrutura é arriscada. Posso ficar perdido não no destino, mas no meio do caminho, por exemplo.

Concluindo, o tempo do destino não implica no tempo presente. Assim poderei viajar para a Etiópia no ano 1876 aC, ficar por lá um ano e regressar 120 segundos após a partida. Bem, vamos ver no que vai dar isto. 

É isto aí!



domingo, 6 de junho de 2021

A Vida Vazia da Cidade (Leon Tolstoi)



Alto lá
Este poema não é meu
Confesso que copiei e colei
Editora Centaur 1ª Edição 2008
Fonte: Citador 

A Vida Vazia da Cidade

Instalámo-nos, portanto, na cidade. 
Aí toda a vida é suportável 
para as pessoas infelizes. 
Um homem pode viver cem anos na cidade, 
sem dar por que morreu 
e apodreceu há muito. 

Falta tempo para o exame 
de consciência. 
As ocupações, os negócios, 
os contatos sociais, a saúde, 
as doenças e a educação das crianças 
preenchem-nos o tempo. 

Tão depressa se tem de receber visitas e retribuí-las, 
como se tem de ir a um espetáculo, 
a uma exposição ou a uma conferência.
De fato, na cidade aparece a todo o momento 
uma celebridade, duas ou três ao mesmo tempo 
que não se pode deixar de perder. 

Tão depressa se tem de seguir um regime, 
tratar disto ou daquilo, 
como se tem de falar com os professores, 
os explicadores, as governantas. 
A vida torna-se assim completamente vazia.

Leon Tolstoi, in "Sonata a Kreutzer"
(Editora Centaur; 1.ª edição [2008]).



sábado, 5 de junho de 2021

O Ódio (Wislawa Szymborska)


 


Alto lá
Este poema não é meu
Confesso que copiei e colei
Autora é a polaca Nobel de Literatura 1996
Escritora: Wisława Szymborska
Tradutora: Profª Dra. Regina Przybycien
Fonte: Zona da Palavra


Vejam como ainda é eficiente,

como se mantém em forma

o ódio no nosso século.

Com que leveza transpõe altos obstáculos.

Como lhe é fácil – saltar, ultrapassar.


Não é como os outros sentimentos

a um tempo mais velhos e mais novos que ele.

Ele próprio gera as causas

que lhe dão vida.

Se adormece, nunca é um sono eterno.

A insônia não lhe tira as forças; aumenta.


Religião, não religião –

contanto que se ajoelhe para a largada

Pátria, não pátria –

contanto que se ponha a correr.

A Justiça também não se sai mal no começo.

Depois ele já corre sozinho.

O ódio. O ódio.

Seu rosto num esgar

de êxtase amoroso.


Ah, estes outros sentimentos –

fracotes e molengas.

Desde quando a fraternidade pode contar com a multidão?

Alguma vez a compaixão

chegou primeiro à meta?

Quantos a dúvida arrasta consigo?

Só ele, que sabe o que faz, arrasta.


Capaz, esperto, muito trabalhador.

Será preciso dizer quantas canções compôs?

Quantas páginas da história numerou?

Quantos tapetes humanos estendeu

em quantas praças, estádios?


Não nos enganemos:

ele sabe criar a beleza.

São esplêndidos seus clarões na noite escura.

Fantásticos os novelos das explosões na aurora rosada.

Difícil negar o páthos das ruínas

e o humor tosco

da coluna que sobressai vigorosamente sobre elas.


É um mestre do contraste

entre o estrondo e o silêncio,

entre o sangue vermelho e a neve branca.

E acima de tudo nunca o enfada

o tema do torturador impecável

sobre a vítima conspurcada.


Pronto para novas tarefas a cada instante.

Se tem que esperar, espera.

Dizem que é cego. Cego?

Tem a vista aguda de um atirador

e afoito olha o futuro

– só ele.