— Heitorzinho, acorda! Vamos, levante-se do box, coloque uma roupa e vamos conversar. Eu quero, ordeno e determino que explique tudo agora, de forma inteligível, clara e convincente e explique por que não atendeu o celular e deixou uma vaca atender no seu lugar?
10 minutos depois:
Foi assim, Cacá, eu posso explicar: Estava no banho e a campainha tocou insistentemente ao mesmo tempo que o celular disparou a chamar. Pensei assim, só podia ser você e ambas as situações exigiam uma resposta. Confiante que era você, abri a porta do banheiro e gritei: Pode entrar, a porta está aberta, e aproveita e atende o celular para mim pois estou no banho.
— Heitor, para de mentir e fala sério
Cacá, é sério. Até cheguei a refletir que fosse uma pessoa estranha, mas logo rebati em função da portaria. Aí voltei para o banho para retirar o sabão quando a porta do banheiro abriu e fechou, com o som de alguém entrando no ambiente. Dentro do box, envolvido no denso vapor, sem saber bem o que fazer, disse — olá! Não conseguiu esperar, hem? Bateu tanta saudade assim?
— Como é que é? Seu cachorro, safado, medíocre. Fala a verdade, eu quero a verdade.
Mas é a verdade. Aí eu perguntei se era urgente e ela respondeu que de certa forma sim, mas estava bem em esperar. Aí colocou a mão esquerda no vidro para que pudesse visualizar sua presença. Perguntei quem era no celular e ela respondeu que era você, mas estava tudo bem e já tinha resolvido.
— E você quer que eu acredite que uma vaca loira atendeu sozinha o seu celular? Quem era? Como sabia sua senha?
Boa pergunta. Perguntei o que ela havia resolvido com você; aí respondeu que era a vaca da Cacá Lima, mas já liquidara a fatura.
— Continua, Heitor. Ai, que ódio desta safada.
Aí, Cacá, eu perguntei para ela: Você fez o que? E ela respondeu: Fiz o que você sempre quis fazer e nunca teve coragem. Agora está feito. E a propósito, vai acabar este banho ou vou ter que entrar no box?
— Você está me dando nos nervos, Heitor. Não estou entendendo nada. Que mais aconteceu neste covil?
Lembro da porta do box abrir-se, ela entrar no diminuto espaço me enquadrando, aí então afastou-se lentamente e perguntou - lembrou de mim agora?
— Te enquadrando Heitor? Eu esfolarei vocês dois vivos, Heitor, pelo menos umas três vezes, aí depois eu te castro antes de raspar o cabelo dela. Antes vou pintar vocês dois de piche, ai, que ódio, que ódio... que mais?
Aí deu um apagão na minha mente e só acordei agora com você.
— Heitor, que cara de pau, hem! Não se lembra de nada? Será que fui só um joguinho de faz de conta? Você ficou meses suspirando por mim, me desejando, me querendo, e era tudo mentira? Eu só vim por que uma piranha atendeu o telefone e disse que você estava ocupado tomando banho com ela. Cheguei, toquei a campainha, resolvi verificar se a porta estava aberta, por que eu queria bater nos dois, mas aí encontrei você dormindo sozinho no chão do box, com esta cara de retardado e sorriso ridículo, abraçado à toalha. Adeus, Heitor, não suporto mais suas mentiras.
Sentei no sofá, liguei a TV, fui bebendo um vinho e adormeci, e logo vi a musa onírica o chamando por um caminho paradisíaco. Você é a mulher dos meus sonhos, claro, é você. Eu sonhei com você muitas vezes. Era tão real... agora você está aqui... mas como? Você existe? Ficamos ali naquele cubículo por um tempo que não recordo, e agora estou aqui, conversando com você. Mas como você entrou aqui?
Três dias se passaram e a polícia arrombou a porta do apartamento do Heitor, acompanhados de Cacá e o pessoal do escritório. Seu corpo nunca foi encontrado, não levou documentos, não saiu de carro, as câmeras de segurança não detectaram a saída do prédio ou da garagem, não pulou da janela, não chamou táxi ou Uber, não sacou dinheiro, nem usou cartão nem ligou para esta ou aquela pessoa. Todos os documentos estavam intactos na carteira.
É isto aí!

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