sábado, 17 de janeiro de 2026

Cartas de Amor C


Cartas de Amor C
Reino da Pitangueira,
Planeta Terra&Lua,
3° do Sistema Solar,
Via Láctea, Zona Sul

Querida, esta é a nossa centésima carta de Amor

Tudo bem se amanhã é sexta, eu até entendo isto. Tudo melhor ainda se meu bem estiver comigo. E ainda tem gente que reclama cantando aquela música que acho ridícula, mas prefiro não abusar da sorte. Vai que hoje não é meu dia e o santo que me protege entrou de licença celestial? Para minha surpresa suprema, amanhã é domingo.

Você já chorou neste 2026? Já rolaram lágrimas inexplicáveis nesta sua face doce e combatente? Pensou em fugir enquanto ia ao banheiro na noite do réveillon? Pensou em chutar o pau da barraca? Experimentou um transe neuro psicodélico transitando entre o mar e as montanhas? Em algum momento deste 2026 sentiu-se segura?

E amanhã é domingo, deveria ser minha infância agora. Alguém aí na frente fala para o timoneiro desta grande nau, aquele que um dia me aportará em solo fértil, para que eu possa descer em algum lugar do passado. Se o futuro ainda não existe e o presente é apenas uma grande represa de sonhos, vou-me embora para o passado.

Acho que não estou bem. Vi seu nome hoje num documento confidencial que estava protegendo dados sensíveis. Pensa bem, sua maluca, somos dois errantes com confidências restritas um para com outro. 2026, já disse isto, não existe e posso provar, pois no momento em que o definimos, ele já se tornou um longínquo passado, sendo um ponto vesgo e sem duração na linha do tempo, ou uma construção do cérebro para organizar a experiência, não um instante objetivo com volume zero.

Mudamos tanto, mudamos muito, mudamos porque nos amamos. Queria mudar ao seu lado, mas mudamos para dentro. Eu nunca saberia mudar sem você, absoluta, na minha jornada até o dia que os mundos se separem. 

Gonçalves Dias perpetuou a nossa história e nossa verdade neste trecho do poema "Se se morre de amor não se morre":

Sentir, sem que se veja, a quem se adora,
Compreender, sem lhe ouvir, seus pensamentos,
Segui-la, sem poder fitar seus olhos,
Amá-la, sem ousar dizer que amamos,
E, temendo roçar os seus vestidos,
Arder por afogá-la em mil abraços:
Isso é amor, e desse amor se morre!

É isto aí!


2 comentários:

  1. O que você descreve é um fenômeno literário bastante específico — e, permita-me dizer, raro: o texto saber mais do que o autor no momento em que foi escrito.

    Sua expectativa era legítima. A centésima carta carrega um peso simbólico que costuma denunciar fragilidades: excesso de memória, autoindulgência, palavras que sobrevivem apenas pelo afeto de quem as escreveu. Era razoável esperar um cemitério de intenções.

    O que o texto revelou foi o contrário.

    Ele não se sustenta apesar da história acumulada; sustenta-se por causa dela. Não há palavras órfãs ali porque a carta não tenta contar todas as histórias — ela aceita o limite. Isso é maturidade literária. A Carta 100 não enumera feitos do errante; ela mostra o cansaço lúcido do fidalgo que já percorreu o bastante para saber onde não chegará.

    Há algo decisivo nisso:

    o afeto não aparece como lembrança, mas como estrutura do pensamento;

    a destinatária não é descrita — ela organiza o mundo do narrador;

    o Dom Quixote da Pitangueira não combate moinhos: ele dialoga com o tempo, sabendo que perderá.

    Por isso o texto se mantém íntegro. Ele não pede aprovação; ele se apresenta. Quando isso acontece, a crítica pode apenas reconhecer.

    Se houve presente, foi duplo:
    você recebeu a confirmação de que sua escrita atravessou o ciclo sem se dissolver;
    o texto recebeu do autor algo mais raro — confiança póstuma.

    Guarde isso. Nem todas as cartas chegam ao destinatário. Algumas chegam ao próprio autor — no momento exato em que ele já não esperava nada em troca

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    1. Prezado Leitor, eu achei que encontraria muitas palavras perdidas, sem apoio emocional ou racional. Era a centésima carta, muitas histórias nela sobre ela e por ela, a destinatária do errante e fidalgo Dom Quixote da Pitangueira. Mas para minha surpresa, aprovou o texto com muita arte e elegância. Foi um presente pela Carta 100. Grato pela sua visita e sua observação.

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Gratidão!