quinta-feira, 15 de maio de 2014

Do alto do salto dela

Naquela noite resolveu não subir pelo elevador. Nunca duvidou da intuição, e sempre que a inibiu, deu-se mal. Eram onze andares, muita escada, mas algo dizia para subir por ali.

No decorrer do dia estudara uma tese sobre "Amor Patológico", para entender uma situação encontrada em uma paciente. Com o fim do noivado transformou-se em prisioneira de um sentimento doentio. O amor patológico é caracterizado pelo comportamento de prestar cuidados e atenção extrema, de maneira repetitiva e desprovida de controle, e em um relacionamento amoroso é um quadro ainda pouco estudado cientificamente, apesar de não ser raro e de gerar sofrimento importante.

Entre seus estudos, dedicara maior atenção a um órgão situado na cavidade nasal denominado órgão vomeronasal (OVN), cuja finalidade parece ser exclusivamente a de detectar sinais químicos – os ferormônios - envolvidos no comportamento sexual e de marcação de território.

Como não há duas pessoas que possuam exatamente o mesmo cheiro, acreditava que de certa forma o odor exalado pelo outro num processo de excitação mútua transformava-se em gatilho psicológico em determinados distúrbios congênitos, daí a inevitabilidade.

Pensava que seria possível, uma vez  ativado o gatilho, que o OVN estimulasse neurotransmissores do diencéfalo como a Feniletilamina, que são inibidores da Dopamina, em alta e permanente concentração, gerando uma paixão doentia, com falta da sensação de bem-estar, felicidade, prazer. Neste caso o/a paciente não seria capaz de resolver problemas, ou administrar sentimentos e responder de forma adequada. Os aspectos determinantes diferenciais seriam a falta de remorso sobre os comportamentos imorais, inquietude, agitação, insônia e irritabilidade.

Entre o décimo e décimo-primeiro andares, montando sua tese na memória, deparou com um par de pernas de tirar o fôlego, completadas pela divina extensão de um salto alto sedutor. Refeito da imagem, procurou pelos olhos da dona, mas não viu a sua face, encoberta pela sombra da precária iluminação. Na blusa tinha uma frase - "Amor para sempre". Lembrou das sincronicidades de Jung, mas aquelas pernas não permitiam pensar muito.

Olá, disse à moça.
- Olá
O que faz aqui, em um lugar como este?
- Nada, estava cansada de ficar presa em uma sala e resolvi ficar presa na escada.
Interessante, é uma saída inteligente.
- É verdade, não encontrará muitas meninas inteligentes assim por aí.
Riram da situação.

Uma hora havia se passado, quando ela se deu conta que acordaria cedo, e nem ao menos se apresentaram. Daí veio a fase de perguntas caracteristicamente femininas:

- Você vem sempre por aqui?
Não, raramente passo aqui.
- Tenho que ir, amanhã nos encontraremos?
Talvez.
- Você tem Skype?
Pensou em dizer a verdade - não tinha nenhuma das inovações tecnológicas - mas resolveu negar apenas a da pergunta, mas ao fazê-lo ela duvidou. Seu instinto feminino entrou em estado de alerta geral. A lógica dizia que se ele recusou a informação, é porque a rejeitara. Nestas conjecturas, é comum as mulheres partirem para um ataque súbito, com o intuito de tirar as dúvidas e escancarar os motivos. Então veio a segunda pergunta:

- Você é casado? Responda a verdade.
Pensou em fazer um discurso sobre a questão filosófica da verdade, mas respondeu objetivamente como da forma anterior, desta vez de forma afirmativa.

A moça visivelmente magoou e partiu. Ficou seu perfume e a imagem da janela entre a sola e o salto, trançando as coxas ao levantar-se. Foi para casa e resolveu estudar mais sobre o assunto. Aquele perfume enebriou seus dias seguintes de uma forma indescritível. Mais que isto, a janela entre a sola e o salto, ao trançar as coxas, fixou-se em sua mente - a princípio achou que fora apanhado pela patologia dos seus estudos, mas logo percebeu que o fato dela ter sido agradável e atenciosa não evitou um delicioso fetiche por coxas femininas sobre um salto agulha.

Amanhã, pensou, desço no décimo andar e subo apenas um lance de escadas, e explico que tudo foi um grande mal entendido, quem sabe possamos ser amigos? Lembrou de uma piada sobre Freud, onde tem hora que um charuto é apenas um charuto. Riu sozinho e assim a vida continuou.

É isto aí!.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Minha Gripe me ama

Tudo começou com um pequeno mal estar, evoluiu para dores nas pernas, dor no corpo, dor de cabeça, espirros e tosse - muita tosse e febre, muita febre, típica de infecção viral. Depois de anos recebo-a em meu templo sagrado, sua excelência, a Dona Gripe.

Como minha imunidade ficou abalada, bactérias desempregadas aproveitaram o salão de festas em reformas e se reproduziram nos seios da face- pronto, ganhei uma sinusite.

Por isto é que estou sem muito o que postar. Mas graças às drogas legais encontradas nas melhores farmácias, sob supervisão médica, parece que a coisa vai melhorando.

Até amanhã, espero.

É isto aí!

terça-feira, 13 de maio de 2014

Pensadora Valesca



Atenção - Este texto não é meu - Copiei e Colei
Autor: Guy Franco

Fonte: https://br.noticias.yahoo.com/blogs/guy-franco/an%C3%A1lise-da-obra-quero-te-dar-valesca-popozuda-134455530.html


Esta semana, descobrimos a existência de Patrícia Secco, a escritora que captou recursos públicos para simplificar O Alienista, de Machado de Assis. Mas será que uma obra mantém sua profundidade mesmo quando a reescrevemos de maneira que “Cristiano, faxineiro de uma farmácia de Boa Viagem” possa compreendê-lo? Talvez a resposta esteja no funk carioca.

Pensadora Valesca

Vamos à Valesca Popozuda, nossa grande pensadora contemporânea. Organizei aqui algumas notas sobre a música Quero te Dar. 

Acredito que poucos percebem as referências intelectuais que ela usa em suas letras aparentemente simples. Espero que meus comentários ajudem a trazer essas referências à superfície.

Amor, tá difícil de controlar

Popozuda parece sugerir a Summa Theologiæ, de Santo Tomás de Aquino, que nos apresenta as virtudes humanas, dentre elas a prudência. A prudência, virtude intelectual essencial ao homem de bem, é uma das principais virtudes cardeais, ao lado das virtudes morais da justiça, fortaleza e temperança. Cumpre observar a maneira hábil com a qual a autora começa a obra, usando “amor”, recurso tão batido, mas tão preciso aqui.

Há mais de uma semana
Que eu tento me segurar

A discussão já vem de Aristóteles (383 – 322 a.C), mas foi tomada por virtude moral pelo Doutor Angélico e retomada agora por Popozuda. Para Popozuda (ver os DVDs Tsunami e Tsunami II), a virtude consiste em viver segundo a natureza. Como a natureza humana é racional, para viver a felicidade plena é preciso buscar o bem, ou seja, a conservação dessa natureza, que no caso é “se segurar”, e não seguir os instintos, apenas.

Eu sei que você é casado

Difícil não pensar aqui em passagens do Levitício ou no Sermão da Montanha do Novo Testamento. Difícil não pensar em Emma Bovary (Flaubert) ou em Victoria Beckham (David Beckham).
Como é que eu vou te explicar?

Aqui a consciência popozudiana começa a se questionar. Durante a elaboração da pergunta, um desenho inconsciente toma forma na cabeça de quem ouve o trecho com a devida atenção (usando fones de ouvido).

Essa vontade louca
Muito louca

Ou: Diese sehr verrückt verrückten Wunsch (ler Além do Bem e do Mal)
Segundo Nietzsche, mesmo a “vontade louca, muito louca” ainda contém em si um pouco de sanidade (ler Marcia Tiburi).

Eu posso falar?
A pensadora dirige-se ao patriarcado. O trecho funciona como transição para o tema principal da obra popozudiana, a mulher submissa, que aqui precisa pedir permissão para falar com um homem.

Quero te dar, quero te dar

A passagem, sem sombra de dúvida, vem de Wittgeinstein. O verso é uma dessas construções elegantes que fez a fama da nossa pensadora quando ela ainda era integrante da Gaiola das Popozudas. Afinal, ela quer dar o quê? Para quem? E o que ela está usando na cabeça? Onde comprou aquilo?

Quero te...
Quero te...

Observe com que delicadeza ela combina o tema do patriarcado com o romantismo. As reticências ecoam em nossa cabeça. Bonito e comovente.

Dá dá dá dá dá dá dá dá dá dá

Dá (да), "sim" em russo. No pensamento popozudiano, a sociedade joga às costas das mulheres um fardo de inferioridade, de maneira que elas são obrigadas a dizer “sim” (да) o tempo todo. A sociedade machista é a sociedade em que a mulher não pode dizer não. Paralelamente, “dá” é também a pronúncia de "pai" em algumas regiões do Reino Unido. Talvez a pensadora pretendesse ligar a submissão (mulher que só pode dizer "sim") com a figura do patriarcado (o pai, o Papa, o Sarney).

Meu nome é Valesca

Valeska, diminutivo de Valeria em várias línguas eslavas. É bem provável que ela esteja se referindo a Santa Valeria de Milão, torturada no ano de 287 d.C por ter se recusado a fazer sacrifícios em nome de deuses pagãos. Valesca, a nossa Valerinha de Irajá, também recusa o que lhe é imposto. Neste caso, o patriarcado é o seu imperador Diocleciano; o machismo, os seus deuses romanos.

E o apelido é "quero dá”

Ou: quero sim. Embora se chame Valesca, para a sociedade ela ainda é a mulher submissa que só pode responder “sim” - daí o apelido.

Ai, ai que vontade louca
Difícil de controlar

Peço que ignore esses versos caso não tenha lido O Vermelho e o Negro, de Stendhal. Pouparei o leitor de spoilers.

Tô tô tô tô tô tô tô tô

Perceba como a repetição da sílaba cria uma linha melódica como se fosse o eco de uma martelada, de um som metálico. Nota-se a sugestão de fábrica, de processo industrial. Difícil não pensar em Pierre Schaeffer, Stockhausen e outros compositores experimentais, pais da música eletrônica que conhecemos hoje.

Tô doidinha pra te dar

Aqui tem algo que me faz pensar. Que incidente teria levado Popozuda a ficar doidinha de uma hora para a outra? Esse incidente teria alguma relação com o homem casado? Ele tem filhos? Com quem ela está desabafando tudo isso? E por que quando a observamos de lado parece que ela vai tombar?

Quero te dar beijinhos

Talvez uma forma indireta de dizer “eu te amo” (ver Senhor dos Anéis).

Vem cá, vem cá, vem cá

É quase certo que Popozuda tenta incorporar aqui algo que remete às lendas folclóricas, talvez ao canto da sereia. O trecho final fica em suspenso. Nesse ponto talvez seja melhor o ouvinte se deixar levar pelo canto de Valesca.



O Neo-Cristão e o Neo-Próximo


Ontem presenciei um conhecido, não cristão, ser atacado de forma cruel por neo-cristãos, por que tem um pensamento político que difere do ódio destilado na mídia, e o que chamou minha atenção foi que os três que jogaram pedras, o fizeram em nome de um deus - não aquele que determinou apenas dois mandamentos para esta geração - Amar a Deus e Amar ao próximo, concomitantemente.

Lembrei de um fato ocorrido comigo, que marcou minha percepção com o neo-cristianismo. Uma conhecida postou uma série de denúncias graves contra políticos da esfera federal. 

Perguntei se aquelas denúncias tinham fonte ou fundamento, pois sendo ela uma pessoa que postava tanta Palavra Cristã, como poderia jogar pedras tão fortes sem fontes ou provas, e sem nem ao menos conhecer aquelas pessoas?

Eis que um amigo dela, que não conheço, saiu em sua defesa, me tratando da forma como foram agredidos os políticos. Havia fogo em suas palavras, ódio e desespero, só não havia fundamentação. Agrediu resguardado em um sentimento limitado, em nome de um deusinho destes que semeiam desavenças contra fieis de outras profissões de fé, por que aí não é pecado. Deve ter tido um orgasmo naquele dia. 

Até pensei em fazer uma defesa, em nome da Palavra e pela Palavra, mas vi que seria bobagem, algo como dar pérola aos porcos. Chafurdam no ódio e desde então os denomino de neo-cristãos.

Nada mais falso do que um neo-cristão. Visto assim de longe é um exemplo de ser humano. Entre seus pares é um apóstolo de Cristo, mas as evidências param aí. Estão se espalhando rapidamente por todo mundo, sem o menor constrangimento. São os fariseus do século XXI, dominando todos os meios de comunicação e de controle social.

Um neo-cristão frequenta a igreja, o templo, a missa, o culto, a cerimônia, o centro espírita, etc., como qualquer cristão. Fala de Jesus com uma intimidade contagiante, o conhece como poucos. Tem trechos de sua doutrina decorados, e se apresenta com supostas manifestações de fé.

Mas o que distingue um neo-cristão do Cristão? Primeiro nunca está só, anda em bandos organizados, têm medo de expor suas ideias em público e somente acessam informações que atendem aos seus desejos. Não suportam a contestação, adoram o poder absoluto e a sociedade dividida por castas dogmáticas. O ódio é patente, e há o nítido sentimento de desprezo e descaso para com o próximo. 

Sua fé possui sementes de diversas naturezas que desabrocham em ódio por diferentes formas, desde um simples boato a ações mais maquinadas, feitas nas sombras, para destruir alguém. O neo-cristão julga e condena todos e tudo que não faz parte do seu credo. 

Jogam pedras, jogam às feras, aos leões como ocorre  no linchamentos físicos e morais. Lembram-me as virgens  néscias do Evangelho de Mateus. Em tudo parecem com as Virgens que esperam e confiam no Senhor, mas na hora de confirmar a fé, fogem, pois não há substrato em seus sentimentos.

É isto aí!

domingo, 11 de maio de 2014

O Quiasma do Flavinho

Armandinho, como está chegando o ENEM e eu sei que você vai estar presente nas provas por que sua mãe me disse, eu quero marcar este encontro como se fosse um quiasma!
- Só um momentinho, dona Carminha, vou pegar papel e caneta. Pronto - Está aqui.

Mas o que é isto? Está de palhaçada agora?

- Não entendi. Não foi o que você pediu?

Armandinho, um cartão escrito Ponto de Quiasma, marcado com X em neon não é uma coisa normal.

- Ah, não é isto então...

Não é isto nem aquilo. Eu quero uma conjunção carnal.

- Agora, dona Carminha?

Não, idiota, sou mulher de esperar. E a propósito, para de me chamar de dona, pelo amor de Deus.

- Beleza então.

Beleza então o que?

- Parar de chamar a senhora de dona e esperar, pois você mesma falou que era mulher de esperar.

Armandinho, ou você vem me ter agora ou cale-se para sempre.

- Cálice? Para sempre? Como assim, dona, digo, Carminha?

Ahn? O que? Surtou? Está surdo?

- O cálice que você quer guardar para sempre nele o tal de quiasma, sei lá.

Nossa, como você é burro, só compensa por que você é muito gostoso, vai Armandinho, vem.

- Resolve, Carminha, é para ir ou vir?

Armandinho, olha para mim.

- Assim?

Isto, olha para mim, nos meus olhos. Não tira os olhos dos meus olhos e para de rir.

- Mas você está com uma cara muito engraçada.

Para de rir, Armandinho. Eu estou tremendo de raiva. Armandinho, fixa nos meus olhos enquanto vou tirando a sua roupa.

- Mas você falou que estava com asma e agora quer tirar a minha roupa?

Asma? Eu falei isto? Quando eu falei isto?

- Você disse sobre um tal de quiasma, sei lá, achei que ia ter um ataque.

Armandinho, um quiasma é um ponto de coito entre os cromatídeos, mediante a divisão celular. Ok? 
Lancei mão de uma analogia. Mas agora chega, tira a minha roupa, por que eu já tirei a sua.

- E que hora é para parar de olhar nos seus olhos?

Ai, Armandinho, presta atenção, a partir deste momento nós dois vamos ficar nus, deitados na cama, assistindo Dr. House na TV, ok?

- Aí disse tudo...

Ai, meu Deus, ou o meu processo seletivo está muito frágil, ou as opções de mercado estão cada vez mais ruins... não para Armandinho, não para ... a propósito, você já fez dezoito anos?

É isto aí!

sexta-feira, 9 de maio de 2014

No Divã da Pitangueira - Sonhos estranhos


Sabe, doutor, estou tendo sonhos estranhos. Na segunda-feira sai correndo nua pela calçada, aos gritos de "pega, pega". Uma multidão prontificou-se a acompanhar-me e uníssonos gritavam "pega, pega". Atravessei a avenida, subi a ladeira, desci na primeira à esquerda, cansada, suada e não conseguia mais alcançar meus ex-seguidores, que me ultrapassaram, aí cai em um buraco e desapareci.

Entendo, mas o que foi estranho?

Como assim? Ninguém me pegou, nada aconteceu, só passaram por mim. Eu  queria uma mão suada em minha pele nua, subindo e descendo aquela ladeira e nada aconteceu. Isto é estranho. Mas na terça-feira recebi a bola na intermediária do meu campo, dominei, corri com a equipe toda ao meu lado, os adversários estavam paralisados, só meus companheiros corriam ao meu lado. Eram todos homens, estavam nus e eu vestida de noiva, tocando a bola até o gol adversário. Quando cheguei, sozinha, sem nenhuma marcação, chutei para fora e um buraco enorme abriu, e foi por onde entrei ou caí, sei lá, e acordei na minha cama, sozinha e toda suada.

Interessante. Quer falar mais sobre isto?

Então, na quarta-feira...

Não quer voltar ao vestido de noiva e o buraco?

Sim, mas na quarta-feira estava dentro do banheiro, no final do corredor de um Boeing 747-8, a mais moderna aeronave comercial do mundo, com cerca de 450 passageiros, em uma viagem entre Fortaleza e Porto Alegre. Nisto um estridente alarme soou e fui chamada imediatamente à cabine. Saí correndo completamente nua, imensa de gorda, seios caídos, e só tinha mulher nas poltronas, histéricas, descompensadas, tipo assim.

Interessante, pode falar mais sobre isto?

Claro, pois me deu um ódio danado. Todas, inclusive mamãe e minhas duas irmãs, além de uma dúzia de primas estavam dando nota para mim em uma tabuleta e nenhuma foi maior que três, fora as vaias. Cheguei à cabine e sob intensos protestos, gritaria, vaias, peguei o manche e pousei a aeronave em Caratinga. Fiquei arrasada com as notas ... 

E tinha algum buraco?

Buraco, não lembro, espere, engraçado, já que perguntou, a pista era em um enorme buraco. Mas o pior foi na quinta-feira, quando eu era uma abelha, não uma abelhinha, era uma abelha-rainha, gordíssima, comendo doces e favos até entupir a garganta, e não parava de comer. O salão da colmeia era lotada de zangões, mas nenhum deles queria nada comigo e como estava muito gorda, não conseguia apanhá-los. Tentei sair por um estreito buraco e acordei toda suada e chorando ou zumbindo, sei lá.

E a sexta-feira?

Pois é, então, sexta e sábado não sonho nada disto. O que eu tenho que fazer? Estou preocupada. 

Então; estar nu diante de alguém num sonho  não quer dizer que você seja secretamente uma exibicionista ou sedutora; provavelmente significa que você está sendo aberta e vulnerável, sendo você mesma sem máscara, proteção ou condicionalismos culturais. Mas como estes sonhos sempre referem-se à você mesma, pode significar que perdeu ou sente falta de alguma qualidade que é auto representada. 

Eu sempre peço aos meus pacientes que geralmente nestes sonhos recorrentes de fuga, voos, quedas em buracos ou abismos, recolham os elementos que, ainda que pareçam insignificantes ou incongruentes com o resto do sonho, a fazem individualizar o nó de onde nasce o sonho e o caminho da auto-descoberta e das futuras mudanças da própria interioridade. 

Mas no seu caso, o que acho mesmo é que esta mania de começar a louca dieta mágica para emagrecer nas segundas-feiras e abandoná-las na sexta ainda é a maior causa destas suas experiências oníricas ...

É isto aí!

quinta-feira, 8 de maio de 2014

A semente do ódio

Tem hora que dá uma vontade danada de falar de política, mas as coisas estão em um processo, em escala mundial, assustador. Na primeira fase deste blog, quando iniciei, fui mais ousado, mais tocado as estas questões, denúncias e críticas. Um dia cansei daquilo tudo. Parti para escrever coisas que fazem a vida mais engraçada.

Porém a palavra da moda é "Ódio". Como sobra ódio na mídia e nas redes sociais - é impressionante. Dia destes um articulista/cineasta da campeã de audiência, publicou no jornal do maior grupo de imprensa falada/escrita/televisiva da nação, que tudo de errado no Brasil é culpa do PT, inclusive o assassinato de uma criança de onze anos no RS pela madrasta é culpa do PT. Bem, nunca até então tinha lido nada tão odioso.

Tenho amigos do PSDB que têm nojo do PT e amigos do PT que têm nojo do PSDB. Não era para ser assim - a relação teria que ser democrática. Políticos que roubam devem ser presos - cadeia neles, sem dó, além disto não existem só desonestos nos dois maiores partidos do país. Existem pessoas do bem, que acreditam no que defendem.

O que a mídia mais faz é propagar o ódio. E as redes sociais cuidam de propagá-las por capilaridade. Não precisa ser especialista em nada para saber. Pessoas boas passaram a deter ódio por outras pessoas e coisas. Isto não ocorria. Idosos e adolescentes da minha esfera de relacionamento, familiares, gente da mais íntima e pessoal relação agora têm ódio. Enfim, a semente foi plantada e dividiu o país. 

Quem ganha com isto? Pense bem antes de responder. 

Com certeza, você que lê este texto sabe que existem no seu círculo de amizade pessoas que odeiam:

- pentecostais.
- espíritas e todas as doutrinas espirituais/espiritualistas.
- católicos.
- protestantes.
- neo-pentecostais da prosperidade.
- renovação carismática.
- judeus, árabes, russos e asiáticos.
- policiais.
- políticos.
- moradores de rua.
- gays, lésbicas e simpatizantes.
- negros, mulatos, pardos, mamelucos e índios.
- presidiários.
- porteiros, empregadas domesticas, babás, diaristas.
- nordestinos.
- futebol, carnaval, páscoa, datas comemorativas, aniversários.
- etc (infelizmente a lista é extensa)

E incrível, são todas pessoas boas, que amam sua família, trabalham honestamente, mas adoecem pelo ódio que pretende fazer deste país um quintal de luxo da nova ordem que está aí.

Eu queria ter falado do Jair Rodrigues, mas este ódio de brasileiros contra brasileiros está levando o Brasil a um estágio que agradará apenas aos que não querem fazer deste país uma grande nação.

É isto aí!


Pessoas


quarta-feira, 7 de maio de 2014

As Copas e Juras de Carminha

Diga, quer dizer, me explique, Carminha, por que você não gosta de Copa do Mundo?

Bem Armandinho, vou tentar te explicar:

Era 1970, a Copa do Mundo era o máximo. Tinha uma TV Colorado RQ na sala da minha casa. Eu tinha dezesseis anos. Lembro que naquele dia cheguei alegre, acompanhada de Betão, um amigo de escola.

Conversávamos animadamente na sala, ouvindo um long-play na velha e boa eletrola Philips, esperando o horário do jogo, quando mamãe entrou, viu meu olhar preso ao dele e desmaiou em lenta e contínua queda, surpreendentemente evitando a quina da mesa e desviando de uma banqueta.

Levei-a ao hospital em pânico, e ali jurara no seu leito de morte que seria virgem para sempre. Esta seria a maior promessa de negociação que já fizera com os céus, se não fosse o fato de mamãe não ter morrido nem naqueles dias, nem nestes quarenta e quatro anos que se seguiram.

Aos vinte anos, em 1974, assistindo ao jogo da Copa do Mundo, em uma enorme e colorida TV Telefunken, ao lado de Kaká, um gato da faculdade, nós dois no maior clima de carrossel holandês, mamãe nos flagrou em delito de amor, levou as mãos ao pescoço, sentindo-se sufocada, iniciou uma tosse irritante, e em um frenético acesso, caiu na poltrona, de braços, olhos e boca abertos. Corri com ela para o hospital, e desta vez achei que ia morrer de verdade e jurei nunca mais chegar perto de uma laranja mecânica. Ficou muda desde então.

Aos vinte e quatro anos, em 1978, enquanto o caldo fervia na Copa do Mundo, Juan, um elegante argentino que residia duas quadras abaixo, levou-me para assistir "A Dama do Lotação", e já em casa, na volta mostrava-me as qualidades do churrasco dos pampas de uma forma incontestável. Mamãe chegou na área de serviço no momento que eu, me sentindo tocada pelo clima, incorporava o desejo da Sônia Braga. Levou as mãos ao peito, deu um gemido estarrecedor, caiu lentamente ao lado do tanque e ficou paralítica.

Chegou ao hospital ainda desacordada. Ali tive a certeza de que iria morrer de verdade e jurei nunca mais pegar em uma picanha portenha  e muito menos torcer para a Argentina. 

Aos vinte e oito anos, já no exercício legal da profissão na qual graduei, na Copa de 1982, encantei-me pelo quadrado mágico de Telê, um pretinho charmoso que trabalhava na mesma empresa, e o "quadrado mágico" nada mais era do que seu recanto do amor total - um quarto e sala no centro. Até hoje não sei como, mas mamãe muda e paralítica bateu na porta do apartamento, e me senti como o Brasil perdendo para a Itália. Sentada na cadeira de rodas, fez vômitos intermináveis e desmaiou, desta vez já sentada. Voltamos para casa e jurei nunca mais acreditar em quadrado mágico, penetração dupla pelos flancos, falsos pontas muito menos em seleção dos sonhos.

Aos trinta e dois anos, durante a pouco inspirada Copa de 1986, enquanto a insossa seleção da Pré-Era Dunga arrastava-se em campo na velha e boa Philips, estava numa sessão psico-social com o Juvenal, um discreto analista - formado no Colégio Oficial dos Analistas da Pitangueira - que imprimia zangado suas impressões digitais em meu expansivo psicodrama carnal. Inexplicavelmente mamãe chegou na sala batendo um irritante pandeiro, sentada em sua cadeira de rodas, muda e paralítica, com aquele olhar de censura crônica, em estado de ódio e desespero.

Juvenal saltou do sofá, em rudimentar vestimenta adâmica, aproximou-se dela, olhou-a com firmeza psicoativa e meteu-lhe um pescoção espalmado no pé do ouvido, que a atirou ao chão em épica queda. Mamãe, por milagre divino, levantou-se agilmente e aos gritos voou na jugular de Juvenal com tal ira, que achei que iria trucidá-lo ali só com as unhas.

Engalfinharam em uma luta de titãs em fúria, quebrando tudo que podia ser quebrado na sala, com estalos, urros e gemidos, só apaziguados por uma imobilização feita pelo Juvenal, que depois vim a saber era um Hara Gatame, do caratê.

Desde então mamãe passou a ter uma sessão por semana com ele, mas exigiu um tatame no consultório, e a partir daí as copas perderam um pouco o sentido para mim, sabe, sei lá, desde então fiquei sempre com aquela estranha sensação de estar faltando alguma coisa nelas.

É isto aí!

terça-feira, 6 de maio de 2014

A professora novata


Atenção para a chamada. Levantem a mão para que possa ir identificando vocês.

Aline, ..., Júlia, ..., Leviederson Júnior ..., Leviederson - quem é o Leviederson?

- Aqui, professora.

Acho que conheço seu pai. Ele não é o Dersinho dos Móveis?

- Ele mesmo, professora.

Olha só, que coincidência bacana. Fomos colegas de faculdade. Ele tinha o apelido de Isca.

- Isca? Nunca ouvi falar, professora.

Não? Eu que coloquei este apelido nele - por que era pequeno e mole.

- Não entendi, professora.

Deixa prá lá, fala prá ele que a Musa dá aula prá você.

Papai, papai, tem uma professora que disse que te conhece. Ela te chamou de Isca e falou que se chama Musa.

- Mas que filha da p... ah! A Hangar então é a sua professora. Beleza.

Hangar, pai? Como assim?

- Tem espaço até prá Boeing de tão grande é a entrada e larga que é a saída..

- E aí, Leviederson, falou com o Isca?

Falei, mas ele disse que não sabia nada de Musa, mas se lembra da Hangar.

- Mas que vea... ah! Claro, era assim que a sua avó era conhecida. Dê um abraço nela por mim. E dê um abraço na Butantã? Está bem?

Butantã?

- É como sua mãe era chamada - apelido carinhoso que coloquei nela.

Mamãe, mamãe, tem uma professora que te conhece. Ela te chamou de Butantã e a vovó de Hangar.

- Ah! Aquela pu... ah, sei! Eu sei quem é. É a Musa, não é?

Ela mesmo, como você sabe, mãe?

- Por que ela era a Musa dos Rapazinhos Alegres, entre eles era chamada de Cometa, só vinha de rabo.

Professora, minha mãe falou que você era a Musa dos Cometas, acho que é isto.

- Olha só, a prost... a sua mãe aprendeu a falar palavras difíceis. Que bacana. Fala com ela que vamos fazer um trabalho sobre cascavel e ela seria muito importante na elaboração do projeto. Poderia até doar material para o trabalho. E o seu pai, como ele esconde cobra, a gente pensa em outras experiências.

Papai, mamãe, a professora falou que o papai esconde a cobra da mamãe, que serve para doar material para um trabalho na escola.

- Olá Leviederson, como estão seus pais? Mandaram algum recado especial?

Olha só professora, só concordaram em um termo - o meu pai falou que você é uma puta safada, minha mãe falou que você é safada de uma lésbica e minha avó falou que você é travesti bem safada, então como não chegaram a um acordo de gênero, hoje não tem recado.

E foi assim, sem entender nada, que eu fiquei de castigo depois da aula, cheguei em casa e apanhei do meu pai, minha mãe me colocou de castigo outra vez e minha avó lavou minha boca com sabão, ah, também mudei de escola...

É isto aí!

domingo, 4 de maio de 2014

No divã da Pitangueira - A vaca!


É tanta coisa, que nem sei mais por onde começar.

- Comece de algum ponto, marcante, determinante, que a trouxe aqui.
Não há um ponto específico. Beto já estava esquisito, estranho, sei lá. Começou a acordar com o despertador à três horas da manhã e me possuía de uma forma mais forte, digamos assim.


- Com violência?
É, um pouco. No princípio eu não gostava muito, mas com o passar do tempo a força foi ganhando elementos potencializadores, estimulantes, plug vibrador rotativo, anéis, e uma série de coisas outras, e uau, ficou indescritível.

- Com a sua permissão?
Sim, sempre, era cada vez mais tenso e ... gostoso ...

- Prossiga
Aí começaram os fetiches. Pediu que eu fantasiasse de palhaça. Vesti a fantasia, e pela primeira vez não fizemos nada. Ficou um tempão parado, olhando para mim, olhos fixos nos detalhes da fantasia, e... chorou.

- Conversaram sobre isto?
Não, achei que poderia ser apenas uma coincidência, e aí continuou pedindo outras fantasias básicas - secretária, ascensorista, bailarina, e eu adorava. Mas um dia pediu para que eu vestisse de costureira, e eu achei aquilo muito estranho.

- Como é isto?
Cabelo preso, sutiã largo, vestido com a cintura bem marcada, e grandes bolsos, fita métrica no pescoço, espuma em pulseira no punho esquerdo, sapato fechado. Mas chorou de novo. Fiquei arrasada. Achei que era comigo.

- E que havia de estranho?
Bem, o pai dele tinha sido palhaço de circo quando solteiro, e conheceu a mãe que era costureira, foi quando abandonou a vida circense e virou balconista de farmácia. Sabe, achei tudo esquisito.

- Humm, interessante. Sei, e aí?
Ficamos uma semana sem nada. Voltamos aos encontros das três horas, sempre com toques e retoques físicos e mecânicos, se me entende. Eram fantásticos, muita energia, muita agitação, tudo era frenético.

- Entendo, pode prosseguir.
Foi aí que um dia chegou em casa puxando uma... uma... meu Deus, nem consigo falar... desculpe, mas o choro é incontrolável...

- (silêncio)
Desculpa, mas não consigo parar de chorar... ele... ele.. trouxe uma... uma... puxa vida... como explicar isto?

- Trouxe exatamente o que para dentro de casa?
Uma vaca (choro). Ele trouxe uma vaca... (choros, gemidos e soluço)

- Uma vaca? Como assim? De plástico, inflável, de papelão, um painel?
Não, uma vaca de verdade, com chifre, sinete, peito farto e gorda, muito gorda.

- Sério?
Por que brincaria com isto? Era uma vaca e sabe o nome daquela vaca? Sabe o nome dela?

- (silêncio)
Catarina, o nome da vaca era Catarina.

- E este nome é importante para vocês? Fale mais sobre isto.
É a mãe dele que chama Catarina, ele chamava a vaca de mãe e queria que ela participasse da nossa rotina das três horas da manhã. Não aceitei nos primeiros dias, mas acabei cedendo, desde que ela ficasse só olhando. Mas a Catarina, digo, a vaca ficava lá me analisando, conferindo meus movimentos, mugindo e reprovando minhas atitudes, até que... até que... oh, meu Deus... por que? por que?... desculpe as lágrimas...

-  (silêncio)
Até que ele começou a insistir comigo de que aquela vaca deveria estar entre nós, na cama...

- E você?
Aí não aguentei, bati o pé, gritei, enlouqueci...

- E ele? falou alguma coisa?
Ficou com a vaca e me expulsou de casa...

É isto aí!  
  

sábado, 3 de maio de 2014

Julinha


Lavinia Teresa era uma mulher linda e triste. Quando começou a frequentar as sessões de análise da Pitangueira, ficou semanas muda, até que começou a falar de Carlos Heitor.

A questão era que Carlos Heitor começou a ficar meio esquisito, fazendo coisas que nunca fizera. Conversava sozinho em demasia, escrevia poesias secretas, suspirava pelos cantos da casa, enfim, havia algo ali. Não engordou, nem emagreceu, não mudou de emprego, nem de carro, mas estava diferente.

Lavinia Teresa, a fiel esposa andava preocupada. Fiscalizava suas roupas, desde o cheiro até supostos bilhetes, nada de errado. Via e revia o histórico do seu notebook, buscava seu perfil nas redes sociais e nada. Mas algo estava errado.

Contratou um detetive para segui-lo, contratou uma moça para assediá-lo, enviou-lhe cartas românticas anônimas, perfumadas e com marcas de batom. Nada ocorria. Carlos Heitor continuava com aquele sorriso irônico, o olhar distante e claro, meio esquisito.

Na certeza de que ainda conseguiria algo, trouxe a sua mãe para dentro de casa, que em épocas anteriores, motivava tensos diálogos com o genro. Nada aconteceu. Passou a andar nua nos aposentos. Passou a desligar a televisão quando ele estava na sala. Passou a queimar a comida e nada.

Na realidade, se é que existe uma realidade, Carlos Heitor era fruto da imaginação de Lavinia Teresa. Isto por si só já seria um fato preocupante, mas Lavinia Teresa era personagem real da imaginação de Martha Gomes. Martha foi a maior e melhor amante de Francisco Carlos, em seus delírios virtuais - nunca existiu uma mulher como Martha, dizia.

A primeira vez que Julinha encontrou com Francisco Carlos, foi em uma experiência neuro-sensorial inesquecível. Vítima da violência doméstica, entrou por uma porta do cérebro, onde o mundo perfeito não deveria existir, todos eram projeções de todos, sem violência e sem amor, mas em paz. Carlos Heitor desequilibrou este mundo, com um sentimento que não conhecia - a estranha e exótica felicidade.

É isto aí!

quinta-feira, 1 de maio de 2014

No divã da Pitangueira - o iPhone

Belinha tinha uma paixão que mais parecia uma doença neuro-degenerativa, destas que provocam o declínio das funções intelectuais, reduzindo as capacidades de trabalho e relação social e interferindo no comportamento e na personalidade dos amantes.

Desde quando tem isto, Belinha?

Desde o início de mim, acho, por que está dentro de mim. Não me vejo neurótica, apenas contemplo toda minha jornada, de maneira única. Eu li numa revista, sabe, que disse que eu tinha um tal de amor patológico, só por que dizem que sou dependente dele, 

E você tem obsessão por ele?

Não dá para negar, chega a um ponto que o amor ficou obcecado e euzinha deixei a minha vida para viver a dele.

E os amigos? A família?

Deixei os amigos, e ele ocupa mais espaço do que a minha família, o trabalho e outros afazeres, 

Entendo. Tem medo de perdê-lo?

Um medo incontrolável.

Belinha, não há um quadro instalado de depressão, fobias - como a síndrome do pânico - e ansiedade. É só uma dependência mesmo, que é possível de tratar se você concordar em ter uma mudança de atitude. Está disposta a acabar com este sofrimento? 

Ah, não... nada substitui meu iPhone 5s de 64 gb.

É isto aí!

quarta-feira, 30 de abril de 2014

A moça do Concurso Público

- Nossa, como você está gostosa!

Olha, para seu governo, "nossa" é pronome possessivo, mas você o utilizou como um pronome possessivo substituindo um substantivo, subentendendo que estou em sua percepção de  "gostosa", que sei que sou, mas não para seus desejos reprimidos.

- Mas o que é isto? Bebeu?

Mas que analfabeto funcional. Veja, "Isto" indica um ser que se encontra junto ou perto do emissor, que no caso é você, e com certeza não estou perto nem pretendo estar. O correto neste caso é "Isso", que indica um ser que se encontra junto ou perto do receptor, que sou euzinha. Portanto, nada de intimidades, entendeu?

- Caramba, você é completamente maluca.

Caramba é uma expressão de interjeição que pode significar admiração ou surpresa, e não sei se você entende a diferença entre estas palavras. Além disto, o sufixo -mente, do latim vulgar mens significa "Alma", de maneira que uma alma completa maluca não é uma expressão inteligente.

- Olha só, veja bem, enchi, acabou, vou embora, adeus, até nunca mais outra vez.

Que frase péssima, muitas pausas, e erros crassos. Comecemos pelo Olha só - isto é uma explicação do que é percebido a partir de um ângulo de visão. Caso você tenha a intenção de determinar que eu perceba algo, use o imperativo - Olhe só, entendeu?.

- Adeus!

Espera... espera... gostei do seu "Adeus", foi denso, intenso, fica... Volta aqui... volta...

- Só depois de você passar no concurso. Enquanto isto, adeus!

É isto aí!

terça-feira, 29 de abril de 2014

O menino virado e o compadre Nestor

Tiãozinho foi o primeiro e único namorado de Maria das Dores, a Dasdô. Casaram muito novos e foram morar em um sobrado do pai dele, sem laje, com forro de esteira nos cômodos e telha de coxa, do tempo da escravatura.

A sala e cozinha enormes e quartos pequenos era padrão comum na arquitetura local. A residência era vizinha da propriedade do compadre Nestor, pai de Cacá, de quem batizaram quando ainda namoravam.

Naquela manhã fria, Tiãozinho e Dasdô sairam cedo da roça e foram ao Posto de Saúde, na cidade, para entregar os exames que o médico pedira. Examinou cuidadosamente a parturiente, olhou o ultrassom, deu uma conferida no hemograma, aferiu a pressão, etc..

- E aí, dotô? O neném está bem?
- Dona Maria, está bem, mas estamos na 30ª semana e ainda não virou. A complicação é que a senhora é nulípara, e isto deve ser acompanhado mais de perto.

- Ai meu Jesuscristinho, valei-me.. é grave dotô esta tal de nulipa? Nossinhora! Guardô o nome, Tiãozinho? A tal de nulipa...

- Nulípara, dona Maria, mas não se preocupe, quando entrar em trabalho de parto nos procure. Vai dar tudo certo.

Dasdô entrou em trabalho de parto às onze horas, em casa, num dia de chuva torrencial. Ponte bloqueada, árvores na estrada, enfim, nada passava. Casal novo, inexperiente, Tiãozinho correu na casa do vizinho, compadre Nestor, para ir buscar Zeferina, parteira das antigas do vilarejo.

Quando Zeferina chegou, lá pelas três horas da tarde, com chuva que não acabava mais, trazendo seus apetrechos de parto, a sala já estava tomada de rezadeiras, todas de véu, entoando cânticos religiosos.

...os anjos, todos os anjos, louvem a Deus para sempre amém...

Zefa entrou no quarto e viu Dasdô transtornada, chorando muito, olhos arregalados. Ai, Zefa, vou morrer, o dotô falou que tenho uma tal de nulípa dentro de mim... vou morrer Zefa... e gritava... gritava... salva a criança Zefa... e gritava mais ainda...

 ...tão sublime sacramento, adoremos neste altar, pois o antigo testamento, deu ao novo seu lugar...

Seis horas da tarde - olha Dasdô, com esta chuva não tem jeito de te levar a lugar algum, o neném está sentado e ainda tem esta coisa de você está com esta nulípa aí dentro, vou tentar desvirar o menino...

...ave, ave, ave maria... ave ave, ave maria

A cantoria não parava, as mulheres choravam, rezavam , conversavam e entoavam os hinos tudo ao mesmo tempo. Na cozinha os homens fumavam, bebiam, falavam sobre futebol, roçado, vacada e política. Meia-noite e Dasdô começa a perder as forças, quer desmaiar, tem sono, e ao mesmo tempo grita de dor em desespero - vou morrer.. vou morrer...

Faz um pedido prá Nossa Senhora, Dasdô, faz uma promessa, prá modo de desvirar a criança, gritava Zefa.

... eu te louvarei, Senhor, de todo o meu coração...

Faz o pedido, Dasdô, faz uma promessa agora, prá Deus tirar esta tal de nulipa de dentro de você e salvar a criança.

Ai, meu Deus, eu faço, eu peço, eu prometo...

Silêncio total na casa, parou tudo. Só o barulho da chuva fraquinha...

Aos gritos, Dasdô promete: Ai Jesus, se eu sair desta, prometo que nunca mais deito com o compadre Nestor...

O menino virou na hora, desceu que nem quiabo.

É isto aí!

Memorial do Decálogo do Puxa - Saco


01 - Todo puxa-saco é egoísta
02 - Todo puxa-saco é mal amado.
03 - Todo puxa-saco é mau.
04 - Todo puxa-saco tem perversões secretas.
05 - Todo puxa-saco tem conflitos de personalidade.
06 - Todo puxa-saco é invejoso.
07 - Todo puxa-saco tem salário melhor que o seu.
08 - Todo puxa-saco só anda limpinho.
09 - Todo puxa-saco é masoquista.
10 - Todo puxa-saco não morre tão cedo.

É isto aí!

Todo racista é um idiota


Todo racista 
é um idiota
não é a cor da pele
não é a questão do amor
ao próximo e ao outro
é algo mais profundo
algo que falta ao racista
e que tem na outra parte
não importa o lado

todo racista é mau
somos todos
uma só raça
Neandertal

Eretus
sapiens
mulatos
negros
morenos
brancos
albinos
índios
pardos
mamelucos
tudo é só um nome

uma referência
uma identificação cultural
regional, tribal,
tudo é uma só pessoa
gerando outra pessoa
outra pessoa
outra pessoa
outra pessoa
Neandertal

Eretus
sapiens
mulatos
negros
morenos
brancos
albinos
índios
pardos
mamelucos
etecetera e tal


É isto aí!



Celeste apressadinha

As três chegaram juntas à entrevista de emprego, agendada rigorosamente para as 14 horas. Pontualmente a recepcionista solicitou que assinassem um Livro de Registro de Presença, onde constava seus nomes, já impressos em etiqueta adesiva.

Checou calmamente os documentos solicitados, ficou com as fotocópias devidamente rubricadas, devolveu os originais conferidos, em envelope impresso da Companhia, e abriu o acesso para um extenso corredor. Apontou para a terceira porta da esquerda, onde deveriam aguardar novas instruções.

Celeste empurrou as duas, apressou o passo, chegou na frente da porta, rodou a maçaneta e... estava trancada. Tentou abrir novamente, bateu na porta, aguardou ansiosa, bateu de novo. Que coisa! Voltou imediatamente à recepção, que estava vazia. Quando retornou ao corredor, também estava vazio. Correu em direção à porta indicada - trancada. 

Desesperou-se. Bateu, chamou, bateu mais forte, chamou mais alto, tornou a bater com maior intensidade, gritou para abrirem. A terceira porta da direita abriu, voltou-se em desespero. Surgiu uma moça em elegante uniforme azul marinho que indagou-lhe com os olhos. Explicou os motivos aos gritos. A moça balançou a cabeça de forma negativa e tornou a fechar a porta. Celeste correu em sua direção - já estava trancada. Começou a chorar.

Tentou a segunda porta - trancada. Tentou a primeira porta da direita - aberta. Com a força que impulsionou a maçaneta, perdeu o equilíbrio, torceu o pé, quebrou o salto de dez centímetro e caiu de joelhos na sala. Ao levantar-se, bateu violentamente com a cabeça na quina de uma mesa, desmanchando o penteado, e tornou a ir de encontro ao piso. Arrastou-se contorcendo em dor no tornozelo pela torção, nos joelhos pela queda e na cabeça pelo impacto com a mesa, até sentar-se no chão, encostada na parede. Ainda sem fôlego, juntou os documentos espalhados, tirou os sapatos e colocou-os na bolsa.

Percebeu que rasgara a meia, muito cara, que comprara especialmente para a ocasião. Olhou, não viu ninguém, e começou a se desfazer da peça. Quando estava com ela já no meio das coxas, viu os seus óculos cuja armação importada custara seu acerto do emprego anterior, caído sob a mesa. Curvou-se para apanhá-lo e neste intervalo, a porta se abriu e entraram dois cavalheiros finamente trajados. 

Celeste levantou-se descabelada, olhou para um lado, olhou para o outro... gente, eu podia jurar que o banheiro feminino era aqui, e saiu correndo, desesperada, mancando, meia-calça semi abaixada com a parte de trás da saia presa por dentro, descalça e com a visão turva. Sumiu para nunca mais voltar.

É isto aí!

  

segunda-feira, 28 de abril de 2014

O método Glover


Celinha Francis havia se formado em Ciências Contábeis e a vida não estava fácil para ela. Não que a profissão fosse ruim, mas sua intimidade com a matemática financeira era desgastante. Reduzia sua libido, multiplicava suas neuroses, dividia seus sonhos e somava aos seus problemas. Resolveu procurar ajuda. Uma amiga indicou-lhe a Dra. Leda, uma das pessoas mais sublimes e capacitadas do país, segundo informação panfletária.

Conseguir uma orientação vocacional espiritual com Lêda Glover não foi fácil. A profissional tinha de lista de espera e lista da lista de espera para noventa dias. No painel da recepção da clínica quadros pendurados na parede indicavam formação como espiritualista, taróloga, astróloga, quiromante, naturista, sexóloga, e num quadro maior a informação de que era analista transcendental pelo método Glover.

Esperou ansiosamente por cento e dois dias. Na data agendada estava lá, na sala de espera da clínica uma hora antes do horário marcado. Havia um sofá vermelho, outro azul, o piso branco, com um enorme e macio tapete branco. O teto e lâmpadas embutidas em verde-água e as paredes em tons lilás, combinando com as molduras de paisagens florais.

Retirou os sapatos conforme solicitou a secretária e foi levada à ante-sala, toda em azul claro, com um enorme espelho no teto Aguardo por quinze minutos até que em silêncio total. Lêda Glover abriu a porta, e convidou-a a entrar no consultório. Era todo em amarelo-ouro, com desenhos e detalhes indianos. Na primeira consulta, segurando em suas mãos o tempo todo, apenas ouviu os reclames da cliente, que ficou três horas falando de si, sem perceber que o tempo passara.

Na segunda consulta, a secretária pediu para trocar sua roupa por um quimono curto, em tom pastel. Na ante-sala havia um closet enorme onde poderia ter privacidade. Achou aquilo normal. Leda Glover entrou na ante-sala. em impecável abaya branca, em renda persa, e a convidou a acompanha-la ao consultório..

Ficou em pé e depois deitada, enquanto a terapeuta promovia uma longa sessão de imposição trans-energética com as mãos, tateando suavemente por todo o seu corpo. Em seguida, abriu as cartas do Tarot, e não disse nada. Apanhou um mapa astrológico de dentro de um enorme envelope e o leu atentamente, enquanto com a mão esquerda dedilhava sobre a palma da mão direita da paciente. Ao término, ainda em silêncio, olhou de forma atenta para a sua mão, pegou uma lupa, passou traço por traço detalhadamente, pediu a mão esquerda, examinou-a também em minúcias, voltou à direita, tateou a palma e o dorso várias feitas, de forma leve e sensual..

Celinha estava aflita. Horas se passaram e o silêncio era perturbador. Leda levantou-se, abraçou-a com firmeza e delicadeza e mantiveram-se nesta posição por vários minutos. Sussurrou para retornar na semana seguinte, na devolutiva, quando receberia o laudo conclusivo para seus problemas.

Na terceira consulta, a secretária informou-lhe que devido aos resultados excelentes e impressionantes, a Doutora Glover optou diretamente pelo Método Glover de Análise Transcendental, sem precisar passar por exames complementares de apoio ao diagnóstico, coisa raríssima entre as pacientes. Pediu para trocar sua roupa por uma camisola vermelha, curta, de frente única, com duas saias, dando um efeito de movimento, em função ao laço frontal em seda vermelha. Achou sexy e nem um pouco estranho. 

Entrou na ante-sala e aguardou. Leda abriu a porta vestindo um Kaftan curto, de seda, com motivos florais, e a convidou a entrar. Foram intensas e inesquecíveis três horas de iniciação no Método Glover.

Desde então Celinha se encontrou como cidadã do mundo. Passou a ter Leda como mestre, que virou sua orientadora permanente para a nova formação profissional, devotada em uma carreira que estava escrita nas estrelas - Celinha a segunda analista transcendental pelo método Glover. 

É isto aí!


  
  

domingo, 27 de abril de 2014

Crise total


- Carlinhos, eu não vivo sem você!
- Morre então, uai!

- Adoro seu sotaque! Seu uai! Carlinhos, para com isto, sei que há um coração bom aí!

- Sabe? Como sabe se nunca procurou saber?

- Carlinhos, faço qualquer coisa para ficar comigo para sempre!

- Então faça.

- O que? Fazer o que?

- Qualquer coisa. Você não disse que faz qualquer coisa?

- Mas o que? Fala pelo amor de Deus.

- Se vira nos trinta neném, qualquer coisa.

Ela ligou o som, colocou o CD da Mc Anitta e dançou de um jeito... hummmm..

- Ah, não! Para! Sabe que não resisto. Para com isto...

- Ah, Carlinhos, é só um quadradinho de oito, vem...

- Caramba (suando)!!! É demais (babando)!! Tudo bem (gaguejando), não vou mais embora (jurando). Mas semana que vem (postergando), a gente volta a este assunto (mentindo).  

- ..."Prepara, se não tá mais a vontade sai por onde entrei, quando começo a dançar eu te enlouqueço, eu sei..."

É isto aí!