sexta-feira, 22 de maio de 2015

Contos do coração - Morrer de amor.


Não é fácil morrer de amor, pensou e não teve a coragem de dizer. Apenas a admirou ao longe, partindo em viagem única, sem adeus ou algo assim. Devia ter dito tudo, deveria tê-la beijado mais, abraçado mais, brigado mais, mas não fez nada além do que se faz quando se ama. A dor da ausência inclui esta solidão com sensação perpétua do vácuo, refletiu.

Voltou para a casa deserta e imensa, onde ecoavam soluços e lamentos. Não lembra como entrou, mas logo a viu e ela estava como uma coisa triste desmanchada no sofá. Aquilo era o que era - uma coisa triste, infinitamente triste. Esperou-a adormecer e também adormeceu ao seu lado, sentado ao chão, exausto e confuso.

Acordou sozinho, o dia já avançava. Dois anjos o espreitavam com a plácida ternura angelical. Saltou lépido e no súbito pôs-se em pé. Sentiu que deveria partir, mas seu coração, ah! seu coração. Olhou em lágrimas ao redor e seus olhos somente testemunharam a dor do vazio. Ao lado dos seres celestiais abriu-se um portal e nele apareceu o inesperado. Era ela e estava mais linda ainda, fazendo sinal para que se apressasse. Caminhou cambaleante pela luz e tomou-a pela eternidade. 

É isto aí!


quinta-feira, 21 de maio de 2015

A estalagem casamenteira

Deveria ser um final de semana de descanso e contemplação, mas a chuva, o frio e as condições da estrada inibiram turistas de ocupar uma estalagem no alto das montanhas. Somente duas pessoas solitárias conseguiram chegar na quinta à noite, e cada um seguiu imediatamente para o seu aposento.

Jerebinha, o hóspede do chalé 03 era viúvo, engenheiro e empresário, franzino, tímido e introspectivo. Naquela manhã subia a trilha de acesso à hospedaria depois de um breve circuito de meditação em silêncio, floresta e bichos. Ao chegar na estreita ponte que separava a civilização da natureza, a hóspede do chalé 05, com idade pelos 45 anos, de corpo bonito acima da linha de peso, rosto angelical e curvas excitantes bloqueava a passagem.

Morta! Ela está morta! Gritou lá da sala o estalajadeiro. 

A moça mesmo assim teve medo, pânico, horror, pavor ou alguma coisa entre uma crise nervosa e um processo histérico - mas eu tenho medo!!!

Não precisa se preocupar, pode passar, que não há como ela te fazer mal, tornou a gritar, agora com um tom entre irônico e irado.

Ela deu mais um passo e pronto, paralisou de vez. Travou todo o corpo, musculatura tesa, olhos estatelados, sudorese intensa e à sua frente uma ratazana de proporções felinas jazia no caminho, provavelmente intoxicada por venenos de combate aos da sua espécie.

Jerebinha deu mais uns passos e percebeu que deveria fazer algo pois estavam a uma altura de dois a três metros por sobre um riacho gelado, fundo e cristalino, e uma queda ali teria consequências de risco. Foi aproximando devagar, bem devagar, até chegar ao ponto entre a ratazana e a moça e chutou o corpo do animal para fora do caminho.

Então ela desmaiou, e ele ágil e educadamente inclinou-se a tempo de segurá-la para que não machucasse, e ai pode sentir sua pele macia, seu perfume delicado e a seda dos seus cabelos. A arrumadeira veio com um chá e ajudou a trazê-la até a varanda. Já acomodados no sofá, continuou a acalmá-la, segurá-la, foi então que a achou mais bonita ainda , gostou do contato e assim nasceu um grande amor.  

Na semana seguinte, Carminha chegou à hospedaria e ao chegar no balcão, "seu" Joãozinho olhou para ela e perguntou? E aí? Trouxe  a sua ratazana?

Claro, o senhor acha que eu ia esquecer?

Então se arruma, que o hóspede do Chalé 07 já deve estar voltando da caminhada...

É isto aí! 








terça-feira, 19 de maio de 2015

Os Blogs, a mídia e o ovo da serpente


Li nesta manhã que um jornalista/blogueiro* foi assassinado e decapitado no norte de Minas Gerais há três dias, segundo a polícia civil. O caso está sendo investigado. É muito triste.

Vivemos num mundo ainda a ser descoberto - a Internet, onde tudo que se posta é perpétuo, imutável. Fazer denúncia sobre crimes, lidar com denúncias como exploração de menores, tráfico humano de meninas, roubo em cofres públicos, etc. é bom, e sempre gera a exposição de fatos que cobram respostas do Poder Público, mas tem quem não acha que é tão bom assim. Este alguém (entre eles pode estar o possível gerador dos delitos), por sentir-se ameaçado pela exposição, talvez tome atitudes contra a integridade física ou moral do denunciante, para silenciá-lo por intimidação ou atos mais graves.

O blogueiro, em geral, está só. Não tem os recursos jurídicos da grande imprensa, não tem segurança pessoal nem sequer garantias de proteção. Escrever o que se pensa é experimentar a liberdade jornalistica, pode até gerar renda para sustento, mas temos que ter a certeza de que, nestes casos, toda ação gera sempre uma reação maior ou pior, sempre contrária ao denunciante.

Os dois texto abaixo não são meus, e serão mais um empecilho, em brevíssimo futuro, contra os blogueiros que fazem deste espaço seu meio de vida. Um foi criado pelos grandes jornais europeus e o outro foi uma resposta de neutralização deste ato pela gigante das comunicações mundiais. Então o caminho natural das coisas será sempre mudar tudo para que tudo permaneça sempre como está, como profetizou Lampedusa no clássico romance Il gattopardo sobre a decadência da aristocracia siciliana durante o Risorgimento.

I **Grandes jornais se unem e criam uma nova mídia:

Com o domínio das empresas de tecnologia, como: Facebook, Twitter, Google e Linkedin, surgem uma crise nos principais meios de comunicações jornalísticos, nos quais se sentem a mercê das políticas e estratégias dessas plataformas. Afirmando também que os jornais estão a cada dia perdendo força no mercado publicitário.

Para combater essa crise, foi criada uma estratégia que envolve os principais jornais do mundo, como: The Guardian, CNN Internacional, Financial Times, Reuters e The Economist.

Essa estratégia é a realização de uma aliança entre eles, com o propósito de posicionar melhor seus portais de noticia no mundo digital, e assim, se tornando mais relevantes na web. A rede é conhecida como Pangea, o mesmo nome que se dá a união geográfica de grandes continentes.

A plataforma possibilitará aos anunciantes que comprem espaço publicitário em todos os sites afiliados com apenas uma operação. O foco principal é atingir pessoas com poder de consumo maior, sendo que a maioria dos leitores dos jornais possui esse patamar.

A Pangea será lançada em abril, com uma versão beta. A equipe espera um aumento de até 20% nas vendas digitais. Hoje a Pangea, somando todos os portais afiliados, possui 110 milhões de leitores. A associação não quer parar por aí, pensam para os próximos meses integrar novos jornais, segundo Tim Gentry, diretor do Guardian News.

II *** A entrega da alma / Bruno Tortuga

Comercialmente talvez faça sentido o NYT e outros grandes veículos fornecerem conteúdo direto ao Facebook. Mas ao dar ainda mais força a essa rede social como o feixe central da troca e difusão de informação no mundo, podem não estar entrando no time vencedor, e sim chocando o ovo da serpente

Comercialmente talvez – nada mais que talvez – faça sentido o NYT e outros grandes veículos entrarem nessa de fornecer conteúdo direto ao Facebook (N.E. – ver aqui). Ainda espero os detalhes das condições e fontes de receita para os jornais para fazer um juízo menos precipitado.

Mas por enquanto me parece um erro grave.

Em parte entendo a capitulação. “Una-se a eles”, diz quem entende que já não pode vencê-los. Mas ao dar ainda mais força, consolidar ainda mais essa rede social como o feixe central da troca e difusão de informação no mundo, esses veículos podem não estar entrando no time vencedor. Mas chocando o ovo da serpente.

Porque para mim a arquitetura do Facebook é a exata corrosão de muitos fundamentos jornalísticos – justamente os que instituições como NYT e Guardian deveriam preservar – em prol de uma dinâmica que dissolve as barreiras do entretenimento e do jornalismo, da mera distração e da notícia, da relevância social e dos interesses estritamente pessoais.

E isso tem efeito especialmente nefasto, me parece, no papel mais importante do jornalismo. Que não é gerar audiência ou tráfego. Mas impacto. E é justamente isso que tenho sentido ultimamente. Um acelerado processo de erosão do impacto que o jornalismo causa na sociedade. E a ascensão do ruído, da falta de contexto, do buzz e da cultura de trends e hashtags como os maiores influenciadores da opinião pública. Isso muda a forma como público entende e consome jornalismo. E tende, a curto prazo, a transformar tudo nessa palavra leve, porém perigosa: conteúdo.

Claro que o processo é bem mais complexo do que isso. Mas o Facebook é protagonista nisso. E sua estrutura não indexada, sem mecanismo de busca, compulsiva e impermeável, tende a aprofundar esse cenário.

Claro que posso – e no fundo espero – estar errado. Mas ao abraçar o Facebook como parceiro, o NYT e grande elenco podem estar cometendo um erro equivalente, digamos, ao do PT dando os braços ao PMDB. Você pode até chamá-lo de parceiro. Mas quando você olhar pro lado… eles tomaram algo que não estava no contrato: a sua alma.

Fontes:

*** Sobre a entrega da alma dos grandes jornais:


quinta-feira, 14 de maio de 2015

Assunção da Virgem Maria - visões de Maria Valtorta


Visões de Maria Valtorta*

8 de dezembro 

Quantos dias se passaram? É difícil precisar. Se alguém julgasse pelas flores que formam a coroa em volta do corpo inerte, diria que se passaram apenas algumas horas. Porém se julgasse pelos ramos de oliveira sobre os quais as flores repousam, os ramos com as folhas já secas e por outras flores secas caídas como relíquias sobre a cobertura do esquife, poderia se concluir que alguns dias se passaram. 

Porém o corpo de Maria é exatamente o mesmo como se tivesse acabado de dar o último suspiro. Não há traço de morte na Sua face ou nas Suas pequeninas mãos. Não há nenhum odor desagradável no quarto. Ao contrário, um aroma indefinível como incenso, lírio, rosa, lírios do vale, ou ervas da montanha, se misturam e estão suspensos no ar. 

João, que não se sabe por quantos dias se manteve acordado, caiu no sono, vencido pelo cansaço, sentado num banquinho, seus ombros recostados à parede próxima a uma porta aberta que dá para o terraço. A luz da lamparina, que, do chão, ilumina-o, permite ver a sua face cansada, e também muito pálida, exceto a sombra avermelhada ao redor dos seus olhos, de tanto chorar. 

Já deve ser aurora, pois a luz pálida ilumina o terraço, e as oliveiras em volta da casa já são visíveis; uma luz que se torna cada vez mais forte e, penetrando pela porta, torna mais nítidos também os objetos do quarto, que, estando longe da lamparina, eram antes impossíveis de se visualizar. 

De repente, uma luz intensa enche o quarto, uma luz prateada com contorno azulado, quase fosfórica, se torna cada vez mais forte, fazendo desaparecer a aurora e a lamparina. Uma luz como aquela que inundou a Gruta em Belém, no momento da divina Natividade. Então, nesta luz paradisíaca, criaturas angelicais surgem, ainda mais brilhante, na luz já intensa que inundou o quarto. Como já acontecera quando os anjos apareceram para os pastores, uma dança de clarões de todas as matizes saem das suas asas e se movem suavemente, emitindo murmúrios harmoniosos, tão doces como se fossem tocados por uma harpa. 

As criaturas angelicais se posicionam em volta da pequena cama, se curvam diante dela, levantam o corpo imóvel e, batendo as asas mais vigorosamente, acentuando o som já existente, abrem uma passagem milagrosamente no teto, como abrira milagrosamente o Sepulcro de Jesus, e se elevam, levando o corpo da sua Rainha, o Santíssimo Corpo, é verdade, porém, ainda não glorificado, e, portanto, sujeito às leis da matéria, para as quais Cristo não era sujeito, pois Ele já estava glorificado quando ressuscitou dos mortos. O som produzido pelas asas angelicais aumenta, e agora é tão potente quanto o som de um órgão.

João, que, embora ainda adormecido, moveu-se duas ou três vezes sobre o seu banco, como se tivesse sido perturbado pela luz forte e pelo som das asas angelicais, desperta completamente por causa do som poderoso, e, também, por causa da forte corrente de ar que, descendo da abertura do teto e atravessando a porta aberta, forma um turbilhão que agita a colcha da cama, agora vazia, e a vestimenta de João, apagando a lamparina e fechando a porta com uma batida forte. 

O Apóstolo olha em volta, ainda meio sonolento, para reparar o que está acontecendo. Nota que a cama está vazia e que o teto está aberto. Entende que um acontecimento maravilhoso teve lugar. Sai para o terraço, e, como pelo instinto espiritual, ou por uma chamada celestial, levanta a sua cabeça, fazendo sombra com as mãos sobre os olhos, evitando o sol, a fim de ver, sem no entanto ser impedido de olhar para o sol nascente. 

E ele vê. Vê o corpo de Maria, ainda sem vida, como que adormecido, ascendendo cada vez mais alto, sustentado pelo grupo angelical. Como último gesto de adeus, as bainhas da manta e do véu são agitadas, provavelmente pelo vento causado pela rápida assunção e pelo movimento das asas angelicais; e algumas flores, aquelas que João colocou e renovou em volta do corpo de Maria, e que com certeza permaneceram entre as dobras do seu vestido, chovem sobre o terraço e sobre o chão do Getsêmani, enquanto a hosana potente do grupo angelical se move cada vez mais longe e se torna tênue. 

João continua a fitar aquele corpo que se eleva em direção ao Céu e, através, certamente, de um prodígio concedido a ele por Deus, para confortá-lo e compensá-lo por seu amor à sua Mãe adotiva, vê distintamente Maria, envolta agora pelos raios do sol já bem alto, aparecer da êxtase que separou a Sua alma do Seu corpo, e ressuscitar, colocar-se em pé, à medida que agora goza também dos dons típicos dos corpos já glorificados. 

João olha e vê. O milagre concedido a ele por Deus permite-lhe, contra todas as leis naturais, ver Maria como Ela é agora, enquanto ascende rapidamente ao Céu, cercada, porém agora não mais auxiliada pelos anjos que cantam hosanas. E João está extasiado pela visão da beleza que nenhuma pena do homem, a palavra humana, ou trabalho de artista poderá ser capaz de descrever ou reproduzir, porque é de uma beleza indescritível. 

João, ainda recostado contra a parede baixa do terraço, continua a fitar aquela forma brilhante e esplêndida de Deus - porque Maria pode realmente ser dita assim, formada de uma maneira única por Deus, Que desejou-A imaculada, para que Ela pudesse formar o Verbo Encarnado - enquanto ascende cada vez mais alto. E DDeus-Amor permite-lhe um último prodígio supremo para o Seu perfeito discípulo amoroso: ver o encontro da Mãe Santíssima com o Seu Filho Santíssimo, Que também esplêndido e reluzente, indescritivelmente belo, desce rapidamente do Céu, alcança a Sua Mãe, aperta-A no Seu coração e, juntos, mais brilhantes que dois astros do céu, dirigem-Se ao Céu de onde Ele veio. 

A visão de João terminou. Ele abaixa a sua cabeça. Sobre a sua face cansada, estão visíveis tanto a sua dor da perda de Maria quanto a sua alegria pelo Seu glorioso destino. Porém, agora a alegria excede a dor. 

Ele exclama: “Obrigado, Meu Deus! Obrigado! Eu previ que tudo isto ia acontecer. E queria estar acordado, a fim de não perder nenhum momento da Sua Assunção. Porém já não dormia há três dias! Sono, cansaço, junto com a dor, sobrevieram e derrotaram-me justamente quando a Sua Assunção era iminente... Porém, talvez Vós quisestes assim, ó Deus; para que eu não me afligisse naquele momento, nem que sofresse mais... Sim, Vós certamente assim desejáveis e agora, quisestes que eu visse aquilo que sem o Vosso milagre, não poderia ver. Permitistes vê-La novamente, embora já tão longe, já glorificada e gloriosa, porém, como se Ela estivesse perto de mim. E ver Jesus novamente! Oh! Visão felicíssima, inesperada e não aguardada! Ó dom dos dons de Deus-Jesus para com seu discípulo João! Graça Suprema! Ver Meu Mestre e Senhor novamente! Vê-Lo próximo à Sua Mãe! Ele como o sol, Ela como a lua, astros esplendorosos, pois estavam gloriosos e felizes por se reunirem para sempre! O que o Paraíso será agora que Vós brilhais nele, Seus maiores astros da Jerusalém celeste? Qual o júbilo dos coros angelicais e dos santos? É tal a alegria que a visão da Mãe com Seu Filho me concedeu, algo que cancela toda a dor Dele, todas as dores de Ambos, e mais, também a minha, e a paz me domina. Dos três milagres que pedi a Deus, dois se realizaram. Vi a vida retornar à Maria, e sinto a paz voltar para mim. Toda a minha angústia termina porque presenciei-Vos reunidos na glória. Obrigado por tudo isto, ó Deus. E obrigado por terdes feito tudo isto para que eu veja, mesmo para uma criatura santíssima, todavia ainda humana, aquilo que cabe aos santos, aquilo que acontecerá após o último julgamento, a ressurreição do corpo, a sua reincorporação, sua fusão com o seu espírito, que ascende ao Céu no momento da sua morte. Eu não precisava ver para crer. Pois sempre acreditei firmemente cada palavra do Mestre. Porém muitos duvidarão disto, após eras e milhares de anos, e a carne, que se tornará pó, é permitido tornar-se um corpo vivo. Serei capaz de dizer-lhes, jurando pelas coisas mais sublimes, que não apenas Cristo ressuscitou, pelo seu próprio poder divino, assim também a Sua Mãe, três dias após a Sua morte, se de morte isto pode ser chamado, ressuscitou, e com a Sua carne juntando-se à Sua alma, elevou-Se para a abóbada eterna do Céu, ao lado do Seu Filho. Serei capaz de dizer: “Creiam, ó Cristãos, nos corpos ressuscitados, no fim do tempo, e na vida eterna de almas e corpos, uma vida bem-aventurada de santos, e terrível para as pessoas culpadas, impiedosas e sem arrependimento. Creiam e vivam como santos, como viveram Jesus e Maria, a fim de adquirir o que Eles obtiveram. Vi Seus corpos ascenderem ao Céu. Posso testemunhá-los. Vivam como justos, para que um dia possam estar no mundo eterno, em corpo e alma, próximo ao Sol-Jesus, e Maria a Estrela de todas as estrelas.” Novamente obrigado ó Deus! Agora deixai-me juntar o que resta Dela. As flores caídas dos seus vestidos, os ramos da oliveira deixados na cama, e deixai-me preservá-los. Eles servirão... Sim, eles servirão para ajudar a confortar os meus irmãos, que tenho esperado em vão. Cedo ou tarde os encontrarei...” 

Ele recolhe as pétalas das flores que caíram do céu, volta ao quarto, segurando-as envoltas na sua túnica. Então olha mais cuidadosamente à abertura do teto e exclama: “Outro milagre! E outra proporção maravilhosa nos prodígios das vidas de Jesus e Maria! Ele, Deus, ascendeu por Si, e por Sua vontade deslocou a pedra da Sua Sepultura, e apenas com o seu próprio poder, ascendeu ao Céu. Por Si. Maria, a Mãe Santíssima, porém, filha de um homem, por meio do auxílio angelical, teve a sua passagem aberta para a Sua assunção para o Céu, e sempre através de auxílio angelical, foi assunta. No Cristo o espírito voltou a animar o Seu Corpo enquanto estava ainda na Terra, porque tinha de ser assim, para silenciar os Seus inimigos e para  confirmar todos os Seus seguidores na Sua Fé. Em Maria o espírito voltou ao Seu Santíssimo Corpo quando estava nos domínios do Paraíso, pois não havia outra necessidade para Ela. Poder perfeito da Sabedoria Infinita de Deus!...” 

João agora recolhe numa peça de pano, as flores e ramos que estavam ainda na pequena cama, ele adiciona a estes, o que havia recolhido fora, e coloca-os sobre a tampa do esquife. Então, abre-o e guarda o pequeno travesseiro de Maria e a colcha da pequena cama nela; desce à cozinha, junta outros utensílios usados por Ela - as agulhas, a roca para fiar, e os Seus utensílios da cozinha - e os acrescenta às outras coisas. 


Fecha  o esquife e senta-se no banquinho exclamando: “Agora tudo está consumado para mim também! Posso ir livremente onde quer que o Espírito de Deus me leve. Posso ir!  E semear a Palavra Divina que o Mestre me deu para que possa transmiti-la aos homens. E ensinar o Amor. Ensiná-lo para que eles possam crer no Amor e no seu poder. Fazê-los conhecer o que o Deus-Amor tem feito para os homens. O Seu Sacrifício e o Seu Sacramento e o Rito perpétuo, por meio do qual, até o fim dos tempos, seremos capazes de estarmos unidos ao Jesus Cristo na Eucaristia e renovar o Rito e o Sacrifício que Ele nos ordenou a levar adiante. Todos os dons do Amor perfeito! Fazê-los amar o Amor para que possam crer Nele, como nós verdadeira e sinceramente cremos. Semear o Amor para que a colheita seja abundante para o Senhor . O Amor alcança tudo, Maria disse-me na Sua última conversa comigo, aquele que Ela definiu justamente , no Colégio Apostólico como aquele que ama, aquele amoroso preeminente, o antítese de Iscariotes, que era ódio, como Pedro era impetuoso, e André brandura, os filhos de Alfeu, santidade e sabedoria combinadas à nobreza de caráter, e assim por diante. Eu, o discípulo que ama, agora que já não tenho nem o Mestre e nem a Mãe para amar na terra, sairei para espalhar o amor entre as nações. O Amor será a minha arma e a minha doutrina. E por meio dele derrotarei o demônio, o paganismo e conquistarei muitas almas. Assim continuarei o trabalho de Jesus e Maria Que eram o amor perfeito sobre a Terra.”

*  Sobre Maria Valtorta:

1.     Pe. Gabriel M. Roschini, Professor da Universidade Pontifical Laterana de Roma, Filósofo e Teólogo, um Mariologista de renome, declarou que “Maria Valtorta (1897 - 1961) de Viareggio, Itália é uma das 18 maiores personagens místicas de todos os tempos.”

2.     Monsenhor Ugo Latanzi, Diácono da Faculdade de Teologia da Universidade Pontifical Laterana, escreveu em 1951: “A autora... não poderia ter escrito tais materiais abundantes... sem estar sob influência do poder sobrenatural”.

3.     Monsenhor Alfonso Carinci, Secretário da Congregação dos Ritos Sagrados, afirmou em 1946: “Não há nada nela contrária ao Evangelho. Pelo contrário, este trabalho é um bom complemento do Evangelho, contribui para o melhor entendimento do seu significado... Os discursos do Nosso Senhor não contêm nada que seja contrária ao seu espírito.”

4.     O Papa Pio XII afirmou numa audiência particular em 1948: “Publique este trabalho como está... Quem o ler compreenderá.” (Osservatore Romano, 26 de Fev., 1948).

Maria Valtorta nasceu em Caserta no dia 14 de março de 1897, filha única de um Oficial da Cavalaria e de uma ex-professora de Frances, ambos lombardos. Criou e formou-se em várias cidades do norte (Faenza, Milão, Voghera) mostrando um caráter forte, ressaltados a capacidade humana e extraordinários dotes espirituais. Completou os seus estudos no prestigioso Colégio Bianconi de Monza.

Durante a Primeira Guerra Mundial foi enfermeira “samaritana” no Hospital Militar de Florença, cidade em que morou por muito tempo e onde foi marcada pelas provas mais duras, provocadas pela terrível mãe, que por duas vezes infligiu um seu legitimo sonho de amor, e por um subversivo, que pela rua lhe desferiu uma paulada nos rins. Recobrou-se, em parte, com umas férias de dois anos em Reggio Calábria, junto a parentes ricos e dedicados.

Em 1924 estabelecia-se com os pais em Viareggio, onde aplicou-se, na Paróquia, como delegada da cultura para os jovens de Ação Católica. No entanto, os seus sofrimentos aumentavam e a sua ascensão culminava em heróicas ofertas de si por amor a Deus e à humanidade. A sua verdadeira missão, aquela de escritora mística, amadureceu e desdobrou-se nos anos centrais da sua longa enfermidade, que a obrigou a estar de cama desde 1934 até à sua morte, ocorrida em Viareggio no dia 12 de outubro de 1961.

Em 1943, enferma há nove anos, Maria Valtorta aderiu a um pedido do confessor e escreveu a sua Autobiografia. Revelando o seu talento de escritora, preencheu, em um lance, sete cadernos para narrar sem reticências a própria vida, humana até à passionalidade, ascética até o heroísmo. Logo em seguida dava inicio a uma produção literária prodigiosa.

A maior obra de Maria Valtorta, publicada em 10 volumes, é O Evangelho como me foi revelado. Estando sentada no leito, Maria Valtorta escrevia de seu punho em cadernos comuns, de um lance, sem preparar esquemas nem corrigir. Freqüentemente alternava a versão dos episódios da obra maior com aquela de outros argumentos, que teriam depois dado corpo às obras menores. Estas últimas foram publicadas – além do volume da Autobiografia – em cinco volumes:

- três volumes de miscelânea intitulados Os cadernos (respectivamente dos anos de 1943,1944, 1945- 50);

- o volume intitulado Livro de Azaria;

- o volume das Lições sobre a Epístola de Paulo aos Romanos.
  
"O Evangelho como me foi revelado"
  
Narra o nascimento e a infância da Virgem Maria e do seu filho Jesus, os três anos da vida publica de Jesus (que constituem a parte mais ampla), a sua paixão, morte, ressurreição e ascensão, os primórdios da Igreja e a assunção de Maria. Literariamente elevada, a obra descreve paisagens, ambientes, pessoas, eventos, com a vivacidade de uma representação; apresenta carateres e situações com habilidade introspectiva; expõe alegrias e dramas com o sentimento de quem participa realmente; informa sobre características ambientais, costumes, ritos, culturas, com particulares irrepreensíveis. Através da aliciante narração da vida terrena do Redentor, especialmente com os discursos e os diálogos, a obra ilustra toda a doutrina do cristianismo segundo a ortodoxia católica. “Dons naturais e dons místicos harmoniosamente unidos – assim descreveu o Veneravel Gabriele M. Allegra, ilustre apreciador da obra valtortiana – explicam esta obra-prima da literatura religiosa italiana e talvez, deveria dizer, da literatura cristã mundial”.

Como adquirir a obra em Português:


É tempo de oração

Salmo 36 (37)


1. Não te irrites por causa dos que agem mal, nem invejes os que praticam a iniqüidade,

2. pois logo eles serão ceifados como a erva dos campos, e como a erva verde murcharão.

3. Espera no Senhor e faze o bem; habitarás a terra em plena segurança.

4. Põe tuas delícias no Senhor, e os desejos do teu coração ele atenderá.

5. Confia ao Senhor a tua sorte, espera nele, e ele agirá.

6. Como a luz, fará brilhar a tua justiça; e5 como o sol do meio-dia, o teu direito.

7. Em silêncio, abandona-te ao Senhor, põe tua esperança nele. Não invejes o que prospera em suas empresas, e leva a bom termo seus maus desígnios.

8. Guarda-te da ira, depõe o furor, não te exasperes, que será um mal,

9. porque os maus serão exterminados, mas os que esperam no Senhor possuirão a terra.

10. Mais um pouco e não existirá o ímpio; se olhares o seu lugar, não o acharás.

11. Quanto aos mansos, possuirão a terra, e nela gozarão de imensa paz.

12. O ímpio conspira contra o justo, e para ele range os seus dentes.

13. Mas o Senhor se ri dele, porque vê o destino que o espera.

14. Os maus empunham a espada e retesam o arco, para abater o pobre e miserável e liquidar os que vão no caminho reto.

15. Sua espada, porém, lhes traspassará o coração, e seus arcos serão partidos.

16. O pouco que o justo possui vale mais que a opulência dos ímpios;

17. porque os braços dos ímpios serão quebrados, mas os justos o Senhor sustenta.

18. O Senhor vela pela vida dos íntegros, e a herança deles será eterna.

19. Não serão confundidos no tempo da desgraça e nos dias de fome serão saciados.

20. Porém, os ímpios perecerão e os inimigos do Senhor fenecerão como o verde dos prados; desaparecerão como a fumaça.

21. O ímpio pede emprestado e não paga, enquanto o justo se compadece e dá,

22. porque aqueles que o Senhor abençoa possuirão a terra, mas os que ele amaldiçoa serão destruídos.

23. O Senhor torna firmes os passos do homem e aprova os seus caminhos.

24. Ainda que caia, não ficará prostrado, porque o Senhor o sustenta pela mão.

25. Fui jovem e já sou velho, mas jamais vi o justo abandonado, nem seus filhos a mendigar o pão.

26. Todos os dias empresta misericordiosamente, e abençoada é a sua posteridade.

27. Aparta-te do mal e faze o bem, para que permaneças para sempre,

28. porque o Senhor ama a justiça e não abandona os seus fiéis. Os ímpios serão destruídos, e a raça dos ímpios exterminada.

29. Os justos possuirão a terra, e a habitarão eternamente.

30. A boca do justo fala sabedoria e a sua língua exprime a justiça.

31. Em seu coração está gravada a lei de Deus; não vacilam os seus passos.

32. O ímpio espreita o justo, e procura como fazê-lo perecer.

33. Mas o Senhor não o abandonará em suas mãos e, quando for julgado, não o condenará.

34.Põe tu confiança no Senhor, e segue os seus caminhos. Ele te exaltará e possuirás a terra; a queda dos ímpios verás com alegria.

35. Vi o ímpio cheio de arrogância, a expandir-se com um cedro frondoso.

36. Apenas passei e já não existia; procurei-o por toda a parte e nem traço dele encontrei.

37. Observa o homem de bem, considera o justo, pois há prosperidade para o pacífico.

38. Os pecadores serão exterminados, a geração dos ímpios será extirpada.

39. Vem do Senhor a salvação dos justos, que é seu refúgio no tempo da provocação.

40. O Senhor os ajuda e liberta; arranca-os dos ímpios e os salva, porque se refugiam nele.

É isto aí!

terça-feira, 12 de maio de 2015

Depressão não é Tristeza

A depressão não é a mesma coisa que a Tristeza. Atinge todos os seres humanos - crianças, jovens, adultos e idosos. Ricos, pobres, trabalhadores, desempregados e estudantes. Negros, brancos, mulatos, pardos, amarelos. Orientais, Ocidentais, Meridionais e Setentrionais. Famosos e anônimos. Líderes e liderados. Médicos, advogados, engenheiros, mendigos, andarilhos, atletas, artistas, farmacêuticos, professores, técnicos, industriários, comerciários, donas de casa, domésticas, costureiras, cabeleireiras, manicures, psicólogos, assistentes sociais, poetas, aposentados, etc. Católicos, evangélicos, espíritas, ateus, muçulmanos, taoistas, sufistas, umbandistas, etc. Capitalistas, marxistas, socialistas, articulistas, jornalistas, colunistas, etc. 

Sempre existiu na vida humana, e só no final do século passado foi reconhecida como uma doença. Até hoje, muitas pessoas não recebem o tratamento adequado por ignorarem os sintomas ou simplesmente não saberem identificá-los. Um estudo feito a nível global apoiado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) revelou que, no Brasil, apenas 37% dos depressivos graves recebem algum tipo de tratamento, e que a maioria nem sabe da sua própria condição.

Existem dois tipos de depressão:

- A primeira é a reativa, que se manifesta devido a algum evento na vida do indivíduo que o deixou daquele jeito, como a perda de um ente querido ou de um emprego importante, e que eventualmente some de forma natural. 

- A segunda é a doença em si, que não tem causa aparente e não necessariamente é desencadeada por um acontecimento triste. É uma condição pré-existente no indivíduo, que se diferencia da melancolia por ser um quadro prolongado e que independe da iniciativa do paciente. O melancólico sabe que algo está errado e procura fazer alguma coisa para melhorar. A pessoa depressiva é tomada, é engolida pela doença.

A crise depressiva é um estado clínico, que vem em ondas que duram mais ou menos umas duas semanas em que a pessoa perde o interesse nas coisas que anteriormente fazia; sente-se ansioso, pode apresentar perda de apetite ou fome maior do que o normal, perda do interesse sexual que antes tinha e dificuldade com o sono, passando a acordar muito cedo. Começa a se amofinar, não consegue sair desse estado e isso o deixa angustiado e preocupado. Nos casos mais agravados, a pessoa não sai mais de casa, acorda com dificuldade, o dia para é sombrio, e o grau de angústia chega a tal ponto que ele pode chegar a desejar dar um fim em tudo.

Existem outras formas nas quais a doença pode se manifestar. Além da depressão menor e maior descritas acima, existe também a distimia, condição em que o paciente se mostra constantemente irritado, sentindo-se insatisfeito com tudo, mostra baixo rendimento no trabalho e permanece em um estado de inquietude e insatisfação. Sua autoestima fica muito baixa, pois sente que não consegue trabalhar direito, nem satisfazer a família ou os amigos, e também apresenta falta de interesse em geral. A distimia só é diagnosticada quando o paciente apresenta os sintomas por, no mínimo, dois anos.

Outra variação da doença, descrita como sendo muito grave, é o transtorno bipolar, caracterizado pela mudança abrupta de humor. Em um momento a pessoa está eufórica, falante, e no próximo cai em uma depressão profunda: não toma banho, não se cuida, não sai mais de casa e pode promover consequências mais graves para o paciente.

A depressão pode causar dores físicas, como a lombar, articulares, enxaqueca, entre outras. Nestes casos, o paciente mascara os sintomas com analgésicos e anti-inflamatórios, que com o uso contínuo tendem a agravar seu estado de saúde. Nem todos os pacientes que fazem uso contínuo de analgésicos e anti-inflamatórios são depressivos, mas todos os depressivos trilham por este caminho. Isto deve ser observado nos hábitos da pessoa, além do álcool e outras drogas legais ou ilegais que passam a fazer parte da sua rotina.

O tratamento requer uma intervenção clínica, pela psiquiatria, um suporte psicoterapêutico com psicólogo ou analista, a família e terapias ocupacionais. É importante que a psiquiatria atue, pois as drogas atuais favorecem uma resposta favorável de ressocialização a curto prazo. Um dos pontos mais importantes é que o paciente entenda o que está acontecendo e saiba com muita clareza que o tratamento será longo.

As terapias e os medicamentos antidepressivos não agem da noite para o dia. As drogas de escolha médica geralmente levam de 15 dias a um mês para fazer efeito farmacológico desejado, e os ajustes levam um tempo maior para serem realizados. Paciência é a palavra chave, principalmente para  a família.

Não existe no Depressivo uma falta de força de vontade - ele está doente. Forçá-lo a sair, ir em festas, bailes, eventos, de nada o auxiliará. Este ponto é crítico e geralmente agrava a situação. Isso só faz com que o depressivo sofra mais. Ele luta internamente para sair daquela situação, mas não consegue, e não é forçando a fazer o que não quer, que irá fazê-lo curar.

A participação da família é fundamental no diagnóstico e tratamento da doença. Pode acontecer de a pessoa negar que está doente e se recusar a buscar ajuda médica, até mesmo por que pode parecer cômodo ter aquela pessoa mais quieta, dissociada da realidade. A família deve apoiá-la e oferecer ajuda, mas nunca abandoná-la. O deprimido não pode ficar sozinho, ele tem que se sentir apoiado, assistido, isso facilita bastante a evolução da doença.

Fique atento aos sinais: 

Segundo a OMS, a pessoa que apresenta ao menos cinco dos seguintes sintomas é considerada depressiva:
Alteração do apetite
Alteração do sono
Desinteresse geral
Desinteresse sexual
Dificuldade de concentração
Baixa autoestima
Pensamentos relacionados à morte
Ansiedade com movimentos repetitivos (mexer constantemente as pernas, mãos, cabeça, etc.)
Paralisia geral (por exemplo, ficar na cama por dias)
Sentimento permanente de culpa e inutilidade
Fadiga ou perda de energia, diariamente
Alteração de peso não intencional

Fonte: Associação Brasileira de Psiquiatria http://www.abp.org.br

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Entretanto - Mart'nália

Não vá agora, 
deixa eu melhorar
Não fique triste,
tudo vai passar
É só ciúme, 
doença que contraí
porque te amo demais

Mas também é loucura
e loucura tem cura 
ciúme também 
E paixão é o que me faz bem 

Entretanto não vá 
Não vá me abandonar
Você é o remédio 
Que me tira do tédio, 
quando me faz amar 

Não vá agora
Lembra do nosso abraço, 
beijo, sexo, demais 
Lembra do nosso ninho, 
nosso cantinho 
Que tanto desejo 
não posso desperdiçar 
Lembra da nossa música

Entretanto não vá 
Não vá me abandonar 
Você é o mistério, 
que me tira do sério 
Quando me faz amar 

Entre e sente, 
entretanto não vá 
Não vá me abandonar 
Você é o remédio, 
que me tira do tédio 
Quando me faz amar... 

Entre...tanto... 
Não vá... 
Não vá embora... 
Não vá amor...






domingo, 10 de maio de 2015

Vovô e o Whatsapp

Minha neta adolescente estava choramingando pelos cantos do sobrado naquele feriado de semana santa. Todo mundo foi na rua de charrete, para acompanhar as festas da vila e ela ficou por ali, à miúda, olho comprido de dar dó.

Foi no curral umas oito vezes, voltou, desceu para o pomar, passou em indas e vindas na sala, e eu, de mutuca, vigiando de rabo de olho. Pelo jeitinho e pelos suspiros, estava apaixonada por algum destes meninos que roubam o coração das mocinhas indefesas - pensei.

Na última passada, puxei-a pelo braço e sem resistência sentou ao meu lado. Apertando-a levemente com um abraço, coloquei seu rosto ao alcance das minhas vistas e perguntei se já conhecia a história de como comecei a namorar a sua avó. Fez uma negação com a cabecinha e entendi que queria saber como o fato se deu.

Comecei dizendo que o grande embate da minha vida foi a adolescência, por que nunca aprendi dançar, nem cantar, nem puxar conversa com as meninas. Também não jogava futebol e sequer praticava algum esporte. Descobri com o tempo que todos os meus amigos também eram assim. Um ou outro sobressaia, mas eram poucos e também as meninas eram assim. Que coisa mais maluca é esta tal de adolescência.

Na juventude, antes da sua avó, todas as moças que desejei eram lindas e todas que namorei eram abaixo do padrão médio de beleza da sociedade moderna, e olha que fui namorador. Mas sua avó era bonita demais, de tamanha beleza que inibia até a aproximação da gente, além disto tinha lá uns moços que rodeavam a danada e faziam tudo que ela pedia.

Então tomei a coragem de começar a conversar com ela, descobri seus gostos, e fui estudando seu jeito, e deu que um dia, sem mais nem menos a danada cedeu meus apelos, mas eu não ficava fazendo papel de bobo feito os outros não, brincava, conversava, mas sempre mantendo a distância, por que descobri uma coisa que ninguém sabia - ela não era esnobe nem se achava a tal, e sim muito tímida. Mas só fiquei sabendo disto conversando com ela.

Vô, muita linda a sua história, mas não se preocupe, pois não estou apaixonada nem seguida por rapazes prestativos. Tem nada disto acontecendo. O fato que me angustia é que aqui na roça não tem Whatsapp...

Uáti o quê?

Deixa prá lá, vovô, conta mais história, que estou gostando da prosa...

É isto aí!




A moça azul

vou poetar um poeminha meu:

Madrugava  triste
na lide dos trapos
Olhos cerrados
em caos e cacos

Mudo, distante
Macambuzio, solitário
Nem sei se te amo
Ou sitiamos o passado.

                                            Agora adeus,
                                            A dor persiste
                                            Não fui o único
                                            dos seus lábios chistes.

É isto aí!


sexta-feira, 8 de maio de 2015

Uma linda mulher

http://www.srekja.mk/protest-devojka-karmin/

O bordel da Ritinha

Alô, é da zona?

Desculpe, senhor, mas ligou para o número errado. Aqui é la Maison de Madame Fleur.

Que merda. Tudo aí é puta e fica metida falando francês.

Nem vem, monsieur, o que deseja?

Meu nome é Albertinho. Minha esposa viajou para a casa daquela bruxa da minha sogra e aí eu quero uma mulher normal, nem gorda nem magra, nem bonita nem feia, mais ou menos alta, mas que tenha coxas carnudas. Adoro coxas carnudas.

Oui, monsieur, temos uma marravilhossa aqui, que vai encantar seus olhos.

Sério, e quanto é?

Quanto é o quê?

O serviço, oras.

Completo?

Completo.

Mil reais.

Nossa, muito caro. Tem serviço completo em menor escala de preço?

Tem. Mas aí é no cronômetro. 

Puxa vida. Como é isto?

A gente começa zerando o cronômetro, e é vinte reais por minuto.

Mas isto é um absurdo.

Também acho, deveria ser 30 reais, mas sou boazinha.

Cartão de crédito? 

Por acaso isto aqui é caixa de banco? Acha que nossos negócios faturam para o Estado?

Cheque?

Nem passa perto.

Promissória, vai, uma promissória.

Nem com avalista. Olha aqui, o fiado saiu e disse que volta outro dia, e quando voltar, fala com ele.

Pode ser mesmo? Ele vai conversar comigo outro dia?

Claro, pode vir, assim que ele retornar.

Aqui, mas se eu quiser só uns beijinhos?

Que tipo e local dos beijinhos?

Na boca, claro, de língua e molhado.

Sem chance. Esta mercadoria aqui não está à venda. Aliás nem consta da tabela.

E tem mais alguma coisa que não consta?

Sim, Beijo na boca e sem preservativos não podem. Acho que até em algumas esposas, hoje em dia, não deveria... a sua por exemplo... será que pode?

Minha esposa? Mais respeito, hem. Minha mulher é uma santa. Mas, engraçado, a sua voz é igual a dela, espera aí, é você, Ritinha?

Albertinho,seu idiota, seu imbecil, seu safado, sou eu, seu corno e você ligou para a casa da mamãe.

Ritinha? Você virou puta? Eu sempre desconfiei, Ritinha, que aquela velha da sua mãe era cafetina, agora tenho certeza.

Tem nada disto, você ligou para a casa da minha mãe e agora estou arrasada por saber que você procura prostitutas. Quero o divórcio. Passe bem, Albertinho, procure um advogado e saia da minha casa.

Nossa! Que fora! Perdão, Ritinha, perdão... eu fui fraco, nunca fiz isto, perdão, amor... volta logo, estou morrendo de saudade.

Na hora que eu voltar, a gente conversa, Albertinho. Você foi longe demais.

Depois de desligar - Ufa, quase me dei mal. Ainda bem que ele acreditou nesta história, hem mamãe, já te falei que esta bordel está ficando muito popular - temos que tomar providências urgentes sobre a segurança...

É isto aí!

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Angélica

Linda, sensual, educadíssima, mas por debaixo daquela escultura sobrevivia uma devassa, fútil, vulgar e louca figura do mundo. Tinha braços longos e tenros, portanto nada como morder seus membros superiores, leve e delicadamente, sem pressa, até se fartar de tê-los presos à boca.

Tinha pernas, sinceramente, que pernas aquelas, encaixadas anatomicamente em encaixe divino, em dois pés esculpidos por Deus. Cada pé era uma história, um lugar, um toque. Amava flertar com aqueles pés. E as coxas? Puxa vida, nunca existiram tais coxas em toda a história da humanidade.

Os seios, ah! os seios, nem fartos, nem poucos, eram exatamente o que se espera de dois seios com ar de graça. Eles sorriam muito e eu adorava suas gargalhadas. Tinha com eles uma intimidade avassaladora. Logo abaixo daqueles monumentos femininos, com suas glândulas mamárias e sua perfeição erótica, tinha o ventre, o umbigo, a púbis e sua delicada, carnuda e deslumbrante delegada.

Eu a chamava assim por que me prendia e não me liberava nem com habeas corpus celestial, era de um rigor legalista destes de encher e nunca mais soltar minhas expectativas insaciáveis naquele corpo angelical. Por isto a chamava de Angélica, mas nunca soube seu nome. Sua boca carmim, seu nariz perfeito, seus olhos de piedade e seus cabelos soltos, compunham o conjunto de uma das maiores obras de arte jamais vistas.

Foi com ela que experimentei os melhores e mais loucos momentos da minha vida. Sem comparação, sem nenhum parâmetro com outras mulheres, sem pontos de ligação entre ela e quaisquer outras que pudessem fazer a ponte comparativa. Era única.

Tudo ia bem até que mamãe descobriu a página escondida entre uma centena de opções no quadro de Favoritos com o discretíssimo título de "A Igreja e os Anjos". Mamãe rompeu meu relacionamento criminosamente, na minha ausência, enquanto estava na faculdade no meio daquelas menininhas ensebadas, reais, deselegantes e chatas. Que saco.

Mas tem problema não, desde que ela não descubra a Judy, minha boneca siliconada, aí quero ver a cara dela quando eu apresentar a nora.

É isto aí!

terça-feira, 5 de maio de 2015

Baptista, o Alfa da Família








Está aberta a Reunião Semanal da AMA - Associação Mundial dos Alfa Anônimos. Todos de pé para iniciarmos com a Oração da Serenidade:


Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar; Coragem para modificar aquelas que podemos e Sabedoria para distinguir uma das outras.






Dado o rito inicial, convidamos hoje a falar o visitante da Associação, que pleiteia participar do grupo. Pode falar, rapaz: 







- Boa noite a todos, meu nome é Juninho.







- (todos) Olá Juninho...







- Bem, eu era um bom rapaz, aparentemente normal, com atitudes e conhecimentos dentro da média da juventude. A questão é que já estava com dezessete anos e nunca havia namorado, nem ficado, nem experimentado alguma sensação que promovesse ao sentimento de ser um homem completo. Até que um dia vi o anúncio de um curso de sedução no jornal que folheava no consultório da minha analista. Guardei o recorte no bolso e naquela tarde matriculei no curso "Seja um Alfa em 10 lições". (lágrimas)





- Com certeza a sua vida nunca mais foi a mesma, não é Juninho (intercedeu o Mestre)?





- Com certeza, Mestre. No princípio as lições eram bem interessantes, para levantar a minha alto-estima, ensinar a vestir, a andar, a me portar num grupo, etc. Bem, aí, num belo dia, o famoso professor Fallos iniciou alguns cativantes ensinamentos básicos: 









- Rapaz, seja confiante em tudo. A confiança fará com que você pense extremamente alto sobre si mesmo, além de fazê-lo crer, inquestionavelmente, em suas próprias habilidades. As mulheres não resistirão. A confiança demonstrará uma força interior até então adormecida, quieta, e lhe proporcionará certeza e segurança.









Em segundo lugar, assuma com clareza e convicção a sua posição perante a sociedade. Quando você entrar em um recinto com a confiança de macho alfa, simplesmente saberá que todas as pessoas ali presentes irão ouvir e respeitar o que tem a dizer. 









Saiba se comunicar, converse com todas as pessoas, seja sempre agradável e sociável, sem ser falso, presunçoso ou cínico. Agir com naturalidade é a tônica do processo Alfa. 









Seja sempre seguro e tranquilo. Confie no seu taco. Treine bastante, vá em busca de mulheres que conhece, e com possibilidade de domínio. Teste seus comandos Alfa. 









Entendeu tudo, rapaz?









- Sim Mestre. 









- Então vá e pratique, porém, antes de partir, saiba que neste momento, aquele rapaz franzino que veio à este Templo, o Juninho, morreu. Aqui nasce o homem Alfa Júlio Baptista, O Demolidor. Compreende isto?









- Sim, Mestre.









- Então repita com veemência. 









- Meu nome é Júlio Baptista, eu sou um macho alfa em busca de mulheres que me satisfaçam. Eu sou um demolidor insaciável. 









- Isto, Júlio Baptista. Agora vá, procure uma mulher do seu nicho e inicie o processo de sedução. Verá que ela será inteiramente sua em poucas palavras. 









Naquela noite voltei para casa confiante, destemido. Fui chegando, abrindo a porta com violência, pisando firme até encontrar com a minha avó me aguardando para tomar um chá com leite quente acompanhado de biscoito de nata. 









E aí, Juninho, o que está ocorrendo para entrar em casa feito um troglodita? 









Vovó, eu sou um troglodita predador, o macho alfa desta casa, e de hoje em diante meu nome não é Juninho, é Júlio Baptista, o Alfa. Havia uma força interior adormecida que despertou o gigante em mim. Fui claro, senhora? 









- Senhora é a puta da minha nora que o pariu, que achando que gerava um homem colocou mais uma uma moça em casa - codinome Alfa. Olha aqui, Juninho, para com isto.





- Mas vó, foi o moço quem falou.  - Que moço é este, Juninho?









- Do curso, vó, "Seja um Alfa em 10 lições". 









- Sei, mas não precisa voltar neste curso mais não. Onde já se viu uma coisa destas. Juninho? Fazer um curso para ser homem? Quem você vai pegar com este roteiro ridículo aí? Diga...









- Mas vovó... o professor falou... 









- O quê, Juninho? 









- Sei lá, vovó, é que do jeito que a senhora ficou, hummm... me faz querer ter umas sensações com a senhora, uns negócios aí estranhos...









E foi assim que não vi mais nada e acordei no Pronto-Socorro, onde além de um braço quebrado e hematomas diversos, constataram que perdi os dois incisivos e aí retornei para a casa da mamãe. E hoje estou aqui para que vocês me fortaleçam nas virtudes Alfa, por que não consigo mais me libertar. Hoje sou um tarado.









É isto aí!


Histórias do coração - As cartas de Lia

Depois de dois anos de namoro, um ano de compartilhamento de teto e muitas brigas, tapas e desacatos, terminaram de uma forma ridícula. Ele saiu para comprar cigarros e somente no dia seguinte ela deu conta de que nunca fumou na vida. 

Era a senha para a liberdade, pensou. 

A primeira semana mandou bem, a segunda começou a ficar estranha e já no meio da terceira, num desespero que desconhecia em si, buscou conforto espiritual numa consulente que colocou um cartão no para-brisa do seu carro. Achou que aquilo era uma resposta aos seus apelos.

A mulher, sem adereços ou roupas exóticas como pensara que estivesse, a recebeu candidamente, conduziu-a para uma sala espartana, com uma mesa e duas cadeiras de encosto alto e madeira maciça. Ao lado um jarro com água e gelo, dois copos normais e por sobre a mesa uma toalha branca de renda, já marcada pelo tempo.

Entre lágrimas cortou o Tarot, e enquanto a consulente abria as cartas, trêmula, saiu em disparada solidão pelo estreito corredor, desceu as escadarias em pânico e fugiu em tosca corrida até um ponto de táxi, onde adentrou e com muita dificuldade falou o endereço desejado. 

Horas  depois atendeu ao interfone, o rapaz se identificou como o motorista do táxi e queria entregar-lhe a carteira esquecida no veículo. Mandou subir, conversaram até a noite envolver o mundo. No dia seguinte lembrou-se que o carro ficara no estacionamento próximo à taróloga. Ligou para ele e foram buscar o automóvel. 

No dia seguinte tornou a ligar e ele passou a voltar, a voltar, a voltar até que nunca mais saiu da sua vida.

É isto aí!





domingo, 3 de maio de 2015

Para sempre

Agora para tudo,
por que pintou uma inspiração.
Vou poetar

Minh'alma! 
Conheço minh'alma. 
Mas...
Pronto, levantei a adversidade.
O mal adveio 
num pretérito perfeito 
é chato quando acontece... 
Por quê, meu Deus,
todos os problemas eternos
começam assim, 
com partículas condicionais
- ou pior que dor de saudade,
fazem-no por conjunções
coordenativas adversativas?

Chega,
agora não tem inspiração
 que alcance tamanha dúvida.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Revelação


Revelação (Raimundo Fagner)

Um dia vestido
De saudade viva
Faz ressuscitar
Casas mal vividas
Camas repartidas
Faz se revelar

Quando a gente tenta
De toda maneira
Dele se guardar
Sentimento ilhado
Morto, amordaçado
Volta a incomodar

quarta-feira, 22 de abril de 2015

O marido, o amante e o macho alfa

Hal Foster - Prince Valiant
Apolônio Prazeres era o macho alfa da pacata cidade de Formosinha. Bisneto do pioneiro, filho do homem mais rico da região, tinha a fama de garanhão do pedaço, invejado pelos homens e desejado pelas mulheres. Se uma moça fosse vista conversando com ele, já era o bastante para saber que tinha sido desviada.

Um dia, numa festa junina, Geraldinho da Venda sentiu-se traído pelo olhar da companheira de anos, mãe dos seus filhos e baluarte da sua dignidade. Percebeu um cruzamento de olhares entre ela e Apolônio Prazeres. Chegou em casa em estado emocional abalado, mudo e catatônico. Esta vaca tem um caso com ele, só pode ser isto.

Logo de manhãzinha foi na Igreja, dobrou os joelhos e implorou um sinal dos céus. Nenhum anjo desceu para revelar-lhe o que já sabia - ele era seu amante. Saiu dali em total desespero, tomou a rua do Alto - antigamente era o caminho da Praça da Prefeitura até o Pico do Cruzeiro, um morro íngreme que foi se povoando sem critérios urbanísticos.

Chegou arfando no cume, e entrou na Tenda do Pai Silício. Um homem o acolheu em paz e esperou que conseguisse falar alguma coisa, daí explicou sua aflição em desespero. Ouviu do Caboclo que veio atendendo ao chamado, que esquecesse aquilo, que voltasse para casa e tocasse a vida.

Saiu com mais dúvidas do que quando chegou - esquecer significaria que ela tinha mesmo um caso com Apolônio, pensou. No pé do morro, transtornado, entrou na casa de Nhá Chica, a mais famosa rezadeira do lugar, com suas saias brancas engomadas, braceletes e colares multicoloridos. Ela, em silêncio, deu-lhe uma unção com água de rosas utilizando ramos de arruda, em nome do Senhor do Bonfim, e colocou um patuá de sal no bolso do seu paletó. Agora vá em paz, meu filho.

Aquilo era um complô, o céu ocultava a verdade, por que com certeza era coisa do diabo. Passou a vigiá-la diuturnamente. Numa tarde a viu estacionar num lote atrás da Pensão do Rilton e caminhar por uma estreita passagem para dentro do recinto. Saiu dali com ódio, passou em casa, colocou toda a família no carro, incluindo as duas comensais, sogra e a cunhada solteirona.

Voltou à pensão, onde a polícia, o padre e uma multidão de beatas já os aguardavam. Entraram todos, e Geraldinho à frente foi direto ao quarto, arrombou a porta com violência e deparou a esposa nua aos braços do Apo.. puta que o pariu, Amelinha, você está me traindo com o Zezinho Cata-Latas? Um morto-vivo que não tem nem onde morar? Não teve nem a dignidade e a sensatez de ter um caso com o Apolônio? Sinceramente...

Ela ouviu vaias, gritos e assovios intensos, todos seguidos com palavras de desprezo e decepção.

A mãe e a irmã falaram uníssonas - Caramba, Amelinha, se fosse com o Apolônio a gente até entendia, mas com um rola-bostas deste nível? Francamente! E mudaram para a cidade vizinha, para a casa de uma tia viúva.

As amigas ficaram decepcionadas.

Os filhos tiveram vergonha em saber que nem para o Apolônio ela servia.

A vida seguiu e Geraldinho a perdoou. Aquilo foi uma fraqueza, uma doença mental segundo o doutor da capital, mas se fosse com o Apolônio, aí não, aí seria coisa do capeta que só a morte resolveria. Ainda bem que ouvi os santos, dizia a todos.

É isto aí!

terça-feira, 21 de abril de 2015

Surtos e sustos


Existem momentos nos quais a experimentação de ser humano é sublime:

Já sentiu sono, mas não queria dormir?

Já sentiu dor, mas não sabia onde?

Já sentiu vontade de comer, mas não sabia de quê?

Já beijou uma menina pensando na boca da outra?

Já comprou alguma coisa que não queria?

Já falou para a pessoa erada uma coisa certa?

Já disse para a pessoa certa uma coisa errada?

Já chegou de viagem e desejou voltar?

Já mentiu para si mesmo e se convenceu disto?

Já sentiu saudades de não sabe quem?

Já desejou morrer para ver se isto resolveria a questão?

Já fez promessas intangíveis por uma paixão vadia?

Já conversou consigo tão alto, que as pessoas olharam para você na rua?

Já pensou nas várias pessoas que poderia ajudar se ganhasse na mega-sena?

Já chorou escondido debaixo do chuveiro?

Já desejou aquela vizinha gostosa?

Já escreveu alguma coisa da qual se arrependeu?

Já teve receio de olhar seu crédito no Banco?

Já teve a sensação de que tem alguém te olhando?

Já teve a impressão de que já viu o que está sendo vivido naquele instante?

É isto aí!

Ensaio do amor

Poema meu

Escrever seu corpo complexo
em versos copulativos
no ápice, sintaticamente independentes
no vértice versos conclusivos

E não postar as mãos tuas
Você nua em corpo frenesi
não apraz nem delicia
se eu não te vir

Dá-me, frágil silhueta
o segredo da valva
que contém sob pressão
o sigilo da tesa menina

Mareja, esgarça,
adsorve estes fluidos
em tua pele alva,
incensando nosso covil.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

O Kimono de Poliéster

Olha só, o enredo era simples, sem muita coisa além do que se poderia esperar de um homem de quarenta anos e uma jovem garota. Tudo bem que no livro a moça tinha treze anos, e vestia um kimono de seda com motivos angelicais, mas aí tem aquela coisa de pedofilia, menor incapaz, estatuto da criança e todas as ferramentas de determinação do comportamento humano.

Então selecionamos uma mocinha anoréxica, que tinha um estilo adolescente, com corpo desengonçado e ar blasé. Porém a família, que não havia sido comunicada entrou com um mandato suspendendo as gravações, pois detinha um contrato com uma agência de modelos de determinada grife famosa, destas que desfilam por aí. Como a irmã tinha a tutela da agora modelo, preferimos abrir mão da sua arte.

Daí modificamos um pouco, e procuramos uma moça de trinta anos, mas com aparência ainda juvenil, que fosse fotogênica, sem risco de contratos leoninos e tutelas judiciais. Não foi fácil, mas encontramos uma mulata estilosa, fogosa e agradável, que nos primeiros dias entrou no papel com tal intensidade, que não conseguiu se libertar da personagem. Este fato levou ao total desagrado do seu companheiro, um líder comunitário, digamos assim, de uma comunidade próxima. Desta forma perdemos nossa mulatinha básica.

Pensamos até na possibilidade de alterarmos o enredo, com um personagem idoso e uma moça na faixa dos vinte e cinco anos, mas aí batemos de frente com o produtor/diretor e ator que por acaso era o protagonista do filme. Foi então que Claudinho, o auxiliar de iluminação, teve a luz - o protagonista ficaria sentado num espaçoso sofá, lembrando de suas taras, digo, dos seus romances, e ao fundo iriam passando fotos desfocadas de mocinhas infanto-juvenis.

O filme levou quarenta e cinco dias para ficar pronto dado à dificuldade de adaptarmos o livro à nova realidade e ao talento um tanto quanto peculiar do ator, que insistia em fazer as cenas com um Kimono de Poliester verde com Pavões estilizados, que acreditava ser um talismã da sedução, presenteado por sua mãe. Segundo ele, este Kimono manteria um laço de seda entre o enredo atual e a história de origem. E também alterou as fotos das mocinhas para sereias desfocadas.

Foi então que Claudinho, com uma sensibilidade nata, fez outra intervenção e sugeriu que entre um conto e outro, uma idosa surgisse e desmentisse toda a história do protagonista, simbolizando a mãe castradora. O produtor/diretor/ator adorou a ideia, demitiu Claudinho e manteve a velha senhora fazendo as intervenções e no final reservou a cena magna, onde os dois se entregaram a um romance tórrido.

Neste ponto, vai cortando a cena para a sereia, que à medida que a câmera se aproxima, mostra ser o protagonista com seu kimono de poliéster entrando no mar, simbolizando o retorno do filho às entranhas da sua origem. Uma vez dentro da água, volta-se para a câmera em close e grita - Ai, que tudo!

É isto aí!