Bem que eu queria
Bem que eu gostaria
Bem que eu faria
Bem que eu poderia
Mas eu posso ser sincero?
Ser sincero? Como assim? Você geralmente não é sincero?
Sou, sempre, mas preciso que você não fique nervosa.
Já está me dando nos nervos, fala logo.
Melhor que não, hoje não seria um bom dia.
E tem bom dia para ser sincero, Bernardo?
Não é isto, apenas sei lá, não tem clima.
Você é um idiota, entendeu?
Mas o que é isto, Maria?
Um banana, um tomate de xepa, um chuchu passado.
Você é muito grossa quando quer, hem!?
Grossa? Você está me chamando de gorda? É isto?
Gorda? Como assim? Nunca comentei sobre isto.
Então é verdade. Nem desmente. Babaca. Adeus
Espera, Maria!! Espera!! Puxa vida, eu ia dizer que amo ...
É isto aí!
Lembrou do dia que deu a ela uma maçã grande, saborosa e vermelha. Ela olhou para a maçã com os olhos de Eva e mordeu os lábios. Sem saber o que falar diante de uma situação inesperada onde a outra parte fez o que desejava, mas não acreditava que fosse possível, olhou-a no fundo os olhos e lascou a pergunta mais idiota que poderia sair de uma mente débil:
- Você sabia que a maçã é um pseudofruto e por isto seu desenvolvimento dá-se num tecido vegetal adjacente à flor que sustenta o fruto, de forma que este se assemelhe em cor e consistência a um fruto verdadeiro que, por definição, é proveniente do desenvolvimento do ovário?
A moça, tomada pela fúria da sororidade ovariana, em completa desolação, fulminou-o com os olhos envenenados pela maçã, deu meia volta e a levou. Nunca soube se ela ao menos dera uma mordida. E ele ficou lá, como um descendente adâmico, a culpá-la por tudo que se deu depois que sumiu no caminho inseguro do destino.
Checou no relógio da torre da igreja e viu que o tempo transgredira a lei da obviedade. Passaram trinta anos e ainda aguardava a volta da moça com a maçã na mão. Colocou as mãos no bolso da blusa, encolheu os ombros e partiu na esperança de encontrar outro amanhã.
É isto aí!
Não deixe que ela seja esmagada na fria submissão.
Esteja atento.
Existem outros caminhos.
E em algum lugar, ainda existe luz.
Pode não ser muita luz, mas
ela vence a escuridão
Esteja atento.
Os deuses vão lhe oferecer oportunidades.
Reconheça-as.
Agarre-as.
Você não pode vencer a morte,
mas você pode vencer a morte durante a vida, às vezes.
E quanto mais você aprender a fazer isso,
mais luz vai existir.
Sua vida é sua vida.
Conheça-a enquanto ela ainda é sua.
Você é maravilhoso.
Os deuses esperam para se deliciar
em você.
Fonte do Poema: Cultura Genial
Tradução e análise do poema: Carolina Marcello
Em vez dessa aceitação passiva da vida, lembra que existe a possibilidade de seguir "outros caminhos" e repete sobre a necessidade de estar "atento" e não alienado ou desligado de tudo.
Apesar das dificuldades do mundo real, o sujeito acredita que existe ainda uma réstia de luz, um raio de esperança que "vence a escuridão".
Vai mais longe, afirmando que "os deuses" vão ajudar, criando as oportunidades, e que cabe a cada um reconhecê-las e aproveitá-las. Mesmo sabendo que o fim é inevitável, sublinha que é necessário assumirmos as rédeas do nosso destino enquanto temos tempo, "vencer a morte durante a vida".
Demonstra ainda que o esforço para ter uma visão positiva da realidade pode ajudar a melhorá-la e que quanto mais tentarmos, "mais luz vai existir". Os dois versos finais, contudo, relembram a urgência desse processo. A vida está passando e os mesmos deuses que nos amparam agora, vão nos devorar no final, como Cronos, deus do tempo na mitologia grega, que comia seus filhos.
Entre chuva e chuva, o mormaço.
A luz que nos entrega o dia
não dá ainda para distinguir
o sujo do encardido,
o fugaz, do provisório.
A própria luz é molhada.
De tão baça, não me deixa
sequer enxergar o fundo
dos olhos claros da mulher amada.
Mas é com esta luz mesmo,
difusa e dolorida,
que é preciso encontrar as cores certas
para poder trabalhar a Primavera.
"Mormaço de Primavera"- poema de Thiago de Mello- (in "Poesia Comprometida com A Minha & a Tua Vida"-1975)- musica de Daniel Taubkin - gravado no Estudio Som da Gente (B), em dois canais analogicos, em janeiro de 1982
voz & violão: Daniel Taubkin
photo video & upload: Daniel Taubkin & Xandugo
"O poeta amazonense Amadeu Thiago de Mello, no poema "Mormaço de Primavera", chama atenção para os valores simples da natureza humana, principalmente, a esperança, porque, apesar dos pesares, devemos sempre continuar, mesmo que ainda seja difícil distinguir "o sujo do encardido,/ o fugaz, do provisório", temos que avançar, temos que lutar, tendo em vista "que é preciso encontrar as cores certas/ para poder trabalhar a primavera".
Fonte do poema: notaterapia
Sobre o poeta: Thiago de Mello:
Escritor e tradutor amazonense, com obras traduzidas para mais de trinta idiomas, Thiago de Mello, é conhecido também como o poeta da floresta. Sua escrita é comprometida com as causas sociais e ambientais, especialmente, a conservação da Amazônia.
Perseguido durante o regime militar no Brasil, exilou-se no Chile por dez anos, porém não abandonou a escrita. Dentre suas obras mais conhecidas estão: Faz escuro mas eu canto (1965), A canção do amor armado (1966), Poesia comprometida com a minha e a tua vida (1975), Os estatutos do homem (1977) e Mormaço da floresta (1984). Em 1975, o livro Poesia comprometida com a minha e a tua vida foi premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Arte. Essa premiação possibilitou que o escritor fosse reconhecido internacionalmente como um intelectual engajado na luta pelos direitos humanos.
Então, paciência!!!
Não me cobrar em excesso e aceitar esse estado é a regra básica.
Tomar uma nova postura, refletir sobre a proposta do blog. - A pé da Pitangueira nasceu em março 2010, para superar uma condição clínica de repouso compulsório, que durou dois anos. Mais tarde, em 2012, retirei de circulação todas as postagens de 2010 a 2012, pois estas postagens não estavam legais, muito atreladas ao momento difícil.
Entre 2012 e 2015 procurei um caminho, até que a partir de 2016 veio a ter o padrão que se mantém ate hoje, criando personagens e contando casos, poesias minhas guardadas a décadas, etc.
Está na hora de renovar meus pensamentos para voltar à escrita tão logo seja possível.
É isto aí!
"Non Dimenticar " ("Do Not Forget"), originalmente intitulada "T'ho voluto bene" ("Eu te amo tanto"), é uma canção popular com música de PG Redi (Gino Redi , também conhecido como Luigi Pulci), a letra original em italiano de Michele Galdieri, com letra em inglês de Shelley Dobbins.