sexta-feira, 28 de março de 2014

Cartas da mamãe!


Ao fazer uma limpeza no sótão da velha casa dos pais, encontrou uma carta da mãe, nunca enviada, endereçada a ele. Com o envelope lacrado seguro nas mãos, começou a refletir sobre o tempo atual e as ações que ocorreram para que a humanidade chegasse ao privilégio das comunicações instantâneas com todo o mundo.

Refletiu que esta geração que está aí na casa limite dos trinta anos não conheceu muita coisa que era essencial para a vida, como caixa de fósforo, vela, lamparina, penico, telefone fixo, antena pé-de-galinha com Bombril, tela azul, etc.

Mas cá pra nós, não perdeu muita coisa, pensou. Mas tem um evento que perderam. Durante séculos, a carta era o processo de contato pessoal entre pessoas distantes. Foram as cartas as primeiras manifestações de diálogo entre residentes em cidades, estados e/ou países distintos.

Foi pensando assim, que leu uma carta até então desconhecida e não enviada a ele, 40 anos passados, por sua mãe, quando estava na capital estudando:

Meu querido filho,

Escrevo estas poucas linhas que é para saber que estou viva.

Escrevo devagar porque sei que não gosta de ler depressa. Se receber esta carta, é porque chegou. Se ela não chegar, avisa-me que eu mando outra.

O teu pai leu no jornal que a maioria dos acidentes ocorre a 1 km de casa. Por isso, mudamo-nos pra mais longe.

Sobre o casaco que queria, o teu tio disse que seria muito caro mandar pelo correio por causa dos botões de ferro que pesam muito. Assim, arranquei os botões e coloquei-os no bolso. Quando chegar aí, pregue-os de novo.

No outro dia, houve uma explosão no botijão de gás aqui na cozinha. Teu pai e eu fomos atirados pelo ar e caímos fora de casa. Que emoção! Foi a primeira vez em muitos anos que o teu pai e eu saímos juntos.

Sobre o nosso cão, o Joli, anteontem foi atropelado e tiveram que lhe cortar o rabo, por isso toma cuidado quando atravessar a rua.

Tua irmã Laura vai ser mãe, mas ainda não sabemos se é menino ou menina. Portanto, não sei se você vai ser tio ou tia.

Hoje, teu irmão Marcos me deu muito trabalho. Fechou o carro e deixou as chaves lá dentro. Tive de ir em casa, pegar a reserva para abri-la. Por sorte, cheguei antes de começar a chuva, pois a capota estava arriada.

Recados da mamãe:

Se vir a Dona Esmeralda, diz-lhe que mando lembranças. Se não a vir, não digas nada.

Não ande com o Arnaldinho, filho da Filó. Não presta como companhia para você, meu filho.

Minha comadre Euphrasia disse que soube pela sobrinha dela que você e a Geraldinha do Zezé Barbeiro estão muito próximos. Meu filho, sai de perto, aquele povo não vale o angu que come.

Um beijo,
Tua mãe Marilda

PS: Era para te mandar os trezentos cruzeiros que me pediu, mas quando me lembrei já tinha fechado o envelope.

Guardou cuidadosamente a carta no bolso e chorou até acalmar da dor da saudade.

É isto aí!




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