quinta-feira, 23 de julho de 2026
Cartas avulsas XXXIII - Ela não era uma mulher comum
Somos todos nautas
Senhor ...
Tenho medo, sabe? Tenho medo de não poder mais chorar. É isto. Tenho receio de extravasar todas as minhas sentimentalidades. Desculpe ... já estou a lacrimejar, feito um orvalho no mato da roça. É que às vezes tenho pena de mim.
Albertinho ...
Pois não?
Acorda, Albertinho. Está dentro de um sonho, e não sou doutor, sou o pipoqueiro do parque.
Sonho? Pipoqueiro? Papai? É você, papai?
Sim, Albertinho, sou eu, seu pai.
Eu morri?
Não, meu filho. Você está preso neste sonho.
E por onde é a saída?
Feche os olhos, Albertinho.
Acordei numa imensa Caravela medieval, a navegar em mar aberto. Agora me perdi, pensei. Parece que sou eu a caravela indo contra o vento, em um novo caminho que me levará ao próximo sonho. Creio, no fundo, no fundo, que somos todos argonautas, astronautas ou simplesmente nautas.
É isto aí!
sexta-feira, 17 de julho de 2026
Conto da palavra perdida
Era uma vez uma palavra perdida
que caminhava sem pressa
rumo às análises morfológicas.
Veio um verbo irregular
que não se manifestou
enquanto sujeito da ação.
Passou por um substantivo,
mas era abstrato demais.
Viu de longe um adjetivo
que mudava tudo ao seu redor;
escondeu-se porque achou-o perigoso.
Continuou vagando ávida
até que seus olhos correram
para uma reluzente Preposição,
Era o seu complemento mágico
E foram felizes até que
os versos e os reversos se acabem.
Uanga, meu Ego Groenlandês.
É isto aí!
terça-feira, 14 de julho de 2026
A Vaca triste
A vaca triste
A vaca parou no pasto,
travou, pensou, mugiu,
olhou para o lado de cá
e abanou o rabo para lá.
Chamou seu bezerro
com bramidos do mar,
com bramidos do vento
e expressou lamentos.
Berrou com medo,
deu por falta, ainda cedo,
do seu filhote peralta
e chorou de soluçar.
sexta-feira, 3 de julho de 2026
Sobre Picles e o sentido da vida
— Querida, sabia que já viajei de trem bala?
— Amor, você está tergiversando.
— Querida, nunca usei e jamais recorro a subterfúgios para com você.
— Amor, dar desculpas e fazer rodeios é mister da sua existência.
— Querida, nunca evitei dar uma resposta direta e clara sobre quaisquer assuntos levantados por você.
— Amor, você, com esta voz macia e este tom melodioso, está está a evasivar para evitar uma resposta clara.
— Querida, longe de mim ganhar tempo ou enganar você com ferramentas de fuga de diálogos que nos alimentam.
— Amor, Onde você gosta mais de me beijar? Fala a verdade.
— Querida, gosto de toda a sua pela, suas mucosas, seus relevos, sua doçura e tantas outras saliências do seu querer.
— Amor, onde você não gosta de me beijar. Fala a verdade ou...
— Querida, tudo bem, não faltarei com a verdade. Não gosto de beijar a sua boca em tempo integral.
— Amor, está brincando, não é?
— Querida, não estou brincando.
— Amor... é brincadeira, não é? (choramingando).
— Querida ... (silêncio)
— Amor, fala o motivo, diz a verdade, pelamordedeus (gritando e chorando)
— Querida, sua boca tem gosto de picles.
— (Silêncio sepulcral entre as partes.)
— Cafajeste, monstro, insensível, adeus, nunca mais outra vez terá meu gosto na sua boca de sapo.
— Boca de sapo quem tem é sua mãe, sua chata.
— Chata é a mocreia da sua irmã.
— Aposto que você nunca beijou outra menina, nem sabe o gosto das minhas amigas.
— Celeste tem sabor de framboesa, Chiquinha tem gosto de glacê e Dadá, tem gosto de cereja.
— Você é um monstro insensível, um pusilânime, só resta o adeus.
— Querida, antes de partir poderíamos ...
— Posso entender o sentido disto?
— Adoro picles na língua...
quinta-feira, 2 de julho de 2026
O Analista da Pitangueira e a Sombra interativa
— Senhor Lindolfo, pode entrar — disse placidamente a secretária.
— Sente-se onde estiver mais confortável, Lindolfo. Vamos conversar.
— Doutor, eu preciso que o senhor acredite em mim — disse, com a voz trêmula.
— Procure ficar calmo. Conte-me o que está ocorrendo com o senhor.
— Começou comigo achando que aquilo era estranho, uma aberração, uma anormalidade. Tinha vergonha de falar para as pessoas; tinha medo de ser mal interpretado. Procurei vários especialistas e já estava desistindo quando me informaram sobre o senhor. Afinal, aquilo já estava passando dos limites.
— (silêncio contemplativo)
— Não sei como dizer isto... (lágrimas)
— (silêncio interrogativo)
— Sabe, as pessoas me acham esquisito...
— (silêncio investigativo)
— Mas eu não sou esquisito. Não me entendem...
— Quem não entende?
— Eles... as pessoas, a família... ninguém compreende.
— Pessoas da família ou pessoas estranhas e a família?
— Faz diferença para o senhor ser incompreendido?
— Não, para mim, não. Mas, para você, parece que isso é importante.
— Como assim, "para mim"?
— Quem o trouxe aqui, Lindolfo?
— Vim sozinho. Por quê? Você acha que ela me trouxe? Como soube?
— Não sou o oráculo das suas dúvidas, Lindolfo. As respostas estão em algum lugar dentro de você.
— Não! Não... Não está dentro de mim...
— O que não está dentro de você?
— Essa sombra. Não percebe? Ela... ela... Meu Deus! Você não vê?
— O que você vê que eu deveria ver, Lindolfo?
— Meu Deus, você não vê essa sombra?
— Fale-me mais sobre isso. O que há nessa sombra?
— Não é o que há... Meu Deus... Como explicar? Olha, eu não sou doido...
— Sim, prossiga. Sei que você não é doido. Fique à vontade para falar o que o aflige.
— Sabe... puxa vida... como falar? Ela... essa sombra... Olha, eu não sou maluco, mas a minha sombra é uma mulher...
— Entendo... prossiga...
— Entende? Você entende? Entende mesmo? Olha, ela... ela... É incrível... ela... ela... (lágrimas escorrem).
— (silêncio estarrecedor)
— Ela é ninfomaníaca. É insaciável. Quer sexo o tempo todo, me provoca, me deixa louco, fico excitado, e ela nunca se sacia.
— Veja bem: essa imagem é um arquétipo, uma projeção do seu subconsciente, composto por um conjunto organizado de imagens, palavras e emoções, formando uma estrutura autônoma e dissociada do eu consciente.
— Você disse que entende, mas não sabe de nada. Não tem nada disso de arquétipo.
— Ouça, Lindolfo. Essa sombra feminina constitui apenas uma "subpersonalidade", comparável a uma personagem de uma peça de teatro: autônoma, independente de você e dotada de personalidade própria, projetada por você.
— Doutor, o senhor está excitando ela com esse papo.
— É? E como você acredita que isso seja possível? Lindolfo? Lindolfo? Cadê você?
— Aqui, embaixo do divã, com meu arquétipo...
— Caramba! Que sombra sedutora é essa? É real? O que é isso? Nunca vi nada parecido.
— Tira o olho, doutor! Tira o olho! É minha. Isso! Mexe, sua doida! Ai, que loucura! Ela ficou excitada demais com essa conversa.
— Bem, vamos seguir o trajeto dessa sombra desde a origem, nas próximas sessões, Lindolfo.
— O senhor acha que ela tem cura?
— Ela? Sessão dupla. Isso vai ser interessante. Terminou. Semana que vem quero ver os dois, no mesmo horário.
É isto aí!
Sobre faltas e ausências .
quarta-feira, 1 de julho de 2026
Papo de Esquina - O gerente enfezado
O gerente foi se aproximando da minha mesa e, assustadoramente, mirava os olhos sobre um ponto fixo, que parecia ser eu. Logo eu, mudo, calado, reservado e sempre tentando ser invisível. Por experiências anteriores pensei que, nos segundos seguintes, ele se aproximaria e faria da minha vida um caos em queda contínua.
Andava apressado, corpo rígido e ereto, feito um recém nomeado chefe da turma do batalhão de choque, sendo que aqui é a sala da turma de análise de mercado. Mas ele é um imbecil e sempre confunde alhos com bugalhos da mãe dele.
Para evitar o dano causado por não saber, você, sim, você que por agora lê este inventário não profano, saiba que, desde as eras primeiras da criação da nossa pátria-mãe, a querida Portugal, reza a lenda que a analogia entre alhos e bugalhos deu-se por ser o alho bem conhecido, de bulbo em gomos, e bugalho, uma excrescência em formato de bola que se forma nos ramos de certas árvores.
Bem, pelo menos agora você já tem assunto para quando estiver conversando consigo sobre o número que sonhou, mas não jogou, e, para aumentar o sofrimento, e o que é pior, recusa-se a buscar o resultado oficial.
Voltando ao beócio: cada vez mais perto, cada vez mais próximo, até que, diante da minha mesa, foi direto para a caixa da chave do banheiro de uso restrito, mantido sempre limpo. Correu para lá, impulsionado por gases fétidos terrivelmente tóxicos. A contar pelos gemidos e sons diversos, literalmente esvaziou-se em si mesmo.
Moral da História: nem tudo é o que parece. O gerente era um cagão contumaz, e eu, tenso e assustado, havia esquecido disto.
É isto aí!
segunda-feira, 15 de junho de 2026
A Vaca da Pitangueira
Lá vai a vaca mocha
rodando o rabo
espantando mosca
A vaca desequilibra
no barranco molhado
anda meio tonta
e cai para o lado
levanta chacoalhando
cabeça, tronco e sinete
e o leite da meiga
vira iogurte
e o leite que curte
vira manteiga
Esta aula é sobre sexo?
Os alunos ficaram entreolhando quem havia entendido, mas não ocorreu manifestação. Então, virando para a classe, cumprimentou-os e disse:
— Meus queridos alunos, hoje temos uma convidada muito especial: Com vocês, a Tia Gramática (aplausos).
— Olha só, fico comovida em estar aqui para falar da Língua. Você que levantou a mão pode perguntar, mas antes diga seu nome.
— Meu nome é Cândida Alva. Esta aula é sobre sexo?
— Sexo? Como assim? Qual é a ligação entre a estrutura, o funcionamento e as regras gramaticais de uma língua e o sexo?
— Ah, Professora... todo mundo aqui sabe disto.
— Todo mundo? Quem é todo mundo?
— Todos levantaram a mão.
— Humm. Não, a aula não se refere ao sexo. Não necessariamente, mas se vocês dominarem a Língua, portas se abrirão com maior facilidade na sua vida.
— A garotada foi ao delírio. Nunca mais outra vez Tia Gramática conseguiria tamanho êxito numa aula onde a estrutura, o funcionamento e as regras de uma língua foram, em tese, avidamente assimiladas e compreendidas. Foi da Fonologia à Semântica e a moçada saiu convencida de que dominar a Língua era mesmo um dos maiores talentos da humanidade.
— Você que levantou a mão pode perguntar, mas antes diga seu nome.
— Herbert Glauber de Windsor.
— Pois não, Herbert, faça a sua pergunta.
— Professora, considerando que a senhora afirmou que a língua é polissêmica, o que vem a ser exatamente a palavra polissêmica? Seria relacionada à poli sexualidade?
— Delírio total na sala.
— A professora pediu calma. Gente, não é nada disso. Polissêmica significa que uma palavra possui múltiplos significados que se relacionam pelo mesmo campo semântico anatômico e sensorial.
— Uau, então isto explica muito, já que até aqui, nas suas palavras, a língua tem subterfúgios...
— A professora agradeceu pela participação, fechou o livro, recolheu o material e saiu da sala sem responder aos pelo menos quatro braços que ainda permaneciam levantados.
domingo, 14 de junho de 2026
Carminha na Copa - quinta-feira, 19 de junho de 2014
Crônica "Carminha na Copa" - quinta-feira, 19 de junho de 2014
— Abrem as cortinas e começa o espetáculo. Armando avança pela lateral, sobe sem pressa, a esquerda está livre, avança sem contenção, passa pela ala, alcança o flanco, dribla, procura o gol, tem o montinho artilheiro na frente, mas prefere o ataque frontal e ... falta, falta ...
— Calma, Carminha.
— Ah, vai Armandinho, bate logo, o campo já está todo alagado, a bola está pesada...
— Olha só, Carminha, com você narrando não tem artilheiro que marca. É muito complicado.
— Qual é, Armando? Entra no clima da Copa...
— Copa, Carminha? Não podíamos ser iguais aos casais normais, na cama ... no quarto ...?
— Caramba, você é muito conservador. Parece até a Inglaterra! O mesmo jogo desde 1950.
— Ah, não... ah, não!!! Conservador não! Você sabe que por muitas vezes apresentei táticas diferenciadas e várias delas fizeram sucesso.
— Sim, é verdade, apresentou muitas táticas, mas sempre no começo do segundo tempo faltava técnica, talento e folego ...
— Agora fiquei com raiva.
— Isto, Armandinho, põe pra fora esta adrenalina e parte pra cima com seu potencial de destruição da zaga...
— Para com isto, Carminha, vamos voltar ao tradicional...
— Tradição é tudo, Armando, mas sem uma revolução no plantel, não sobe no podium, nem beija a taça.
— Como assim? Revolução?
— Não se faça de bobo, um doping discreto, azulzinho...
— Nunca precisei e não faço uso, só jogo limpo. E com esplendor...
— Armandinho, queridinho, lindinho, amorzinho, não quero saber de esplendor, quero bolas na trave e na rede por noventa minutos e o artilheiro entrando sem humildade no gol, meu bem, e o jogo é meu, o campo é meu, a rede é minha e aceito doping, querido, ninguém vai saber...
— Jura?
— Juro. Agora espera o bandeirinha correr para o meio do gramado, agitar a bandeira e bater para o gol, e ... Armandinho, cuidado para não ficar impedido.
— Puxa vida, Carminha, você sabe tudo de futebol...
— Tudo e mais um pouco, meu bem... tudo e mais um pouco...
A moça do voil rosa
quinta-feira, 11 de junho de 2026
A saga de Waltinho - terça-feira, 24 de setembro de 2013
quarta-feira, 10 de junho de 2026
Cartas Avulsas XXXII
segunda-feira, 8 de junho de 2026
Nunca mais outra vez
Tudo sobre a minha bicicleta
inverno elegante
promete ser tenso,
intenso e extenso.
A falta das palavras tem incomodado o equilíbrio por sobre a minha bicicleta e o passado que alonga mas nunca acaba. Saudade é um elemento elástico. Quando entrar setembro, pouco antes da primavera, vou plantar menos saudade.
Tem dia que escrever é uma ferramenta de descaso para com a realidade.
Esta é apenas uma postagem desconectada da minha racionalidade vigente. Para você que não sonha, não delira, não sai dos trilhos, saiba que viver é mais fácil do que parece.
Na dúvida, irei me debruçar sobree este assunto. Hummm, pode ser perigoso, mas aí chamo o Bruce Wayne para explicar a duplicidade pacífica do ser e estar da pessoa perdida dentro de si.
quinta-feira, 4 de junho de 2026
Cartas de Amor 124
3º do Sistema Solar,
Via Láctea, Zona Sul
Cartas de Amor 124
Epistulae Amoris CXXIV
Querida, sou poeta sem sê-lo, sou escritor sem sabê-lo
Sobre mãos e orações
quarta-feira, 3 de junho de 2026
As três lágrimas
Meu pai me ensinou a crença de que o homem só tem três lágrimas, uma quando nasce, outra quando é batizado e a terceira é quando perde a mãe.
Ficou a repetir o pensamento, unhas provocando dor nos cantos das falanges distais. Quando do fechamento da urna, sentindo o mundo ruir ao seu redor pela perda da amada, sussurrou segurando as lágrimas: Eu não vou chorar, sua vadia.
O cortejo adentrou ao cemitério, cachorros latindo, mulheres cantando hinos religiosos, homens saindo do ambiente rumo ao bar do Zé do Bar.
Crianças corriam em volta da capelinha, atrás de uma bola que apareceu do nada no meio deles. As meninas reparavam nas roupas das outras meninas e vice-versa.
Quando chegaram ao túmulo, ele gritou para esperar. Queria dar a última olhada. Abriram o caixão, aproximou-se e sentiu que ela o segurou pela lapela do paletó, e sussurrou: Vadia é a puta que o pariu!
Levantou-se lentamente e chorou por dias até ser encontrado morto sobre a sepultura da companheira.
É isto aí!










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